domingo, 5 de fevereiro de 2012

Vida!


Não soluce, busque a solução, disse o chefe para uma funcionária que chorava. Chefe é chefe, sabe a hora de dizer o que tem que ser dito, sussurrou seu colega da esquerda. É preciso vestir a camisa, disse outro. Todos juntos, venceremos!, exclamou um terceiro.

Das dez ao meio-dia, reunião para ouvir esporro. Ninguém escapa. Do diretor ao ponta-esquerda, do gandula à tia do café, a mijada é geral. Nada está certo, quando não está certo, nada está certo, quando está certo, pode melhorar, quando está bom demais.

Meio-dia, almoço com os colegas no lugar de sempre. Mesmas conversas, mesmo veneno ao falar dos ausentes. Olhadas para as coxas da morena da contabilidade, sorrisos para a chefe do atendimento. Com muita pressa, digestão por fazer, de volta à seção.

A vida começa cedo e termina tarde. Às seis, com atraso às sete, academia. Tudo de bom começar o dia respirando rápido, suando muito e ouvindo aquela música estridente. Pedala, pedala, pula, pula, pula, estica. Pronto. O apenado está pronto para mais um saudável dia de trabalho.

Depois do expediente, happy hour que ninguém é de ferro. Chopa que chopa, brinda que brinda em dias de brinde. Chope que chope e bate o copo na mesa nos dias de luto. Derrota do time, fora de amante, brochada, crise econômica, prestação atrasada, tudo é motivo, nesses dias, para tomar um porre. E lá se vai a noite.

Pedala, pula, corre, enfia o garfo na boca. Bebe, calcula, conspira, deixa cair o copinho de café. Entra no elevador, aperta a gravata, sorri para a secretária do diretor, come a colega da tesouraria. Estica, mastiga o bife, olha as coxas de outra, se esquece da hora do dentista. Mesmo bar, mesmos amigos, mesma música, mesma tonteira agradável, muito álcool. De vez em quando uma trepada, encoxadas sempre, apertadas, banheiros sujos, vielas de boquetes baldios e o zíper da calça às vezes emperra.

Vai ter promoção, oba! Morreu o chefe do departamento de pessoal, Deus o tenha. Conversas veladas, sussurros cifrados, ataques frontais, está declarada a guerra. Símios ferozes galgando as mesas, sérios profissionais esfaqueando pelas costas, dentes de sabre rasgando espaço até a mesa do chefe. De lá, como no milagre da vida, um será o escolhido e reinará no RH.

Seu nome é lembrado, é o mais preparado, tem curriculum. O chefe lhe bate nas costas. As nuvens claras rompem o horizonte, ele está entre elas e atribui o sucesso à sua dedicação. Eu visto a camisa, exclama. De uma hora para outra, tudo muda. Seus colegas o cumprimentam, a secretária do diretor lhe sorri pela manhã e às vezes surgem salgadinhos e doces em sua mesa, com um copo de café quente para acompanhar.

Sexta, pode sair a escolha. Sexta, se baterá o martelo, exclama a programadora sênior. Mas não sai, não se bate nada. Passa uma semana e ninguém mais lhe deixa salgadinhos ou doces, nem sequer lhe convidam para o café. No almoço, quando chega deixa todos mudos. Se está sozinho, assim fica até a sobremesa. Na noite, o constrangimento é geral.

No sábado, expediente extra. Não vai à academia, não faz a barba. Cumpre os ritos e não entende por que fazer no sábado o que poderia sem pressa, da melhor forma, perfeitamente, na segunda.

Na surpresa, almoço oferecido pela empresa. Coisa boa, coisa farta. No meio da comilança, levanta o chefe, adentra o presidente, todos levantam, ele estaca, fala, anuncia o novo chefe do RH, a surpresa é geral, pois é a morena de belas coxas da contabilidade a escolhida. Ele se perfila, cospe no terno do presidente e corre para voar longe no céu azul. Enfim, vida!

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