quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

Alguns PMs são punidos por besteiras diversas, enquanto outros cumprem ordens legais, mas injustas, e merecem elogios

Meu dia informativo começa com a notícia da punição de quatro policiais militares de Santa Catarina que foram fotografados num momento de descontração, na rua, em frente ao Mercado Público de Florianópolis. Um deles simulava “encoxar” uma escultura de vaca que parece fazer parte de uma tal de Cow Parade, uma exposição de vacas de fibra de vidro. Segundo matéria lida no sítio do Yahoo!, os coitados foram identificados e afastados. E mais, nem recente o fato é, pois aconteceu há três meses.

Que os PMs sejam identificados pela corporação, que até o capitão, o coronel ou sei lá mais quem os chame e diga que isso não se faz, que vai abrir processo administrativo contra os quatro, que vão levar uma advertência, tudo bem. Espero que seja isso que vá acontecer e é claro que não vai passar disso, se chegar a tanto. Fora o sujeito estar de farda (o que evoca a instituição policial, cujos próceres certamente não devem ter gostado de vê-la representada nas circunstâncias em questão), não há nada de mais na brincadeira. Pode não ser de bom gosto, mas não é nenhuma grave afronta moral ou ética.

Usar a farda demanda ética

Não fico surpreso com outras reclamações em relação à polícia, não mesmo. A carioca, por exemplo, tem se caracterizado pela crueldade e pela sempre falada, mas nunca efetivamente exposta e comprovada, corrupção quase generalizada. A paulista está num momento de linchamento, por conta das atrocidades de Pinheirinho. Atrocidades que não foram apenas policiais, é claro. A paranaense não parece tão feroz, mas me revolta e me entristece a falta de respeito com a qual aborda cidadãos que moram, trabalham ou simplesmente passam pela rua, agressões gratuitas que presencio frequentemente. Parece que os policiais acham que têm que ter cara feia e tratar meio mundo na porrada para ser respeitados. Mal sabem que conseguem exatamente o oposto.

Se a Polícia Militar de qualquer estado quer se mostrar digna de respeito, precisa educar o soldado que trata mal a população, notadamente a de aparência mais simples, o policial que atira primeiro para depois perguntar o que houve e o que se acha acima do bem e do mal simplesmente pelo uso da farda. Precisa, também, exigir respeito do policial nos casos em que o detido já estiver algemado ou imobilizado. Espancar alguém assim é covardia e das mais porcas, seja o caso de um punguista, de um assassino profissional ou de um traficante internacional de drogas. Se esses policiais se sentem potentes de farda, precisam compreender que usá-la implica em uma opção pela dignidade e, acima de tudo, pela ética. A farda, no fim das contas, exige mais deveres do que presenteia com direitos.

Há boas pessoas na polícia

Ser selvagem é a regra geral (ainda mais sob a égide do neoliberalismo, sistema filho do fracassado liberalismo que insiste, matreira e de forma oportunista, em se manifestar periodicamente e a se anunciar como solução definitiva para os problemas econômicos humanos, quando não costuma solucionar nada, pelo contrário). É muito fácil adotar a selvageria. O desafio, o difícil, é ser civilizado. A polícia (seja militar, civil ou federal) bem poderia dar o exemplo. Mas, tudo indica, até que se prove o contrário, que isso tem sido pedir demais.

É claro que há boas e más pessoas na polícia, assim como em todas as profissões. Porém, entendo que a instituição policial tem se mostrado anômica e fundamentalmente lida com o discurso da hipocrisia. Não consigo conceber a polícia sem referir a defesa da propriedade privada (da grande propriedade privada, leia-se, vide Pinheirinho) e dos privilégios da nobreza ou do capital. Isso sem esquecer a polícia estadunidense da primeira metade do século XX, que estava quase que integralmente nos bolsos de Al Capone e seus colegas. Mas entendo também, reitero, que há boas, excelentes pessoas na corporação. Se isso provavelmente não basta para mudar as coisas na polícia, pelo menos pode tornar mais brandos alguns problemas causados por esta.

Punições excessivas

O que é interessante é que ouvi e li gente bastante indignada com o ato do policial, como se o dito tivesse cometido um crime sexual terrível, como se estivesse efetivamente copulando com a vaca sintética (ora, a condenação, nesse caso, seria de atentado violento ao pudor, certo, mas principalmente de mau gosto, devendo o infrator ser tratado psicologicamente). Exagero baseado na obsessão punitiva que certas pessoas manifestam patologicamente. É a síndrome do “isso é uma vergonha”, imortalizado por um jornalista algo sensacionalista e, logo, algo irresponsável, que muito falava em impunidade quando apresentava um telejornal, mas explicitamente tratava com simpatia as peripécias do governo federal, aquele de FHC, da privataria etc.

Proponho que se reflita sobre o fato de que esta tal sociedade ocidental na qual vivemos tem se estruturado de tal forma que simplesmente estar dentro dela já se constitui uma punição.

Hipocrisia e ironia

Acabo de ler sobre os “encoxadores” de vacas de fibra de vidro e passo em frente a um jornal velho. Vejo a imagem de dois policiais militares, desta vez no Paraná, bebendo cerveja na rua, em meio a passantes... de farda. Para mim, parece claro que beber em serviço é bem mais grave do que brincar com vacas sintéticas. Numa sentença: os policiais militares estavam consumindo drogas em plena rua. Drogas, note-se, com todas as letras. Álcool, mesmo em forma da simpática “cervejinha” é D-R-O-G-A e as meninas ao lado também estão usando, mas usar essa droga é normalíssimo e ninguém repara. E olhe que é uma droga mais pernóstica e deletéria do que outras que são proibidas.

Proponho uma ação drástica: ou acabamos com a hipocrisia da proibição, que enriquece traficantes e banqueiros, ou vamos proibir também a tal “cervejinha”, que causa tantos ou mais problemas do que as outras drogas tão mal faladas e ainda por cima tem um sabor horrível, causa bafo desagradável a quem a consome e ainda gera dores morais diversas. Mas, ainda acho que proibir só leva a piorar as coisas, vide a Lei Seca nos Estados Unidos.

É claro que policial bebe, afinal todo mundo, ou quase, bebe. Já escrevi aqui que um ex-policial militar me disse, em 2004, no Rio, que os PMs de lá não apenas bebiam, mas cheiravam muita cocaína também. Alguns, é claro, pensei, mas, segundo a fonte, muitos. Isso sendo verídico, o fato sugere que a polícia militar combate a droga não para tirá-la de circulação, mas para restringir sua circulação entre as suas hostes. Ironia? Não exatamente. Difícil confundir o discurso do hipócrita com o do irônico.

Só para telejornal noticiar

Na verdade, todas essas punições anunciadas a policiais não parecem mais do que alimento para a volúpia sensacionalista e de apelo sinistro e punitivo das empresas jornalísticas. Os encoxadores de vacas do ridículo Cow Parade e os mamadores de latas de cervejas paranaenses não vão levar mais do que uma puxada de orelhas branda, uma palmadinha de mãe no bumbum. Também, não merecem mais do que isso pelo que fizeram. Além do mais, sabe-se lá, podem ser chefes de família e poderiam ser mais venenosos para a sociedade fora da guarnição. Quem sabe?

O anúncio punitivo é apenas para telespectador ver e saber que a instituição policial merece respeito, o respeito que, digo novamente, não tem merecido em muitas de suas ações. Trata-se de apenas mais uma atração da sociedade do espetáculo, que tudo ingere e tudo evacua pelas vias do discurso da imprensa absolutamente parcial e completamente subjetiva.

Além do mais, os policiais que mais merecem reprimendas e punições são os que cumpriram a ordem de desocupação da comunidade de Pinheirinho, em São Paulo. Mas a estes ninguém repreenderá ou punirá: estavam cumprindo ordens, ordens judiciais. E por mais injustas ou insanas que sejam essas ordens, devem ser cumpridas pelos soldados. Afinal, para isso servem os soldados. E apenas por isso são elogiados.

Finalmente, a ironia fica por conta de uma certa reversão de papéis. Se tradicionalmente a polícia é a que vigia, fotografa e filma a população, com o advento da miraculosa tecnologia de produção e reprodução de imagens, junto à rede de informações conhecida como web, o foco ficou invertido. É a população que vigia a polícia.
 
E mais irônico ainda é ver que os colegas do encoxador de vacas sintéticas o fotografavam.

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