domingo, 22 de janeiro de 2012

Cataclismo


Conto do amigo Gustavo Serrate, com quem trabalhei em Brasília, cineasta, excelente redator e um sujeito com um caráter invejável. Grande Abraço, Gustavo e parabéns pela instigante narrativa.

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Quando as bombas caíram e as metralhas rajaram. Os cães ladraram, os homens ganiram, mulheres e crianças sofreram e a cidade cessou. Restaram alguns sobreviventes almoquifados, poucos deles.

Furos de todos os calibres nas paredes, vidraças estilhaçadas, casas e edifícios vazios, saqueados, ruas desertas. O que aconteceu com toda a vida que existia até a noite passada? Há um homem morto no asfalto. Seu rosto amassado no chão sangra pela queda, o pequeno buraco redondo e escuro em suas costas é o motivo maior do silêncio. Um silêncio que representa o início da guerra contra o poder vigente. A insurreição dos rebeldes contra o poder estatal. Os inocentes, apolíticos, cidadãos comuns são as maiores vítimas. Segundo a mentalidade dos rebeldes anarquistas, o sangue inocente lavará a mentalidade colonial que o capitalismo instalou nas cabeças não-pensantes. Todos inocentes devem morrer, para tornar possível a inauguração de um novo sistema de ensino, uma nova forma de pensar. Nesse sistema utópico idealista serão criados homens de livre pensar, dotados da capacidade de discernir, argumentar, questionar e coexistir com o mundo natural e com seus semelhantes. Se o homem capitalista é para o mundo um câncer, o super homens são a ponte da evolução humana, com intelecto desenvolvido. A nova comuna será independente de qualquer forma de autoridade. Não existirão mais líderes daqui por diante.

Tiros e explosões saltam os edifícios inertes, preenchem a paisagem. Um lacônico estampido de bala acaba com os gritos de desespero que surgiram algumas casas adiante. Rebeldes matando inocentes. A matança não é um prazer, mas uma necessidade. A inércia mental dos subjugados ao sistema capitalista é um mal que deve ser extinto. A mente do cidadão tradicional está contaminada pela televisão nociva, com horas intermináveis de vídeo clipes, de filmes-sabonete, de músicas eletrônica, programas de auditório, refrigerantes açucarados, propaganda e de desinformação, banalização do cotidiano. Toda representação do império econômico monstruoso que governa o mundo deve ser extinta. Os cartazes, as propagandas, e até a mente física das pessoas serão imediatamente destruídas, queimadas e apagadas.

“A vida mudou, a pouca vida que ainda resta, mudou!”, é nisso que Edilberto, um dos poucos sobreviventes, está pensando. Por algum motivo seu instinto de sobrevivência o impele a permanecer acordado e paciente sobre todos os outros cadáveres de sua casa. Mãe, pai, empregada, sobrinha e irmão, todos mortos violentamente por homens armados. Edilberto permaneceu escondido durante o massacre e agora, inexpressivo observa cada detalhe dos rostos de seus progenitores. A mãe, que um dia lhe sorriu, amamentou, e ensinou, agora está aí prostrada no chão como uma peça qualquer, um móvel de madeira. Dentro de meses este corpo humano estará podre, mas desde já, enquanto a carne ainda conserva seu calor, os sentimentos humanos que aquela mulher emitiu através de gestos e atitudes, não estão mais disponíveis para o filho perplexo. A mãe será de quem Edilberto sentirá mais falta. “A vida mudou. A pouca vida que ainda resta, mudou”.

Não, esse não é o Edilberto, é o Gustavo

Hora de levantar. Edilberto já serviu ao exército, já fez cursos de defesa pessoal, já praticou artes marciais, tem conhecimentos de arco e flechas e tiro, aviação e até se aprimorou como Barman, tendo trabalhado como palhaço em um período da sua vida e estudado técnicas detetivescas, todas as habilidades requeridas para um comandante do novo mundo. Passou a vida toda se preparando para que? Até o dia anterior ele era um rapaz concursado, trabalhando para um órgão público do estado. Que estado? O estado não existe mais. A gorda conta bancária de Edilberto não pode mais registrar um centavo, afinal os insurgentes anarquistas mataram o último bancário. Não há sequer um capitalista vivo nesta cidade. Empresários, japoneses vendedores de bugingangas, lojistas de shopping centers, presidentes, traficantes, pastores, dono de pequenas empresas, foram aniquiliados um a um. Também não existem homens de fé vivos, as igrejas foram invadidas, destruídas e maculadas. Deus? “Gott ist tot”, grita um alemão de sua janela no quarto andar, vive no Brasil desde 1992. Fascinado pela arquitetura de Niemeyer e pelo planejamento urbano de Lúcio Costa, adaptou-se a Brasília, satisfeito com a brasilidade e com a cerveja rala, instalou-se em um apartamento da Asa Sul e foi ali viver feliz por quase duas décadas. A bala de um fuzil de assalto M16 perfura o corpo do estrangeiro apaixonado pelo Brasil. Deitado sobre a própria sacada o alemão não tem mais fôlego.

Como diz o refrão entoado pelos anarquistas: “A humanidade só será livre quando o último capitalista for enforcado com as tripas do último burocrata”. E é isso o que fizeram. Não existe mais estado. Moeda de troca? Se você quer um cavalo, vá e pegue, você não tem casa? Escolha uma porta e arrombe, deite-se sobre seus lençóis, plante o que for comer, a maconha e o ópio para consumo próprio, compartilhe o que sobrou, lanches coletivos, novas possibilidades humanas e serão queimados todos os livros de auto-ajuda pois não existirá no mundo sequer um homem neurótico, mentalmente aprisionado, ninguém precisa de explicações para viver, cada um vive como quer, há de ser tudo da lei! Não haverá mais noção de propriedade nos dias que se seguem. A propriedade, segundo os anarquistas, corroeu a alma humana, dilacerou existências Índias, verdadeiros donos dessa terra, e corrompeu o coração dos líderes pela ganância. Antes que tudo seja da lei é preciso destronar o poder vigente por completo, acabar com a cultura e com a mentalidade capitalista, para ai então, liberar a mente dos iluminados remanescentes para recriar o mundo a seu bel prazer. Se esse estilo de vida será auto-sustentável, só o tempo dirá, mas agora é tarde para pensar em reveses, a revolução já começou. Os anarquistas são muitos, os adeptos da causa estão por todo o lado. Uma verdadeira revolução precisa de sangue. Um líder guerrilheiro não pensa nas vidas derramadas. A vida dos soldados é a moeda de troca. O sangue é o preço da revolução.

Edilberto sai de sua casa calçando um tênis nike do irmão. Bem agasalhado, com uma mochila cheia de provisões, e o arco e flecha nas mãos, sua única arma disponível para tiros de longo alcance. Edilberto é um apolítico errante, solitário e inapto para o convívio social. Passou a vida dedicando-se ao auto-conhecimento espiritual, lendo osho, freqüentando palestras sobre filosofia, mastigando tabaco, praticando artes marciais e jogando diversões computadorizadas pagas com cartão de crédito pela internet (que por sinal, não está mais online, o mundo virtual não existe mais, daqui para frente, só realidade). O auto conhecimento não leva os homens muito longe financeira ou socialmente, mas fortalece o senso de si mesmo, e possivelmente o egocentrismo. Mas agora só existe Edilberto no mundo, senhor de si mesmo, ele tem todo direito de considerar-se o líder contra revolucionário. Sair na rua às claras é perigoso demais. Edilberto desce as escadas e esconde-se até que anoiteça. “Ela precisa estar viva”, ele pensa enquanto espera. A ex-esposa de Edilberto, de quem se separou há dois anos tem a pele macia e um sorriso gentil. Ele precisa buscá-la, nunca esqueceu daquela mulher. Sua vida amorosa, durante os tempos áureos da urbanidade desenfreada, foi conturbada. Formavam um casal lindo, se amavam com toda força, mas brigas, desentendimentos, imaturidade e desgaste os separou. Até um dia atrás ela estava casada com Jarbas, chefe de departamento econômico do ministério do transporte. Desnecessário dizer que ele morreu trabalhando. Os enfurecidos entraram pela porta da frente e o alvejaram derramando sangue sobre sua mesa impecável.

Edilberto percorreu as ruas sorrateiramente, esgueirando-se de árvore em árvore. A vida caseira, a televisão, o sedentarismo, o computador e o onanismo roubaram dele a forma física, a vontade de viver, mas algo mudou. Edilberto é um novo homem. Os conhecimentos que cultivou durante tantos anos agora tem uma utilidade prática: Sobrevivência. A guerra é a experiência mais completa que um ser humano pode vivenciar, e Edilberto está pronto para isso. Prazer pela carne inimiga chamuscada, gozo em matar. A guerra é bela para aquele que sabe guerrear.

Um violino rasgou o silêncio noturno da super-quadra do plano piloto. Edilberto manteve-se na esquina de uma escola pública observando o homem tocar. Três anarquistas armados forçaram o músico a trabalhar. O homem está nú um violino nas mãos. A música de seu próprio funeral o manteve coberto de dignidade. Com toda sua força, o violinista tocou a música mais bela e poderosa que sua mente febril poderia compor. Está música de acordes graves e agudos entrelaçando-se em perfeita harmonia ficou escrita no vento e jamais será reproduzida por outro violinista, tudo o que é sólido desmancha no ar.

A música vinha de seu âmago, em parceria com a técnica, produziram a melancolia que poetizou a morte. E então a fúria do violino metralhou os ouvidos dos guerrilheiros, com ódio e força o instrumento alertou todas as casas: “Há aqui um homem, um músico, um poeta digno, pronto a morrer sob a mira das armas cruéis, mas não sem o protesto da melodia mágica desta arma musical”.

O encantamento da música hipnotizou os guardas até cessar em silêncio. A música poderia prosseguir por toda a madrugada, que os rebeldes manteriam seus gatilhos desapertados, mas o violinista desistiu de ludibriar os ouvidos de seus algozes. A última nota foi proferida como um sopro de desistência. O temperamento eloquente das metralhadoras rasgou o ar com dissonância, e ao invés de um “Bravo” acompanhado de palmas, o músico recebeu salva de chumbo quente descarregadas em seu frágil corpo humano. O gran finale foi um aperto no coração, seu corpo e as pernas bambearam. O violino partiu-se no chão.

O som que se seguiu ao silêncio da morte musical foi um laivo cortante. A flecha disparada por Edilberto atravessou a cabeça de um dos rebeldes espalhando sua mentalidade avançada em gomos de carne por todo o chão. No dia seguinte cães (agora selvagens) alimentariam-se da massa encefálica exposta por todo lado. Os outros dois guerrilheiros, confusos com a direção da flecha disparam tiros para todos os lados. E do único ponto cego uma flecha surgiu atravessando o peito do segundo guerrilheiro, que morreu disparando sua arma que gritou como ele não pôde, o pulmão perfurado. O terceiro soldado atirou, aguardou o silêncio, observou. Uma coruja caçoou de seu desespero. A ofegância, um sinal de medo. Os colegas no chão. “Para onde correr?”.

Edilberto surgiu de um setor inexplorado pela vista do soldado e o atacou com a navalha de uma das flechas. A navalha cortou o espaço entre as costelas do homem, calando-o sem pressa. O sofrimento durará.

O elevador do edifício adiante não funciona mais. Edilberto precisa subir as escadas para chegar ao apartamento de sua donzela. As escadas estão repletas de curiosos. “O que aconteceu com o violinista?”. “Ele está morto”, diz Edilberto sem compaixão, e sobe as escadas sem mais palavras. As pessoas abrem passagem para ele, o messias do Status Quo, o protetor da tradição, o avatar da cristandade, dos bons modos e da justiça terrena. Uma mãe desmonta-se em prantos. “Silêncio, quer matar a nós todos? Os assassinos ainda estão por ai, por todos os cantos”, grita um vizinho. “Eles não são assassinos, são revolucionários!”, diz um exaltado. Os outros calam-no a força. “A verdade é que a vida nunca mais será a mesma. Independente do regime em que estamos e da vontade de qualquer um aqui”, diz um idoso senil, que em situação de guerra subitamente sentiu-se no direito de proferir sabedoria aos pobres novatos. Edilberto não ficou para assistir a discussão, abriu a porta do apartamento 217 com um chute. No prédio dos sobreviventes, por uma coincidência miraculosa, vive sua amada. Chorando sobre o tapete quente, com o rosto encostado na janela do apartamento, sozinha, ela observa a rua. Um batalhão de soldados da revolta passam em frente ao edifício e observam os quatro corpos caídos no chão: um violinista e três revolucionários. Edilberto não se abala. Permanece em pé sobre a janela. A mulher, sentindo o calor da proteção o abraça, apenas para descobrir que é o homem que um dia rejeitou, e o beija. “O que vamos fazer?”, ela pergunta. “Vamos lutar”, ele responde.

Me tratam com admiração, depois do desprezo dos dias banais. Eu não sou um redentor, eu sou um sobrevivente, meu nome é Edilberto.



(Roteiro para um filme sabonete em homenagem ao amigo Edilberto Rosa)
http://gustavoserrate.wordpress.com/2009/08/27/cataclismo/

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