sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

Ornitorrincos urbanos


Na rua, passa um sujeito com grande parte do corpo pintada (tatuada) e um troço de metal no nariz, parecia uma argola, ou quem sabe algo semelhante, não sei. Fico imaginando o porquê daquele negócio cravado no nariz. Revolta juvenil eternizada por estigmas corporais? Agressividade visual inegável. Mas não me parece claro se por uma representação agressiva “em si” ou se por uma ausência de sentido em usar aquilo, conjugado ao corpo pintado. Talvez ambas as coisas, pois são os fatores típicos que se encontram no sentido da aparência não do selvagem “em si” (cuja representação desliza, escapa e não encontra base de apoio), mas do selvagem simbólico – selvagem muito bem civilizado, adepto da desordem ordenada da pós-modernidade. Selvagem que não conhece selva além da urbana e que não tem a pureza do personagem do Admirável Mundo Novo, de Huxley. Selvageria simulada. Desobediência obediente.

Esses tipos de tipologia prosaica lembram os ornitorrincos no que diz respeito à sua hibridação. O ornitorrinco é uma ave, um réptil e um mamífero ao mesmo tempo, põe ovos, alimenta as crias com leite materno, tem bico de pato e membranas interdigitais, anda em terra e mergulha com igual facilidade. Os tipos urbanos de que tratamos também apresentam uma inequívoca hibridação que muitas vezes se apresenta sob a forma de uma manifesta confusão de signos e sentidos unidos numa só personalidade e num só corpo. Tudo indica que experimentam algum prazer nisso, pois os tipos vão se esmerando na experiência da deformidade corporal. Há quem além de tatuar todo o corpo e de enfiar metais aqui e ali, ainda fura o lóbulo da orelha e alarga o furo até o limite, sabe-se lá por quê. Isso sem contar com quem faz implantes diversos, de seios ou bunda de silicone a chifres.

Essa constituição estética bizarra parece se fazer com base em conhecimentos geralmente obtidos nos meios de comunicação de massa ou indicados por inspiração nestes. O curioso é que o pessoal que se traveste desse modo costuma abominar os meios de comunicação de massa. Melhor: dizem que abominam, pois tudo indica que os veneram.

O mesmo ocorre em relação à lei. Em tese, são transgressores, mas, e na prática? É como dizia Baudrillard: “É preciso acreditar perdidamente na lei para a transgredir”. E esses ornitorrincos urbanos vivem e se alimentam dessa dualidade para extrair os fundamentos de sua própria subjetividade. Assim, são mais nomeados do que nomeiam. Trata-se, aparentemente, de um clássico e épico caso daqueles descritos por Anna Freud como “identificação com o agressor”: “se ele não gosta de mim, vou mostrar que não gosto dele também”. Ou: “Ele me trata como um monstro, então vou ser um monstro bem feio”. Crianças...

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