terça-feira, 27 de março de 2012

No dia em que eu morrer...


A Emília, Jorge, Claudia, Karina, Alexandre, Alice, Eduardo e Orlando, meus mais preciosos e queridos companheiros de jornada (especialmente Karina, sem a qual não me seria possível dizer que acredito no amor e, muito menos, pensar na felicidade).

No dia em que eu morrer, não me importo se fizer sol ou se for uma manhã nublada. Isso, certamente, não deverá ser muito importante. Além do mais, gosto do sol, mas tive tantos dias nublados felizes, que não há preferência. Depois, nasci e cresci numa cidade quente, tive a oportunidade de conhecer muitos, muitos dias de sol ardente. O céu pode estar cinza. Até combina.

Aliás, hoje, que ainda não é o dia em que eu vou morrer, compreendo que a satisfação não está no tempo, no clima ou no espaço. Parece estar justamente no ângulo em que observamos e vivemos esses parâmetros referenciais de nosso mundo. Falo que o externo é importante, é o referente que nos define durante esta nossa vida terrena. Mas, não tenho dúvidas (embora isso não signifique que tenha razão), temos um mundo interno, um tempo, clima e espaço internos, que nos definem mais do que tudo, inclusive mais que nosso “eu”, essa massa elástica que se molda no espaço de choque e absorção entre os grunhidos de nosso porão metafísico e os sons articulados do nosso ambiente.

O problema com esse tal “eu” é que ele nos permite a organização no seio da relação entre externo e interno, mas nos oculta a alma, que é exatamente o que quero designar quando falo de “mundo interno” (um termo que aprendi estudando Melanie Klein, uma genial psicanalista vienense falecida no ano em que nasci). Na verdade, hoje entendo que uma das funções do “eu” é se passar pela alma, apresentar uma imagem especular dela, como se fosse a própria alma. O porquê disso tem que ser pensado, mas parece algo que não é possível pensar, pois sempre que tentamos, lá vem o “eu” representando o papel para o qual foi designado. Passei longos tempos de minha vida para conseguir entender isso.

Quando paro para falar no dia de minha morte, experimento no peito algo que provavelmente sentirei quando chegar a hora: uma tristeza imensa, uma saudade inexplicável, não sei do quê. Uma sensação tão intensa que só pode ser o resultado inicial do desapego radical da alma em relação ao corpo e a identidade, que cultivamos sem bem saber por que, mas que nos acompanha por toda a vida como se fosse apenas nossa e extremamente necessária.

No dia em que morrer, gostaria que alguém chorasse por mim, que experimente a dor que experimento agora imaginando o dia no qual irei embora e que certamente sentirei naquele momento. Que a sinta intensamente, para que minha alma, seja lá onde estiver, possa saber que alguém, pelo menos alguém, foi solidário à dor que senti por ir embora e deixar essa pessoa que chora. Feliz daquele que tem quem o chore à beira do túmulo, penso. Sinal de que alguém se importa sinceramente com a falta.

É engraçado sentir tristeza e nostalgia, pois nunca gostei muito de estar vivo. É claro que durante alguns períodos da vida, experimentei alguma felicidade por isso, mas não foi uma constante, sequer constitui uma maioria em relação a meu tempo de existência, que começou em 1960, no dia 27 de janeiro. Bem, o fato é que, mesmo nunca tendo sido um apologeta dessa existência, apesar de ter passado a maior parte do tempo tecendo severas e sisudas críticas a ela, sinto uma incomensurável saudade quando penso que um dia tudo isso acabará. Talvez, no entanto, sinta saudade da inatingível esperança que sempre tive de que conseguiria viver bem, que conseguiria ser feliz, seja lá o que isso queira dizer.

Quero dizer que essa estranha saudade não vem exatamente do mundo, ou de outras pessoas, ou de situações. Vem da ternura que experimento em relação a mim mesmo quando lembro de todos os anseios, todas as esperanças, desejos, medos e devaneios que experimentei, sempre sonhando com o dia em que alcançaria a felicidade.

Creio que tudo fiz, tudo pensei, senti e sonhei foi feito, pensado, sentido e sonhado simplesmente porque constituiria uma espécie de asfalto para a estrada que me encaminharia para a felicidade. Como se esta existisse e houvesse uma estrada asfaltada para chegar a ela.

Acho que vivi todo o tempo pensando nessa tal felicidade. Dá a impressão de que tudo o que fiz foi, no fundo, para chegar a ela. Terei a alcançado no dia em que morrer? Não creio. A felicidade deve ser algo como um farol, não é um destino, não é um porto. Ela só ilumina, só torna luminoso e colorido o que, em outras circunstâncias, não o seria.

Passei toda a nossa vida tentando provar que é possível realizar tudo aquilo que sonhei ser a felicidade. Quem sabe, na hora de minha morte, descobrirei que, apesar de todos os esforços, lutei em vão. Ou (quem poderá dizer?), poderei entender que sempre tudo tive, tudo estava em minhas mãos. Mas, assim mesmo, não percebi nada disso e tolamente lutei para conseguir o que não precisava. Com certeza, não entendi que já tinha o essencial a meu dispor. Sempre tive.

É possível que, aí, nesse momento, compreenda que, apesar de todos os percalços, dificuldades e reclamações, sempre fui feliz ou sempre, a todo momento, poderia tê-lo sido. Bastava, para isso, saber dessa singela verdade e não procurar longe de mim o que certamente encontraria aqui, tão perto, no meu coração, o tempo todo. Pior: que todas as vezes em que procurei, no mundo externo, coisas ou pessoas que me aproximassem da felicidade, na verdade estava me afastando dela.

quarta-feira, 14 de março de 2012

Psicopatia pandêmica


No ano de 2004, durante o tempo em que finalizava a pesquisa para a redação de minha dissertação de mestrado, tive contato com algumas pessoas das polícias do Rio de Janeiro. Descobri coisas interessantes. Por exemplo, que a chacina ocorrida naquele ano na casa de custódia de Benfica, zona da Leopoldina do Rio de Janeiro, na qual algumas dezenas de jovens detentos perderam a vida de forma bárbara, não foi motivada por nenhuma guerra entre facções criminosas ou simplesmente por barbárie gratuita, como alguns jornalistas chegaram a sugerir, na época. Segundo pessoa de minha confiança, o ocorrido teve o intuito de servir como peça de marketing do Comando Vermelho. Isso mesmo, Marketing.

Segundo minha fonte, toda a ação foi planejada para vender à sociedade a imagem de uma organização criminosa ameaçadora, poderosa e cruel o suficiente para cortar a cabeça das vítimas e atirá-las por sobre o muro, na rua. Aliás, é interessante notar que as vítimas eram, na sua esmagadora maioria, criminosos primários que não tinham qualquer “padrinho” que as defendesse, qualquer filiação a quadrilhas. Meninos que, por infelicidade, estavam no lugar errado, na hora errada e diante das pessoas erradas. Cometeram, na maioria dos casos, pequenos crimes que lhes custaram a vida de forma bárbara e cruel.

O Comando Vermelho mostrava que aprendeu que existem pessoas comuns, que não fazem parte da elite, da cúpula, que não decidem nada, que têm as vidas entregues ao deus dará e que não farão falta a não ser a suas mães, às vezes nem isso. Essas pessoas são literalmente descartáveis na ótica contemporânea, reforçada pela selvageria neoliberal: sequer nasceram, apenas ocupam espaço no mundo, fazem hora-extra na vida desde a concepção, são meramente componentes dos traços estatísticos. Pior: ocasionam gastos sociais, dão trabalho à polícia e à saúde pública. Quando presos, também incomodam seus pares, pois lhes tiram precioso espaço. São, aproximadamente, os “homo saccer” de GiorgioAgamben, malditos que aparentemente existem apenas para o sacrifício.

Ao entender que existem pessoas completa e absolutamente descartáveis, que ocupam pequenos espaços nas páginas dos jornais apenas quando mortas barbaramente, o pessoal do CV deu, em aparência, um passo à frente. Pode-se dizer isso porque esse mesmo pessoal estaria, até bem pouco tempo, no rol dos descartáveis indefesos, como as vítimas de Benfica e, de certa perspectiva, continuam nele. No entanto, alcançaram um patamar que, aparentemente, os livra disso e os lança na posição do opressor, abandonando, em aparência, a do oprimido. Repito sempre que “apenas em aparência”, porque não há movimento rumo à autonomia sem manifestação de singularidade. E se há apenas uma identificação com o agressor, não se pode falar, em princípio, de nada singular.

Em outras palavras, uma parcela da população pobre, que durante uma centena de anos foi tratada apenas na porrada e na caridade hipócrita, resolve se emancipar e adota o comportamento de quem lhe tratava na porrada e na caridade hipócrita. Os jovens que viram seus avós e pais serem humilhados pela sociedade, tratados como meliantes natos, bestas de carga ou motivo de riso, adotam a mesma lógica de quem fazia isso com seus ancestrais.

A emancipação do pessoal do CV ocorre no estilo baudrillardiano, produzindo um simulacro de poder e liberdade. Não há muito de libertador em sacrificar dezenas de pobres diabos à toa, apenas para que a marca CV se cravasse na sociedade, pela via do terror. É certo que se trata de um bom exemplo de comunicação negativa, uma engenhosa peça de marketing de comunicação negativa, aquela na qual o oprimido tido como perigoso se afirma como efetivamente mais perigoso do que se pensava, obtendo, a posse de um discurso que antes lhe possuía: de bandido perseguido passa a bandido perseguidor. No entanto, trata-se, acima de tudo, de uma total e irrestrita adesão ao pensamento hegemônico da cultura capitalista, conhecida como capitalismo tardio, com seu cruel e completo desprezo pelo ente humano e pela valorização plena e absoluta do poder do dinheiro. Dinheiro que sequer existe.

Assim como as grandes corporações, que fazem marketing de suas falsas qualidades o tempo todo e desprezam absoluta e completamente a vida dos simples mortais, o CV, que já foi um dia uma organização que defendia detentos da barbaridade de outros detentos (vide o excelente livro “400 contra 1”, de William da Silva Lima, o “Professor”), aparentemente acabou se transformando numa organização sem qualquer compromisso com aqueles para os quais dedicou seu nascimento. Trata-se, pelo que deduzi em minha pesquisa para a dissertação, de uma empresa que negocia com drogas e armas, simplesmente, como todas as outras empresas que negociam com outros produtos, legais ou ilegais, com exceção da inexperiência desse pessoal para negócios, o que os faz cometer muitas besteiras no percurso. Não parece haver muito de comunitário no CV de hoje, embora haja quem afirme que alguns de seus princípios fundamentais de atendimento às necessidades das comunidades mais pobres ainda seriam mantidos.

Preciso dizer que essas reflexões e conclusões datam de mais de cinco anos atrás. Algo pode ter mudado e eu me encontro longe do foco exposto, numa distância de mais de oitocentos quilômetros. A invasão das chamadas milícias nas favelas (há quem diga com pleno apoio de forças políticas bastante sólidas e influentes) parecem ter mudado o quadro de poder no mundo do crime no Rio de Janeiro. A perseguição ao Comando Vermelho por parte do governo estadual, em 2010, que ocorreu, segundo informações obtidas, por conta da resistência do CV em pactuar com as forças políticas citadas, indica que pode ter havido uma outra postura dessa facção criminosa nos últimos tempos. Afinal, como me disse um policial, eles se acreditam revolucionários, agentes de um movimento de emancipação dos pobres, embora haja quem os tenha como incapazes de qualquer elaboração política minimamente eficaz, como Hélio Luz, que comandou a polícia carioca durante alguns anos. Talvez. Não sei, não estou, como disse, mais morando no Rio de Janeiro e as fontes confiáveis são mais escassas e difíceis de ser localizadas.

Uma coisa, porém, me parece certa: a entidade Comando Vermelho (cujo nome original, “Falange Vermelha”, foi inventado pelo diretor da cadeia da Ilha Grande, já demolida) nasceu de criminosos, mas veio ao mundo com objetivos éticos, de sobrevivência e qualidade de vida. Aderiu, tudo indica, a um projeto criminoso, em que a ética inexiste e as vidas nada valem. Mas, não foi apenas essa organização criminosa que agiu e não é a única que assim procede. Na contemporaneidade, a psicopatia assume caráter de pandemia.

Dominância psicopática

Leio matéria na qual a tal nova droga chamada “oxi” é apresentada como uma estratégia de marketing para alavancar a venda de drogas. A jornalista Cristine Pires já havia falado sobre a farsa do oxi na metade de setembro de 2011, mais precisamente no dia 15, no link http://politica.centralblogs.com.br/post.php?href=oxi+e+marketing+do+narcotrafico&KEYWORD=26287&POST=3903657.


Essas matérias vêm em boa hora para que pensemos nos modelos que têm referenciado a vida em sociedade no mundo ocidental, claramente hegemônico em relação a todo o resto do planeta.

O modelo de pensamento empresarial tomou todo o espaço subjetivo do habitante urbano e, ao contrário do que muitos acreditam, vem sendo responsável pela deterioração da qualidade de vida no planeta. Dos executivos de empresas de alimentos aos aviões que carregam a droga, passando por todos os outros ramos de atividades legais e ilegais, todos parecem comungar do mesmo raciocínio, irmanados num só espírito.

O espírito psicopático inclui, quase que forma unânime nos tratados psiquiátricos, uma espécie de “defeito” de personalidade: enquanto todos os demais aderem a um grupo de normas morais e éticas, o psicopata não o faz. Em vez disso, simula a adesão, mas não se submete à ética ou à moral: muito pelo contrário, usa os discursos que fundamentam os valores sociais em proveito próprio, obtendo vantagens exatamente nos interstícios desses discursos e das práticas sociais relacionadas a eles.

Obter vantagens é a única intenção do psicopata. Para isso, não se importa nem um pouco com o semelhante e, via de regra, essa obtenção de vantagens causa malefícios para as demais pessoas, que devem perder quaisquer vantagens para cedê-las ao psicopata. É dispensável lembrar que não há remorsos por isso, assim como qualquer outra emoção ou sentimento: quando existem, são encenações que têm como meta manipular para mais facilmente obter vantagens. Em tese, o psicopata sabe o que está fazendo, somente não sente qualquer pudor ou arrependimento. Tanto é assim que costuma ser alguém com excelente aparência, boa educação, conhecimento de etiqueta, sentimentos nobres e preocupações com o bem-estar alheio, incluindo a famigerada “responsabilidade social e ambiental”. E, principalmente, alguém bem sucedido que nunca está fora da lei: afinal, a única que respeita é a que dita o seu bem-estar.

Sem rabo, sem chifres

Alguma semelhança com alguém que você conhece, vê na televisão ou encontra nos restaurantes chiques? Sim, é possível. Se você for a uma reunião de alguma entidade empresarial ou a um jantar de políticos, com certeza será provável encontrar um bom número de pessoas com essas características. Pior: não são pobres, muito pelo contrário, o que significa que são formadores de opinião de grande espectro. Mais que de opinião: de atitudes, comportamentos, pensamentos, desejos, sonhos.

Olhe para o lado. Pode haver um psicopata perto de você. Quem sabe, alguém em quem você seria capaz de confiar quase de olhos fechados. Não se preocupe muito. Ele (ou ela) te manterá vivo e bem enquanto precisar de você, enquanto puder te usar ou tirar algo, ainda que simples afeto. E não se iluda com aparências: diabo com rabo e chifres só se vê em baile de carnaval.

terça-feira, 13 de março de 2012

Fascismo social y financiero en Europa


Por Jesús González Pazos - 04.03.2012

Mientras seguimos pensando que aún vivimos en una Europa democrática, en realidad asistimos a los primeros pasos de un "golpe de estado" y la posible instauración de una larga época de fascismo social y financiero. Entendemos que esta afirmación es dura y, posiblemente, produzca una inmediata consideración de ser una exageración y, además, alarmismo gratuito. Pero, analicemos tan solo dos elementos evidentes, públicos y ampliamente conocidos, que se han dado en los últimos meses sobre, lo que siempre nos dijeron, eran piedras angulares de los sistemas democráticos: las constituciones y los procesos electorales.

Las primeras, y de forma evidente en el estado español, siempre nos recalcaron que eran poco menos que intocables para salvaguardar la estabilidad social y política del estado-nación. No lo creemos así, pero esto es lo que siempre ha mantenido la mayoría de la clase política. Y nos decían que, en último caso, cualquier reforma constitucional exigiría un largo proceso de discusión y debate político y, con propuestas claras y ampliamente conocidas por la ciudadanía, debería ser refrendada por ésta. Sin embargo, en los últimos meses hemos asistido a procesos exprés de reforma constitucional que, prácticamente, se han llevado acabo sin que esa ciudadanía, donde se dice reside el poder soberano de una democracia, se entere de qué es lo que se ha reformado y por qué. En el mejor de los casos, sabemos que es algo relacionado con el déficit, la ahora obligada estabilidad presupuestaria y la crisis que domina el escenario político y económico europeo desde hace más de cuatro años (Una crisis, por cierto, que en todo momento decían que era coyuntural y pasaría pronto, y con el tiempo ha dado la razón a quienes mantenemos desde el principio que es estructural del sistema capitalista). Podemos entonces afirmar que ese poder soberano que residía en el pueblo ha sufrido un evidente y forzado desplazamiento hacia los poderes económicos. Éstos son ahora quienes deciden los cambios y reformas constitucionales, para que el conocido como poder delegado del pueblo, que se supone reside en la llamada clase política, simplemente apruebe lo que prescribe este nuevo poder soberano usurpador.

El segundo elemento evidente del golpe de estado que se está produciendo lo encontramos en el proceso electoral y consiguiente elección de los gobernantes. Así, ese poder soberano usurpador que señalábamos anteriormente, decide ahora también si el proceso electoral en un país es necesario o se puede prescindir del mismo, dando los primeros pasos para el expolio, también aquí, del derecho a elección que tiene la sociedad sobre la clase gobernante. En esta línea, hemos asistido en los últimos meses a los cambios unilaterales de los gobiernos de Grecia y de Italia cuando ya no han sido útiles a los poderes económicos. Así, cuando Yorgos Papandreu y su gobierno en Grecia, ya no tenía fuerza, ni valor quizá, para aplicar más recortes al castigado pueblo griego, se provoca su caída y se impone su sustitución por otro conformado por los llamados tecnócratas. En Italia, donde multitud de escándalos de todo tipo habían desprestigiado hasta la broma a Silvio Berlusconi, pero ninguno de ellos había conseguido su salida del gobierno, serán también los poderes económicos los que en cuestión de horas decidan y realicen su sustitución por otro tecnócrata. Y estas actuaciones se convierten en evidentes y nítidos mensajes para aquellos otros que pudieran tener la veleidad de tomar medidas no ajustadas a los dictados de "los mercados".

Pero cuidado con los tecnócratas, pues se nos retransmite la imagen de personas con alta cualificación técnica, al margen de los vicios y el fracaso de la política, y neutrales a las ideologías; por encima del "bien y del mal" y, por lo tanto, únicos posibles salvadores de la crítica situación. Sin embargo, tanto Lukas Papademos, en Grecia, como Mario Monti, en Italia, provienen directamente de los poderes económicos y han construido sus carreras en los entramados financieros hasta el punto de haber sido parte de los núcleos de decisión y actuación de las medidas tomadas en épocas precedentes a la actual crisis y causantes, en gran medida, de la misma. Lukas Papademos, por ejemplo, fue economista jefe primero y vicegobernador después del Banco de Grecia entre los años 1985 y 2002, para pasar a ocupar la vicepresidencia del Banco Central Europeo. Mario Monti tuvo, entre otras responsabilidades, el cargo de director europeo de la Trilateral (un lobby de evidente tendencia neoliberal) y asesor de Goldman Sachs, durante el periodo que esta compañía ayudó a Grecia a ocultar su enorme déficit, origen en gran parte de la actual situación griega y de las brutales medidas económicas que ahora la imponen. Entonces, ¿quién ha decidido que estos personajes, por su aparente, aunque discutible, cualidad técnica tienen capacidad y derecho para estar al frente de gobiernos de sistemas teóricamente democráticos? Proviniendo de bancos e instituciones financieras, ¿cómo podemos suponer que sus medidas no estarán al servicio de estas entidades y de sus intereses lucrativos, respondiendo a sus demandas y medidas antes que para la mejora de las condiciones sociales y económicas de las poblaciones de sus respectivos países?

Estos son algunos de los elementos que nos evidencian que asistimos a auténticos golpes de estado que, definitivamente, prostituyen el llamado sistema democrático europeo e imponen un fascismo social y financiero al servicio de las élites económicas y sus intereses. Al servicio de los llamados "mercados", unas entidades sobre las que continuamente nos transmiten la idea de que son entes anónimos y difusos, casi inidentificables. Esto hace más difícil reconocerlos como los culpables que son de la situación de crisis y de los graves ataques que, con la disculpa de ésta, se están tomando contra todo un núcleo de derechos adquiridos por las luchas sindicales, políticas y sociales a lo largo de todo el siglo XX. De esta forma, difuminando a los culpables, consiguiendo que la sociedad no pueda centrar exactamente sus demandas y protestas hacia responsables directos de la situación, esos culpables se protegen. Sin embargo, hay que decir que esos "mercados" tienen nombres y apellidos; se reúnen en Davos y Bildergerg, se encuentran en el Fondo Monetario Internacional y el Banco Mundial o la Trilateral, en las famosas agencias de calificación y en los consejos ejecutivos de los grandes bancos. Ahí están quienes están tomando las decisiones, quienes hoy definen cuándo y cómo se modifican las constituciones y quienes deben ocupar los gobiernos en sistemas, ya solo presuntamente, democráticos.

Son precisamente esos grupos económicos quienes han reaccionado con las medidas que ahora nos imponen. Hace tan solo dos años, ante los primeros meses y efectos de la llamada crisis, determinados sectores políticos se atrevieron tímidamente a identificar culpables en los poderes financieros. Se empezó a hablar de la necesidad de reformar el capitalismo al reconocer su profunda crisis, se planteaba la necesidad de controlar el sistema financiero como causante de la misma por su ambición ilimitada, se hablaba de tomar medidas serias contra los paraísos fiscales y el fraude y toda otra serie de medidas se iban extendiendo como necesarias en la sociedad. Aunque esa clase política no pretendía nunca cambiar el sistema sino solo modificar lo necesario para su mantenimiento, la reacción de las elites económicas, de "los mercados", con el control absoluto y la manipulación de la mayoría de los medios de comunicación, ha hecho que todo eso se haya olvidado y ya no se consideren ni esas tímidas medidas ni, mucho menos, pedir responsabilidades a quienes han sido los causantes directos de la crisis del sistema capitalista. Se cuestionó con fuerza el fracaso del neoliberalismo impuesto en las últimas décadas y hoy, solo dos años después, las medidas que se nos aplican hacen gala del neoliberalismo más ortodoxo y están impuestas por aquellos que se vanaglorian del mismo. El debate y actuaciones profundas se ha desviado de esos focos hacia la imposición de medidas de recortes sociales y laborales y para el quebranto de los derechos de las mayorías y, por lo tanto, hacia la fascistización social y económica con el consiguiente control de una minoría poderosa sobre la vida social y política de la sociedad, en aras al aumento incontrolable de sus beneficios.

Entonces, si admitimos que lo señalado hasta aquí es una parte importante de los posibles nuevos escenarios en Europa las dudas, vértigos y vacilaciones que se abren serán muchas, pero hay preguntas dominantes, como ¿hasta cuándo vamos a esperar para reaccionar, cuando el camino de recortes y pérdidas de derechos que nos están trazando en estos últimos años es evidente que no lo dan por finalizado sino que seguirán profundizándolo? En esta vieja Europa constituida por viejos pueblos, sigue estando en nuestras manos, aunque quizá por no mucho más tiempo ese es el grave riesgo que corremos, la capacidad para frenar el golpe de estado, para impedir que el fascismo social y financiero se nos imponga.

Jesús González Pazos
Miembro de Mugarik Gabe/Tomado de Alainet


http://www.eleconomista.cubaweb.cu/2012/nro416/fascismo-social.html

quarta-feira, 7 de março de 2012

Tua vida é uma merda? A culpa é tua


 Eis um sujeito feliz com seu emprego

Leio na internet: “Prática diária de atividade física evita mau humor e depressão no trabalho”. Engraçado isso. Trata-se de um cala boca na insatisfação com o trabalho, é claro, mas é encarado como se fosse uma proposta saudável e que certamente eleva a qualidade de vida. Típico de nossos tempos nos quais os problemas gerados são logo acompanhados de alguma solução que não soluciona nada, mas gera mais problemas e, via de regra, gastos extras.

Não se trata de pensar o sentido da doença, nem mesmo pensar de forma ampla as causas do adoecimento. O negócio agora não é pensar nada, é “resolver” o problema, mesmo que isso signifique apenas abafá-lo. Não se resolve nada, o que é bom, pois isso gera mais demandas motivadas por insatisfação, geralmente legítima, e mais intervenções médicas e mais compra de medicamentos e mais ida a profissionais, especialistas etc. Um circuito infernal.

Por que não se pensa na péssima qualidade de nossas cidades, dos torturantes ambientes de trabalho, juntamente com suas cínicas técnicas de adaptação? Por que não se entende que o mais saudável, em determinados casos, é deprimir, entristecer?

De certo modo, não se pensa isso porque é proveitosa a má qualidade de vida. Havendo esta, há também uma solução pronta de boa qualidade – que, como sabemos, não soluciona absolutamente nada, não tem boa qualidade coisa nenhuma, mas rende, no mínimo, alguns trocados para alguém e o reforço da lógica capitalista da insatisfação constante para melhor consumir.

Mas, acima de tudo, a estratégia é fazer o indivíduo assumir os problemas que não são seus, sentir-se culpado por não conseguir se adaptar a uma realidade insatisfatória. Minha culpa, minha culpa, minha máxima culpa. A culpa é sua, que não consegue aceitar viver mal, que não consegue tomar como bom aquilo que te tortura e faz sofrer.

Rock é entretenimento de massa, revolução é outra coisa


Um dos mitos contemporâneos é a força da rebeldia juvenil e a revolução de costumes que proporcionou há aproximadamente 50 anos. Você puxa conversa com qualquer pessoa sobre o tema e o que se ouve é exatamente o reconhecimento e o louvor a esse mito. Um exemplo extremo disso é o texto de um sujeito chamado Toninho Buda sobre o rock, que considera “a maior revolução que a história da humanidade já conheceu”. E essa não é uma ideia só dele. Bem, se algo é assim tão consensual, é mister que se desconfie. Afinal, Nelson Rodrigues foi sábio ao dizer que “toda unanimidade é burra”.


O sangue é falso e a revolta é simbólica
 
Após 7 anos de pesquisas, leituras e conversas sobre o tema, tenho que discordar. Qual foi a revolução proporcionada pelo rock? Ora, como imaginar que uma música faça revolução ou a induza? Música é música, arte é arte e é difícil aceitar que a arte revolucione mais do que o pequeno circuito de seus admiradores e praticantes. Veja-se Warhol. O conceito revolucionário que gestou não foi entendido por mais do que uma mínima elite intelectual. Qual a revolução que Warhol proporcionou social e culturalmente? Na certa, terei que concordar com quem responder que a arte de Warhol ou de qualquer outro somente espelha tendências sociais e as devolve em nova fórmula, em configuração inédita. O revolucionário, aí, é geralmente a novidade de um conceito estabelecido a partir da relação entre o ambiente social e a sensibilidade artística.

A arte foi importante na história como sustentáculo de transformações, parece óbvio. Mas as transformações não nasceram da arte, como o citado Buda parece crer quando fala do rock. Vieram da ânsia por mudar um estado de coisas que aparentemente se mostrava bastante insatisfatório. É o caso do Renascimento, tudo indica, mas não sei bem se, pelas condições específicas do século XX, podemos falar o mesmo do rock e da contracultura embalada ao som da eletricidade roqueira.

O caso é que o rock nasce filho de uma sociedade de massas, no seio de algo que Adorno e Horkheimer chamaram de indústria cultural. O fato é que a cultura roqueira e da contracultura underground só alcançaram a importância social que têm graças à divulgação dos meios de comunicação de massa, o que quase corresponde a dizer que foram esses veículos que o divulgaram amplamente e, logo, tiveram inegável influência na sua formulação e caracterização desde praticamente o início.

É costume dizer que o rock nasceu puro, sem máculas midiáticas, sem objetivos massificantes, com arrojo e criatividade. Como o bom selvagem de Rousseau, teria sido corrompido sequencialmente pela sociedade de massas: “capturado”, é usual dizer. Essa me parece uma versão simplista e simplória que tem, no fundo, a meta de absolver o rock de sua absoluta imersão na lógica do consumo, sua filiação inequívoca ao capitalismo. Como referido, é a percepção rousseauniana que dita sermos naturalmente bons e puros, sendo corrompidos impiedosamente pela sociedade. Como toda afirmativa, esta também é ideológica e tenta ocultar o real, ou uma parte dele.

E que parte do real acaba oculta no caso da “revolução roqueira”? Parece simples responder: se aceitarmos a proeminência das mídias de informação na maciça divulgação do rock, seremos obrigados a pensar (no rastro da interessante proposição de McLuhan de que “o meio é a mensagem”) o quanto o rock não foi moldado a um meio de informação específico desde muito cedo, contaminando a suposta pureza inicial. Mas o grande arcano oculto parece ser o que nos remete a pensar nos interesses que geriam e gerem os meios de informação que difundiram e possivelmente moldaram o rock desde os primórdios. Em outros termos, pensar isso corresponde a escapar da tola ilusão de que a cultura é natural, ou seja, que se movimentaria de acordo com leis dadas à priori aos interesses humanos. Não é o caso.

A cultura se move de acordo com interesses que não parecem ter nada de naturais. E os meios de informação, as hoje chamadas mídias (ou “a” mídia, num sentido geral), têm imensa influência na determinação dos movimentos da cultura e, como são empresas comprometidas com o próprio lucro e o de seus patrocinadores, somente divulgam o que interessa a esse compromisso, bem como moldam o que divulgam, sempre de acordo com esse interesse.

Estarei dizendo ser estúpido e ignóbil todo o movimento social que gestou e pariu o rock enquanto fundo musical de um período histórico? Claro que não. É mais acertado e mais profícuo propor o entendimento de que houve e há um incômodo que é apropriado e canalizado pela contracultura roqueira. O fato é que na medida em que essa manifestação cultural é apropriada e canalizada, torna-se nula para qualquer transformação efetiva, a não ser as que têm aparência de transformação, mas são apenas reformulações simbólicas do mesmo, reforçando a estabilidade do estabelecido. Se pensarmos que essa apropriação e canalização estiveram presentes desde muito cedo na história do rock, teremos que concordar ao dizer que a proposta de revolução dos jovens não fez mais do que reforçar aquilo contra o qual diziam lutar. Em outros termos, significa, até hoje, mudar todos os dias para manter tudo como estava.

O incômodo que forneceu o solo fértil para o engodo da revolução roqueira parece óbvio. Certamente se funda na insatisfação com o poder “sólido” (aproveitando o termo de Bauman), aquele que caracterizou a modernidade e se materializou no Estado-Nação, em costumes vigiados, na burocracia e no modelo familiar pautado na mentalidade do “papai sabe tudo”.

O problema é que a multidão não entendeu bem que o Estado-Nação era uma construção abstrata que, ao mesmo tempo em que cerceava e punia, em que tornava tudo infernal com a minúcia burocrática, também oferecia albergue e equilíbrio econômico, além de proteção contra os bandoleiros das finanças, que ganharam total liberdade nos tempos neoliberais. Também não entendeu que os costumes eram controlados tanto por motivos de ordenação social quanto por uma necessidade de administração clara e precisa da subjetividade e que esse controle vinha sendo relativizado pela ordem burguesa, que há muito incentivava a vida secreta, os vícios privados que supostamente insuflam os benefícios públicos. Nessa mesma trilha se encontrava a família burguesa, bastião desse controle, mas também referência subjetiva fundamental que, ainda que com as vidas secretas, ajudava o sujeito a formular seus desejos e discursos, naquele momento de modo bem mais original do que percebemos nestes nossos dias. E estamos falando de um fenômeno unicamente pensável numa sociedade burguesa ou, na realidade, pequeno-burguesa.

Não há, pensando nesse caminho, como desvincular o rock, sua contracultura e seu espírito underground de um projeto de poder que nada tem a ver com o que imaginam Toninho Buda e todos os outros que repetem cotidianamente a cantilena da natureza revolucionária do rock. Não há como desvincular o rock da sociedade de massa, da lógica do consumo e do poder imperial de que nos falam Negri e Hardt. Do mesmo modo, não há como lhe atribuir qualquer verve revolucionária ou de singularidade. O que havia de singular morreu no exato momento em que se formulou uma cultura roqueira, que imediatamente gerou um modo de vida conformista e de bem com o poder. A partir daí, toda a rebeldia juvenil passou a ser bem aceita e a sociedade ocidental pôde oferecer aos seus adolescentes aquilo que nunca teve e cuja ausência, a partir da eclosão da vida urbana pós-revolução industrial, lhe trazia muitos problemas: um rito de iniciação, no caso, ao consumo, ícone subjetivo referente dessa sociedade que completou seu circuito básico de instalação exatamente com o auxílio do rock e de todas suas subjacências.

O que não impede que se goste da música. Uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa.

Cadê a indústria que tava aqui?


Por Rodrigo Vianna, no blog Escrevinhador


O Serra pode ser criticado por muitos mo-tivos. Mas num ponto é preciso concordar com ele: o Brasil está num proceso de de-sindustrialização. Logo no início do go-verno Dilma, publiquei aqui um modesto artigo que tocava nesse ponto – lembrando os alertas lançados por dois importantes economistas: Delfim Neto e Marcio Pochmann.

A Carta Capital dessa semana traz, na ca-pa, exatamente o tema da desindustrializa-ção. Ou seja: nesse ponto, Serra está bem acompanhado. O que não ajuda muito o tucano é o fato de ter sido ministro (do Planejamento) num governo que adotou a doutrina ultraliberal feito dogma, abrindo a economia sem nenhum tipo de freio, ex-pondo a indústria (e o país) à tal “âncora cambial” – que servia para frear a inflação e consolidar o Real, mas que teve um papel nefasto para o Mercado Interno.


Agora, Dilma diz – na Alemanha, que Brasil vai se proteger da guerra cambial.


Lembro bem que, durante o governo FHC, a cada reclamação do setor industrial, gen-te ligada ao tucanato ia pra imprensa e chamava o prédio da FIESP de “grande monumento ao custo Brasil”. Quase na galhofa. Os tucanos (ou parte deles, por-que havia gente ajuizada como Bresser, que não achava graça nenhuma em jogar fora o capital nacional) pareciam ter um desejo sádico de quebrar a indústria nacio-nal, arrebentar esse patrimônio construído a duras penas desde o governo Vargas.


O tucanato podia-se dar a esse luxo. Afi-nal, na ampla coalizão que sustentava FHC, o setor financeiro era claramente hegemônico (basta ver onde foi trabalhar o Ministro Malan, após deixar o governo).


Lula/Dilma mantiveram o setor financeiro na grande aliança que sustenta o governo. Isso é inegável. Mas a ênfase mudou. Lula cumpriu o velho programa dos “economistas do PMDB”, que passaram anos e anos lutando para que o Brasil priorizasse o mercado interno de massas e crescesse dividindo o bolo. Isso só pôde ser feito em aliança com a indústria.


Lula pôs em prática também a velha tese do partidão: a famosa “aliança do operariado com a burguesia industrial”. Lula fez isso, e ao mesmo tempo incorporou vinte milhões de miseráveis ao mercado. E – ufa! - sem desagradar a Banca. Ficou de fora do grande arranjo lulista a classe média tradicional (ou “pequena-burguesia”, como diziam os petistas quando ainda estavam sob influência do marxismo) - não é à toa que dela parte a oposição mais virulenta a Dilma/Lula.


Mas essa é outra história… Quero me con-centrar em outro ponto. O compromisso de Lula com o setor produtivo industrial, de certa forma, era sinalizado pela presença de um “capitão da indústria” na vice-presidência. José Alencar passou oito anos brigando pra derrubar os juros. Era a forma de Lula equilibrar o jogo, ainda que no primeiro mandato a balança tenha pendido mais para o núcleo duro financista, representado pela dupla Palocci/Meirelles.


No segundo mandato, a presença de Mantega na Fazenda foi decisiva para que, na crise de 2008, Lula adotasse uma saída “expansionista” pra enfrentar a crise. Uma das medidas para fazer o Brasil resistir à crise foi a redução de alíquotas de imposto pros carros. Isso mostra o papel dinâmico da indústria. Mostra porque é fundamental preservar o imenso patrimônio industrial brasileiro. Lula manteve a aliança com a banca. Mas deu mais ênfase ao mercado interno e à indústria. No governo Lula, ninguém chamava a FIESP de “monumento ao custo Brasil”…


Mas o fato é que “mudar a ênfase” é muito pouco. Do contrário, qualquer dia vamos acordar, olhar pro lado e perguntar: cadê a indústria que tava aqui? A China comeu.


O Brasil hoje é vítima de sua estabilidade. Mais que isso: dólares não param de chegar, deixando o Real cada vez mais forte. Por quê? Porque nossos juros altos atraem capital. E há muito dinheiro voando por aí. Os EUA detêm a famosa “maquininha de imprimir papel-moeda”. Os tolos liberais brasileiros sempre disseram que política expansionista era um erro. E que era preciso “enxugar” a economia, e “fazer a lição de casa” e blá-blá-blá. O Federal Reserve não acredita na cantilena liberal. Na crise, inundou o mundo de dólares. Qual o objetivo? Os produtos dos EUA precisam ficar mais baratos! É uma tentativa desesperada de recuperar a indústria dos EUA – dizimada pelos chineses.


Como diz meu colega Azenha: Reagan iniciou o processo de exportar empregos industriais para a China e o México. Os EUA queriam ficar apenas com a “econo-mia limpa”, do setor de serviços. Agora, os EUA descobrem que só os “serviços” não seguram o país na hora da crise. E também se perguntam: cadê a indústria? A China comeu!


Do outro lado do mundo, a China segura a cotação do yuan. É o que explica – em parte – os preços imbatíveis dos produtos industriais chineses.


E o Brasil?


Não há saída. Agora não bastam mudanças cosméticas. Não basta baixar IPI aqui ou ali. Nossa indústria está sendo dizimada. Não se trata de “choradeira da Fiesp”. Co-nheço duas pessoas – empresários de pequeno porte – que trabalham com exportação de produtos brasileiros. Os dois estão com a corda no pescoço. A duras penas, seguram os clientes que ainda não se man-daram; não conseguem novos clientes. O mundo quer comprar barato da China.


Ok, talvez não consigamos concorrer com os chineses, a não ser aqui na América Latina, o que já não seria pouco…


Mas o principal, agora, é fazer a defesa de nosso mercado interno. Isso é urgente. O governo precisa adotar medidas duras pra conter a valorização do dólar e pra impedir a entrada dos produtos chineses.


Recentemente, entrevistei o professor Bresser Pereira, e ele foi claro. O Brasil precisa controlar a entrada e saída de dólares. Se Dilma não fizer isso agora, o estrago pode ser definitivo.


O que nos consola é: esse não é um drama (apenas) brasileiro. O mundo vive a tal “guerra cambial”. EUA e China usam suas armas. Precisamos usar as nossas, lembrando sempre da velha frase do Mario Henrique Simonsen: “a inflação aleija, mas o câmbio mata”.


http://altamiroborges.blogspot.com/2012/03/cade-industria-que-tava-aqui.html?spref=fb

segunda-feira, 5 de março de 2012

Gestão de pessoas ou de bestas?


No ano passado, tive contato com isso que, recentemente, se convencionou chamar de “gestão de pessoas”. Para quem não sabe, trata-se da noção de “recursos humanos” reciclada e reapresentada com nova embalagem e rótulo. Na prática, não me parece mais do que uma estratégia de controle do empregado, impondo-lhe o ambiente de trabalho como algo necessariamente bom e bem organizado (ou que se esforça para ser assim), enquanto tudo o que dá errado é sua culpa, seja porque não se dedicou o suficiente, seja porque não sabe o suficiente para acertar. E outro conceito espúrio nasceu: o de gestão de competências.

A “gestão de pessoas” fala muito em satisfazer necessidades humanas. Para isso, tenta fazer do ambiente de trabalho algo humano, talvez para ocultar exatamente que o trabalho é essencialmente desumano em nossa sociedade. Como ensinou Karl Marx, o trabalho no mundo capitalista é alienado e, desse modo, aliena. O trabalhador não participa da concepção, da integralidade e do resultado final, nem costuma ter sua participação reconhecida. Pior: realiza um trabalho não para si ou para a humanidade, mas para a satisfação de uma minoria que, do mesmo modo, está pouco se lixando para o trabalhador e muito menos para a humanidade. O empregador tenta de todo modo escamotear esse aspecto venenoso da vida laboral. E a tal “gestão de pessoas” está aí para ajudar.

As “pessoas” geridas não são, na verdade, compreendidas como pessoas. São partes de uma máquina e não há mais que engrenagens e circuitos no mundo mecanicista, além de chips, é claro. Nesse ponto, não há muita diferença entre o que acontecia nos séculos XIX e XX e a nova proposta do século XXI na área do trabalho “humano”. Em ambos os casos, não há nada humano em jogo, a não ser a perda dessa condição. Aliás, a nova mentalidade é pródiga em inventar novas palavras para coisas antigas e bem postas. O chefe virou líder, veja só. Demissão em massa é downsizing e o martírio do trabalhador passa a ser um efeito conjuntural, fruto da flexibilização (só se flexibilizam os direitos e salários, jamais os ganhos do capitalista). E mais: trabalhador, empregado ou funcionário são conceitos ultrapassados. Agora se fala em “colaborador”. Não sei se há ironia nisso, mas que é sarcástico, ah isso é.

Colaborador é o sujeito que ajuda a empresa a obter cada vez mais lucro, é claro que em detrimento de seu tempo de vida e do bolso daquela outra entidade “pós-humana” conhecida como “consumidor”, aparentemente filho da “Terceira Onda” de Alvin Toffler. Consumidor, como sabemos, é o novo nome do antigo cidadão, o tal que, classicamente, tinha ou deveria ter uma participação política ativa. Bem, há quem diga que toda ação é política e que inclusive o consumir assim o é. Ora, é claro que sim, mas torna-se inevitável afirmar que se trata de uma ação política alienada, ou seja, daquelas que o autor não tem a autoria, embora a conceba como sua. Logo, o agente político trabalha incoerentemente contra si mesmo.

A realidade que justifica a “gestão de pessoas” é a do trabalho alienado, da sociedade alienada e da hegemonia do mercado acima de todas as coisas. Vive-se mal nas cidades, com pouco espaço, muita gente, muitos carros, tensão, violência e coisa e tal, além do insuportável culto ao entretenimento. As relações humanas são relações entre comerciantes, o ambiente é degradado de todas as formas e custa muito pagar contas, impostos e compras. Isso só para falar da ponta do iceberg. A realidade urbana é péssima e absolutamente insatisfatória, o trabalho é cada vez mais alienado, exigente e ameaçador. Diante disso, dessa animalidade, surgiu a “gestão de pessoas” para gerir pessoas que não mais existem, que foram transformadas em colaboradores e consumidores, que são tratadas como caça por uns e como caçadores por outros, mas sempre como animais, sejam vítimas ou predadores.

Não é exatamente engraçado, mas é curioso que a “gestão de pessoas” tenha nascido nessa selva que o darwinismo social criou e alimenta. Cá para nós, deveria se chamar “gestão de bestas”, com toda a carga de sentido que o termo guarda.