sábado, 14 de janeiro de 2012

Opinião pública ou privada?


O jornal curitibano “Gazeta do Povo” publica resultado de pesquisa que mostra que a rede pública de saúde, o Sistema Único de Saúde (SUS), é considerado péssimo ou ruim por 61% de 2002 entrevistados em todo o país. Apenas um décimo do total acham a rede boa ou ótima. Quase no final da matéria, o gerente executivo de pesquisas da empresa CNI, que realizou o estudo, afirma que “os dados refletem a opinião do público e não o posicionamento do pesquisador sobre a questão”. Tá bom.

Há um fator que não está computado na pesquisa, que tem transitado de forma quase invisível – totalmente invisível para a maioria: a construção da opinião pelas empresas de comunicação. Estas, são, na maioria absoluta dos casos, completa, absoluta e totalmente críticas em relação ao SUS. O cidadão ouve, o dia inteiro, todos os dias, matérias e “opiniões” contra o SUS. Com certeza essas mesmas empresas devem ter publicado matérias falando de algo favorável, mas sinceramente não recordo, assim como desafio você a recordar.

O fato das campanhas de vacinação serem as iniciativas mais lembradas da rede pública bem nos sugere que não são diretamente criticadas pelos meios de comunicação, muito pelo contrário, por motivos óbvios.

Estamos em uma sociedade de orientação alterdirigida, como propôs David Riesman há mais de 50 anos, e a opinião pública formada pelas empresas de comunicação é importantíssima no estabelecimento da subjetividade individual. Uma sociedade de massa, se pode dizer. Cada vez mais de massa, embora haja gente que jure o contrário.

A pesquisa, assim, já que deixa invisível a ação das mídias, pode medir como o cidadão forma sua opinião sobre a rede pública de saúde, independente de ter sido bem ou mal atendido nela ou da qualidade real dela (que tem inúmeros problemas, mas tem também inúmeras virtudes). A pesquisa pode estar avaliando, então, simplesmente o que já foi avaliado pelos formadores de opinião midiáticos e transmitido ao público, que acaba repetindo sem muito pensar.

Se formos ponderar estatisticamente, é provável que cheguemos à conclusão de que mais de 90% da subjetividade de cada cidadão urbano é formulada com apoio nas empresas de comunicação. Em outros termos, o jornal curitibano apenas repercute a avaliação que transmite cotidianamente a seu público. Aí, confirma o que já sabia. Trata-se de um circuito fechado em que, ironicamente, todos se acham muito independentes para pensar e falar o que bem quiserem sobre o que bem quiserem. Trata-se do fenômeno da opinião privada travestida de pública.

É como canta Mano Brown, do Racionais MCs: “Vida Loka!”.

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