quarta-feira, 14 de março de 2012

Psicopatia pandêmica


No ano de 2004, durante o tempo em que finalizava a pesquisa para a redação de minha dissertação de mestrado, tive contato com algumas pessoas das polícias do Rio de Janeiro. Descobri coisas interessantes. Por exemplo, que a chacina ocorrida naquele ano na casa de custódia de Benfica, zona da Leopoldina do Rio de Janeiro, na qual algumas dezenas de jovens detentos perderam a vida de forma bárbara, não foi motivada por nenhuma guerra entre facções criminosas ou simplesmente por barbárie gratuita, como alguns jornalistas chegaram a sugerir, na época. Segundo pessoa de minha confiança, o ocorrido teve o intuito de servir como peça de marketing do Comando Vermelho. Isso mesmo, Marketing.

Segundo minha fonte, toda a ação foi planejada para vender à sociedade a imagem de uma organização criminosa ameaçadora, poderosa e cruel o suficiente para cortar a cabeça das vítimas e atirá-las por sobre o muro, na rua. Aliás, é interessante notar que as vítimas eram, na sua esmagadora maioria, criminosos primários que não tinham qualquer “padrinho” que as defendesse, qualquer filiação a quadrilhas. Meninos que, por infelicidade, estavam no lugar errado, na hora errada e diante das pessoas erradas. Cometeram, na maioria dos casos, pequenos crimes que lhes custaram a vida de forma bárbara e cruel.

O Comando Vermelho mostrava que aprendeu que existem pessoas comuns, que não fazem parte da elite, da cúpula, que não decidem nada, que têm as vidas entregues ao deus dará e que não farão falta a não ser a suas mães, às vezes nem isso. Essas pessoas são literalmente descartáveis na ótica contemporânea, reforçada pela selvageria neoliberal: sequer nasceram, apenas ocupam espaço no mundo, fazem hora-extra na vida desde a concepção, são meramente componentes dos traços estatísticos. Pior: ocasionam gastos sociais, dão trabalho à polícia e à saúde pública. Quando presos, também incomodam seus pares, pois lhes tiram precioso espaço. São, aproximadamente, os “homo saccer” de GiorgioAgamben, malditos que aparentemente existem apenas para o sacrifício.

Ao entender que existem pessoas completa e absolutamente descartáveis, que ocupam pequenos espaços nas páginas dos jornais apenas quando mortas barbaramente, o pessoal do CV deu, em aparência, um passo à frente. Pode-se dizer isso porque esse mesmo pessoal estaria, até bem pouco tempo, no rol dos descartáveis indefesos, como as vítimas de Benfica e, de certa perspectiva, continuam nele. No entanto, alcançaram um patamar que, aparentemente, os livra disso e os lança na posição do opressor, abandonando, em aparência, a do oprimido. Repito sempre que “apenas em aparência”, porque não há movimento rumo à autonomia sem manifestação de singularidade. E se há apenas uma identificação com o agressor, não se pode falar, em princípio, de nada singular.

Em outras palavras, uma parcela da população pobre, que durante uma centena de anos foi tratada apenas na porrada e na caridade hipócrita, resolve se emancipar e adota o comportamento de quem lhe tratava na porrada e na caridade hipócrita. Os jovens que viram seus avós e pais serem humilhados pela sociedade, tratados como meliantes natos, bestas de carga ou motivo de riso, adotam a mesma lógica de quem fazia isso com seus ancestrais.

A emancipação do pessoal do CV ocorre no estilo baudrillardiano, produzindo um simulacro de poder e liberdade. Não há muito de libertador em sacrificar dezenas de pobres diabos à toa, apenas para que a marca CV se cravasse na sociedade, pela via do terror. É certo que se trata de um bom exemplo de comunicação negativa, uma engenhosa peça de marketing de comunicação negativa, aquela na qual o oprimido tido como perigoso se afirma como efetivamente mais perigoso do que se pensava, obtendo, a posse de um discurso que antes lhe possuía: de bandido perseguido passa a bandido perseguidor. No entanto, trata-se, acima de tudo, de uma total e irrestrita adesão ao pensamento hegemônico da cultura capitalista, conhecida como capitalismo tardio, com seu cruel e completo desprezo pelo ente humano e pela valorização plena e absoluta do poder do dinheiro. Dinheiro que sequer existe.

Assim como as grandes corporações, que fazem marketing de suas falsas qualidades o tempo todo e desprezam absoluta e completamente a vida dos simples mortais, o CV, que já foi um dia uma organização que defendia detentos da barbaridade de outros detentos (vide o excelente livro “400 contra 1”, de William da Silva Lima, o “Professor”), aparentemente acabou se transformando numa organização sem qualquer compromisso com aqueles para os quais dedicou seu nascimento. Trata-se, pelo que deduzi em minha pesquisa para a dissertação, de uma empresa que negocia com drogas e armas, simplesmente, como todas as outras empresas que negociam com outros produtos, legais ou ilegais, com exceção da inexperiência desse pessoal para negócios, o que os faz cometer muitas besteiras no percurso. Não parece haver muito de comunitário no CV de hoje, embora haja quem afirme que alguns de seus princípios fundamentais de atendimento às necessidades das comunidades mais pobres ainda seriam mantidos.

Preciso dizer que essas reflexões e conclusões datam de mais de cinco anos atrás. Algo pode ter mudado e eu me encontro longe do foco exposto, numa distância de mais de oitocentos quilômetros. A invasão das chamadas milícias nas favelas (há quem diga com pleno apoio de forças políticas bastante sólidas e influentes) parecem ter mudado o quadro de poder no mundo do crime no Rio de Janeiro. A perseguição ao Comando Vermelho por parte do governo estadual, em 2010, que ocorreu, segundo informações obtidas, por conta da resistência do CV em pactuar com as forças políticas citadas, indica que pode ter havido uma outra postura dessa facção criminosa nos últimos tempos. Afinal, como me disse um policial, eles se acreditam revolucionários, agentes de um movimento de emancipação dos pobres, embora haja quem os tenha como incapazes de qualquer elaboração política minimamente eficaz, como Hélio Luz, que comandou a polícia carioca durante alguns anos. Talvez. Não sei, não estou, como disse, mais morando no Rio de Janeiro e as fontes confiáveis são mais escassas e difíceis de ser localizadas.

Uma coisa, porém, me parece certa: a entidade Comando Vermelho (cujo nome original, “Falange Vermelha”, foi inventado pelo diretor da cadeia da Ilha Grande, já demolida) nasceu de criminosos, mas veio ao mundo com objetivos éticos, de sobrevivência e qualidade de vida. Aderiu, tudo indica, a um projeto criminoso, em que a ética inexiste e as vidas nada valem. Mas, não foi apenas essa organização criminosa que agiu e não é a única que assim procede. Na contemporaneidade, a psicopatia assume caráter de pandemia.

Dominância psicopática

Leio matéria na qual a tal nova droga chamada “oxi” é apresentada como uma estratégia de marketing para alavancar a venda de drogas. A jornalista Cristine Pires já havia falado sobre a farsa do oxi na metade de setembro de 2011, mais precisamente no dia 15, no link http://politica.centralblogs.com.br/post.php?href=oxi+e+marketing+do+narcotrafico&KEYWORD=26287&POST=3903657.


Essas matérias vêm em boa hora para que pensemos nos modelos que têm referenciado a vida em sociedade no mundo ocidental, claramente hegemônico em relação a todo o resto do planeta.

O modelo de pensamento empresarial tomou todo o espaço subjetivo do habitante urbano e, ao contrário do que muitos acreditam, vem sendo responsável pela deterioração da qualidade de vida no planeta. Dos executivos de empresas de alimentos aos aviões que carregam a droga, passando por todos os outros ramos de atividades legais e ilegais, todos parecem comungar do mesmo raciocínio, irmanados num só espírito.

O espírito psicopático inclui, quase que forma unânime nos tratados psiquiátricos, uma espécie de “defeito” de personalidade: enquanto todos os demais aderem a um grupo de normas morais e éticas, o psicopata não o faz. Em vez disso, simula a adesão, mas não se submete à ética ou à moral: muito pelo contrário, usa os discursos que fundamentam os valores sociais em proveito próprio, obtendo vantagens exatamente nos interstícios desses discursos e das práticas sociais relacionadas a eles.

Obter vantagens é a única intenção do psicopata. Para isso, não se importa nem um pouco com o semelhante e, via de regra, essa obtenção de vantagens causa malefícios para as demais pessoas, que devem perder quaisquer vantagens para cedê-las ao psicopata. É dispensável lembrar que não há remorsos por isso, assim como qualquer outra emoção ou sentimento: quando existem, são encenações que têm como meta manipular para mais facilmente obter vantagens. Em tese, o psicopata sabe o que está fazendo, somente não sente qualquer pudor ou arrependimento. Tanto é assim que costuma ser alguém com excelente aparência, boa educação, conhecimento de etiqueta, sentimentos nobres e preocupações com o bem-estar alheio, incluindo a famigerada “responsabilidade social e ambiental”. E, principalmente, alguém bem sucedido que nunca está fora da lei: afinal, a única que respeita é a que dita o seu bem-estar.

Sem rabo, sem chifres

Alguma semelhança com alguém que você conhece, vê na televisão ou encontra nos restaurantes chiques? Sim, é possível. Se você for a uma reunião de alguma entidade empresarial ou a um jantar de políticos, com certeza será provável encontrar um bom número de pessoas com essas características. Pior: não são pobres, muito pelo contrário, o que significa que são formadores de opinião de grande espectro. Mais que de opinião: de atitudes, comportamentos, pensamentos, desejos, sonhos.

Olhe para o lado. Pode haver um psicopata perto de você. Quem sabe, alguém em quem você seria capaz de confiar quase de olhos fechados. Não se preocupe muito. Ele (ou ela) te manterá vivo e bem enquanto precisar de você, enquanto puder te usar ou tirar algo, ainda que simples afeto. E não se iluda com aparências: diabo com rabo e chifres só se vê em baile de carnaval.

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