quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

Homofóbicos: Freud explicou, mas até hoje quase ninguém entendeu


Saio para o almoço e sento logo em frente a uma TV. Pura distração, já que não assisto TV nem suporto a lengalenga de telejornais e noticiários esportivos. E azar, pois a hora do almoço parece dedicada exclusivamente para esse tipo de noticiário, ao menos no canal que estava sintonizado.


Mas, o que me chamou a atenção foi uma propaganda na qual uns caras, sei lá quem, provavelmente atores de telenovela, tentavam dar uma espécie de “lição de moral” nos homofóbicos, ou seja, naqueles caras que ficam xingando e mesmo batendo em homossexuais sempre que podem.


Ora, não adianta dar lição de moral para esses caras, pois a questão não passa por aí. Em primeiro lugar, esses sujeitos se acham com muita moral para fazer o que fazem, embora olhares mais analíticos possam desmistificar essa moralidade como puro moralismo, isto é, uma nítida corrupção do que seja um princípio moral. Em segundo, essas propagandas partem de uma noção banal e simplória acerca do motor que governa o comportamento humano. Para quem inventou essas mensagens toscas, nós somos seres conscientes, por isso basta chamar à consciência para certas questões que tudo estará bem encaminhado para resolução. Tolice.
Para ser mais eficaz, a propaganda anti-homofóbica poderia dizer que o sujeito não precisa temer se transformar num homossexual simplesmente porque existem homossexuais no mundo. Poderia ir até mais longe e afirmar, como é verdade, que o fato de você ofender ou agredir um homossexual, simplesmente porque ele é homossexual, está dizendo a todos que você é uma bicha enrustida e que tem tanto medo de “sair do armário” que precisa agir como age

Freud já explicou


Há mais de cem anos, passado mais de um século, portanto, Sigmund Freud, um médico austríaco, desmistificou essa crença tola na consciência. Ele mostrou que nossos atos são determinados inconscientemente, ou seja, não temos noção, muito menos clara consciência, dos motivos que nos levam a fazer a maior parte das coisas que fazemos. As concepções de Freud são, há muito tempo, absoluta e plenamente aceitas e estudadas com vigor por alguns. Mesmo quem discorda disso, não pode negar com absoluta convicção a influência de intervenientes obscuros na produção de pensamentos, afetos e atos.


Se aceitarmos essa perspectiva, temos que aceitar também que propagandas como a que assisti hoje, durante o almoço, são inócuas e podem inclusive gerar comportamentos opostos ao esperado. Nestes momentos, lembro de um conhecido que dizia que cada vez que ouvia uma argumentação desse tipo tinha uma quase irresistível vontade de fazer exatamente o contrário do proposto. Se tivesse assistido ao que assisti hoje, provavelmente sairia do restaurante com um desejo mórbido de socar o primeiro homossexual que aparecesse, muito embora – sempre garantiu – nada tivesse contra esse tipo de gente. Eu, de minha parte, não saí com desejos belicosos em relação a gays, pederastas enrustidos, nem contra o publicitário que criou aquela peça publicitária. O que ocorreu é que fiquei refletindo sobre o fato de que as propostas de análise geniais de Freud não foram ouvidas até hoje e, repito, lá se vão mais de cem anos que ele as fez.


Tenho a compreensão de que um dos motivos que levam um homofóbico a agredir os homossexuais é a incapacidade que demonstra de separar o básico: eu sou eu, o outro é o outro, ou seja, eu existo separado (e até mesmo de forma bastante independente) dos demais humanos com os quais me relaciono, mesmo que eles sejam familiares próximos, cônjuges ou amigos íntimos. No caso do homofóbico e do homossexual, o primeiro não tem essa noção e, dentro do porão de sua alma, a existência do segundo indica que ele próprio também pode vir a se tornar um homossexual. Logo, por uma dedução conduzida por lógica simples, há um homossexual virtual em sua alma, que é despertado pelo homossexual real. Desse casamento secreto, nasce o ódio que nutre. Ódio que tem sua origem no medo, medo que o homossexual virtual ganhe espaço e tome toda a sua subjetividade, passando a mandar e, consequentemente, transformando o machão homofóbico em uma “bicha louca”. Realmente, sob esse ponto de vista, isso pegaria muito mal.


Homófobo edipiano


Conheci um sujeito assim, que odiava homossexuais e os agredia sem motivo algum, a não ser o fato de que estavam vivos, respirando e andando pela rua. Um dia (e tenho a impressão de que já contei brevemente esse caso em outro texto publicado neste blog), encontro com um amigo comum. Ele estava assustado e encafifado. Ao ser inquirido sobre os motivos, contou que tinha ido à casa do tal homofóbico (ao qual chamou pelo nome, é claro, não de homofóbico, até porque naquele tempo esse termo não era de uso comum) e que o pai dele o havia “cantado”, isto é, havia tentado lhe seduzir para um ato carnal do tipo que é feito pelos sujeitos que o filho tanto odiava e agredia.


Uau! Grande surpresa mesmo, mas um dado que remete, imediatamente, ao contexto no qual a revolta do pobre rapaz ganhou vulto. O que aposto, até hoje, é que ele não sabia exatamente que o pai gostava de fazer essas coisas que ele tanto condenava. Ou, em outros termos, provavelmente sabia, mas sua ciência era inconsciente, fato que leva a comportamentos ilógicos e sem fundamentações racionais. O que mais importa, neste exemplo, é ilustrar como o medo da homossexualidade, ainda que notoriamente fantasioso, está geralmente presente nos homofóbicos. Em termos freudianos, quem sabe se possa dizer que é o desejo/medo de ser submetido (castrado) pelo pai que leva a isso.


Muito fofo


Para ser mais eficaz, a propaganda anti-homofóbica poderia dizer que o sujeito não precisa temer se transformar num homossexual simplesmente porque existem homossexuais no mundo. Poderia ir até mais longe e afirmar, como é verdade, que o fato de você ofender ou agredir um homossexual, simplesmente porque ele é homossexual (sim, porque com certeza há homossexuais que merecem umas boas porradas por inúmeros outros motivos, independentemente de serem homossexuais), está dizendo a todos que você é uma bicha enrustida e que tem tanto medo de “sair do armário” que precisa agir como age. Se quiser ir mais além, pode até pôr um ator interpretando um homofóbico que um armário do qual sai ele mesmo, cheio de trejeitos, caras e bocas, como ele imagina ser o homossexual. Tudo com direito a uma conciliação, um abraço e, quem sabe, um beijo francês. Ficaria freudianamente correto, didático e muito fofo.

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