segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

Sobre o apocalipse, a civilidade naufragada e o presente do país do futuro


Décimo sexto dia de 2012, o ano em que muita gente espera o apocalipse. Aliás, é bom deixar claro que, em nossos dias, falar nessa história de “fim do mundo” não significa que estejamos nos referindo a algum local distante, de difícil acesso, “onde Judas perdeu as botas” etc. Falamos de uma fantasia de que tudo vai terminar mesmo, todo mundo vai morrer e que a estátua da liberdade vai afundar, como afundou o Colosso de Rhodes, há milhares de anos.


Quem nos ensinou a imaginar isso desse jeito foram os filmes-catástrofe, é claro. E, se estes tiverem alguma influência no apocalipse de 2012, somente Nova York ou Washington vão sofrer danos. Afinal, nos filmes, final do mundo significa a destruição dessas cidades. Como não moro em nenhum desses lugares, tenho que confessar que me sinto bastante aliviado e o telejornal, ironicamente, se transformaria num filme-catástrofe real.
O verniz da civilização é viçoso, mas é facilmente removível com uma boa dose de pavor e adrenalina

Tenho conversado com algumas pessoas que chegam a se mostrar apreensivas com as fantasias que cercam este ano. Temem que o “clima” pegue e que comecem a acontecer coisas estranhas de verdade. Eu, de minha parte, aposto mais no apocalipse hollywoodiano dos filmes-catástrofe, bom para consumo e deleite em confortáveis poltronas do que para sofrimento generalizado. O fato é que a situação não está realmente boa para o primeiro mundo. Não se sabe se haverá terremotos, maremotos ou chuva de fogo celestial, mas o que já é certo é que economicamente, o velho continente está afundando. Isso significa vida ruim para medianos e pobres, com as consequentes convulsões sociais. Lamentável.



No caos pode tudo


Falar em catástrofes lembra que há situações em que a ordem legal é suspensa é você pode fazer o que bem entender, pois tudo o que fizer poderá ser perdoado mais tarde. Veja que a agência de notícias estatal SANA, da Síria, está divulgando a notícia de que o presidente sírio, Bashar al-Assad, oficializou a anistia para todos que cometeram crimes nos dez meses de revoltas contra o governo. Embora a oposição de lá esteja fula da vida porque, segundo ela, não há anistia nenhuma e tem muita gente presa em cárceres secretos (o que é bem provável), é possível aproveitar o ensejo para refletir sobre esse negócio de poder fazer um monte de coisas erradas na hora certa e depois receber perdão.
Se quer acabar com a raça de alguém, aguarde os próximos tumultos generalizados

Simples: explode uma revolta e você, que não gosta daquele vizinho ou daquele sujeito que fica olhando libidinosamente para a sua mulher, aproveita a oportunidade e se livra do problema. Em tempos normais, a polícia te encheria de porrada e te jogaria no xilindró, sem direito a telefonema, advogado ou visita da família. Em tempos caóticos é bem diferente. Você argumenta que se envolveu numa briga política, que é partidário do governo e a vítima era oposição etc. Aí, pode ter certeza, além de perdoar (afinal, nesse caso, errar é humano, mas perdoar é atributo de soberanos e magistrados), é bem capaz do governo ainda te arrumar um empreguinho só para cumprir horário e continuar defendendo a nobre causa do presidente.


Logo, se quer acabar com a raça de alguém, aguarde os próximos tumultos generalizados.



E a civilidade vai afundando


As situações que viveram os passageiros do navio Costa Concordia, que afundou na costa italiana, são bons exemplos de como agem os humanos em casos de caos ou tragédia. Matérias diversas dão conta de que o pessoal se pegou de unha, tapa, soco e pontapé para conseguir um simples colete salva-vidas (e tudo indica que não havia falta). Na hora do sufoco, não há civilidade que resista.


"Foi um momento caótico, todos empurravam, tentavam passar por cima das pessoas para encontrar uma boia", declarou uma passageira do Costa Concordia. Quando li isso, lembrei de algumas liquidações que já testemunhei. Quando os funcionários vão abrir as portas da loja, têm que ser muito rápidos e se proteger, pois a horda consumista enfurecida invade o ambiente com uma fúria desmedida. Tem gente que acusa a polícia de agir brutalmente em ocasiões de revolta coletiva. Eu mesmo já fiz isso, mas tenho que reconhecer que se o sujeito não agir com autoridade, o que às vezes implica certa violência, a turba derruba, pisa e mata. O verniz da civilização é viçoso, mas é facilmente removível com uma boa dose de pavor e adrenalina.
"Não existiu aquilo de mulheres, idosos e crianças primeiro. Eu, que tenho 70 anos, tive que descer me agarrando a cabos", diz a espanhola María Carmen Ramón

Veja bem: a tripulação do Costa Concordia, ao contrário das tripulações dos filmes-catástrofe de naufrágios, não quis saber daquela história de ajudar os passageiros, de garantir primeiro a vida destes antes da própria. Segundo matéria publicada no sítio noticioso do Yahoo, os tripulantes foram os primeiros a tentar fugir. "Não existiu aquilo de mulheres, idosos e crianças primeiro. Eu, que tenho 70 anos, tive que descer me agarrando a cabos", diz a espanhola María Carmen Ramón na matéria. O próprio capitão, que todos imaginam uma figura nobre que é a última a deixar o barco, foi preso em casa, acusado de ter fugido do navio antes de todos. Como bem se pode ver, a civilidade é bem mais confiável no cinema. Se tiver algum dia que estar em um navio que vai afundar, prefira, se puder, que isso aconteça em um filme. É muito mais seguro.



O futuro do Brasil é hoje e atrai trabalhadores do mundo


E não é que parece que o sempre sonhado “país do futuro” alcançou, ao menos momentaneamente, o futuro? O Brasil, que Stephan Zweig disse ter um futuro radiante pela frente, parece que encontrou, neste início de século XXI, uma boa perspectiva de realizar as melhores predições. Segundo matéria publicada no sítio do O Globo, tem muitos trabalhadores estrangeiros querendo vir para cá. O texto está publicado em http://oglobo.globo.com/pais/trabalho-no-brasil-agora-desperta-interesse-de-400-mil-estrangeiros-3673782. E segue, abaixo, o lead da matéria:

“O poder de atração do Brasil entre os estrangeiros extrapolou a área da diversão e chegou ao mercado de trabalho. Para eles, o crescimento econômico do país, a proximidade da Copa de 2014 e das Olimpíadas de 2016 e o pré-sal, associados às crises na Europa e nos Estados Unidos, transformaram o Brasil em uma espécie de porto, se não seguro, pelo menos, promissor.”
 Por outro lado, no Estadão, há uma outra matéria que assusta. A manchete: “Custo de vida do Brasil supera o dos EUA”. O lead:
“O custo de vida do Brasil superou o dos Estados Unidos em 2011, quando medido em dólares, segundo dados do Fundo Monetário Internacional (FMI) sobre o PIB dos 187 países-membros. Este fato é extremamente anormal para um país emergente. Em uma lista do FMI de 150 países em desenvolvimento, o Brasil é praticamente o único cujo custo de vida supera o americano em 2011, o que significa dizer que é o mais caro em dólares de todo o mundo emergente.”
O texto é assinado por Fernando Dantas e pode ser acessado no endereço eletrônico http://estadao.br.msn.com/economia/custo-de-vida-do-brasil-supera-o-dos-eua-2.

Parece que o futuro promissor está chegando, mas tudo indica que também tem seus custos. Faturamos bem menos do que os estadunidenses, mas estamos pagando mais caro para viver do que eles. De todo modo, fico pensando como estaríamos se em vez dos governos do PT tivéssemos a continuidade da trágica gestão tucana do final do século passado e início deste. O Financial Times publicava, meses antes das eleições brasileiras de 2002, publicou uma matéria na qual estava a dura sentença: “The game is up to Brazil”. Se não entendeu, copie a frase e a cole em qualquer tradutor. Essa era a realidade dos tempos tucanos e pefelistas.

Um comentário:

  1. Eu penso muito sobre o que seria após uma hecatombe. As pessoas que conhecemos podem mudar completamente. Da mesma força que algumas pessoas podem demonstrar tudo o que há de melhor nelas, outras podem demonstrar tudo o que há de pior. Isso acontece constantemente no mercado de trabalho ferrenho, em que pessoas legais viram abutres, puxa sacos, alpinistas sociais. Pensando sobre o que aconteceria após um desastre escrevi esse texto
    http://gustavoserrate.wordpress.com/2009/08/27/cataclismo/

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