sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

Divagações memoriais sobre Copacabana

 
Praia de Copacabana com um dos postinhos salva-vidas

Leio que a Kodak está pedindo concordata para se reestruturar. Ora, a Kodak foi, para mim e para muitos outros e outras, referência total e absoluta de câmera fotográfica. Tirar fotografias? Kodak, cujo nome vem do suposto barulhinho que ouvimos ao clicar o botão da câmera. Você clica, ouve “Kodak” e pronto, a foto está tirada. Isso acabou. Ninguém mais ouve esse som. As câmeras são digitais, com botões macios que nem sequer fazer barulhinho algum.


Meus pais tinham uma câmera Kodak. Era um caixotinho e você tirava as fotos com ele posicionado na altura do peito, pois o visor era na parte de cima. Devia haver um sistema simples de espelhos para isso. O “Kodak” do disparador era um senhor “Kodak“, bem sonoro. Dava gosto clicá-lo.


Recentemente, soube que o xampu Johnson, aquele que sempre me pareceu um ícone da mais tenra infância, pode conter um item cancerígeno, conforme publiquei em texto aqui mesmo neste blog. O drops Dulcora já se foi há tempo e o cachorro quente Geneal não é tão gostoso quanto era. Deve ser o tempo que passa e faz com que nossas referências sejam bombardeadas pelo cruel teste da realidade. Quando eu era criança e adolescente, idealizava praticamente tudo, como tenho percebido acontecer com tanta gente no mesmo período de vida.

Uma câmera "caixotinho" da Kodak


Não fico triste com as mudanças e transformações, ainda mais que são apenas comerciais e técnicas. Pouco me importa que a Kodak abra falência ou que o biscoito de polvilho Globo seja industrializado ou não, ou que o xampu sempre tenha sido cancerígeno, até porque tive meus cabelinhos de bebê lavados por ele e não peguei nenhuma doença tão grave assim. Ou que não haja mais determinada bala ou drops. Nada disso é importante em si.


O fato é que há pelo menos dois anos comecei a assistir o filme da minha vida passar quase diariamente e todos esses produtos são instigadores de lembranças. São muitas e escolho, em primeiro lugar, as do lugar no qual nasci e me criei, o Rio de Janeiro, em especial o bairro de Copacabana.


A Copacabana na qual eu nasci e cresci
Ressaca em Copacabana

Você não precisa, evidentemente, passar deste ponto. O que vou descrever agora é um conjunto de lembranças de coisas que vi no início da minha vida, um conjunto breve, é certo, mas que pode se tornar enfadonho pelo simples motivo de que são fruto de vivências pessoais, um enfoque particular, com os cenários quase inventados e peculiaridades subjetivas de quaisquer recordações. Não são saudosas no sentido de que não acredito que o passado foi melhor que o presente. Simplesmente foi, passou e, ainda bem, não voltará.


Copacabana se transformou de um já agitado balneário que era nos anos 1960/70, num centro nervoso no qual mais de 300 mil pessoas circulam diariamente, com um trânsito inviável e absolutamente cheio de turistas, seja qual for o período do ano. Fora isso, ainda há os grandes eventos, como shows diversos e o réveillon, que chega a reunir uma multidão de mais de dois milhões.


A praça na qual cresci, chamada Cardeal Arcoverde, no chamado “posto 2”, hoje abriga a estação Arcoverde do metrô. Nela joguei futebol por anos, brinquei no balanço, nas gangorras etc. Ah, também brincava de pique e sei lá mais o quê. Outra mudança relativa a uma praça de Copacabana foi o que ocorreu com a praça Serzedelo Correa, localizada em frente à Igreja de Nossa Senhora de Copacabana, na qual, hoje, meu pai trabalha. Durante anos, talvez duas décadas, ninguém a conhecia pelo nome. Era simplesmente a “praça dos paraíbas”, pois nela dezenas ou centenas de nordestinos se reuniam nos finais de semana. Hoje, está cercada, assim como a Praça Arcoverde e a Praça do Lido, é fechada no fim da tarde, mesmo aos domingos, e não há mais nordestinos se reunindo lá.
Praia do Diabo


A praia de Copacabana, até o início da década de 1970, era mínima. Havia uma pista apenas e uma faixa de areia que não deveria chegar a ter vinte metros de largura, com os mesmos quatro quilômetros de extensão que possui até hoje. Quando havia ressaca, ou seja, quando o mar estava agitado em excesso, a água invadia a Avenida Atlântica e, bem me lembro, um dia chegou quase até a Rua Barata Ribeiro, bem distante da praia.


Copacabana também tinha os postinhos de salva-vidas, que eram mínimos e um tanto feios, mas que agora são grandes e você tem que pagar para ir ao banheiro neles. Meu pai conhecia um salva-vidas e eu tive a oportunidade de ir num dos antigos postos. Você via a praia de cima, mas nem tanto: o suficiente para observar o mar e ver se alguém se afogava.


Ônibus e outras lembranças
O ônibus elétrico, mais conhecido como "chifrudo"


Havia os bondes, que peguei já no final, já que deixaram de rodar em 1964, menos o de Santa Teresa, que continua até hoje e parece ser o último remanescente dos bondes usados para transporte diário de passageiros, não de apenas de turistas, como em outras cidades. O bonde é ainda o melhor recurso para se chegar no alto de Santa Teresa. E tinha os lotações, os antigos ônibus, sendo que houve, durante alguns anos, o “chifrudo”, um ônibus elétrico que tinha dois “chifres” que se conectavam a cabos elétricos que passavam sobre a rua. De vez em quando, os chifres soltavam dos fios e o motorista tinha que descer para encaixar de novo.


Eu achava tudo muito agressivo e violento. Muitos carros, ônibus, ônibus e mais carros e ônibus. Gente, gente e mais muita gente. Morava no “duzentão” (hoje 194 da Barata Ribeiro), um edifício com quase 60 apartamentos por andar. Lá, morava o meu até hoje grande amigo Orlando Coelho, poeta, professor e sociólogo (todos temos defeitos), que vive atualmente em Uberaba, Minas Gerais. Filho dos saudosos Orlando e Sarita, com quem eu brincava ser contemporânea de Emilinha Borba e Marlene, as duas cantoras que marcaram época no rádio da primeira metade do século no Rio. Na verdade, elas eram bem mais idosas que a querida Dona Sarita, essa era a graça. E há também o Maurício, irmão de Orlando, outro grande e querido amigo.


De certo modo, nasci no bairro mais Rio de Janeiro do Rio de Janeiro, que encarna – ou encarnava – de forma mais contundente suas contradições, com uma variação considerável de tipos humanos com posses econômicas as mais diferenciadas. E, quem sabe, no edifício mais Copacabana de Copacabana, o já citado “duzentão”, que chegou a ser tema de filme e peça de teatro. Tinha de tudo lá e, mais interessante, havia muitos recém-chegados ao Rio, incluindo jornalistas, artistas de teatro, de teatro de revista, de rádio e, um pouco depois, de TV também. Como já disse não tenho saudade desse tempo, mas acho que tive sorte, pois viver naquele lugar resultava numa interessante formação humana, principalmente pela diversidade.


Prezo bastante todos os que estiveram ao meu lado nesse tempo, mesmo não tendo sido amigos como eu creio que poderiam ter sido diversas vezes, mas tenho certeza de que também não devo ter correspondido às expectativas. No entanto, fiz questão de sumir o máximo que pude depois de que saí da adolescência. Acredito que precisamos variar as companhias, os enfoques, as crenças, os valores. Não entendo muito as pessoas que têm os mesmos amigos e companheiros a vida toda ou quase toda. A roda precisa rodar, as coisas precisam se reciclar. De algum modo, a manutenção dessas amizades pode indicar que nada mudou, nada se transformou, ainda que o tempo tenha passado. E isso é uma das coisas mais tristes da vida.

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