quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

Polícia Militar surra até bloco de sacis em Curitiba


Outro dia, no domingo, dia 5 de fevereiro, a histórica e gloriosa Polícia Militar do Paraná surrou e alvejou, com bombas de gás lacrimogênio e balas de borracha, um grupo de foliões curitibanos que acompanhavam um bloco carnavalesco, aliás, pré-carnavalesco, chamado curiosamente de Garibaldis e Sacis. Segundo versões da polícia, tudo teria começado quando na passagem da “viatura” pedras, e até mesmo uma garrafa, haveriam sido atiradas. Os policiais se sentiram ultrajados, alegadamente revoltados com a tentativa, por parte de meia dúzia de supostos baderneiros, de macular a honra da instituição, pediram reforços e partiram para a porrada, com a vantagem de usar farda e estar portando armas de fogo, espingardas que lançam bombas de dispersão e cassetetes. E pior: tudo indica que seu ultraje se estendeu contra todos, não apenas contra os tais baderneiros que lhes atiraram pedras e uma garrafa.

Uma parte da cidade apoiou e até mesmo “curtiu” a intervenção da PM. “Aquilo é um monte de vagabundo!”, exclama-se. Ora, a tese não é válida, pois havia milhares de pessoas ali, incluindo os famosos “chefes de família” e trabalhadores de folga, não apenas vagabundos. Além do mais, a classificação genérica de “vagabundos” não serve para nada num domingo de verão. Em tese, todos são ou estão vagabundos nessas condições.
 No próximo domingo, há quem torça para que a PM use bombas de água benta, cassetetes com choque para convulsões beatíficas e hóstias de borracha. E dão vivas para a sagrada corporação que está livrando a cidade sorriso das caretas carnavalescas do diabo!
Há os que tentam compreender e explicar os atos desvairados dos policiais com base no fato de terem recebido uma garrafada na “viatura”. A tese é um pouco mais elaborada do que a primeira e pode ser aceita para explicar a reação inicial dos policiais. Incorre no problema de que a continuidade das ações dos agentes da lei certamente não conseguirá ser justificada pela garrafada. As imagens de filmes, fotos e testemunhos garantem que a ação repressiva passou dos limites da resposta à agressão de poucos. Para a polícia, todos os milhares de pessoas ali presentes, fossem homens, mulheres, velhos ou crianças, passaram a ser agressores ou potenciais agressores e, nessa lógica insana, mereceram porradas, bombas e balas de borracha. Uma reação cheia de ódio em resposta ao ódio que boa parte da população cada vez nutre pela polícia.

O que está claro é que a população não anda morrendo de amores pelas fardas policiais. Também, trata-se de uma profissão naturalmente não sujeita a grandes amores e os policiais também não têm merecido muito respeito, quanto mais amor – tomando em conta fatos recentes como o ocorrido em Pinheirinho, na cidade de São José dos Campos (SP), fora outros que a memória registra.

O que fica de interessante e mesmo de divertido em tudo isso é observar como acontecimentos como esse puxam para fora o pus da cultura, revelando aspectos não muito belos nem muito perfumados da subjetividade citadina. Alguém disse no Facebook que o fato de não haver carnaval em Curitiba deve-se à origem europeia dos habitantes da cidade. Outro disse, com pompa, que a cidade é de primeiro mundo e não precisa de carnaval que, segundo ele deixa sugerido, seria uma festa de terceiro mundo, quase fica dito que de gente pobre e feia. O sujeito em questão acaba vítima da mesma piada que alguns dedicam aos argentinos: pode proporcionar um lucro astronômico se comprado pelo que vale e vendido pelo que acredita valer.
Quem sabe se deva entender que Curitiba não se pode demonstrar alegria. Festa tem que ser escondida, de preferência em porões, com todo mundo vestido de preto ou usando exóticos disfarces importados de culturas supostamente mais desenvolvidas. A felicidade curitibana ri comedidamente e, quando quer “se soltar”, procura os bares, as vielas escuras e requer bastante álcool
Houve ainda a cidadã que afirmou apoiar, com ênfase, o papelão policial, simplesmente porque o Largo da Ordem, local do conflito, está cheio de maconheiros. Tá bom, então está justificado. O que estragou tudo foi descobrir que a tal digna cidadã toma diariamente dose bem servida de um certo benzodiazepínico. Ela não é maconheira, embora o remédio lhe cause efeito semelhante ao da “erva”. Tudo questão de nomes, do lugar que se frequenta e das companhias com que se anda, somado a uma receita com o aval médico para se drogar. Com uma boa dose de hipocrisia tudo é possível e aceitável neste mundo.



Intervenção beatífica

A maior parte das pessoas, é claro, condena veementemente a ação da polícia. Aliás, nesses casos condenar é fácil e cômodo, faz parte da moda e não quer dizer muito. É preciso conceber que sempre que a polícia passava no local era vaiada e recebia uma saraivada de objetos na “viatura”, segundo fontes confiáveis. Ora, policial não é nenhum exemplo de cortesia, salvo casos esparsos e produzidos pela imprensa. Se você provoca essa fera, pode esperar o retorno com o dobro de maldade. Foi o que parece ter acontecido.

Isso, é claro, permite entender melhor o fato, mas não justifica a barbárie da polícia, que, eu próprio já presenciei, bate e atira em todo mundo que se mexe em sua frente nesses casos. O que há é uma conjuntura na qual a polícia está claramente contra a população e esta contra a polícia. A diferença que separa uma de outra é a mesma que separa palestinos e judeus na Faixa de Gaza: enquanto uns usam pedras e estilingues, os outros respondem com bombas e armas de grosso calibre.

O destaque do festival de asneiras ditas relativamente ao conflito do bloco carnavalesco contra a Polícia Militar (o bloco se chama Garibaldis e Sacis(confesso que não sei o porquê) vai para a ala conservadora, a que acredita que o carnaval é efetivamente a festa do diabo. Para essa gente, a PM foi praticamente uma tropa de cruzados encarregados de lavar a honra da cidade com sangue e lágrimas (vide o gás de efeito moral). No próximo domingo, há quem torça para que a PM use bombas de água benta, cassetetes com choque para convulsões beatíficas e hóstias de borracha. E dão vivas para a sagrada corporação que está livrando a cidade sorriso das caretas carnavalescas do diabo!



Claro e escuro sem nuances

Para finalizar, entendo que ficam algumas interpretações especulativas com relação à subjetividade do lugar. Quem sabe se deva entender que Curitiba não pode ter carnaval às claras, não pode demonstrar alegria. Festa, em Curitiba, tem que ser escondida, de preferência em porões, com todo mundo vestido de preto ou usando exóticos disfarces importados de culturas supostamente mais desenvolvidas. Alegria, só se moderada e jamais em praça pública. A felicidade curitibana ri comedidamente e, quando quer “se soltar”, procura os bares, as vielas escuras e requer bastante álcool.

E isso não foi criado pela polícia. Isso faz parte da cultura da cidade. A mensagem principal é que não é possível ser feliz aqui sem beber, se drogar e sem parecer rebelde, “maloqueiro” e um tanto mau. Ou melhor, é claro que é possível, mas boa parte das pessoas não entende isso e fica atada a uma cultura de opostos: ou a felicidade é boba, veste blazer, longo de formatura e é declaradamente romântica e crédula, ou usa rebites na roupa, pulseiras com espetos, piercings por onde for possível e tatuagens que preferencialmente devem cobrir a maior parte do corpo. Ou chega virgem ao casamento ou trepa em qualquer beco escuro. Ou é o filhinho do papai, advogado de renome, ou é vocalista numa banda punk que idolatra os esgotos, o sexo, as drogas e o “bom e velho” rock’n’roll. Não parece haver terceiro caminho, ou, sendo mais preciso, a cultura parece trabalhar todo o tempo para ocultá-lo. Ou você é careta, burguês, mauricinho ou patricinha ou é “maloqueiro”, “bandido”, “drogado” ou “puta”: não há meio termo, não se distingue um caminho do meio, uma via alternativa. O claro e o escuro parecem não ter nuances em Curitiba.

2 comentários:

  1. nossa cara quanta abobrinha....policiais são policiais não sparring de ninguém....como vc fantasia e acha normal jogarem garrafas em uma viatura...isso se chama dano...e se for por um grupo usando do anonimato ou da multidão pra fugir da responsabilidade isso é uma quebra da ordem pública...e isto é a missão da PM...manter a ordem pública....agora se não ta contente com a cidade o Brasil é grande...mude-se pro Rio ou Bahia onde o carnaval é prioridade...

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    1. Agora, dois anos depois desse comentário, o descubro. Bem, caro anônimo, abobrinha que você consumiu e gostou tanto que necessitou digerir escrevendo o que escreveu. Fato. Não é possível negar isso. Policiais não são sparring de ninguém, é certo, nem devem ser, mais certo ainda. O fato é que, usualmente, fazem os outros de sparring e com muita frequência. Jogar garrafas em viatura é ruim, pior é sair distribuindo borrachada, socos e pontapés em gente que não jogou nada na viatura. Quebra da ordem pública maior me parece ser o que acontece nos gabinetes acarpetados e lá a polícia não baixa o cacete em ninguém, até pelo contrário, muitas vezes. Manter a ordem pública é correto e bom, mas não se faz isso com porrada, muito pelo contrário. O fato de alguém tecer comentários e/ou análises e/ou críticas a determinados aspectos de uma cidade não o faz inimigo da cidade. Pensar e/ou dizer isso é estultice, burrice mesmo. Pode deixar que me mudarei assim que possível, mas não para o Rio, de onde vim, ou para a Bahia. Meu destino é outro. De todo modo, obrigado pelo comentário, ainda que seja (ou pareça) um tanto tosco.

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