quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

Os clichês intelectuais da galera diferenciada na indústria cultural


Há mais de cinquenta anos, Adorno e Horkheimer descreviam a indústria cultural como uma entidade sufocante, da qual não há como escapar. Quem nela entra, não encontra janelas nem portas de saída. Ou a aceita por bem, ou a aceita por mal. Quem “curte” está dentro; quem critica, também. E uma breve incursão pelas ruas e pela internet parece confirmar essa ideia. As ondas da indústria cultural, aliás, mais propriamente uma tsunami, pegam todo mundo, mesmo aqueles que querem estar fora e até mesmo os que se julgam completamente fora.


No Facebook, esse depósito internáutico de clichês que reproduz fielmente a cabeça dos cidadãos e cidadãs normais, há a campanha anti-BBB, por exemplo. Ora, os mesmos que engrossam esse time há pouquíssimo tempo atrás debatiam animada e ferozmente sobre quem deveria estar no paredão ou ganhar imunidade e votavam diversas vezes no sítio do programa. Agora, mudaram, evoluíram. Será?

Em outras palavras, BBB é brega e essas pessoas precisam se diferenciar das coisas bregas. Aí, encontram identidade e ficam todas felizes, jogando confete umas nas outras, porque são diferenciadas, até mesmo intelectualizadas, notadamente depois do terceiro copo. Uma verdadeira elite de formadores de opinião, pensam. Se é que se pode dizer que pensam

Na verdade, não houve qualquer mudança, muito menos evolução. É que a onda mudou de direção e o BBB se tornou uma referência desgostosa, pois é popular e cada vez mais popular. O pessoal que gostava, agora não gosta por isso. Em outras palavras, BBB é brega e essas pessoas precisam se diferenciar das coisas bregas. Aí, encontram identidade e ficam todas felizes, jogando confete umas nas outras, porque são diferenciadas, até mesmo intelectualizadas, notadamente depois do terceiro copo. Uma verdadeira elite de formadores de opinião, pensam. Se é que se pode dizer que pensam.


O mesmo acontece com o Orkut, popularíssimo e odiado pelo mesmo tipo de gente. A revolta com os políticos já é manjada, mas está sempre na moda, e a TV Globo é a mais mal falada, mas a mais assistida por nove entre dez desses “intelectuais”, que também curtem o telecine. Compreendem que o Brasil é o paraíso da corrupção, que o salário dos deputados é um absurdo e que político é tudo ladrão. Frequentemente, o pedido de “paz” não pode faltar, além do cenho franzido pela indignação pelos desmandos e pela impunidade que campeia. Ah, é claro, há, em certos casos, a nobreza da intenção de “salvar o planeta”, também.


Ser confundido com um espectador do Gugu Liberato ou com um ouvinte de Michel Teló equivale à morte. Morte simbólica, que é bem pior do que a real, pois significa que seus amigos, que são pessoas da mais alta cultura, não te chamarão para assinar aquele abaixo-assinado por mais ciclovias na sua cidade. Aí, você saberá o que é estar fora da indústria cultural.


Leia, abaixo, texto de Matheus Pichonelli, publicado em http://www.cartacapital.com.br/sociedade/o-cliche-anti-bbb/ e que trata exatamente deste tema.


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O clichê anti-BBB


Matheus Pichonelli


Como no Big Brother, existe uma maneira muito simples de a gente parecer mais interessante do que de fato é diante de uma multidão. Basta criar uma conta no Facebook e manifestar desprezo por qualquer coisa que seja popular. Como o Big Brother ou o Orkut.


Em janeiro, quando as inserções do Pedro Bial passam a ser mais frequentes na tevê, o movimento de pudores eletrônicos ganha um tom de campanha política.


Depois do Facebook, ficou muito fácil manifestar nossos bons gostos e engajamentos pela internet.

Basta compartilhar as fotos com as inscrições “Odeio BBB”, “Fora Pedro Bial”, “Meu sofá da sala não é privada”, “Morte ao Paredão”

Depois que inventaram as correntes de Facebook (espécie de tevê a cores a substituir o pré-histórico jogo da velha que indicava uma hashtag), ficou muito fácil manifestar nossos bons gostos e engajamentos pela internet.


Basta compartilhar as fotos com as inscrições “Odeio BBB”, “Fora Pedro Bial”, “Meu sofá da sala não é privada”, “Morte ao Paredão”.


Pega muito bem.


Se houvesse um guia prático do internauta moderno (sim, porque existem os internautas da velha guarda, uns que se deixarem mandam até a íntegra da missa aos domingos), a ojeriza aos reality shows seria a regra número 1.


Mas não só.


Para parecer um cara muito legal na internet e na vida, é preciso também:


- Bater no Michel Teló. Sem dó. Como se ele fosse o Sarney. Todo mundo vai pensar que você morre de saudade dos tempos do sertanejão de raiz, ainda que o mais perto que você tenha chegado de um boi foi naquela visita ao Pet Zoo;


- Tenha sempre em seu mural algum auto-retrato pintado da Frida Khalo (serve uma foto em preto e branco) e desenhos estilizados do Tarantino, do Almodóvar, do Che Guevara e daqueles quatro meninos de Liverpool atravessando a zebra de pedestres em Abbey Road. Não é preciso esclarecer a conexão entre eles;


- Faça um minuto a minuto sobre a sua ansiedade pelo próximo show dos Strokes ou do Arcade Fire no Brasil;


- Inicie também em sua página a contagem regressiva para a Feira Literária de Paraty: “Faltam 291 dias”;


-De vez em quando, diga como anda sua vida acadêmica. Não se esqueça de dizer que A-M-A a profissão escolhida;


- Conte sempre coisas fofas vividas em ambiente familiar, ainda que te digam que o que se vive entre quatro paredes deva ficar entre quatro paredes;


- Vai a Paris, Roma, Viena ou Nova York? Avise todo mundo pedindo dicas de lugares para os amigos. Chegando lá, não espere a volta para postar impressões e fotos, ainda que você passe 90% do seu tempo livre na sala de internet do hotel;


- Não importa que o Parque Nacional do Xingu fique em Mato Grosso: seja sempre contra qualquer intervenção humana no Pará. Se não colar, lembre também que o País da corrupção não está pronto para receber eventos do porte de uma Copa, uma Olimpíada, um Cirque du Soleil;


- Lista de artistas brasileiros que DEVEM constar das suas preferências musicais: João Gilberto (aquele do “vai, minha tristeeeeeza…”), Chico Buarque (“estava à toa na vida, o meu amor me chamou”), Cartola (ver também: Mangueira. É um morro, além de escola de samba), Noel (o daquela caricatura com nariz grande, cigarro meio desprendido na boca…), Pixinguinha (o moço das bochechas). Engenheiros do Hawaii e Roupa Nova, que te levaram às lágrimas depois daquele fora no colegial, NEM PENSAR. Mantenha certa distância também de Raul Seixas (tiozão demais, coisa de hippie doido);


- Tome duas doses de Clarice Lispector todos os dias. Adicione, de vez em quando, aquele poema da Fidelidade do Vinícius de Moraes (“de tudo ao meu amor serei atento antes…”) e algum pensamento do dia escrito por Mário Quintana ou Caio Fernando Abreu (se não tiver nenhum livro deles em casa, jogue no Google alguma letra sobre despedidas cantada pelo Alexandre Pires. Se não citar a autoria, todo mundo vai achar o máximo). Se estiver de bom humor, use qualquer frase atribuída ao Luís Fernando Veríssimo. Em dias de mau humor, use Arnaldo Jabor (o cineasta e o comentarista são as mesmas pessoas, mas não parece);


- Curta a página de qualquer bar com mais de cinco anos de fundação no entorno da rua Augusta; dê preferência ao Ibotirama;


- Use e abuse de qualquer onda retrô. Está sempre em moda;


- Compartilhe diariamente sua indignação com a política nacional. Lembre todos os dias que o governo não presta e que Brasília seria muito melhor se, no lugar do Congresso, funcionasse um estacionamento. Mas não precisa contar que também não existia Congresso nos governos totalitários do século XX;


- Não conte, nem sob tortura, que você adora passar no Mcdonalds depois do rolé pelo Espaço Unibanco;


- Deixe sempre claro que você é habitué de lugares incríveis, como as praias de Trindade-Paraty ou o sofá do Outback;


- Compartilhe qualquer reportagem relacionada ao D.O.M, o mais premiado restaurante brasileiro lá fora, e expresse sua intimidade com o nome de Alex Atala.


Feito isso, você espantará qualquer fantasma da breguice e do lugar-comum que contamina esse país que a gente gosta de chamar de atrasado.


Ninguém vai dar a mínima, mas o importante é ficar bem com a gente mesmo. Ou viver cada minuto como se fosse o último. E dormir com a consciência tranquila. Ou qualquer outro clichê que sirva.

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