segunda-feira, 5 de março de 2012

Gestão de pessoas ou de bestas?


No ano passado, tive contato com isso que, recentemente, se convencionou chamar de “gestão de pessoas”. Para quem não sabe, trata-se da noção de “recursos humanos” reciclada e reapresentada com nova embalagem e rótulo. Na prática, não me parece mais do que uma estratégia de controle do empregado, impondo-lhe o ambiente de trabalho como algo necessariamente bom e bem organizado (ou que se esforça para ser assim), enquanto tudo o que dá errado é sua culpa, seja porque não se dedicou o suficiente, seja porque não sabe o suficiente para acertar. E outro conceito espúrio nasceu: o de gestão de competências.

A “gestão de pessoas” fala muito em satisfazer necessidades humanas. Para isso, tenta fazer do ambiente de trabalho algo humano, talvez para ocultar exatamente que o trabalho é essencialmente desumano em nossa sociedade. Como ensinou Karl Marx, o trabalho no mundo capitalista é alienado e, desse modo, aliena. O trabalhador não participa da concepção, da integralidade e do resultado final, nem costuma ter sua participação reconhecida. Pior: realiza um trabalho não para si ou para a humanidade, mas para a satisfação de uma minoria que, do mesmo modo, está pouco se lixando para o trabalhador e muito menos para a humanidade. O empregador tenta de todo modo escamotear esse aspecto venenoso da vida laboral. E a tal “gestão de pessoas” está aí para ajudar.

As “pessoas” geridas não são, na verdade, compreendidas como pessoas. São partes de uma máquina e não há mais que engrenagens e circuitos no mundo mecanicista, além de chips, é claro. Nesse ponto, não há muita diferença entre o que acontecia nos séculos XIX e XX e a nova proposta do século XXI na área do trabalho “humano”. Em ambos os casos, não há nada humano em jogo, a não ser a perda dessa condição. Aliás, a nova mentalidade é pródiga em inventar novas palavras para coisas antigas e bem postas. O chefe virou líder, veja só. Demissão em massa é downsizing e o martírio do trabalhador passa a ser um efeito conjuntural, fruto da flexibilização (só se flexibilizam os direitos e salários, jamais os ganhos do capitalista). E mais: trabalhador, empregado ou funcionário são conceitos ultrapassados. Agora se fala em “colaborador”. Não sei se há ironia nisso, mas que é sarcástico, ah isso é.

Colaborador é o sujeito que ajuda a empresa a obter cada vez mais lucro, é claro que em detrimento de seu tempo de vida e do bolso daquela outra entidade “pós-humana” conhecida como “consumidor”, aparentemente filho da “Terceira Onda” de Alvin Toffler. Consumidor, como sabemos, é o novo nome do antigo cidadão, o tal que, classicamente, tinha ou deveria ter uma participação política ativa. Bem, há quem diga que toda ação é política e que inclusive o consumir assim o é. Ora, é claro que sim, mas torna-se inevitável afirmar que se trata de uma ação política alienada, ou seja, daquelas que o autor não tem a autoria, embora a conceba como sua. Logo, o agente político trabalha incoerentemente contra si mesmo.

A realidade que justifica a “gestão de pessoas” é a do trabalho alienado, da sociedade alienada e da hegemonia do mercado acima de todas as coisas. Vive-se mal nas cidades, com pouco espaço, muita gente, muitos carros, tensão, violência e coisa e tal, além do insuportável culto ao entretenimento. As relações humanas são relações entre comerciantes, o ambiente é degradado de todas as formas e custa muito pagar contas, impostos e compras. Isso só para falar da ponta do iceberg. A realidade urbana é péssima e absolutamente insatisfatória, o trabalho é cada vez mais alienado, exigente e ameaçador. Diante disso, dessa animalidade, surgiu a “gestão de pessoas” para gerir pessoas que não mais existem, que foram transformadas em colaboradores e consumidores, que são tratadas como caça por uns e como caçadores por outros, mas sempre como animais, sejam vítimas ou predadores.

Não é exatamente engraçado, mas é curioso que a “gestão de pessoas” tenha nascido nessa selva que o darwinismo social criou e alimenta. Cá para nós, deveria se chamar “gestão de bestas”, com toda a carga de sentido que o termo guarda.

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