quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

O (neo)liberalismo, a crise europeia e o ataque à civilidade


Saber o que está acontecendo na Europa é fundamental para que percebamos como os Estados têm lidado com a realidade. Na prática, a escolha tem sido sempre a de privilegiar o capital, defender os interesses dos que mais têm e deixar que o ônus da crise econômica – provocada inequivocamente por estes – seja pago pelos que menos têm. Por incrível que pareça, essa é a regra vigente.


Há algum tempo, tive oportunidade de estudar a lógica liberal, mãe do neoliberalismo, o sistema econômico delinquente que se instalou no mundo há algumas décadas. Uso o termo “delinquente” por achá-lo adequado para definir o sistema que bem lembra aquelas personalidades psicopáticas que são orientadas subjetivamente apenas por seus desejos, desconhecendo qualquer limite para a realização destes. Esse tipo psicopatológico é capaz, dependendo da situação, até mesmo de atentar contra a vida de pessoas queridas ou contra a própria, para conseguir o que quer, geralmente não mais do que uma satisfação imediata, um prazer intenso, mas passageiro. Tudo com o objetivo de efetivar a realização fantasmática – se pode dizer fantasiosa – de seu ego, que parece formulado segundo o princípio do “falso self”, ou seja, uma construção de identidade que se baseia em uma máscara e, assim, não deve satisfações a ninguém a não ser ao espelho.

Mas, seremos apenas isso? Bestas polidas, que fazem rapapés e obedecem a uma etiqueta, mas bestas? Talvez seja isso o que se espera conseguir reduzindo o pacto social a um arranjo de negociações comerciais. A velha Europa tem a chance de, agora, desmentir essa máxima e reafirmar a esperança dos que lutam para provar que não são feras

Esse monstro e a criatura que o gestou, o liberalismo clássico, trabalham sempre com a noção de que os humanos, as pessoas, existem para servi-los. Se tudo vai bem, méritos para o “mercado”, que garante o fluxo financeiro em direção a seu núcleo usando a sua famosa “mão invisível” que, na prática, não serve exatamente para regular igualitariamente a ordem econômica, mas para suavemente ou não, conforme o caso, tungar sua carteira ou calar a sua boca, quando isso não acontece ao mesmo tempo. Se tudo vai mal, deve-se socorrer o não tão onipotente mercado e, nessas horas, toda a sociedade, através do Estado, deve se mobilizar. O que ninguém contou para a sociedade é que muitas das crises econômicas recentes só existiram graças à ação da tal “mão-invisível”, isto é, a crise compõe o plano e é nela que o neoliberal enxuga o cofre do dinheiro público.


De todo modo, na prosperidade ou na crise, os méritos vão sempre para o mercado, que é encarado como o único regulador confiável (cabe perguntar para quem). Sendo uma entidade abstrata, o mercado não pode ser acusado de nada, no entanto, bem sabemos, o tal mercado não é tão abstrato assim na prática. De forma alguma representa de forma igualitária, como alguns querem nos fazer crer, o conjunto de consumidores. No mundo capitalista, nada é igualitário, muito menos o “deus” mercado.


O liberalismo e seu filho “neo” não passam de um único projeto predatório que trata o humano à sua imagem e semelhança: como fera. Ou seja, cada um de nós é entendido como um animal que está, a todo o momento, pronto a atacar quem quer que seja para conseguir o que deseja ou como um ladrão que trama perenemente uma nova estratégia de assalto. O circuito do consumo tem a função de canalizar e dar sustentação subjetiva à livre manifestação desses instintos baixos, fomentando a busca da satisfação imediata, infantil e fugaz, e incentivando a relativização ética e moral. Afinal, o cidadão ético e moral não aceita facilmente o neoliberalismo, por motivos óbvios, e definitivamente não é um bom consumidor, simplesmente porque pensa, pesa, reflete e, assim, não age por impulsos. Já o animal consumidor, esse se orienta o tempo todo pela compulsão a acumular coisas (incluindo conquistas amorosas, experiências memoráveis e lembranças fúteis), satisfazer os desejos e desperdiçar à vontade. Por conta desse comportamento predatório é que insisto em dizer que falar em ecologia no mundo capitalista é mera estratégia de marketing.


Não somos feras


Na Europa contemporânea, as soluções oferecidas para solucionar a grave crise não passam de medidas que animalizam mais ainda as pessoas. Se há um problema com o capitalismo, penaliza-se a democracia, pois é o suposto Estado democrático que tem agido para salvar quem lhe corrompe. Ora, trata-se de uma perversão inominável, pois o regime democrático, é preciso lembrar, foi criado para, ao menos em tese, promover a civilidade, elevando o nível cultural e humano de seus participantes. A democracia é, assim, a melhor proposição anti-animalidade que conhecemos. Mas o capitalismo não é democrático, muito pelo contrário.


As anunciadas soluções europeias são contábeis, financeiras, economicamente corretas, mas jamais humanamente viáveis. De certo modo, parece que se deseja corroborar a máxima de Hobbes, que compara o homem a um lobo. Mas, seremos apenas isso? Bestas polidas, que fazem rapapés e obedecem a uma etiqueta, mas bestas? Talvez seja isso o que se espera conseguir reduzindo o pacto social a um arranjo de negociações comerciais. A velha Europa tem a chance de, agora, desmentir essa máxima e reafirmar a esperança dos que lutam para provar que não são feras.

Um comentário:

  1. tomara q esta onda ante neo liberalismo tome conta do planeta, se não a civilização ñaõ aguentara muito tempo

    ResponderExcluir