sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

Ornitorrincos urbanos


Na rua, passa um sujeito com grande parte do corpo pintada (tatuada) e um troço de metal no nariz, parecia uma argola, ou quem sabe algo semelhante, não sei. Fico imaginando o porquê daquele negócio cravado no nariz. Revolta juvenil eternizada por estigmas corporais? Agressividade visual inegável. Mas não me parece claro se por uma representação agressiva “em si” ou se por uma ausência de sentido em usar aquilo, conjugado ao corpo pintado. Talvez ambas as coisas, pois são os fatores típicos que se encontram no sentido da aparência não do selvagem “em si” (cuja representação desliza, escapa e não encontra base de apoio), mas do selvagem simbólico – selvagem muito bem civilizado, adepto da desordem ordenada da pós-modernidade. Selvagem que não conhece selva além da urbana e que não tem a pureza do personagem do Admirável Mundo Novo, de Huxley. Selvageria simulada. Desobediência obediente.

Esses tipos de tipologia prosaica lembram os ornitorrincos no que diz respeito à sua hibridação. O ornitorrinco é uma ave, um réptil e um mamífero ao mesmo tempo, põe ovos, alimenta as crias com leite materno, tem bico de pato e membranas interdigitais, anda em terra e mergulha com igual facilidade. Os tipos urbanos de que tratamos também apresentam uma inequívoca hibridação que muitas vezes se apresenta sob a forma de uma manifesta confusão de signos e sentidos unidos numa só personalidade e num só corpo. Tudo indica que experimentam algum prazer nisso, pois os tipos vão se esmerando na experiência da deformidade corporal. Há quem além de tatuar todo o corpo e de enfiar metais aqui e ali, ainda fura o lóbulo da orelha e alarga o furo até o limite, sabe-se lá por quê. Isso sem contar com quem faz implantes diversos, de seios ou bunda de silicone a chifres.

Essa constituição estética bizarra parece se fazer com base em conhecimentos geralmente obtidos nos meios de comunicação de massa ou indicados por inspiração nestes. O curioso é que o pessoal que se traveste desse modo costuma abominar os meios de comunicação de massa. Melhor: dizem que abominam, pois tudo indica que os veneram.

O mesmo ocorre em relação à lei. Em tese, são transgressores, mas, e na prática? É como dizia Baudrillard: “É preciso acreditar perdidamente na lei para a transgredir”. E esses ornitorrincos urbanos vivem e se alimentam dessa dualidade para extrair os fundamentos de sua própria subjetividade. Assim, são mais nomeados do que nomeiam. Trata-se, aparentemente, de um clássico e épico caso daqueles descritos por Anna Freud como “identificação com o agressor”: “se ele não gosta de mim, vou mostrar que não gosto dele também”. Ou: “Ele me trata como um monstro, então vou ser um monstro bem feio”. Crianças...

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

Polícia Militar surra até bloco de sacis em Curitiba


Outro dia, no domingo, dia 5 de fevereiro, a histórica e gloriosa Polícia Militar do Paraná surrou e alvejou, com bombas de gás lacrimogênio e balas de borracha, um grupo de foliões curitibanos que acompanhavam um bloco carnavalesco, aliás, pré-carnavalesco, chamado curiosamente de Garibaldis e Sacis. Segundo versões da polícia, tudo teria começado quando na passagem da “viatura” pedras, e até mesmo uma garrafa, haveriam sido atiradas. Os policiais se sentiram ultrajados, alegadamente revoltados com a tentativa, por parte de meia dúzia de supostos baderneiros, de macular a honra da instituição, pediram reforços e partiram para a porrada, com a vantagem de usar farda e estar portando armas de fogo, espingardas que lançam bombas de dispersão e cassetetes. E pior: tudo indica que seu ultraje se estendeu contra todos, não apenas contra os tais baderneiros que lhes atiraram pedras e uma garrafa.

Uma parte da cidade apoiou e até mesmo “curtiu” a intervenção da PM. “Aquilo é um monte de vagabundo!”, exclama-se. Ora, a tese não é válida, pois havia milhares de pessoas ali, incluindo os famosos “chefes de família” e trabalhadores de folga, não apenas vagabundos. Além do mais, a classificação genérica de “vagabundos” não serve para nada num domingo de verão. Em tese, todos são ou estão vagabundos nessas condições.
 No próximo domingo, há quem torça para que a PM use bombas de água benta, cassetetes com choque para convulsões beatíficas e hóstias de borracha. E dão vivas para a sagrada corporação que está livrando a cidade sorriso das caretas carnavalescas do diabo!
Há os que tentam compreender e explicar os atos desvairados dos policiais com base no fato de terem recebido uma garrafada na “viatura”. A tese é um pouco mais elaborada do que a primeira e pode ser aceita para explicar a reação inicial dos policiais. Incorre no problema de que a continuidade das ações dos agentes da lei certamente não conseguirá ser justificada pela garrafada. As imagens de filmes, fotos e testemunhos garantem que a ação repressiva passou dos limites da resposta à agressão de poucos. Para a polícia, todos os milhares de pessoas ali presentes, fossem homens, mulheres, velhos ou crianças, passaram a ser agressores ou potenciais agressores e, nessa lógica insana, mereceram porradas, bombas e balas de borracha. Uma reação cheia de ódio em resposta ao ódio que boa parte da população cada vez nutre pela polícia.

O que está claro é que a população não anda morrendo de amores pelas fardas policiais. Também, trata-se de uma profissão naturalmente não sujeita a grandes amores e os policiais também não têm merecido muito respeito, quanto mais amor – tomando em conta fatos recentes como o ocorrido em Pinheirinho, na cidade de São José dos Campos (SP), fora outros que a memória registra.

O que fica de interessante e mesmo de divertido em tudo isso é observar como acontecimentos como esse puxam para fora o pus da cultura, revelando aspectos não muito belos nem muito perfumados da subjetividade citadina. Alguém disse no Facebook que o fato de não haver carnaval em Curitiba deve-se à origem europeia dos habitantes da cidade. Outro disse, com pompa, que a cidade é de primeiro mundo e não precisa de carnaval que, segundo ele deixa sugerido, seria uma festa de terceiro mundo, quase fica dito que de gente pobre e feia. O sujeito em questão acaba vítima da mesma piada que alguns dedicam aos argentinos: pode proporcionar um lucro astronômico se comprado pelo que vale e vendido pelo que acredita valer.
Quem sabe se deva entender que Curitiba não se pode demonstrar alegria. Festa tem que ser escondida, de preferência em porões, com todo mundo vestido de preto ou usando exóticos disfarces importados de culturas supostamente mais desenvolvidas. A felicidade curitibana ri comedidamente e, quando quer “se soltar”, procura os bares, as vielas escuras e requer bastante álcool
Houve ainda a cidadã que afirmou apoiar, com ênfase, o papelão policial, simplesmente porque o Largo da Ordem, local do conflito, está cheio de maconheiros. Tá bom, então está justificado. O que estragou tudo foi descobrir que a tal digna cidadã toma diariamente dose bem servida de um certo benzodiazepínico. Ela não é maconheira, embora o remédio lhe cause efeito semelhante ao da “erva”. Tudo questão de nomes, do lugar que se frequenta e das companhias com que se anda, somado a uma receita com o aval médico para se drogar. Com uma boa dose de hipocrisia tudo é possível e aceitável neste mundo.



Intervenção beatífica

A maior parte das pessoas, é claro, condena veementemente a ação da polícia. Aliás, nesses casos condenar é fácil e cômodo, faz parte da moda e não quer dizer muito. É preciso conceber que sempre que a polícia passava no local era vaiada e recebia uma saraivada de objetos na “viatura”, segundo fontes confiáveis. Ora, policial não é nenhum exemplo de cortesia, salvo casos esparsos e produzidos pela imprensa. Se você provoca essa fera, pode esperar o retorno com o dobro de maldade. Foi o que parece ter acontecido.

Isso, é claro, permite entender melhor o fato, mas não justifica a barbárie da polícia, que, eu próprio já presenciei, bate e atira em todo mundo que se mexe em sua frente nesses casos. O que há é uma conjuntura na qual a polícia está claramente contra a população e esta contra a polícia. A diferença que separa uma de outra é a mesma que separa palestinos e judeus na Faixa de Gaza: enquanto uns usam pedras e estilingues, os outros respondem com bombas e armas de grosso calibre.

O destaque do festival de asneiras ditas relativamente ao conflito do bloco carnavalesco contra a Polícia Militar (o bloco se chama Garibaldis e Sacis(confesso que não sei o porquê) vai para a ala conservadora, a que acredita que o carnaval é efetivamente a festa do diabo. Para essa gente, a PM foi praticamente uma tropa de cruzados encarregados de lavar a honra da cidade com sangue e lágrimas (vide o gás de efeito moral). No próximo domingo, há quem torça para que a PM use bombas de água benta, cassetetes com choque para convulsões beatíficas e hóstias de borracha. E dão vivas para a sagrada corporação que está livrando a cidade sorriso das caretas carnavalescas do diabo!



Claro e escuro sem nuances

Para finalizar, entendo que ficam algumas interpretações especulativas com relação à subjetividade do lugar. Quem sabe se deva entender que Curitiba não pode ter carnaval às claras, não pode demonstrar alegria. Festa, em Curitiba, tem que ser escondida, de preferência em porões, com todo mundo vestido de preto ou usando exóticos disfarces importados de culturas supostamente mais desenvolvidas. Alegria, só se moderada e jamais em praça pública. A felicidade curitibana ri comedidamente e, quando quer “se soltar”, procura os bares, as vielas escuras e requer bastante álcool.

E isso não foi criado pela polícia. Isso faz parte da cultura da cidade. A mensagem principal é que não é possível ser feliz aqui sem beber, se drogar e sem parecer rebelde, “maloqueiro” e um tanto mau. Ou melhor, é claro que é possível, mas boa parte das pessoas não entende isso e fica atada a uma cultura de opostos: ou a felicidade é boba, veste blazer, longo de formatura e é declaradamente romântica e crédula, ou usa rebites na roupa, pulseiras com espetos, piercings por onde for possível e tatuagens que preferencialmente devem cobrir a maior parte do corpo. Ou chega virgem ao casamento ou trepa em qualquer beco escuro. Ou é o filhinho do papai, advogado de renome, ou é vocalista numa banda punk que idolatra os esgotos, o sexo, as drogas e o “bom e velho” rock’n’roll. Não parece haver terceiro caminho, ou, sendo mais preciso, a cultura parece trabalhar todo o tempo para ocultá-lo. Ou você é careta, burguês, mauricinho ou patricinha ou é “maloqueiro”, “bandido”, “drogado” ou “puta”: não há meio termo, não se distingue um caminho do meio, uma via alternativa. O claro e o escuro parecem não ter nuances em Curitiba.

domingo, 5 de fevereiro de 2012

Vida!


Não soluce, busque a solução, disse o chefe para uma funcionária que chorava. Chefe é chefe, sabe a hora de dizer o que tem que ser dito, sussurrou seu colega da esquerda. É preciso vestir a camisa, disse outro. Todos juntos, venceremos!, exclamou um terceiro.

Das dez ao meio-dia, reunião para ouvir esporro. Ninguém escapa. Do diretor ao ponta-esquerda, do gandula à tia do café, a mijada é geral. Nada está certo, quando não está certo, nada está certo, quando está certo, pode melhorar, quando está bom demais.

Meio-dia, almoço com os colegas no lugar de sempre. Mesmas conversas, mesmo veneno ao falar dos ausentes. Olhadas para as coxas da morena da contabilidade, sorrisos para a chefe do atendimento. Com muita pressa, digestão por fazer, de volta à seção.

A vida começa cedo e termina tarde. Às seis, com atraso às sete, academia. Tudo de bom começar o dia respirando rápido, suando muito e ouvindo aquela música estridente. Pedala, pedala, pula, pula, pula, estica. Pronto. O apenado está pronto para mais um saudável dia de trabalho.

Depois do expediente, happy hour que ninguém é de ferro. Chopa que chopa, brinda que brinda em dias de brinde. Chope que chope e bate o copo na mesa nos dias de luto. Derrota do time, fora de amante, brochada, crise econômica, prestação atrasada, tudo é motivo, nesses dias, para tomar um porre. E lá se vai a noite.

Pedala, pula, corre, enfia o garfo na boca. Bebe, calcula, conspira, deixa cair o copinho de café. Entra no elevador, aperta a gravata, sorri para a secretária do diretor, come a colega da tesouraria. Estica, mastiga o bife, olha as coxas de outra, se esquece da hora do dentista. Mesmo bar, mesmos amigos, mesma música, mesma tonteira agradável, muito álcool. De vez em quando uma trepada, encoxadas sempre, apertadas, banheiros sujos, vielas de boquetes baldios e o zíper da calça às vezes emperra.

Vai ter promoção, oba! Morreu o chefe do departamento de pessoal, Deus o tenha. Conversas veladas, sussurros cifrados, ataques frontais, está declarada a guerra. Símios ferozes galgando as mesas, sérios profissionais esfaqueando pelas costas, dentes de sabre rasgando espaço até a mesa do chefe. De lá, como no milagre da vida, um será o escolhido e reinará no RH.

Seu nome é lembrado, é o mais preparado, tem curriculum. O chefe lhe bate nas costas. As nuvens claras rompem o horizonte, ele está entre elas e atribui o sucesso à sua dedicação. Eu visto a camisa, exclama. De uma hora para outra, tudo muda. Seus colegas o cumprimentam, a secretária do diretor lhe sorri pela manhã e às vezes surgem salgadinhos e doces em sua mesa, com um copo de café quente para acompanhar.

Sexta, pode sair a escolha. Sexta, se baterá o martelo, exclama a programadora sênior. Mas não sai, não se bate nada. Passa uma semana e ninguém mais lhe deixa salgadinhos ou doces, nem sequer lhe convidam para o café. No almoço, quando chega deixa todos mudos. Se está sozinho, assim fica até a sobremesa. Na noite, o constrangimento é geral.

No sábado, expediente extra. Não vai à academia, não faz a barba. Cumpre os ritos e não entende por que fazer no sábado o que poderia sem pressa, da melhor forma, perfeitamente, na segunda.

Na surpresa, almoço oferecido pela empresa. Coisa boa, coisa farta. No meio da comilança, levanta o chefe, adentra o presidente, todos levantam, ele estaca, fala, anuncia o novo chefe do RH, a surpresa é geral, pois é a morena de belas coxas da contabilidade a escolhida. Ele se perfila, cospe no terno do presidente e corre para voar longe no céu azul. Enfim, vida!

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

Augusto dos Anjos, “o poeta do hediondo”

Versos Íntimos

Vês! Ninguém assistiu ao formidável
Enterro de tua última quimera.
Somente a Ingratidão - esta pantera -
Foi tua companheira inseparável!


Acostuma-te à lama que te espera!
O Homem, que, nesta terra miserável,
Mora, entre feras, sente inevitável
Necessidade de também ser fera.


Toma um fósforo. Acende teu cigarro!
O beijo, amigo, é a véspera do escarro,
A mão que afaga é a mesma que apedreja.


Se a alguém causa inda pena a tua chaga,
Apedreja essa mão vil que te afaga,
Escarra nessa boca que te beija!



Psicologia de um vencido

Eu, filho do carbono e do amoníaco,
Monstro de escuridão e rutilância,
Sofro, desde a epigênesis da infância,
A influência má dos signos do zodíaco.


Profundíssimamente hipocondríaco,
Este ambiente me causa repugnância...
Sobe-me à boca uma ânsia análoga à ânsia
Que se escapa da boca de um cardíaco.


Já o verme — este operário das ruínas —
Que o sangue podre das carnificinas
Come, e à vida em geral declara guerra,


Anda a espreitar meus olhos para roê-los,
E há de deixar-me apenas os cabelos,
Na frialdade inorgânica da terra!



Solitário

Como um fantasma que se refugia
Na solidão da natureza morta,
Por trás dos ermos túmulos, um dia,
Eu fui refugiar-me à tua porta!

Fazia frio e o frio que fazia
Não era esse que a carne nos conforta...
Cortava assim como em carniçaria
O aço das facas incisivas corta!

Mas tu não vieste ver minha Desgraça!
E eu saí, como quem tudo repele,
-- Velho caixão a carregar destroços --

Levando apenas na tumba carcaça
O pergaminho singular da pele
E o chocalho fatídico dos ossos!


Idealismo

Falas de amor, e eu ouço tudo e calo
O amor na Humanidade é uma mentira.
E é por isto que na minha lira
De amores fúteis poucas vezes falo.

O amor! Quando virei por fim a amá-lo?!
Quando, se o amor que a Humanidade inspira
É o amor do sibarita e da hetaíra,
De Messalina e de Sardanapalo?

Pois é mister que, para o amor sagrado,
O mundo fique imaterializado
— Alavanca desviada do seu fulcro —

E haja só amizade verdadeira
Duma caveira para outra caveira,
Do meu sepulcro para o teu sepulcro?!


A ideia

De onde ela vem?! De que matéria bruta
Vem essa luz que sobre as nebulosas
Cai de incógnitas criptas misteriosas
Como as estalactites duma gruta?!


Vem da psicogenética e alta luta
Do feixe de moléculas nervosas,
Que, em desintegrações maravilhosas,
Delibera, e depois, quer e executa!

Vem do encéfalo absconso que a constringe,
Chega em seguida às cordas do laringe,
Tísica, tênue, mínima, raquítica ...

Quebra a força centrípeta que a amarra,
Mas, de repente, e quase morta, esbarra
No mulambo da língua paralítica.

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

A cultura nossa de cada dia: para além do sabonete


Ando pela rua e entendo que todos em minha volta sonham. Eu também sonho. O tempo inteiro, praticamente inteiro, sonhamos. Não apenas dormindo ou depois do almoço, quando os olhos vão longe sem ir a lugar nenhum e o pensamentos chega à praia do devaneio. Digo que sonhamos durante a maior parte de nossa vida. Mais: que nosso olhar, nossa audição, tato etc., captam sentidos que estão determinados pela capa onírica com a qual nos embrulhamos para tentar decodificar tudo o que nos habita e cerca.

Isso que chamamos genericamente de “cultura” é o sonho que sonhamos coletiva e individualmente. Por essa lógica é que podemos dizer que não há ninguém, nenhuma pessoa, nenhum ente ou ser humano que não “possua cultura”. Não há, definitivamente. Talvez a única objeção a fazer seja relativa ao verbo “possuir” posto antes do conceito de “cultura”. É preciso, antes de qualquer ação, entender que a cultura nos fala, como sugeria Lévi-Strauss, logo nos possui em grande medida, provavelmente muito mais do que a maioria de nós a possui.

A cultura é determinante no que diz respeito ao que pensamos de nós, à imagem que julgamos nos constituir, ao discurso que arquitetamos para nos significar a nosso gosto e também ao discurso que é arquitetado para nos decodificar ao gosto dos outros sujeitos. Se nós a tomamos para nós, incorporando inúmeros objetos que nos são apresentados desde a mais tenra fase de nossa vida, isso significa que ela nos incorpora a ela graças a seus códigos, através de seus signos, de seus ícones, índices e símbolos.

Certezas especulares

A luta perene que nos marcará por toda a existência inicia cedo: invadidos pela cultura, sujeitos a ela, mas absolutamente dependentes dessa invasão, passamos boa parte do tempo lutando para criar uma fala singular, a “nossa” fala, combatendo a força cultural, que tenta nos calar para falar por nossa boca e que, na maior parte dos casos, consegue isso com mestria. Isso não é fácil, principalmente numa cultura dita “de massa”, ou seja, um discurso significativamente atrativo e atraente que nos tenta convencer a mergulhar acriticamente no burburinho urbano, flutuar entre suas melodias rudes e imagens dantescas como tudo isso fosse puramente “a” realidade, a única possível e desejável.

Há um outro lado, porém, o “nosso” lado. Como em um espelho, somos nós, nossa identidade, o reflexo de algo que nos abarca e adentra. Estamos aqui, mas também estamos lá, no reflexo que projetamos no espelho que nos projeta. Jogo especular no qual a verdade escapa no ricochetear dos signos. E, em meio a todo esse tamborilar de sentidos, essa maravilhosa sala de espelhos (que produz confusão, mas nos introduz numa infinita riqueza semiótica) costuma ser ocluída pela interpolação de receptores de comando que emitem mensagens claras e semioticamente pobres (as grandes mídias de informação e entretenimento), ainda há quem se julgue absolutamente senhor de si. Isso só ocorre pela via da simulação, no desfalecimento no insosso nirvana da mediocridade.

Cultura e entretenimento

Há alguns anos, escrevi um texto curto para publicação no sítio “Overmundo”. O título era “Cultura não é entretenimento”. O que me levou a escrevê-lo, naquela época, foi a percepção de que sempre que os meios de comunicação, as mídias diversas, falavam em cultura, a associavam a diversão, boa conversa com os amigos, música em ambiente agradável, bar com música, shows, leituras instigantes etc. Cultura não é isso, ou não é apenas isso, que não passa da casca dourada, do papel no qual as manifestações culturais diversas têm sido embrulhadas.

Procurei, naquele artigo, dizer que compreendia, e ainda compreendo, essa variação “industrial” da cultura como mais uma parte “anticultura” da cultura do que como algo que a componha de forma integrada (embora os “anti” e “contras” sejam marginalmente bem integrados e, não raro, os “pró” e “hiper” possam levar o arranjo cultural ao risco de dissolução). Algo como um câncer, uma grave neoplasia semiótica (uma proliferação alucinante de signos e sentidos repetitivos e monocórdicos). Em outros termos, pretendi (e ainda pretendo) afirmar que a redução da cultura ao entretenimento é embrutecedora e emburrecedora. Simplesmente porque toma uma parte (a que interessa à indústria) pelo todo.

Maiakovski

Cultura é sabonete?

O entretenimento da cultura de massa é a cultura sem cultura, industrial, sabonete que lava toda e qualquer “sujeira” cultural. Sim, porque a cultura é suja, tem suas imundices, ranhuras e arranhões, cheiros e cores nem sempre agradáveis, sons às vezes nada maviosos e, pior, ocorre de não apenas suar: também sangra. A massa não suporta isso, o medíocre gosta de estar sempre com boa aparência e de banho tomado. Por isso adora o entretenimento, precisa dele como o desinfetante que o livrará do odor da própria vida.

O artigo em questão finda com um trecho do poema “A Sierguéi Iessiênin”, de Vladimir Maiakovski. Para mim, os versos esclarecem de forma notável a diferenciação básica entre a passividade do consumidor do entretenimento e a postura ativa e guerreira necessária no embate cotidiano da cultura, própria daquele que não se contenta com a subjetividade de massa, buscando a singularidade. Segue, abaixo, o trecho:

Primeiro é preciso transformar a vida, para cantá-la em seguida.

Os tempos estão duros para o artista:

Mas, dizei-me, anêmicos e anões, os grandes, onde, em que ocasião, escolheram uma estrada batida?

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Curiosidade: As tradicionais “soap operas” (operas de sabonete), que correspondem às telenovelas de hoje, nasceram na metade do século XX nos Estados Unidos. Transmitidas na hora do almoço, eram destinadas às donas-de-casa e tinham patrocínio de produtos de beleza, basicamente sabonetes.

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

Alguns PMs são punidos por besteiras diversas, enquanto outros cumprem ordens legais, mas injustas, e merecem elogios

Meu dia informativo começa com a notícia da punição de quatro policiais militares de Santa Catarina que foram fotografados num momento de descontração, na rua, em frente ao Mercado Público de Florianópolis. Um deles simulava “encoxar” uma escultura de vaca que parece fazer parte de uma tal de Cow Parade, uma exposição de vacas de fibra de vidro. Segundo matéria lida no sítio do Yahoo!, os coitados foram identificados e afastados. E mais, nem recente o fato é, pois aconteceu há três meses.

Que os PMs sejam identificados pela corporação, que até o capitão, o coronel ou sei lá mais quem os chame e diga que isso não se faz, que vai abrir processo administrativo contra os quatro, que vão levar uma advertência, tudo bem. Espero que seja isso que vá acontecer e é claro que não vai passar disso, se chegar a tanto. Fora o sujeito estar de farda (o que evoca a instituição policial, cujos próceres certamente não devem ter gostado de vê-la representada nas circunstâncias em questão), não há nada de mais na brincadeira. Pode não ser de bom gosto, mas não é nenhuma grave afronta moral ou ética.

Usar a farda demanda ética

Não fico surpreso com outras reclamações em relação à polícia, não mesmo. A carioca, por exemplo, tem se caracterizado pela crueldade e pela sempre falada, mas nunca efetivamente exposta e comprovada, corrupção quase generalizada. A paulista está num momento de linchamento, por conta das atrocidades de Pinheirinho. Atrocidades que não foram apenas policiais, é claro. A paranaense não parece tão feroz, mas me revolta e me entristece a falta de respeito com a qual aborda cidadãos que moram, trabalham ou simplesmente passam pela rua, agressões gratuitas que presencio frequentemente. Parece que os policiais acham que têm que ter cara feia e tratar meio mundo na porrada para ser respeitados. Mal sabem que conseguem exatamente o oposto.

Se a Polícia Militar de qualquer estado quer se mostrar digna de respeito, precisa educar o soldado que trata mal a população, notadamente a de aparência mais simples, o policial que atira primeiro para depois perguntar o que houve e o que se acha acima do bem e do mal simplesmente pelo uso da farda. Precisa, também, exigir respeito do policial nos casos em que o detido já estiver algemado ou imobilizado. Espancar alguém assim é covardia e das mais porcas, seja o caso de um punguista, de um assassino profissional ou de um traficante internacional de drogas. Se esses policiais se sentem potentes de farda, precisam compreender que usá-la implica em uma opção pela dignidade e, acima de tudo, pela ética. A farda, no fim das contas, exige mais deveres do que presenteia com direitos.

Há boas pessoas na polícia

Ser selvagem é a regra geral (ainda mais sob a égide do neoliberalismo, sistema filho do fracassado liberalismo que insiste, matreira e de forma oportunista, em se manifestar periodicamente e a se anunciar como solução definitiva para os problemas econômicos humanos, quando não costuma solucionar nada, pelo contrário). É muito fácil adotar a selvageria. O desafio, o difícil, é ser civilizado. A polícia (seja militar, civil ou federal) bem poderia dar o exemplo. Mas, tudo indica, até que se prove o contrário, que isso tem sido pedir demais.

É claro que há boas e más pessoas na polícia, assim como em todas as profissões. Porém, entendo que a instituição policial tem se mostrado anômica e fundamentalmente lida com o discurso da hipocrisia. Não consigo conceber a polícia sem referir a defesa da propriedade privada (da grande propriedade privada, leia-se, vide Pinheirinho) e dos privilégios da nobreza ou do capital. Isso sem esquecer a polícia estadunidense da primeira metade do século XX, que estava quase que integralmente nos bolsos de Al Capone e seus colegas. Mas entendo também, reitero, que há boas, excelentes pessoas na corporação. Se isso provavelmente não basta para mudar as coisas na polícia, pelo menos pode tornar mais brandos alguns problemas causados por esta.

Punições excessivas

O que é interessante é que ouvi e li gente bastante indignada com o ato do policial, como se o dito tivesse cometido um crime sexual terrível, como se estivesse efetivamente copulando com a vaca sintética (ora, a condenação, nesse caso, seria de atentado violento ao pudor, certo, mas principalmente de mau gosto, devendo o infrator ser tratado psicologicamente). Exagero baseado na obsessão punitiva que certas pessoas manifestam patologicamente. É a síndrome do “isso é uma vergonha”, imortalizado por um jornalista algo sensacionalista e, logo, algo irresponsável, que muito falava em impunidade quando apresentava um telejornal, mas explicitamente tratava com simpatia as peripécias do governo federal, aquele de FHC, da privataria etc.

Proponho que se reflita sobre o fato de que esta tal sociedade ocidental na qual vivemos tem se estruturado de tal forma que simplesmente estar dentro dela já se constitui uma punição.

Hipocrisia e ironia

Acabo de ler sobre os “encoxadores” de vacas de fibra de vidro e passo em frente a um jornal velho. Vejo a imagem de dois policiais militares, desta vez no Paraná, bebendo cerveja na rua, em meio a passantes... de farda. Para mim, parece claro que beber em serviço é bem mais grave do que brincar com vacas sintéticas. Numa sentença: os policiais militares estavam consumindo drogas em plena rua. Drogas, note-se, com todas as letras. Álcool, mesmo em forma da simpática “cervejinha” é D-R-O-G-A e as meninas ao lado também estão usando, mas usar essa droga é normalíssimo e ninguém repara. E olhe que é uma droga mais pernóstica e deletéria do que outras que são proibidas.

Proponho uma ação drástica: ou acabamos com a hipocrisia da proibição, que enriquece traficantes e banqueiros, ou vamos proibir também a tal “cervejinha”, que causa tantos ou mais problemas do que as outras drogas tão mal faladas e ainda por cima tem um sabor horrível, causa bafo desagradável a quem a consome e ainda gera dores morais diversas. Mas, ainda acho que proibir só leva a piorar as coisas, vide a Lei Seca nos Estados Unidos.

É claro que policial bebe, afinal todo mundo, ou quase, bebe. Já escrevi aqui que um ex-policial militar me disse, em 2004, no Rio, que os PMs de lá não apenas bebiam, mas cheiravam muita cocaína também. Alguns, é claro, pensei, mas, segundo a fonte, muitos. Isso sendo verídico, o fato sugere que a polícia militar combate a droga não para tirá-la de circulação, mas para restringir sua circulação entre as suas hostes. Ironia? Não exatamente. Difícil confundir o discurso do hipócrita com o do irônico.

Só para telejornal noticiar

Na verdade, todas essas punições anunciadas a policiais não parecem mais do que alimento para a volúpia sensacionalista e de apelo sinistro e punitivo das empresas jornalísticas. Os encoxadores de vacas do ridículo Cow Parade e os mamadores de latas de cervejas paranaenses não vão levar mais do que uma puxada de orelhas branda, uma palmadinha de mãe no bumbum. Também, não merecem mais do que isso pelo que fizeram. Além do mais, sabe-se lá, podem ser chefes de família e poderiam ser mais venenosos para a sociedade fora da guarnição. Quem sabe?

O anúncio punitivo é apenas para telespectador ver e saber que a instituição policial merece respeito, o respeito que, digo novamente, não tem merecido em muitas de suas ações. Trata-se de apenas mais uma atração da sociedade do espetáculo, que tudo ingere e tudo evacua pelas vias do discurso da imprensa absolutamente parcial e completamente subjetiva.

Além do mais, os policiais que mais merecem reprimendas e punições são os que cumpriram a ordem de desocupação da comunidade de Pinheirinho, em São Paulo. Mas a estes ninguém repreenderá ou punirá: estavam cumprindo ordens, ordens judiciais. E por mais injustas ou insanas que sejam essas ordens, devem ser cumpridas pelos soldados. Afinal, para isso servem os soldados. E apenas por isso são elogiados.

Finalmente, a ironia fica por conta de uma certa reversão de papéis. Se tradicionalmente a polícia é a que vigia, fotografa e filma a população, com o advento da miraculosa tecnologia de produção e reprodução de imagens, junto à rede de informações conhecida como web, o foco ficou invertido. É a população que vigia a polícia.
 
E mais irônico ainda é ver que os colegas do encoxador de vacas sintéticas o fotografavam.