domingo, 15 de janeiro de 2012

A morte


Falei da vida, agora preciso falar da morte. São irmãs que não aceitam que se olhe para uma sem notar a outra. Dizem que uma veste branco, a outra adora o negro. A vida é uma eterna noiva, a morte está sempre de luto. Esta última adora se disfarçar, por isso cuidado! Nem tudo que reluz é ouro e nem todos que vestem branco estão a serviço da vida.


A morte adora disfarces, é certo, mas não os suporta. É clássica a história do sujeito que soube antecipadamente da chegada da morte e correu para um baile carnavalesco, fantasiado de palhaço. A dita chegou à casa do esperto e não o encontrou. Todos sabem que a morte não perde a viagem e, por isso, escutou a música do baile e foi até lá. Ao chegar, olhou a multidão e pensou: “Quem vou levar? Aquele sujeito me enganou, alguém vai pagar”. Rapidamente, escolheu: “É, o jeito é levar aquele palhaço!”.


Morrer não é a mesma coisa que viver, embora haja gente que pense assim. Se você está vivo, está vivo. Se está morto, está morto. Não é permitido confundir as coisas. Desse modo, não se iluda. Você é daqueles ou daquelas que vive para o trabalho, só faz exercício quando vai à academia e, pior, assiste e adora os filmes de Hollywood, as telenovelas, séries, programas de auditório e pelo menos um seriado de TV a cabo? Está morto. Saia do formol e se deite no local adequado, sete palmos abaixo da terra. E não adianta argumentar que odeia o BBB. Isso provará que você não apenas morreu: já está apodrecendo.


O bom da morte é que tudo acaba. Tudo que é bom, mas também tudo que é péssimo. Você não pode mais fazer sexo, tudo bem, isso não é bom. Mas também não vai ter mais medo de brochar ou de ter que aturar aquele bêbado libidinoso e barrigudo que fica querendo te agarrar a noite toda e que, para maior azar, é teu marido. Você não tem mais internet, televisão ou carro, isso é desanimador. Mas você também não tem mais que pagar a conta da operadora, a TV a cabo ou o IPVA, fora as multas. Isso é muito sedutor. Mais ainda se alguém garantir que a receita federal nos esquecerá depois da morte.


Toda conversa tem que ter um fim e aqui está. Com a vida e a morte também é assim. A conversa que elas têm sobre o teu destino termina quando não há mais nada a dizer. Isso acontece, dizem, quando você já foi desvendado. Tem que haver sempre algum mistério em você. Não fique aí fazendo sempre as mesmas coisas, indo aos mesmos lugares, dizendo tudo o que pensa. Isso é enfadonho e pode levar a um rápido esgotamento do diálogo entre a vida e a morte. E quando elas calam, pagam a conta e vão cada qual para um lado, é aí que você finalmente entenderá o que significa ouvir o silêncio.

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