quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

A cultura nossa de cada dia: para além do sabonete


Ando pela rua e entendo que todos em minha volta sonham. Eu também sonho. O tempo inteiro, praticamente inteiro, sonhamos. Não apenas dormindo ou depois do almoço, quando os olhos vão longe sem ir a lugar nenhum e o pensamentos chega à praia do devaneio. Digo que sonhamos durante a maior parte de nossa vida. Mais: que nosso olhar, nossa audição, tato etc., captam sentidos que estão determinados pela capa onírica com a qual nos embrulhamos para tentar decodificar tudo o que nos habita e cerca.

Isso que chamamos genericamente de “cultura” é o sonho que sonhamos coletiva e individualmente. Por essa lógica é que podemos dizer que não há ninguém, nenhuma pessoa, nenhum ente ou ser humano que não “possua cultura”. Não há, definitivamente. Talvez a única objeção a fazer seja relativa ao verbo “possuir” posto antes do conceito de “cultura”. É preciso, antes de qualquer ação, entender que a cultura nos fala, como sugeria Lévi-Strauss, logo nos possui em grande medida, provavelmente muito mais do que a maioria de nós a possui.

A cultura é determinante no que diz respeito ao que pensamos de nós, à imagem que julgamos nos constituir, ao discurso que arquitetamos para nos significar a nosso gosto e também ao discurso que é arquitetado para nos decodificar ao gosto dos outros sujeitos. Se nós a tomamos para nós, incorporando inúmeros objetos que nos são apresentados desde a mais tenra fase de nossa vida, isso significa que ela nos incorpora a ela graças a seus códigos, através de seus signos, de seus ícones, índices e símbolos.

Certezas especulares

A luta perene que nos marcará por toda a existência inicia cedo: invadidos pela cultura, sujeitos a ela, mas absolutamente dependentes dessa invasão, passamos boa parte do tempo lutando para criar uma fala singular, a “nossa” fala, combatendo a força cultural, que tenta nos calar para falar por nossa boca e que, na maior parte dos casos, consegue isso com mestria. Isso não é fácil, principalmente numa cultura dita “de massa”, ou seja, um discurso significativamente atrativo e atraente que nos tenta convencer a mergulhar acriticamente no burburinho urbano, flutuar entre suas melodias rudes e imagens dantescas como tudo isso fosse puramente “a” realidade, a única possível e desejável.

Há um outro lado, porém, o “nosso” lado. Como em um espelho, somos nós, nossa identidade, o reflexo de algo que nos abarca e adentra. Estamos aqui, mas também estamos lá, no reflexo que projetamos no espelho que nos projeta. Jogo especular no qual a verdade escapa no ricochetear dos signos. E, em meio a todo esse tamborilar de sentidos, essa maravilhosa sala de espelhos (que produz confusão, mas nos introduz numa infinita riqueza semiótica) costuma ser ocluída pela interpolação de receptores de comando que emitem mensagens claras e semioticamente pobres (as grandes mídias de informação e entretenimento), ainda há quem se julgue absolutamente senhor de si. Isso só ocorre pela via da simulação, no desfalecimento no insosso nirvana da mediocridade.

Cultura e entretenimento

Há alguns anos, escrevi um texto curto para publicação no sítio “Overmundo”. O título era “Cultura não é entretenimento”. O que me levou a escrevê-lo, naquela época, foi a percepção de que sempre que os meios de comunicação, as mídias diversas, falavam em cultura, a associavam a diversão, boa conversa com os amigos, música em ambiente agradável, bar com música, shows, leituras instigantes etc. Cultura não é isso, ou não é apenas isso, que não passa da casca dourada, do papel no qual as manifestações culturais diversas têm sido embrulhadas.

Procurei, naquele artigo, dizer que compreendia, e ainda compreendo, essa variação “industrial” da cultura como mais uma parte “anticultura” da cultura do que como algo que a componha de forma integrada (embora os “anti” e “contras” sejam marginalmente bem integrados e, não raro, os “pró” e “hiper” possam levar o arranjo cultural ao risco de dissolução). Algo como um câncer, uma grave neoplasia semiótica (uma proliferação alucinante de signos e sentidos repetitivos e monocórdicos). Em outros termos, pretendi (e ainda pretendo) afirmar que a redução da cultura ao entretenimento é embrutecedora e emburrecedora. Simplesmente porque toma uma parte (a que interessa à indústria) pelo todo.

Maiakovski

Cultura é sabonete?

O entretenimento da cultura de massa é a cultura sem cultura, industrial, sabonete que lava toda e qualquer “sujeira” cultural. Sim, porque a cultura é suja, tem suas imundices, ranhuras e arranhões, cheiros e cores nem sempre agradáveis, sons às vezes nada maviosos e, pior, ocorre de não apenas suar: também sangra. A massa não suporta isso, o medíocre gosta de estar sempre com boa aparência e de banho tomado. Por isso adora o entretenimento, precisa dele como o desinfetante que o livrará do odor da própria vida.

O artigo em questão finda com um trecho do poema “A Sierguéi Iessiênin”, de Vladimir Maiakovski. Para mim, os versos esclarecem de forma notável a diferenciação básica entre a passividade do consumidor do entretenimento e a postura ativa e guerreira necessária no embate cotidiano da cultura, própria daquele que não se contenta com a subjetividade de massa, buscando a singularidade. Segue, abaixo, o trecho:

Primeiro é preciso transformar a vida, para cantá-la em seguida.

Os tempos estão duros para o artista:

Mas, dizei-me, anêmicos e anões, os grandes, onde, em que ocasião, escolheram uma estrada batida?

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Curiosidade: As tradicionais “soap operas” (operas de sabonete), que correspondem às telenovelas de hoje, nasceram na metade do século XX nos Estados Unidos. Transmitidas na hora do almoço, eram destinadas às donas-de-casa e tinham patrocínio de produtos de beleza, basicamente sabonetes.

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