quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

Pesquisas de medicamentos omitem informações, e agora?


Mais uma vez a Folha publica matéria sobre graves problemas que estão relacionados à prática médica. Desta vez, informa que as pesquisas sobre o efeito de medicamentos omitiriam informações importantes, já que algumas delas poderiam prejudicar a venda dos remédios. O "British Medical Journal" classifica essa falta de dados relevantes como “uma das mais graves violações éticas do processo de formação de conhecimento sobre novos medicamentos”. Se isso é verdade, é mais que violação disso ou daquilo: é canalhice da mais baixa espécie.


Algumas pesquisas foram refeitas e, com os procedimentos seguidos originalmente, surgiram dados que haviam sido excluídos e que não foram levados em conta na análise final. “Em 93% dos casos, o resultado encontrado pelo novo estudo foi diferente do original”, diz a Folha e cita a revisão da pesquisa de uma droga contra o Mal de Alzheimer, com base na substância galantamina. A eficácia do medicamento foi reduzida consideravelmente com a inclusão de dados excluídos propositalmente no decorrer da pesquisa original. 


As pesquisas esconderam informações que poderiam comprometer a boa imagem do medicamento. Apenas dados que corroboram a hipótese da pesquisa foram selecionados e, assim, somente resultados favoráveis foram encontrados. Vamos ver se eu entendi: conheço você e nos envolvemos. Conto tudo de mim, menos que tenho AIDS. É assim que funciona.


No Brasil, o único banco de dados relativo a isso, o REBEC (Registro Brasileiro de Ensaios Clínicos), gerido pela Fundação Oswaldo Cruz, em parceria com o Ministério da Saúde e a Organização Pan-Americana de Saúde, tem apenas 77 pesquisas cadastradas, pois a inscrição é voluntária. O coordenador do REBEC, Josué Laguardia, entende que o registro da pesquisa é importante para prevenir e evitar fraudes, mas também afirma que não é suficiente. "Dependemos da ética individual do pesquisador", afirma.


É realmente um problema. O capitalismo financeiro, ao menos como o temos sentido, não admite muito essa coisa de ética individual, muito menos coletiva. A regra é todos contra todos, “farinha pouca, meu pirão primeiro”, “vale tudo”. Até porque há uma bolha imensa entre capital financeiro e produção e todos precisam trabalhar para sustentá-la no ar, embora não ganhem quase nada com isso. Quanto mais a bolha murcha, mais pressão. E os valores éticos muitas vezes sucumbem quando pressionados. Afinal, na tortura, qual é a carne que não se trai?

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