quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

Capitalismo: um delírio muito peculiar

Entrevista com Gilles Deleuze (excerto) - tradução de Luiz Geremias


PERGUNTA: Quando você descreve o capitalismo, diz: "Não há a menor operação, o menor mecanismo industrial ou financeiro que não revele a demência da máquina capitalista e o caráter patológico de sua racionalidade (não, de todo modo, uma falsa racionalidade, mas uma verdadeira racionalidade ‘dessa’ patologia, ‘dessa loucura’, para que a máquina funcione, esteja certo disso). Não há perigo desta máquina enlouquecer, ela foi louca desde o início e é daí que sua racionalidade vem”. Isso significa que, depois desta sociedade "anormal", ou fora dela, pode haver uma sociedade "normal"?
Tudo é racional no capitalismo, exceto o capital ou o próprio capitalismo

GILLES DELEUZE: Nós não usamos os termos "normal" ou "anormal". Todas as sociedades são racionais e irracionais ao mesmo tempo. Elas são forçosamente racionais em seus mecanismos, suas engrenagens e rodas, seus sistemas de conexão e até pelo lugar que atribuem ao irracional. No entanto, tudo isto pressupõe códigos ou axiomas que não são produtos do acaso, mas que não são intrinsecamente racionais. É como na teologia: tudo acerca disso é racional se você aceitar o pecado, a imaculada concepção, a encarnação. A razão é sempre uma região recortada do irracional – não protegida do irracional, de todo modo, mas uma região atravessada pelo irracional e definida apenas por um certo tipo de relação entre os fatores irracionais. Debaixo de toda a razão está o delírio à deriva. Tudo é racional no capitalismo, exceto o capital ou o próprio capitalismo.


O mercado de ações é certamente racional; pode-se entendê-lo, estudá-lo, os capitalistas sabem como usá-lo e ainda assim é totalmente delirante, é louco. É neste sentido que dizemos: o racional é sempre a racionalidade de um irracional. Algo que não tem sido adequadamente discutido sobre “O Capital” de Marx é o quanto ele é fascinado pelos mecanismos capitalistas, precisamente porque o sistema é demente, mas funciona muito bem, ao mesmo tempo.


Então, o que é racional em uma sociedade? É – os interesses sendo definidos na estrutura desta sociedade – o modo como as pessoas perseguem esses interesses, a sua realização. Mas, por baixo, há desejos, os investimentos do desejo que não podem ser confundidos com os investimentos de interesse e dos quais os interesses dependem em sua determinação e distribuição: um enorme fluxo, todos os tipos de fluxos libidinais-inconscientes que compõem o delírio desta sociedade.


A verdadeira história é a história do desejo. Um capitalista, ou hoje um tecnocrata, não deseja da mesma forma como fazia um mercador de escravos ou um oficial do antigo império chinês. Que as pessoas em uma sociedade desejam repressão, tanto para os outros como para si próprias, que há sempre pessoas que querem incomodar as outras e que têm a oportunidade de fazê-lo, o "direito" de fazê-lo, é isso que revela o problema de uma ligação profunda entre o desejo libidinal e a dominação social. Um amor "desinteressado" pela máquina opressora: Nietzsche disse algumas coisas bonitas sobre este triunfo permanente de escravos, sobre como os amargurados, os deprimidos e os fracos, impõem seu modo de vida a todos nós.

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