terça-feira, 27 de março de 2012

No dia em que eu morrer...


A Emília, Jorge, Claudia, Karina, Alexandre, Alice, Eduardo e Orlando, meus mais preciosos e queridos companheiros de jornada (especialmente Karina, sem a qual não me seria possível dizer que acredito no amor e, muito menos, pensar na felicidade).

No dia em que eu morrer, não me importo se fizer sol ou se for uma manhã nublada. Isso, certamente, não deverá ser muito importante. Além do mais, gosto do sol, mas tive tantos dias nublados felizes, que não há preferência. Depois, nasci e cresci numa cidade quente, tive a oportunidade de conhecer muitos, muitos dias de sol ardente. O céu pode estar cinza. Até combina.

Aliás, hoje, que ainda não é o dia em que eu vou morrer, compreendo que a satisfação não está no tempo, no clima ou no espaço. Parece estar justamente no ângulo em que observamos e vivemos esses parâmetros referenciais de nosso mundo. Falo que o externo é importante, é o referente que nos define durante esta nossa vida terrena. Mas, não tenho dúvidas (embora isso não signifique que tenha razão), temos um mundo interno, um tempo, clima e espaço internos, que nos definem mais do que tudo, inclusive mais que nosso “eu”, essa massa elástica que se molda no espaço de choque e absorção entre os grunhidos de nosso porão metafísico e os sons articulados do nosso ambiente.

O problema com esse tal “eu” é que ele nos permite a organização no seio da relação entre externo e interno, mas nos oculta a alma, que é exatamente o que quero designar quando falo de “mundo interno” (um termo que aprendi estudando Melanie Klein, uma genial psicanalista vienense falecida no ano em que nasci). Na verdade, hoje entendo que uma das funções do “eu” é se passar pela alma, apresentar uma imagem especular dela, como se fosse a própria alma. O porquê disso tem que ser pensado, mas parece algo que não é possível pensar, pois sempre que tentamos, lá vem o “eu” representando o papel para o qual foi designado. Passei longos tempos de minha vida para conseguir entender isso.

Quando paro para falar no dia de minha morte, experimento no peito algo que provavelmente sentirei quando chegar a hora: uma tristeza imensa, uma saudade inexplicável, não sei do quê. Uma sensação tão intensa que só pode ser o resultado inicial do desapego radical da alma em relação ao corpo e a identidade, que cultivamos sem bem saber por que, mas que nos acompanha por toda a vida como se fosse apenas nossa e extremamente necessária.

No dia em que morrer, gostaria que alguém chorasse por mim, que experimente a dor que experimento agora imaginando o dia no qual irei embora e que certamente sentirei naquele momento. Que a sinta intensamente, para que minha alma, seja lá onde estiver, possa saber que alguém, pelo menos alguém, foi solidário à dor que senti por ir embora e deixar essa pessoa que chora. Feliz daquele que tem quem o chore à beira do túmulo, penso. Sinal de que alguém se importa sinceramente com a falta.

É engraçado sentir tristeza e nostalgia, pois nunca gostei muito de estar vivo. É claro que durante alguns períodos da vida, experimentei alguma felicidade por isso, mas não foi uma constante, sequer constitui uma maioria em relação a meu tempo de existência, que começou em 1960, no dia 27 de janeiro. Bem, o fato é que, mesmo nunca tendo sido um apologeta dessa existência, apesar de ter passado a maior parte do tempo tecendo severas e sisudas críticas a ela, sinto uma incomensurável saudade quando penso que um dia tudo isso acabará. Talvez, no entanto, sinta saudade da inatingível esperança que sempre tive de que conseguiria viver bem, que conseguiria ser feliz, seja lá o que isso queira dizer.

Quero dizer que essa estranha saudade não vem exatamente do mundo, ou de outras pessoas, ou de situações. Vem da ternura que experimento em relação a mim mesmo quando lembro de todos os anseios, todas as esperanças, desejos, medos e devaneios que experimentei, sempre sonhando com o dia em que alcançaria a felicidade.

Creio que tudo fiz, tudo pensei, senti e sonhei foi feito, pensado, sentido e sonhado simplesmente porque constituiria uma espécie de asfalto para a estrada que me encaminharia para a felicidade. Como se esta existisse e houvesse uma estrada asfaltada para chegar a ela.

Acho que vivi todo o tempo pensando nessa tal felicidade. Dá a impressão de que tudo o que fiz foi, no fundo, para chegar a ela. Terei a alcançado no dia em que morrer? Não creio. A felicidade deve ser algo como um farol, não é um destino, não é um porto. Ela só ilumina, só torna luminoso e colorido o que, em outras circunstâncias, não o seria.

Passei toda a nossa vida tentando provar que é possível realizar tudo aquilo que sonhei ser a felicidade. Quem sabe, na hora de minha morte, descobrirei que, apesar de todos os esforços, lutei em vão. Ou (quem poderá dizer?), poderei entender que sempre tudo tive, tudo estava em minhas mãos. Mas, assim mesmo, não percebi nada disso e tolamente lutei para conseguir o que não precisava. Com certeza, não entendi que já tinha o essencial a meu dispor. Sempre tive.

É possível que, aí, nesse momento, compreenda que, apesar de todos os percalços, dificuldades e reclamações, sempre fui feliz ou sempre, a todo momento, poderia tê-lo sido. Bastava, para isso, saber dessa singela verdade e não procurar longe de mim o que certamente encontraria aqui, tão perto, no meu coração, o tempo todo. Pior: que todas as vezes em que procurei, no mundo externo, coisas ou pessoas que me aproximassem da felicidade, na verdade estava me afastando dela.

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