quarta-feira, 7 de março de 2012

Rock é entretenimento de massa, revolução é outra coisa


Um dos mitos contemporâneos é a força da rebeldia juvenil e a revolução de costumes que proporcionou há aproximadamente 50 anos. Você puxa conversa com qualquer pessoa sobre o tema e o que se ouve é exatamente o reconhecimento e o louvor a esse mito. Um exemplo extremo disso é o texto de um sujeito chamado Toninho Buda sobre o rock, que considera “a maior revolução que a história da humanidade já conheceu”. E essa não é uma ideia só dele. Bem, se algo é assim tão consensual, é mister que se desconfie. Afinal, Nelson Rodrigues foi sábio ao dizer que “toda unanimidade é burra”.


O sangue é falso e a revolta é simbólica
 
Após 7 anos de pesquisas, leituras e conversas sobre o tema, tenho que discordar. Qual foi a revolução proporcionada pelo rock? Ora, como imaginar que uma música faça revolução ou a induza? Música é música, arte é arte e é difícil aceitar que a arte revolucione mais do que o pequeno circuito de seus admiradores e praticantes. Veja-se Warhol. O conceito revolucionário que gestou não foi entendido por mais do que uma mínima elite intelectual. Qual a revolução que Warhol proporcionou social e culturalmente? Na certa, terei que concordar com quem responder que a arte de Warhol ou de qualquer outro somente espelha tendências sociais e as devolve em nova fórmula, em configuração inédita. O revolucionário, aí, é geralmente a novidade de um conceito estabelecido a partir da relação entre o ambiente social e a sensibilidade artística.

A arte foi importante na história como sustentáculo de transformações, parece óbvio. Mas as transformações não nasceram da arte, como o citado Buda parece crer quando fala do rock. Vieram da ânsia por mudar um estado de coisas que aparentemente se mostrava bastante insatisfatório. É o caso do Renascimento, tudo indica, mas não sei bem se, pelas condições específicas do século XX, podemos falar o mesmo do rock e da contracultura embalada ao som da eletricidade roqueira.

O caso é que o rock nasce filho de uma sociedade de massas, no seio de algo que Adorno e Horkheimer chamaram de indústria cultural. O fato é que a cultura roqueira e da contracultura underground só alcançaram a importância social que têm graças à divulgação dos meios de comunicação de massa, o que quase corresponde a dizer que foram esses veículos que o divulgaram amplamente e, logo, tiveram inegável influência na sua formulação e caracterização desde praticamente o início.

É costume dizer que o rock nasceu puro, sem máculas midiáticas, sem objetivos massificantes, com arrojo e criatividade. Como o bom selvagem de Rousseau, teria sido corrompido sequencialmente pela sociedade de massas: “capturado”, é usual dizer. Essa me parece uma versão simplista e simplória que tem, no fundo, a meta de absolver o rock de sua absoluta imersão na lógica do consumo, sua filiação inequívoca ao capitalismo. Como referido, é a percepção rousseauniana que dita sermos naturalmente bons e puros, sendo corrompidos impiedosamente pela sociedade. Como toda afirmativa, esta também é ideológica e tenta ocultar o real, ou uma parte dele.

E que parte do real acaba oculta no caso da “revolução roqueira”? Parece simples responder: se aceitarmos a proeminência das mídias de informação na maciça divulgação do rock, seremos obrigados a pensar (no rastro da interessante proposição de McLuhan de que “o meio é a mensagem”) o quanto o rock não foi moldado a um meio de informação específico desde muito cedo, contaminando a suposta pureza inicial. Mas o grande arcano oculto parece ser o que nos remete a pensar nos interesses que geriam e gerem os meios de informação que difundiram e possivelmente moldaram o rock desde os primórdios. Em outros termos, pensar isso corresponde a escapar da tola ilusão de que a cultura é natural, ou seja, que se movimentaria de acordo com leis dadas à priori aos interesses humanos. Não é o caso.

A cultura se move de acordo com interesses que não parecem ter nada de naturais. E os meios de informação, as hoje chamadas mídias (ou “a” mídia, num sentido geral), têm imensa influência na determinação dos movimentos da cultura e, como são empresas comprometidas com o próprio lucro e o de seus patrocinadores, somente divulgam o que interessa a esse compromisso, bem como moldam o que divulgam, sempre de acordo com esse interesse.

Estarei dizendo ser estúpido e ignóbil todo o movimento social que gestou e pariu o rock enquanto fundo musical de um período histórico? Claro que não. É mais acertado e mais profícuo propor o entendimento de que houve e há um incômodo que é apropriado e canalizado pela contracultura roqueira. O fato é que na medida em que essa manifestação cultural é apropriada e canalizada, torna-se nula para qualquer transformação efetiva, a não ser as que têm aparência de transformação, mas são apenas reformulações simbólicas do mesmo, reforçando a estabilidade do estabelecido. Se pensarmos que essa apropriação e canalização estiveram presentes desde muito cedo na história do rock, teremos que concordar ao dizer que a proposta de revolução dos jovens não fez mais do que reforçar aquilo contra o qual diziam lutar. Em outros termos, significa, até hoje, mudar todos os dias para manter tudo como estava.

O incômodo que forneceu o solo fértil para o engodo da revolução roqueira parece óbvio. Certamente se funda na insatisfação com o poder “sólido” (aproveitando o termo de Bauman), aquele que caracterizou a modernidade e se materializou no Estado-Nação, em costumes vigiados, na burocracia e no modelo familiar pautado na mentalidade do “papai sabe tudo”.

O problema é que a multidão não entendeu bem que o Estado-Nação era uma construção abstrata que, ao mesmo tempo em que cerceava e punia, em que tornava tudo infernal com a minúcia burocrática, também oferecia albergue e equilíbrio econômico, além de proteção contra os bandoleiros das finanças, que ganharam total liberdade nos tempos neoliberais. Também não entendeu que os costumes eram controlados tanto por motivos de ordenação social quanto por uma necessidade de administração clara e precisa da subjetividade e que esse controle vinha sendo relativizado pela ordem burguesa, que há muito incentivava a vida secreta, os vícios privados que supostamente insuflam os benefícios públicos. Nessa mesma trilha se encontrava a família burguesa, bastião desse controle, mas também referência subjetiva fundamental que, ainda que com as vidas secretas, ajudava o sujeito a formular seus desejos e discursos, naquele momento de modo bem mais original do que percebemos nestes nossos dias. E estamos falando de um fenômeno unicamente pensável numa sociedade burguesa ou, na realidade, pequeno-burguesa.

Não há, pensando nesse caminho, como desvincular o rock, sua contracultura e seu espírito underground de um projeto de poder que nada tem a ver com o que imaginam Toninho Buda e todos os outros que repetem cotidianamente a cantilena da natureza revolucionária do rock. Não há como desvincular o rock da sociedade de massa, da lógica do consumo e do poder imperial de que nos falam Negri e Hardt. Do mesmo modo, não há como lhe atribuir qualquer verve revolucionária ou de singularidade. O que havia de singular morreu no exato momento em que se formulou uma cultura roqueira, que imediatamente gerou um modo de vida conformista e de bem com o poder. A partir daí, toda a rebeldia juvenil passou a ser bem aceita e a sociedade ocidental pôde oferecer aos seus adolescentes aquilo que nunca teve e cuja ausência, a partir da eclosão da vida urbana pós-revolução industrial, lhe trazia muitos problemas: um rito de iniciação, no caso, ao consumo, ícone subjetivo referente dessa sociedade que completou seu circuito básico de instalação exatamente com o auxílio do rock e de todas suas subjacências.

O que não impede que se goste da música. Uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa.

Um comentário:

  1. o Rock/Metal,não muda o mundo,porque só as pessoas podem fazer isso,mas o rock muda as pessoas...

    ResponderExcluir