terça-feira, 31 de janeiro de 2012

A roqueira “cara de mau”, Nahas, Assange e o Facebook

Rita Lee nos bons tempos
  No último sábado, Rita Lee mandou dois policiais “fumar um baseadinho” e acabou autuada em flagrante por desacato e apologia ao uso de drogas. Era o seu último show, o de despedida.

Conseguiu o que queria para seu futuro réquiem, pois, como cantava ela mesma, roqueiro brasileiro sempre teve cara de bandido. Aliás, todo roqueiro tenta ter cara de mau, com exceção dos ingleses da década de 1980, com aqueles topetes absolutamente alheios a qualquer senso de ridículo e aquele jeitão de maior abandonado sempre magoado e deprimente. O resto, parece mau, muito mau.

Cara de mau eles têm, mas na real não passam de meninos mimados que pegaram carona na rebeldia como um discurso de marketing. Gente muito bem comportada com suas expressões muitas vezes satânicas. De modo claro, agentes secretos do sistema no qual sempre cuspiram e atiraram garrafas vazias.


Viu como eles se entendem?
 
Você já parou para pensar que o criador dos Sex Pistols e, consequentemente, do tal movimento Punk era publicitário? E tem gente que anda por aí, pelas ruas, sujo e cheio de sarna, com aquele cabelo que parece mais uma crista galinácea, achando que ser punk é algo bem trash. Nada disso. Ser punk é apenas ser uma mídia publicitária. É e sempre foi, infelizmente.

Parabéns a Rita Lee, que já foi ótima quando novinha, na década de 60, mas que, tudo indica, ficou velha antes de sábia e esqueceu o caminho da criatividade, caiu do caminhão da mudança, cantou disco music nos anos 1970 e se acomodou no marasmo roqueiro daí em diante. Parabéns pelo belo episódio de fim de carreira. E não digo isso com ironia. Entendo que foi interessante acabar assim. Faz parte do show. Só não me peça para levar a sério essa rebeldia tola. Não passa de “coisa jovem”, eternamente jovem, característica desses adolescentes congelados que vagam por aí.


Um homem feliz que mora em uma bela mansão, enquanto isso, no Pinheirinho...
 
 

Naji Nahas faliu, mas continua morando em sua mansão, já o pessoal do Pinheirinho...

Pois é, há quem diga que rico pode roubar, matar e até mesmo falir que, tudo bem, continua feliz com seus bens e patrimônio. Matéria de Helena Sthephanowitz, da Rede Brasil Atual (http://www.redebrasilatual.com.br/blog/helena/justica-nahas-faliu-mas-continua-em-sua-mansao/view) lembra que, no final da década de 1980, o chamado mega-especulador (se Nahas fosse pobre talvez fosse chamado “o vigarista”) levou a Bolsa do Rio à falência e ainda fraudou a falência de sua holding, a Selecta S/A. Condenado pela justiça carioca, conseguiu que o processo dormisse até caducar no Superior Tribunal de Justiça (STJ), segundo informações da mesma matéria.

“Por razões que só o Judiciário e os governos tucanos podem explicar, Nahas fica falido e não é ele quem é despejado de sua mansão. Quem é tirado de suas casas desumanamente são 1,7 mil famílias no Pinheirinho, em São José dos Campos, num terreno que pertencia à Selecta e pelo qual deve milhões de reais em impostos não pagos”, afirma Sthephanowitz. A mansão tem quadra de tênis, piscina e elevador e a lei, nesses casos, parece se mostrar bem diversa para ricos e pobres. Se você deve um real, é bandido, se deve um milhão, é magnata.

PS: A matéria pode também ser lida no sítio do Outras Palavras (http://ponto.outraspalavras.net/2012/01/30/apos-falir-bolsa-nahas-fali-judicioario/).





Facebook: espionando você, segundo Assange

“A máquina de espionagem mais apavorante já criada” (“The most appalling spy machine that has ever been created”), disse Julian Assange, do WikiLeaks, sobre o Facebook

E disse mais: “Ali está o maior banco de dados sobre dados pessoais do mundo, com seus nomes, relações, endereços, localizações, familiares e contatos com outras pessoas, tudo ao alcance do governo americano”. O australiano afirmou ainda que, além do Facebook, também o Google e o Yahoo! fazem o mesmo.

Assange criou o Wikileaks, que disponibiliza informações secretas dos governos e empresas para o cidadão, enquanto o Facebook disponibiliza informações pessoais do cidadão para os governos e empresas. Curiosamente, Assange é maldito; Zuckerberg, criador do Facebook, é venerado. Vá entender...

sábado, 28 de janeiro de 2012

Uma nova nação


Al Capone, o "Scarface"



“Amanhã vai nascer uma nova nação. Eis que se abre a era do pensamento claro e da vida limpa. A Liga Antialcoólica deseja a todos os homens, mulheres e crianças um ano feliz sem álcool”

16 de janeiro de 1920, mensagem que a imprensa divulgou por ocasião da aplicação da chamada Lei Seca no território dos Estados Unidos da América. Realmente, se iniciava uma nova nação na qual o crime passaria a mandar sem tréguas e com uma crueldade jamais antes vista.

Durante quatorze anos.

terça-feira, 24 de janeiro de 2012

Palavras são bálsamos


Hoje não escrevo nada. Meu coração está triste. Não, não se trata de uma desilusão amorosa, não é nada disso nem qualquer romantismo desses que nos fazem ouvir músicas tristes e chorar pelos cantos. Nada. Foram desilusões que me fizeram ficar assim, é certo, mas não exatamente amorosas. Também não posso dizer quais foram, pois envolvem pessoas com as quais não quero brigas nem tormentos. Só quero dizer, nem sei para que ou para quem, de minha tristeza.

Escrevo, talvez, para mim mesmo. Escrevo para me dizer que sou tolo, que idealizo certas situações e que não posso esperar mais do que bons esforços das pessoas. Eu mesmo faço muitos esforços para ser o melhor que posso, para agradar o máximo às pessoas que amo. Mas sei, tenho certeza, que na maioria das vezes não obtenho sucesso. Sou gente, isso que chamamos de humano, uma lástima, portanto. E é nestes momentos que preciso pedir desculpas a todos e também a mim mesmo. A todos por ser essa triste figura, contraditória e deselegante tantas vezes. A mim mesmo, por me idealizar tanto, acreditando que sou ou posso ser melhor do que sou.

Sempre tive dificuldades de chorar, a não ser quando era criança, quando o choro sempre vem fácil. Mas, juro, estou com uma vontade daquelas de chorar e minha garganta tem um nó que quase não me deixa respi-rar. Ainda assim, não choro. Faço cara de choro, o nó na garganta aperta, mas não choro. Nesse ponto, sou duro, uma rocha.

Logo pela manhã, aconteceu algo que me causou desconforto, não apenas uma coisa, duas. Uma que me mostrou o quanto fui estúpido no passado e o quando sou um zero à esquerda atualmente. Mais tarde, creio que pouco depois do almoço, ocorreu outro fato que, desta vez, talvez por já estar com o peso dos da manhã, me derrubou definitivamente. Engraçado é que este segundo acontecimento tem proporções bem menores do que os anteriores, mas foi como se fosse uma pedrinha tão pequena que, para minha surpresa, pesasse mais que toda uma montanha.

Curioso isso: há coisas pequenas que parecem imensas, que nos atingem como disparos de canhão.

Ontem, sonhei que podia morrer. Não me lembro do que aconteceu exatamente no sonho, mas sei que me preparei para morrer naquele momento. Cheguei a fazer uma rápida avaliação da minha vida, tudo isso no sonho. Hoje, não estou sonhando, mas penso que posso morrer a qualquer momento. Desejo morrer. “Podia me matar”, penso. Vou até a janela, olho para baixo. Penso, nesse momento, que não posso abandonar as pessoas que estão a minha volta e dependem de mim, pessoas que amo. Desisto. Garanto que apenas por isso desisto. Já vivi quase 52 anos, morrer não seria tão precoce assim. E, como já disse em público, tem momentos em que morrer não é mau negócio.

Não tenho nutrido tantas boas perspectivas em relação ao mundo e à vida. Creio que tudo parece piorar e que tempos duros virão, não apenas para mim. No entanto, preciso estar vivo, acordar cedo, passar horas intermináveis num trabalho que não me diz praticamente nada, embora tenha que fazer a ressalva de que há boas pessoas junto a mim e não têm culpa nenhuma por minha insatisfação e menos ainda por, algumas vezes, aumentá-la. O problema é meu, só meu. O problema sou eu, só eu. Mesmo as pessoas que gosto, quando cometem alguma besteira, tenho certeza que não o fazem contra mim. Eu mesmo, nossa, quanto mal fiz a tanta gente... espero que mereça perdão.

Preciso estar vivo, lidar com todas as dificuldades. Mas não me peça para sorrir, ao menos agora. Não tenho vontade. Estou triste, muito triste. Tão triste que poderia chorar ou mesmo me atirar pela janela do edifício. Não espere sorrisos ou qualquer manifestação espontaneamente alegre. Se eu sorrir para você hoje, pode ter certeza de que é falso: ou dependo de você para viver ou te odeio o suficiente para mentir sorrindo e decla-rar todo meu amor a você ou à vida.

Hoje estou triste, muito triste. É claro que você já percebeu. Mas, o que importa? Eu mesmo respondo: nada. Minha tristeza não importa a ninguém. É íntima e inconfessável.

Obrigado por ter me seguido até aqui. Mas, agora, vou ficar só.

Escrever é, de certo modo, a única coisa que aplaca meu coração. Disse que não ia escrever nada, veja só. É que as palavras, para mim, são como bálsamos, curam feridas. Quem sabe, somente por isso escrevo.

Barbárie!


Cresce entre a elite brasileira, com respaldo evidente dos seus intelectuais orgânicos, a proposta de cortar investimentos sociais. A medida não visa, na verdade, uma economia. O objetivo é que os recursos poupados sejam dirigidos para uma minoria de ricos especuladores financeiros.

Antonio Martins, do Outras Palavras, é perspicaz e explica direitinho o argumento das elites financeiras. “Ao reduzir as despesas com serviços públicos e direitos sociais agora, o Estado estaria abrindo espaço (este é o termo-chave) para reduzir o pagamento de juros… mais tarde”. Não meu amigo ou minha amiga, você não ficou burro de repente. A explicação é absurda mesmo. Segundo o mesmo Martins, “Seria como se um jogador compulsivo dissesse: ‘vou cortar as despesas de educação da família agora para poder, daqui a seis meses, deixar o cassino’. Ou, no caso de um glutão voraz: ‘Em 2012, não como mais frutas. Assim, abro espaço para esquecer a mesa de doces em 2013’”.


Além de tudo, esse pessoal ainda ofende nossa inteligência...


Em São Paulo, um especulador vale mais do que mil famílias


O Estado, que deveria estar do lado dos mais fracos, resolve descer a porrada nestes para satisfazer a ganância de Naji Nahas, um sujeito que chegou a quase ser preso por manipular desavergonhadamente a Bolsa do Rio de Janeiro na década de 1980. Muitos pequenos investidores foram à falência, ou quase, por conta desse fulano.Só não foi ver o sol nascer quadrado, garantem alguns especialistas, porque rico não conhece penitenciária por dentro. Está muito bem de saúde, gozando de liberdade inclusive para destruir a vida de mais de mil famílias que ocupam um terreno de propriedade sua, que, quem sabe, comprou com a grana que conseguiu nessas armações.


Na internet, há os que apóiam a atrocidade policial simplesmente com o argumento de que é preciso defender a propriedade privada. Tá certo. Quando a porta bater na porta deles, reclamam e chamam a polícia. Não devem, desse modo, chorar quando um desses despossuídos de propriedades privadas puxar uma “quadrada” para “fazer um ganho” ou coisa pior. Cá para nós, é compreensível que isso ocorra, considerando o que os mais pobres têm sofrido simplesmente por não terem mais nada a perder além da própria vida.


Está se gerando um ódio descomunal, simplesmente por ganância de meia dúzia de especuladores. A maior causa da violência é a falta de solidariedade, não a diferença entre possuídos e despossuídos. Esta diferença é normal e todas as sociedades, em todos os tempos, conviveram e convivem com isso.


Saiu enfartado e sem cheque no bolso, está condenado


Em Brasília, o secretário de Recursos Humanos Ministério do Planejamento, Duvanier Paiva Ferreira, morreu após sofrer um enfarte. Foi levado a duas casas de saúde para atendimento que, segundo o jornal Correio Braziliense, supostamente teriam negado atendimento porque Duvanier não tinha um cheque para deixar como caução. Ao chegar ao terceiro hospital, não houve como salvá-lo.


Caso se confirmem as informações do jornal de Brasília, trata-se de crime ou, mais que isso, de pura barbárie. E assim rasteja a humanidade.

domingo, 22 de janeiro de 2012

Cataclismo


Conto do amigo Gustavo Serrate, com quem trabalhei em Brasília, cineasta, excelente redator e um sujeito com um caráter invejável. Grande Abraço, Gustavo e parabéns pela instigante narrativa.

================================

Quando as bombas caíram e as metralhas rajaram. Os cães ladraram, os homens ganiram, mulheres e crianças sofreram e a cidade cessou. Restaram alguns sobreviventes almoquifados, poucos deles.

Furos de todos os calibres nas paredes, vidraças estilhaçadas, casas e edifícios vazios, saqueados, ruas desertas. O que aconteceu com toda a vida que existia até a noite passada? Há um homem morto no asfalto. Seu rosto amassado no chão sangra pela queda, o pequeno buraco redondo e escuro em suas costas é o motivo maior do silêncio. Um silêncio que representa o início da guerra contra o poder vigente. A insurreição dos rebeldes contra o poder estatal. Os inocentes, apolíticos, cidadãos comuns são as maiores vítimas. Segundo a mentalidade dos rebeldes anarquistas, o sangue inocente lavará a mentalidade colonial que o capitalismo instalou nas cabeças não-pensantes. Todos inocentes devem morrer, para tornar possível a inauguração de um novo sistema de ensino, uma nova forma de pensar. Nesse sistema utópico idealista serão criados homens de livre pensar, dotados da capacidade de discernir, argumentar, questionar e coexistir com o mundo natural e com seus semelhantes. Se o homem capitalista é para o mundo um câncer, o super homens são a ponte da evolução humana, com intelecto desenvolvido. A nova comuna será independente de qualquer forma de autoridade. Não existirão mais líderes daqui por diante.

Tiros e explosões saltam os edifícios inertes, preenchem a paisagem. Um lacônico estampido de bala acaba com os gritos de desespero que surgiram algumas casas adiante. Rebeldes matando inocentes. A matança não é um prazer, mas uma necessidade. A inércia mental dos subjugados ao sistema capitalista é um mal que deve ser extinto. A mente do cidadão tradicional está contaminada pela televisão nociva, com horas intermináveis de vídeo clipes, de filmes-sabonete, de músicas eletrônica, programas de auditório, refrigerantes açucarados, propaganda e de desinformação, banalização do cotidiano. Toda representação do império econômico monstruoso que governa o mundo deve ser extinta. Os cartazes, as propagandas, e até a mente física das pessoas serão imediatamente destruídas, queimadas e apagadas.

“A vida mudou, a pouca vida que ainda resta, mudou!”, é nisso que Edilberto, um dos poucos sobreviventes, está pensando. Por algum motivo seu instinto de sobrevivência o impele a permanecer acordado e paciente sobre todos os outros cadáveres de sua casa. Mãe, pai, empregada, sobrinha e irmão, todos mortos violentamente por homens armados. Edilberto permaneceu escondido durante o massacre e agora, inexpressivo observa cada detalhe dos rostos de seus progenitores. A mãe, que um dia lhe sorriu, amamentou, e ensinou, agora está aí prostrada no chão como uma peça qualquer, um móvel de madeira. Dentro de meses este corpo humano estará podre, mas desde já, enquanto a carne ainda conserva seu calor, os sentimentos humanos que aquela mulher emitiu através de gestos e atitudes, não estão mais disponíveis para o filho perplexo. A mãe será de quem Edilberto sentirá mais falta. “A vida mudou. A pouca vida que ainda resta, mudou”.

Não, esse não é o Edilberto, é o Gustavo

Hora de levantar. Edilberto já serviu ao exército, já fez cursos de defesa pessoal, já praticou artes marciais, tem conhecimentos de arco e flechas e tiro, aviação e até se aprimorou como Barman, tendo trabalhado como palhaço em um período da sua vida e estudado técnicas detetivescas, todas as habilidades requeridas para um comandante do novo mundo. Passou a vida toda se preparando para que? Até o dia anterior ele era um rapaz concursado, trabalhando para um órgão público do estado. Que estado? O estado não existe mais. A gorda conta bancária de Edilberto não pode mais registrar um centavo, afinal os insurgentes anarquistas mataram o último bancário. Não há sequer um capitalista vivo nesta cidade. Empresários, japoneses vendedores de bugingangas, lojistas de shopping centers, presidentes, traficantes, pastores, dono de pequenas empresas, foram aniquiliados um a um. Também não existem homens de fé vivos, as igrejas foram invadidas, destruídas e maculadas. Deus? “Gott ist tot”, grita um alemão de sua janela no quarto andar, vive no Brasil desde 1992. Fascinado pela arquitetura de Niemeyer e pelo planejamento urbano de Lúcio Costa, adaptou-se a Brasília, satisfeito com a brasilidade e com a cerveja rala, instalou-se em um apartamento da Asa Sul e foi ali viver feliz por quase duas décadas. A bala de um fuzil de assalto M16 perfura o corpo do estrangeiro apaixonado pelo Brasil. Deitado sobre a própria sacada o alemão não tem mais fôlego.

Como diz o refrão entoado pelos anarquistas: “A humanidade só será livre quando o último capitalista for enforcado com as tripas do último burocrata”. E é isso o que fizeram. Não existe mais estado. Moeda de troca? Se você quer um cavalo, vá e pegue, você não tem casa? Escolha uma porta e arrombe, deite-se sobre seus lençóis, plante o que for comer, a maconha e o ópio para consumo próprio, compartilhe o que sobrou, lanches coletivos, novas possibilidades humanas e serão queimados todos os livros de auto-ajuda pois não existirá no mundo sequer um homem neurótico, mentalmente aprisionado, ninguém precisa de explicações para viver, cada um vive como quer, há de ser tudo da lei! Não haverá mais noção de propriedade nos dias que se seguem. A propriedade, segundo os anarquistas, corroeu a alma humana, dilacerou existências Índias, verdadeiros donos dessa terra, e corrompeu o coração dos líderes pela ganância. Antes que tudo seja da lei é preciso destronar o poder vigente por completo, acabar com a cultura e com a mentalidade capitalista, para ai então, liberar a mente dos iluminados remanescentes para recriar o mundo a seu bel prazer. Se esse estilo de vida será auto-sustentável, só o tempo dirá, mas agora é tarde para pensar em reveses, a revolução já começou. Os anarquistas são muitos, os adeptos da causa estão por todo o lado. Uma verdadeira revolução precisa de sangue. Um líder guerrilheiro não pensa nas vidas derramadas. A vida dos soldados é a moeda de troca. O sangue é o preço da revolução.

Edilberto sai de sua casa calçando um tênis nike do irmão. Bem agasalhado, com uma mochila cheia de provisões, e o arco e flecha nas mãos, sua única arma disponível para tiros de longo alcance. Edilberto é um apolítico errante, solitário e inapto para o convívio social. Passou a vida dedicando-se ao auto-conhecimento espiritual, lendo osho, freqüentando palestras sobre filosofia, mastigando tabaco, praticando artes marciais e jogando diversões computadorizadas pagas com cartão de crédito pela internet (que por sinal, não está mais online, o mundo virtual não existe mais, daqui para frente, só realidade). O auto conhecimento não leva os homens muito longe financeira ou socialmente, mas fortalece o senso de si mesmo, e possivelmente o egocentrismo. Mas agora só existe Edilberto no mundo, senhor de si mesmo, ele tem todo direito de considerar-se o líder contra revolucionário. Sair na rua às claras é perigoso demais. Edilberto desce as escadas e esconde-se até que anoiteça. “Ela precisa estar viva”, ele pensa enquanto espera. A ex-esposa de Edilberto, de quem se separou há dois anos tem a pele macia e um sorriso gentil. Ele precisa buscá-la, nunca esqueceu daquela mulher. Sua vida amorosa, durante os tempos áureos da urbanidade desenfreada, foi conturbada. Formavam um casal lindo, se amavam com toda força, mas brigas, desentendimentos, imaturidade e desgaste os separou. Até um dia atrás ela estava casada com Jarbas, chefe de departamento econômico do ministério do transporte. Desnecessário dizer que ele morreu trabalhando. Os enfurecidos entraram pela porta da frente e o alvejaram derramando sangue sobre sua mesa impecável.

Edilberto percorreu as ruas sorrateiramente, esgueirando-se de árvore em árvore. A vida caseira, a televisão, o sedentarismo, o computador e o onanismo roubaram dele a forma física, a vontade de viver, mas algo mudou. Edilberto é um novo homem. Os conhecimentos que cultivou durante tantos anos agora tem uma utilidade prática: Sobrevivência. A guerra é a experiência mais completa que um ser humano pode vivenciar, e Edilberto está pronto para isso. Prazer pela carne inimiga chamuscada, gozo em matar. A guerra é bela para aquele que sabe guerrear.

Um violino rasgou o silêncio noturno da super-quadra do plano piloto. Edilberto manteve-se na esquina de uma escola pública observando o homem tocar. Três anarquistas armados forçaram o músico a trabalhar. O homem está nú um violino nas mãos. A música de seu próprio funeral o manteve coberto de dignidade. Com toda sua força, o violinista tocou a música mais bela e poderosa que sua mente febril poderia compor. Está música de acordes graves e agudos entrelaçando-se em perfeita harmonia ficou escrita no vento e jamais será reproduzida por outro violinista, tudo o que é sólido desmancha no ar.

A música vinha de seu âmago, em parceria com a técnica, produziram a melancolia que poetizou a morte. E então a fúria do violino metralhou os ouvidos dos guerrilheiros, com ódio e força o instrumento alertou todas as casas: “Há aqui um homem, um músico, um poeta digno, pronto a morrer sob a mira das armas cruéis, mas não sem o protesto da melodia mágica desta arma musical”.

O encantamento da música hipnotizou os guardas até cessar em silêncio. A música poderia prosseguir por toda a madrugada, que os rebeldes manteriam seus gatilhos desapertados, mas o violinista desistiu de ludibriar os ouvidos de seus algozes. A última nota foi proferida como um sopro de desistência. O temperamento eloquente das metralhadoras rasgou o ar com dissonância, e ao invés de um “Bravo” acompanhado de palmas, o músico recebeu salva de chumbo quente descarregadas em seu frágil corpo humano. O gran finale foi um aperto no coração, seu corpo e as pernas bambearam. O violino partiu-se no chão.

O som que se seguiu ao silêncio da morte musical foi um laivo cortante. A flecha disparada por Edilberto atravessou a cabeça de um dos rebeldes espalhando sua mentalidade avançada em gomos de carne por todo o chão. No dia seguinte cães (agora selvagens) alimentariam-se da massa encefálica exposta por todo lado. Os outros dois guerrilheiros, confusos com a direção da flecha disparam tiros para todos os lados. E do único ponto cego uma flecha surgiu atravessando o peito do segundo guerrilheiro, que morreu disparando sua arma que gritou como ele não pôde, o pulmão perfurado. O terceiro soldado atirou, aguardou o silêncio, observou. Uma coruja caçoou de seu desespero. A ofegância, um sinal de medo. Os colegas no chão. “Para onde correr?”.

Edilberto surgiu de um setor inexplorado pela vista do soldado e o atacou com a navalha de uma das flechas. A navalha cortou o espaço entre as costelas do homem, calando-o sem pressa. O sofrimento durará.

O elevador do edifício adiante não funciona mais. Edilberto precisa subir as escadas para chegar ao apartamento de sua donzela. As escadas estão repletas de curiosos. “O que aconteceu com o violinista?”. “Ele está morto”, diz Edilberto sem compaixão, e sobe as escadas sem mais palavras. As pessoas abrem passagem para ele, o messias do Status Quo, o protetor da tradição, o avatar da cristandade, dos bons modos e da justiça terrena. Uma mãe desmonta-se em prantos. “Silêncio, quer matar a nós todos? Os assassinos ainda estão por ai, por todos os cantos”, grita um vizinho. “Eles não são assassinos, são revolucionários!”, diz um exaltado. Os outros calam-no a força. “A verdade é que a vida nunca mais será a mesma. Independente do regime em que estamos e da vontade de qualquer um aqui”, diz um idoso senil, que em situação de guerra subitamente sentiu-se no direito de proferir sabedoria aos pobres novatos. Edilberto não ficou para assistir a discussão, abriu a porta do apartamento 217 com um chute. No prédio dos sobreviventes, por uma coincidência miraculosa, vive sua amada. Chorando sobre o tapete quente, com o rosto encostado na janela do apartamento, sozinha, ela observa a rua. Um batalhão de soldados da revolta passam em frente ao edifício e observam os quatro corpos caídos no chão: um violinista e três revolucionários. Edilberto não se abala. Permanece em pé sobre a janela. A mulher, sentindo o calor da proteção o abraça, apenas para descobrir que é o homem que um dia rejeitou, e o beija. “O que vamos fazer?”, ela pergunta. “Vamos lutar”, ele responde.

Me tratam com admiração, depois do desprezo dos dias banais. Eu não sou um redentor, eu sou um sobrevivente, meu nome é Edilberto.



(Roteiro para um filme sabonete em homenagem ao amigo Edilberto Rosa)
http://gustavoserrate.wordpress.com/2009/08/27/cataclismo/

sábado, 21 de janeiro de 2012

Direto da biblioteca: Fala Guattari - Tema: “subjetividade”


Parto da ideia de uma economia coletiva, de agenciamentos coletivos de subjetividade, que, em algumas circunstâncias, em alguns contextos sociais, podem se individuar.


(...)


A subjetividade está em circulação nos conjuntos sociais de diferentes tamanhos: ela é essencialmente social e assumida e vivida por indivíduos em suas existências particulares.


O modo pelo qual os indivíduos vivem essa subjetividade oscila entre dois extremos:


1. uma relação de alienação e opressão, na qual o indivíduo se submete à subjetividade tal como a recebe, ou


2. uma relação de expressão e de criação, na qual o indivíduo se reapropria dos componentes da subjetividade, produzindo um processo que eu chamaria de singularização.


Se aceitamos essa hipótese, vemos que a circunscrição dos antagonismos sociais aos campos econômicos e políticos – a circunscrição do alvo de luta à reapropriação dos meios de produção ou dos meios de expressão política – encontra-se superada.


É preciso adentrar o campo da economia subjetiva e não mais restringir-se ao da economia política.



Do livro Micropolítica: cartografias do desejo, escrito em parceria com Suely Rolnik. Trecho retirado da página 33, edição de 1999 da Vozes.

sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

Divagações memoriais sobre Copacabana

 
Praia de Copacabana com um dos postinhos salva-vidas

Leio que a Kodak está pedindo concordata para se reestruturar. Ora, a Kodak foi, para mim e para muitos outros e outras, referência total e absoluta de câmera fotográfica. Tirar fotografias? Kodak, cujo nome vem do suposto barulhinho que ouvimos ao clicar o botão da câmera. Você clica, ouve “Kodak” e pronto, a foto está tirada. Isso acabou. Ninguém mais ouve esse som. As câmeras são digitais, com botões macios que nem sequer fazer barulhinho algum.


Meus pais tinham uma câmera Kodak. Era um caixotinho e você tirava as fotos com ele posicionado na altura do peito, pois o visor era na parte de cima. Devia haver um sistema simples de espelhos para isso. O “Kodak” do disparador era um senhor “Kodak“, bem sonoro. Dava gosto clicá-lo.


Recentemente, soube que o xampu Johnson, aquele que sempre me pareceu um ícone da mais tenra infância, pode conter um item cancerígeno, conforme publiquei em texto aqui mesmo neste blog. O drops Dulcora já se foi há tempo e o cachorro quente Geneal não é tão gostoso quanto era. Deve ser o tempo que passa e faz com que nossas referências sejam bombardeadas pelo cruel teste da realidade. Quando eu era criança e adolescente, idealizava praticamente tudo, como tenho percebido acontecer com tanta gente no mesmo período de vida.

Uma câmera "caixotinho" da Kodak


Não fico triste com as mudanças e transformações, ainda mais que são apenas comerciais e técnicas. Pouco me importa que a Kodak abra falência ou que o biscoito de polvilho Globo seja industrializado ou não, ou que o xampu sempre tenha sido cancerígeno, até porque tive meus cabelinhos de bebê lavados por ele e não peguei nenhuma doença tão grave assim. Ou que não haja mais determinada bala ou drops. Nada disso é importante em si.


O fato é que há pelo menos dois anos comecei a assistir o filme da minha vida passar quase diariamente e todos esses produtos são instigadores de lembranças. São muitas e escolho, em primeiro lugar, as do lugar no qual nasci e me criei, o Rio de Janeiro, em especial o bairro de Copacabana.


A Copacabana na qual eu nasci e cresci
Ressaca em Copacabana

Você não precisa, evidentemente, passar deste ponto. O que vou descrever agora é um conjunto de lembranças de coisas que vi no início da minha vida, um conjunto breve, é certo, mas que pode se tornar enfadonho pelo simples motivo de que são fruto de vivências pessoais, um enfoque particular, com os cenários quase inventados e peculiaridades subjetivas de quaisquer recordações. Não são saudosas no sentido de que não acredito que o passado foi melhor que o presente. Simplesmente foi, passou e, ainda bem, não voltará.


Copacabana se transformou de um já agitado balneário que era nos anos 1960/70, num centro nervoso no qual mais de 300 mil pessoas circulam diariamente, com um trânsito inviável e absolutamente cheio de turistas, seja qual for o período do ano. Fora isso, ainda há os grandes eventos, como shows diversos e o réveillon, que chega a reunir uma multidão de mais de dois milhões.


A praça na qual cresci, chamada Cardeal Arcoverde, no chamado “posto 2”, hoje abriga a estação Arcoverde do metrô. Nela joguei futebol por anos, brinquei no balanço, nas gangorras etc. Ah, também brincava de pique e sei lá mais o quê. Outra mudança relativa a uma praça de Copacabana foi o que ocorreu com a praça Serzedelo Correa, localizada em frente à Igreja de Nossa Senhora de Copacabana, na qual, hoje, meu pai trabalha. Durante anos, talvez duas décadas, ninguém a conhecia pelo nome. Era simplesmente a “praça dos paraíbas”, pois nela dezenas ou centenas de nordestinos se reuniam nos finais de semana. Hoje, está cercada, assim como a Praça Arcoverde e a Praça do Lido, é fechada no fim da tarde, mesmo aos domingos, e não há mais nordestinos se reunindo lá.
Praia do Diabo


A praia de Copacabana, até o início da década de 1970, era mínima. Havia uma pista apenas e uma faixa de areia que não deveria chegar a ter vinte metros de largura, com os mesmos quatro quilômetros de extensão que possui até hoje. Quando havia ressaca, ou seja, quando o mar estava agitado em excesso, a água invadia a Avenida Atlântica e, bem me lembro, um dia chegou quase até a Rua Barata Ribeiro, bem distante da praia.


Copacabana também tinha os postinhos de salva-vidas, que eram mínimos e um tanto feios, mas que agora são grandes e você tem que pagar para ir ao banheiro neles. Meu pai conhecia um salva-vidas e eu tive a oportunidade de ir num dos antigos postos. Você via a praia de cima, mas nem tanto: o suficiente para observar o mar e ver se alguém se afogava.


Ônibus e outras lembranças
O ônibus elétrico, mais conhecido como "chifrudo"


Havia os bondes, que peguei já no final, já que deixaram de rodar em 1964, menos o de Santa Teresa, que continua até hoje e parece ser o último remanescente dos bondes usados para transporte diário de passageiros, não de apenas de turistas, como em outras cidades. O bonde é ainda o melhor recurso para se chegar no alto de Santa Teresa. E tinha os lotações, os antigos ônibus, sendo que houve, durante alguns anos, o “chifrudo”, um ônibus elétrico que tinha dois “chifres” que se conectavam a cabos elétricos que passavam sobre a rua. De vez em quando, os chifres soltavam dos fios e o motorista tinha que descer para encaixar de novo.


Eu achava tudo muito agressivo e violento. Muitos carros, ônibus, ônibus e mais carros e ônibus. Gente, gente e mais muita gente. Morava no “duzentão” (hoje 194 da Barata Ribeiro), um edifício com quase 60 apartamentos por andar. Lá, morava o meu até hoje grande amigo Orlando Coelho, poeta, professor e sociólogo (todos temos defeitos), que vive atualmente em Uberaba, Minas Gerais. Filho dos saudosos Orlando e Sarita, com quem eu brincava ser contemporânea de Emilinha Borba e Marlene, as duas cantoras que marcaram época no rádio da primeira metade do século no Rio. Na verdade, elas eram bem mais idosas que a querida Dona Sarita, essa era a graça. E há também o Maurício, irmão de Orlando, outro grande e querido amigo.


De certo modo, nasci no bairro mais Rio de Janeiro do Rio de Janeiro, que encarna – ou encarnava – de forma mais contundente suas contradições, com uma variação considerável de tipos humanos com posses econômicas as mais diferenciadas. E, quem sabe, no edifício mais Copacabana de Copacabana, o já citado “duzentão”, que chegou a ser tema de filme e peça de teatro. Tinha de tudo lá e, mais interessante, havia muitos recém-chegados ao Rio, incluindo jornalistas, artistas de teatro, de teatro de revista, de rádio e, um pouco depois, de TV também. Como já disse não tenho saudade desse tempo, mas acho que tive sorte, pois viver naquele lugar resultava numa interessante formação humana, principalmente pela diversidade.


Prezo bastante todos os que estiveram ao meu lado nesse tempo, mesmo não tendo sido amigos como eu creio que poderiam ter sido diversas vezes, mas tenho certeza de que também não devo ter correspondido às expectativas. No entanto, fiz questão de sumir o máximo que pude depois de que saí da adolescência. Acredito que precisamos variar as companhias, os enfoques, as crenças, os valores. Não entendo muito as pessoas que têm os mesmos amigos e companheiros a vida toda ou quase toda. A roda precisa rodar, as coisas precisam se reciclar. De algum modo, a manutenção dessas amizades pode indicar que nada mudou, nada se transformou, ainda que o tempo tenha passado. E isso é uma das coisas mais tristes da vida.

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

Emir Sader e a redução da taxa de juros




"O governo segue a diminuição da taxa de juros, na via correta de chegar ao fim do mandato com uma taxa real ao nível da
média internacional."

Emir Sader, hoje, no twitter

Capitalismo: um delírio muito peculiar

Entrevista com Gilles Deleuze (excerto) - tradução de Luiz Geremias


PERGUNTA: Quando você descreve o capitalismo, diz: "Não há a menor operação, o menor mecanismo industrial ou financeiro que não revele a demência da máquina capitalista e o caráter patológico de sua racionalidade (não, de todo modo, uma falsa racionalidade, mas uma verdadeira racionalidade ‘dessa’ patologia, ‘dessa loucura’, para que a máquina funcione, esteja certo disso). Não há perigo desta máquina enlouquecer, ela foi louca desde o início e é daí que sua racionalidade vem”. Isso significa que, depois desta sociedade "anormal", ou fora dela, pode haver uma sociedade "normal"?
Tudo é racional no capitalismo, exceto o capital ou o próprio capitalismo

GILLES DELEUZE: Nós não usamos os termos "normal" ou "anormal". Todas as sociedades são racionais e irracionais ao mesmo tempo. Elas são forçosamente racionais em seus mecanismos, suas engrenagens e rodas, seus sistemas de conexão e até pelo lugar que atribuem ao irracional. No entanto, tudo isto pressupõe códigos ou axiomas que não são produtos do acaso, mas que não são intrinsecamente racionais. É como na teologia: tudo acerca disso é racional se você aceitar o pecado, a imaculada concepção, a encarnação. A razão é sempre uma região recortada do irracional – não protegida do irracional, de todo modo, mas uma região atravessada pelo irracional e definida apenas por um certo tipo de relação entre os fatores irracionais. Debaixo de toda a razão está o delírio à deriva. Tudo é racional no capitalismo, exceto o capital ou o próprio capitalismo.


O mercado de ações é certamente racional; pode-se entendê-lo, estudá-lo, os capitalistas sabem como usá-lo e ainda assim é totalmente delirante, é louco. É neste sentido que dizemos: o racional é sempre a racionalidade de um irracional. Algo que não tem sido adequadamente discutido sobre “O Capital” de Marx é o quanto ele é fascinado pelos mecanismos capitalistas, precisamente porque o sistema é demente, mas funciona muito bem, ao mesmo tempo.


Então, o que é racional em uma sociedade? É – os interesses sendo definidos na estrutura desta sociedade – o modo como as pessoas perseguem esses interesses, a sua realização. Mas, por baixo, há desejos, os investimentos do desejo que não podem ser confundidos com os investimentos de interesse e dos quais os interesses dependem em sua determinação e distribuição: um enorme fluxo, todos os tipos de fluxos libidinais-inconscientes que compõem o delírio desta sociedade.


A verdadeira história é a história do desejo. Um capitalista, ou hoje um tecnocrata, não deseja da mesma forma como fazia um mercador de escravos ou um oficial do antigo império chinês. Que as pessoas em uma sociedade desejam repressão, tanto para os outros como para si próprias, que há sempre pessoas que querem incomodar as outras e que têm a oportunidade de fazê-lo, o "direito" de fazê-lo, é isso que revela o problema de uma ligação profunda entre o desejo libidinal e a dominação social. Um amor "desinteressado" pela máquina opressora: Nietzsche disse algumas coisas bonitas sobre este triunfo permanente de escravos, sobre como os amargurados, os deprimidos e os fracos, impõem seu modo de vida a todos nós.

Capitalism: A Very Special Delirium


Interview wiht Gilles Deleuze (excerpt)


QUESTION: When you describe capitalism, you say: "There isn't the slightest operation, the slightest industrial or financial mechanism that does not reveal the dementia of the capitalist machine and the pathological character of its rationality (not at all a false rationality, but a true rationality of *this* pathology, of *this madness*, for the machine does work, be sure of it). There is no danger of this machine going mad, it has been mad from the beginning and that's where its rationality comes from. Does this mean that after this "abnormal" society, or outside of it, there can be a "normal" society?

Everything is rational in capitalism, except capital or capitalism itself

GILLES DELEUZE: We do not use the terms "normal" or "abnormal". All societies are rational and irrational at the same time. They are perforce rational in their mechanisms, their cogs and wheels, their connecting systems, and even by the place they assign to the irrational. Yet all this presupposes codes or axioms which are not the products of chance, but which are not intrinsically rational either. It's like theology: everything about it is rational if you accept sin, immaculate conception, incarnation. Reason is always a region cut out of the irrational -- not sheltered from the irrational at all, but a region traversed by the irrational and defined only by a certain type of relation between irrational factors. Underneath all reason lies delirium, drift. Everything is rational in capitalism, except capital or capitalism itself.


The stock market is certainly rational; one can understand it, study it, the capitalists know how to use it, and yet it is completely delirious, it's mad. It is in this sense that we say: the rational is always the rationality of an irrational. Something that hasn't been adequately discussed about Marx's *Capital* is the extent to which he is fascinated by capitalists mechanisms, precisely because the system is demented, yet works very well at the same time.

The stock market is certainly rational; one can understand it, study it, the capitalists know how to use it, and yet it is completely delirious, it's mad. It is in this sense that we say: the rational is always the rationality of an irrational

So what is rational in a society? It is -- the interests being defined in the framework of this society -- the way people pursue those interests, their realisation. But down below, there are desires, investments of desire that cannot be confused with the investments of interest, and on which interests depend in their determination and distribution: an enormous flux, all kinds of libidinal-unconscious flows that make up the delirium of this society.


The true story is the history of desire. A capitalist, or today's technocrat, does not desire in the same way as a slave merchant or official of the ancient Chinese empire would. That people in a society desire repression, both for others and *for themselves*, that there are always people who want to bug others and who have the opportunity to do so, the "right" to do so, it is this that reveals the problem of a deep link between libidinal desire and the social domain. A "disinterested" love for the oppressive machine: Nietzsche said some beautiful things about this permanent triumph of slaves, on how the embittered, the depressed and the weak, impose their mode of life upon us all.

(...)

segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

Sobre o apocalipse, a civilidade naufragada e o presente do país do futuro


Décimo sexto dia de 2012, o ano em que muita gente espera o apocalipse. Aliás, é bom deixar claro que, em nossos dias, falar nessa história de “fim do mundo” não significa que estejamos nos referindo a algum local distante, de difícil acesso, “onde Judas perdeu as botas” etc. Falamos de uma fantasia de que tudo vai terminar mesmo, todo mundo vai morrer e que a estátua da liberdade vai afundar, como afundou o Colosso de Rhodes, há milhares de anos.


Quem nos ensinou a imaginar isso desse jeito foram os filmes-catástrofe, é claro. E, se estes tiverem alguma influência no apocalipse de 2012, somente Nova York ou Washington vão sofrer danos. Afinal, nos filmes, final do mundo significa a destruição dessas cidades. Como não moro em nenhum desses lugares, tenho que confessar que me sinto bastante aliviado e o telejornal, ironicamente, se transformaria num filme-catástrofe real.
O verniz da civilização é viçoso, mas é facilmente removível com uma boa dose de pavor e adrenalina

Tenho conversado com algumas pessoas que chegam a se mostrar apreensivas com as fantasias que cercam este ano. Temem que o “clima” pegue e que comecem a acontecer coisas estranhas de verdade. Eu, de minha parte, aposto mais no apocalipse hollywoodiano dos filmes-catástrofe, bom para consumo e deleite em confortáveis poltronas do que para sofrimento generalizado. O fato é que a situação não está realmente boa para o primeiro mundo. Não se sabe se haverá terremotos, maremotos ou chuva de fogo celestial, mas o que já é certo é que economicamente, o velho continente está afundando. Isso significa vida ruim para medianos e pobres, com as consequentes convulsões sociais. Lamentável.



No caos pode tudo


Falar em catástrofes lembra que há situações em que a ordem legal é suspensa é você pode fazer o que bem entender, pois tudo o que fizer poderá ser perdoado mais tarde. Veja que a agência de notícias estatal SANA, da Síria, está divulgando a notícia de que o presidente sírio, Bashar al-Assad, oficializou a anistia para todos que cometeram crimes nos dez meses de revoltas contra o governo. Embora a oposição de lá esteja fula da vida porque, segundo ela, não há anistia nenhuma e tem muita gente presa em cárceres secretos (o que é bem provável), é possível aproveitar o ensejo para refletir sobre esse negócio de poder fazer um monte de coisas erradas na hora certa e depois receber perdão.
Se quer acabar com a raça de alguém, aguarde os próximos tumultos generalizados

Simples: explode uma revolta e você, que não gosta daquele vizinho ou daquele sujeito que fica olhando libidinosamente para a sua mulher, aproveita a oportunidade e se livra do problema. Em tempos normais, a polícia te encheria de porrada e te jogaria no xilindró, sem direito a telefonema, advogado ou visita da família. Em tempos caóticos é bem diferente. Você argumenta que se envolveu numa briga política, que é partidário do governo e a vítima era oposição etc. Aí, pode ter certeza, além de perdoar (afinal, nesse caso, errar é humano, mas perdoar é atributo de soberanos e magistrados), é bem capaz do governo ainda te arrumar um empreguinho só para cumprir horário e continuar defendendo a nobre causa do presidente.


Logo, se quer acabar com a raça de alguém, aguarde os próximos tumultos generalizados.



E a civilidade vai afundando


As situações que viveram os passageiros do navio Costa Concordia, que afundou na costa italiana, são bons exemplos de como agem os humanos em casos de caos ou tragédia. Matérias diversas dão conta de que o pessoal se pegou de unha, tapa, soco e pontapé para conseguir um simples colete salva-vidas (e tudo indica que não havia falta). Na hora do sufoco, não há civilidade que resista.


"Foi um momento caótico, todos empurravam, tentavam passar por cima das pessoas para encontrar uma boia", declarou uma passageira do Costa Concordia. Quando li isso, lembrei de algumas liquidações que já testemunhei. Quando os funcionários vão abrir as portas da loja, têm que ser muito rápidos e se proteger, pois a horda consumista enfurecida invade o ambiente com uma fúria desmedida. Tem gente que acusa a polícia de agir brutalmente em ocasiões de revolta coletiva. Eu mesmo já fiz isso, mas tenho que reconhecer que se o sujeito não agir com autoridade, o que às vezes implica certa violência, a turba derruba, pisa e mata. O verniz da civilização é viçoso, mas é facilmente removível com uma boa dose de pavor e adrenalina.
"Não existiu aquilo de mulheres, idosos e crianças primeiro. Eu, que tenho 70 anos, tive que descer me agarrando a cabos", diz a espanhola María Carmen Ramón

Veja bem: a tripulação do Costa Concordia, ao contrário das tripulações dos filmes-catástrofe de naufrágios, não quis saber daquela história de ajudar os passageiros, de garantir primeiro a vida destes antes da própria. Segundo matéria publicada no sítio noticioso do Yahoo, os tripulantes foram os primeiros a tentar fugir. "Não existiu aquilo de mulheres, idosos e crianças primeiro. Eu, que tenho 70 anos, tive que descer me agarrando a cabos", diz a espanhola María Carmen Ramón na matéria. O próprio capitão, que todos imaginam uma figura nobre que é a última a deixar o barco, foi preso em casa, acusado de ter fugido do navio antes de todos. Como bem se pode ver, a civilidade é bem mais confiável no cinema. Se tiver algum dia que estar em um navio que vai afundar, prefira, se puder, que isso aconteça em um filme. É muito mais seguro.



O futuro do Brasil é hoje e atrai trabalhadores do mundo


E não é que parece que o sempre sonhado “país do futuro” alcançou, ao menos momentaneamente, o futuro? O Brasil, que Stephan Zweig disse ter um futuro radiante pela frente, parece que encontrou, neste início de século XXI, uma boa perspectiva de realizar as melhores predições. Segundo matéria publicada no sítio do O Globo, tem muitos trabalhadores estrangeiros querendo vir para cá. O texto está publicado em http://oglobo.globo.com/pais/trabalho-no-brasil-agora-desperta-interesse-de-400-mil-estrangeiros-3673782. E segue, abaixo, o lead da matéria:

“O poder de atração do Brasil entre os estrangeiros extrapolou a área da diversão e chegou ao mercado de trabalho. Para eles, o crescimento econômico do país, a proximidade da Copa de 2014 e das Olimpíadas de 2016 e o pré-sal, associados às crises na Europa e nos Estados Unidos, transformaram o Brasil em uma espécie de porto, se não seguro, pelo menos, promissor.”
 Por outro lado, no Estadão, há uma outra matéria que assusta. A manchete: “Custo de vida do Brasil supera o dos EUA”. O lead:
“O custo de vida do Brasil superou o dos Estados Unidos em 2011, quando medido em dólares, segundo dados do Fundo Monetário Internacional (FMI) sobre o PIB dos 187 países-membros. Este fato é extremamente anormal para um país emergente. Em uma lista do FMI de 150 países em desenvolvimento, o Brasil é praticamente o único cujo custo de vida supera o americano em 2011, o que significa dizer que é o mais caro em dólares de todo o mundo emergente.”
O texto é assinado por Fernando Dantas e pode ser acessado no endereço eletrônico http://estadao.br.msn.com/economia/custo-de-vida-do-brasil-supera-o-dos-eua-2.

Parece que o futuro promissor está chegando, mas tudo indica que também tem seus custos. Faturamos bem menos do que os estadunidenses, mas estamos pagando mais caro para viver do que eles. De todo modo, fico pensando como estaríamos se em vez dos governos do PT tivéssemos a continuidade da trágica gestão tucana do final do século passado e início deste. O Financial Times publicava, meses antes das eleições brasileiras de 2002, publicou uma matéria na qual estava a dura sentença: “The game is up to Brazil”. Se não entendeu, copie a frase e a cole em qualquer tradutor. Essa era a realidade dos tempos tucanos e pefelistas.

domingo, 15 de janeiro de 2012

A morte


Falei da vida, agora preciso falar da morte. São irmãs que não aceitam que se olhe para uma sem notar a outra. Dizem que uma veste branco, a outra adora o negro. A vida é uma eterna noiva, a morte está sempre de luto. Esta última adora se disfarçar, por isso cuidado! Nem tudo que reluz é ouro e nem todos que vestem branco estão a serviço da vida.


A morte adora disfarces, é certo, mas não os suporta. É clássica a história do sujeito que soube antecipadamente da chegada da morte e correu para um baile carnavalesco, fantasiado de palhaço. A dita chegou à casa do esperto e não o encontrou. Todos sabem que a morte não perde a viagem e, por isso, escutou a música do baile e foi até lá. Ao chegar, olhou a multidão e pensou: “Quem vou levar? Aquele sujeito me enganou, alguém vai pagar”. Rapidamente, escolheu: “É, o jeito é levar aquele palhaço!”.


Morrer não é a mesma coisa que viver, embora haja gente que pense assim. Se você está vivo, está vivo. Se está morto, está morto. Não é permitido confundir as coisas. Desse modo, não se iluda. Você é daqueles ou daquelas que vive para o trabalho, só faz exercício quando vai à academia e, pior, assiste e adora os filmes de Hollywood, as telenovelas, séries, programas de auditório e pelo menos um seriado de TV a cabo? Está morto. Saia do formol e se deite no local adequado, sete palmos abaixo da terra. E não adianta argumentar que odeia o BBB. Isso provará que você não apenas morreu: já está apodrecendo.


O bom da morte é que tudo acaba. Tudo que é bom, mas também tudo que é péssimo. Você não pode mais fazer sexo, tudo bem, isso não é bom. Mas também não vai ter mais medo de brochar ou de ter que aturar aquele bêbado libidinoso e barrigudo que fica querendo te agarrar a noite toda e que, para maior azar, é teu marido. Você não tem mais internet, televisão ou carro, isso é desanimador. Mas você também não tem mais que pagar a conta da operadora, a TV a cabo ou o IPVA, fora as multas. Isso é muito sedutor. Mais ainda se alguém garantir que a receita federal nos esquecerá depois da morte.


Toda conversa tem que ter um fim e aqui está. Com a vida e a morte também é assim. A conversa que elas têm sobre o teu destino termina quando não há mais nada a dizer. Isso acontece, dizem, quando você já foi desvendado. Tem que haver sempre algum mistério em você. Não fique aí fazendo sempre as mesmas coisas, indo aos mesmos lugares, dizendo tudo o que pensa. Isso é enfadonho e pode levar a um rápido esgotamento do diálogo entre a vida e a morte. E quando elas calam, pagam a conta e vão cada qual para um lado, é aí que você finalmente entenderá o que significa ouvir o silêncio.

A vida


A vida, o que é isso se não essa imensidão que nos penetra e cerca e à qual jamais vamos conhecer totalmente? A vida nos oferece tudo. Tudo mesmo. Nos dá ar, nos dá comida, nos dá água, nos dá uma alma. É certo que não fazemos muito uso desta última. A cultura de massa prova isso. Onde há viva alma nesse ambiente em que nada se cria, tudo se copia? Não há alma que se crie, no entanto há vida, porque a vida é persistente, tanto que só morre depois da esperança, que todo mundo diz ser a última.


Nunca aponte problemas na vida. Ela não tem problema algum, segue como deve ser. A SUA vida é que é um problema. Sem solução. Realmente você é um problema para a vida. E sabe o que ela faz com problemas? Ela se livra deles. Nunca esqueça que a vida não suporta problemas e tome jeito.


Repito: não devemos amaldiçoar a vida. Ela não tem culpa. A culpa é sua, apenas sua. É você que não faz o que deve na hora que deve e é você que escolhe a pessoa que não deve para fazer isso. Depois dos nove meses, toda a dívida recai sobre o pequeno ser que chegou ao mundo inocente, sem calças ou obrigações prévias. Vai ter que aturar usar o nome ridículo escolhido por você, vai ter a sua desprezível personalidade como guia e vai ser exatamente o que você foi. Se não lhe matar, é porque definitivamente você lhe legou a covardia.


Se você não tiver amor à vida, pode procurar sua irmã, que se chama morte. Consumir álcool com frequência indica que você está começando um namoro sério com ela. Usar motocicleta significa que o noivado foi firmado. Se você é do tipo que não faz isso e fica em casa, o dia todo na frente desta tela ou, em casos mais graves, em frente da TV, é porque já casou e não sabe.


Como se vê, definir a vida não é possível. Ela nos suplanta e nos escapa de uma forma que nunca imaginamos. A vida é como o mar, ora calmo, ora turbulento e agitado. Se você não sabe nadar, aprenda rápido. Quando a tsunami vem, não há barco que resista. Você tem que pular na água. Se não tiver fôlego, ainda resta conseguir um emprego público e vegetar por toda a vida. Pelo menos estará seco, por fora e por dentro. Só nunca descobrirá o que é a vida.


Escolha passar a vida na iniciativa privada. É muito emocionante. Afinal, de todas as formas de vida, a selvagem é, sem dúvida, a mais agitada. Aliás, estou para descobrir porque tem tanto bicho-grilo ambientalista que é vegetariano. Não sei por que esse ódio desmedido contra as plantas. Na verdade, esse pessoal parece que odeia o verde, ou quer ele todo como refeição. Outra coisa: como conciliar ser pacífico e amar a natureza? De que natureza se está falando? A que eu conheço é um mata-esfola sem fim. Darwin pode testemunhar a meu favor e, é claro, todos os teóricos liberais.

sábado, 14 de janeiro de 2012

Opinião pública ou privada?


O jornal curitibano “Gazeta do Povo” publica resultado de pesquisa que mostra que a rede pública de saúde, o Sistema Único de Saúde (SUS), é considerado péssimo ou ruim por 61% de 2002 entrevistados em todo o país. Apenas um décimo do total acham a rede boa ou ótima. Quase no final da matéria, o gerente executivo de pesquisas da empresa CNI, que realizou o estudo, afirma que “os dados refletem a opinião do público e não o posicionamento do pesquisador sobre a questão”. Tá bom.

Há um fator que não está computado na pesquisa, que tem transitado de forma quase invisível – totalmente invisível para a maioria: a construção da opinião pelas empresas de comunicação. Estas, são, na maioria absoluta dos casos, completa, absoluta e totalmente críticas em relação ao SUS. O cidadão ouve, o dia inteiro, todos os dias, matérias e “opiniões” contra o SUS. Com certeza essas mesmas empresas devem ter publicado matérias falando de algo favorável, mas sinceramente não recordo, assim como desafio você a recordar.

O fato das campanhas de vacinação serem as iniciativas mais lembradas da rede pública bem nos sugere que não são diretamente criticadas pelos meios de comunicação, muito pelo contrário, por motivos óbvios.

Estamos em uma sociedade de orientação alterdirigida, como propôs David Riesman há mais de 50 anos, e a opinião pública formada pelas empresas de comunicação é importantíssima no estabelecimento da subjetividade individual. Uma sociedade de massa, se pode dizer. Cada vez mais de massa, embora haja gente que jure o contrário.

A pesquisa, assim, já que deixa invisível a ação das mídias, pode medir como o cidadão forma sua opinião sobre a rede pública de saúde, independente de ter sido bem ou mal atendido nela ou da qualidade real dela (que tem inúmeros problemas, mas tem também inúmeras virtudes). A pesquisa pode estar avaliando, então, simplesmente o que já foi avaliado pelos formadores de opinião midiáticos e transmitido ao público, que acaba repetindo sem muito pensar.

Se formos ponderar estatisticamente, é provável que cheguemos à conclusão de que mais de 90% da subjetividade de cada cidadão urbano é formulada com apoio nas empresas de comunicação. Em outros termos, o jornal curitibano apenas repercute a avaliação que transmite cotidianamente a seu público. Aí, confirma o que já sabia. Trata-se de um circuito fechado em que, ironicamente, todos se acham muito independentes para pensar e falar o que bem quiserem sobre o que bem quiserem. Trata-se do fenômeno da opinião privada travestida de pública.

É como canta Mano Brown, do Racionais MCs: “Vida Loka!”.

quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

Sobre as mazelas do apito e a taxação dos ricos


Nesta quinta-feira, décimo segundo dia do ano de 2012, dois temas chamam a atenção. Em primeiro lugar, fico sabendo que um ex-árbitro de futebol, Gutemberg de Paula Fonseca, denuncia o presidente da Comissão de Arbitragem da CBF (Confederação Brasileira de Futebol), Sérgio Corrêa, por suposto esquema na escolha dos juízes do nível FIFA e por também suposta pressão para favorecer o Corinthians. Segundo Gutemberg, essas acusações vêm sendo reiteradas desde 2007 e há um dossiê de mais de mil páginas comprovando tudo. A entrevista foi publicada no diário esportivo “Lance!”.


 A segunda é mais alvissareira, bem mais, porém bastante polêmica, pois envolve a elite nacional, misófoba, quando se trata de assuntos nacionais, e xenófila. O senador Antônio Carlos Valadares, do Partido Socialista Brasileiro (PSB) de Sergipe, oficializa a proposta de taxação de grandes fortunas no país (IGF – Imposto sobre Grandes Fortunas), considerando o valor limite de R$ 2,5 milhões, com alíquotas diferenciadas que irão de 0,5% a 2,5%. Se aprovada pelo Senado, o que é obviamente bem difícil, pois as grandes fortunas têm uma influência preponderante entre o alto clero legislativo, a medida renderia o suficiente para tapar o buraco de R$ 45 bilhões que o governo admite precisar para melhor administrar o Sistema Único de Saúde (SUS). Estaria, pelo menos, resolvida a questão: de onde tirar esse monte de dinheiro?



Apito corintiano?


O jornalista Chico Santo, da redação do sítio Terceiro Tempo, de Milton Neves, sugere que as denúncias de Gutemberg atingiram a honra da CBF. A entidade emitiu um comunicado ultrajado, no qual afirma que “Sérgio Corrêa sofreu acusações absurdas e levianas” e ameaça processar o ex-árbitro por ofensa moral, dano moral e crime de injúria. A ressalva é que o Corinthians nada disse ainda.

“O que eu posso entender com isso? Que se o Corinthians não ganha, posso nunca mais ser escalado, ser punido e ficar de fora”

Chico Santo lembra que o repórter investigativo britânico Andrew Jennings escreveu um livro, “Jogo Sujo, o Livro que a FIFA tentou proibir”, no qual supostas falcatruas internas da entidade são expostas sem dó, incluindo manipulações em jogos de Copa do Mundo. Uma delas, aliás, atinge diretamente o carrasco do Brasil na Copa de 1982, Paolo Rossi. A convocação do atacante italiano teria sido vinculada à redução da pena no esquema conhecido como “Totonero”, relativo às manipulações de resultados no Totocalcio, a loteria esportiva italiana. Nada se fala sobre a famigerada final de 1998 e as acusações que tratam especificamente do Brasil se restringem à empresa ISL e a Ricardo Teixeira, presidente da CBF.


O texto do jornalista do “Terceiro Tempo” afirma que Gutemberg acusa Sérgio Corrêa de tentar influenciar a sua arbitragem a favor do Corinthians em jogo no qual este goleou o Goiás por 5 a 1, em setembro de 2010. A denúncia foi feita ao repórter Fernando Sampaio, da Rádio Jovem Pan. Segundo Gutemberg, Corrêa teria dito “Vai lá, boa sorte, vai apitar jogo do ‘timão’, hein?”. “O que eu posso entender com isso? Que se o Corinthians não ganha, posso nunca mais ser escalado, ser punido e ficar de fora”, explica Gutemberg. Tudo isso aconteceu durante um telefonema que, indica o ex-juiz, ele foi orientado a dar para o presidente da comissão de arbitragem, antes de ir para o jogo, com o intuito de “receber orientações”.


Não fica claro, apenas com o “vai apitar jogo do ‘timão’, hein?”, que Corrêa tenha orientado Gutemberg para facilitar o jogo. Mas, bem que eu gostaria de saber que o mesmo sujeito tivesse dito: “vai apitar jogo do ‘fluzão’, hein?”. Que intimidades são essas com o Corinthians? E mais: que história é essa de construir estádio para esse clube? Mas, essa já é uma outra história.


Fica a expectativa para ver aonde isso vai dar e a pergunta inevitável, já feita por Chico Santo: “Afinal de contas, por que Gutemberg de Paula Fonseca só resolveu abrir a boca depois de ser afastado do quadro de árbitros da FIFA?” Pois é, parece que a mágoa remove qualquer medo e promove arrojadas iniciativas.


==========================================
 Imposto sobre Grandes Fortunas é novamente tema de debate


O outro assunto, o da taxação de grandes fortunas, parece animador, mas é muito mais delicado. A tributação está prevista na Constituição de 1988 (inciso VII do artigo 153), mas requer lei complementar para implantação. O senador Antonio Carlos Valadares é o autor da PLS 534/11 Complementar, que está posta para debate e votação nas comissões de Assuntos Sociais (CAS) e de Assuntos Econômicos (CAE) para, em seguida seguir para o plenário da casa.

Trata-se, segundo o senador sergipano (foto), da criação de um mecanismo de distribuição de renda e de reforço para o financiamento do SUS. O senador João Vicente Claudino (PTB-PI) foi indicado como relator na CAS.

(...) a Justiça só é cega nas estatuas de mármore que enfeitam nossos tribunais. Mas não é por causa da alta periculosidade de determinado cidadão que se deve desistir de enquadrá-lo em padrões universais de justiça.

 
Lá fora, milionários aceitam pagar mais impostos; no Brasil, nada pagariam, se pudessem


Paulo Moreira Leite, em sua coluna “Vamos Combinar”, publicada no sítio da Revista Época, da Editora Globo, publicou no segundo dia deste ano, o texto “Grandes fortunas, argumentos pequenos” (http://colunas.revistaepoca.globo.com/paulomoreiraleite/2012/01/02/grandes-fortunas-argumentos-pequenos/), que trata exatamente do IGF. Ele recorda que há algum tempo (não muito) bilionários estadunidenses e franceses afirmaram, com todas as letras, que aceitariam pagar mais impostos. E lembra, também, que isso não aconteceria no Brasil contemporâneo.


Moreira Leite explica que o debate sobre o tema, quando travado na Europa ou nos Estados Unidos, remete à realidade econômica e social. “No Brasil”, segundo ele, “envolve força política e prestígio individual.”


O articulista teme ainda que, se aprovado (o que considera difícil e eu idem), o novo imposto seria alvo de querelas jurídicas. ”Faça uma antologia das últimas decisões do Judiciário envolvendo senhores de ‘grossa fortuna’, como se dizia antigamente, e tire suas próprias conclusões. Pergunte quantos foram parar na cadeia. Quantos tiveram de entregar recursos do próprio bolso para honrar prejuízos que caíram nos ombros de funcionários ou consumidores”, argumenta.


Moreira Leite (foto) afirma que os ricos brasileiros acumulam um inestimável poder de influência, o que lhes permite estar acima da lei. Ele lembra que há exceções, eu concordo, mas ressalvo que não são muitas. Além dos parceiros “naturais” que ocupam assentos no Congresso Nacional e nas Assembleias e Câmaras locais, há os especialistas que sabem como diminuir as pesadas cargas tributárias desses pobres milionários. Enfim, têm armas potentes para lutar contra quem lhes quer taxar, todas legais, por incrível que possa parecer. Enquanto isso, o assalariado é escorchado com tributos exorbitantes e não tem qualquer defesa. Se o governo do PT acabar sem mexer nisso, ganhará um atestado de covardia nesse quesito.


Argumentos pequenos


O primeiro argumento usado contra o IGF é o de que é inútil criar essa taxação. Os que defendem isso entendem que os ricos são super poderosos e escapariam da malha da receita dando risadas. Isso corresponde a dizer que a impunidade está garantida para esses milionários. “Podemos até concordar com essa observação, pois a Justiça só é cega nas estatuas de mármore que enfeitam nossos tribunais. Mas não é por causa da alta periculosidade de determinado cidadão que se deve desistir de enquadrá-lo em padrões universais de justiça”, contra-argumenta Moreira Leite.


O segundo argumento é um tanto matreiro, tão astucioso que chega a denunciar, ao ser enunciado, que quem o sustenta considera o interlocutor quase um imbecil. Há os que dizem que o IGF renderia muito pouco e que, por isso, não vale a pena ser cobrado. Absurdo. “Alguns cálculos dizem que este imposto poderia render R$ 80 bilhões a mais para a Receita. Mesmo que essa estimativa esteja exagerada, e mesmo que se admita o mais alto grau de sonegação possível, como é regra no país inteiro, uma visão sensata dos impostos ensina que se deve cobrar mais de quem ganha mais e só depois discutir o que se faz com os recursos a mais que entraram no cofre”, afirma, com propriedade ética, o articulista de Época.


Já o terceiro é, segundo Moreira Leite, grotesco. “Consiste em dizer que está tudo certo com os recursos da saúde pública — o problema é encontrar gerentes competentes. Não dá para começar a discussão porque, no Brasil, a saúde privada consome 45% das receitas para atender 25% da população”, afirma.


Brasileiros que odeiam o Brasil


O fato é que os muito ricos se acham acima da lei, do bem e do mal também. Qualquer iniciativa de taxá-los encontrará sempre acirradas resistências. Mas há quem diga que os ricos são perseguidos e que o único motivo para se pensar em tributar grandes fortunas é o ressentimento e a inveja. É verdade, não estou mentindo.


Esse pessoal estudou, não são burros ou ignorantes, mas são incapazes de perceber que a distribuição de renda é importante e que os impostos servem primordialmente para isso. Ironicamente, esquecem que os países que idolatram, os quais costumam visitar constantemente, adotam outro tipo de postura em relação a grandes fortunas e, em grande parte por isso, são considerados desenvolvidos. Mas, parecem querer manter o subdesenvolvimento no Brasil, quem sabe pelo motivo que, desse modo, aumentam a própria lucratividade ou se sentem muito superiores, quem sabe? Não raro, são brasileiros que odeiam o Brasil, desprezam a sua população e parasitam o Estado.


Um conhecido irônico e revoltado me diz que por trás dessa resistência está outro medo maior. Segundo ele, o próximo passo é o corte da mão do milionário que for pego com a dita no pote público e, mais além, a decapitação dos ricos que, apesar de ricos, ainda querem deixar todos os outros mais pobres se apropriando de recursos que deveriam estar destinados para a comunidade nacional. Exagero, é claro. Pura zanga de quem se sabe lesado na atual política tributária.
 
Abre o olho, leão.