sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

Tales de Mileto e a água, alma do mundo


Tales de Mileto, nascido na cidade de Mileto por volta de 585 a.C., foi o primeiro filósofo da história do Ocidente, pois, segundo Aristóteles, foi pioneiro na busca da determinação da causa primeira, do elemento que constituiria a essência de tudo o que existe – utilizando a capacidade de observar, pensar e definir o mundo natural e não se servindo de preceitos ou dogmas religiosos . Tales e os pensadores que o sucederam num primeiro momento (mais precisamente até o corte epistemológico platônico) foram chamados de físicos, exatamente porque se dedicavam a procurar compreender como se sustentava a vida, com base em que elementos fundamentais presentes na natureza.

Friedrich Nietzsche, profundo conhecedor da história da filosofia, escreveu um inteligente texto, "A Filosofia na idade trágica dos gregos", no qual nos fornece, em boa medida, uma noção da importância de Tales para o pensamento ocidental:


A Filosofia grega parece começar com uma ideia absurda, com a proposição: a água é a origem e a matriz de todas as coisas. Será mesmo necessário determo-nos nela e levá-la a sério? Sim, e por três razões: em primeiro lugar, porque essa proposição enuncia algo sobre a origem das coisas; em segundo lugar, porque o faz sem imagem e fabulação; e, enfim, em terceiro lugar, porque nela, embora apenas em estado de crisálida (estado latente, prestes a se transformar), está contido o pensamento: “Tudo é Um”. A razão citada em primeiro lugar deixa Tales ainda em comunidade com os religiosos e supersticiosos, a segunda o tira dessa sociedade e o mostra como investigador da natureza, mas, em virtude da terceira, Tales se torna o primeiro filósofo grego.
Tales apostava na água como elemento básico e bem se pode imaginar o porquê. Ele vivia numa cidade no litoral do Mediterrâneo, no lado oeste da hoje Turquia, e certamente tinha a água, notadamente o mar, como uma referência importante em sua experiência. Se você olhar para qualquer paisagem litorânea, o que verá? A terra mergulhada no mar, como que flutuando na água. Se falamos nisso centrados na realidade de quase três mil anos atrás, sem os conhecimentos que temos hoje, não é difícil imaginar que essa percepção empírica poderia ter sido tomada como algo essencial. Tales provavelmente acreditou em parte no que seus olhos viam e formulou a hipótese de que tudo seria água, que estaríamos flutuando sobre ela.



A água. Elemento diáfano que reflete a alma do mundo?
A água seria não apenas o elemento primordial da vida, como também aquilo que está essencialmente em todo ente vivo, sem o qual não há vida. Exagero? Claro que não. Até mesmo hoje, qualquer um de nós pode deduzir que a água é importantíssima em nossa vida e um elemento encontrado em profusão no planeta chamado “Terra”. E mais: bem se pode observar que as coisas vivas possuem umidade e parecem efetivamente compostas de um grande volume de líquido.
Uma folha, quando deixa a árvore, entra em um processo de deterioração que culmina com sua completa desidratação, o mesmo acontecendo com a matéria animal. Tudo, quando perece, seca. Isso parece ser uma verdade insofismável que Tales observou e, inteligentemente, deduziu se tratar de uma regra que indicaria que a presença de água significa vida. Se algo está seco, perdeu sua substância primordial. Talvez isso signifique dizer que, para Tales, a alma seria líquida.

Seca. A morte

É uma ideia interessante e não custa lembrar que a observação constante da água facilita nosso contato com a intuição, ou seja, com a percepção de situações e enunciados que não estão claramente postos. Paulo Coelho, inclusive, fala sobre isso em seu livro “Diário de um Mago”, que inaugurou a sua fase mística, marcada pela leitura frenética de seus livros em todo o mundo. De certo modo, a água nos possibilita uma compreensão do que se passa no mundo da alma e o mar, com suas correntes e redemoinhos, pode nos ensinar bastante sobre a substância diáfana que formula e sustenta todas as ações no planeta. Isso se quisermos nos aprofundar na alma do mundo e não reduzir tudo a estatísticas, teorias e tecnologias.


Outros saberes

Os sábios da antiguidade não eram especialistas. Geralmente, se envolviam em um grande número de interesses e conhecimentos. Tales, por exemplo, era observador das mudanças climáticas e sabia prever secas ou tempestades com grande antecipação. Conta-se que ganhou muito dinheiro quando previu uma excelente colheita de azeitonas para o ano seguinte e alugou todas as engenhocas de produção de azeite da região. Confirmada a previsão, os produtores tiveram que recorrer a ele. Não são raros, também, relatos de que haveria caído enquanto olhava para o céu, estudando-o.

Além disso, Tales também estudou geometria e formulou um teorema, que leva seu nome – Teorema de Tales – e tem aplicação nos temas ligados à astronomia. Segundo o sítio http://www.mundoeducacao.com.br/matematica/teorema-tales.htm, “O Teorema de Tales é determinado pela intersecção entre retas paralelas e transversais, que formam segmentos proporcionais”. Isso pode ser observado no desenho abaixo:

Segundo Tales de Mileto, os raios do sol chegariam inclinados à Terra e, a partir dessa constatação, seria possível pensar em uma situação de proporcionalidade que envolvesse relações entre as retas paralelas e as transversais. Em outros termos, retas paralelas cortadas por retas transversais formariam segmentos proporcionais. Na prática, Tales podia calcular exatamente a altura de uma torre ou pirâmide a partir de sua sombra. Usando um bastão como referência para medir a proporcionalidade da sombra desse objeto em relação à sombra da pirâmide um mesmo momento, o filósofo, geômetra e meteorologista conseguiu saber exatamente qual o tamanho de uma das pirâmides do Egito, o que o fez cair nas graças do faraó Amásis.


A alma das coisas

Uma das afirmações de Tales é curiosa e merece atenção específica. Ele disse, tudo indica que textualmente, que “As coisas estão cheias de deuses” ou “O mundo está cheio de deuses”. As interpretações são diversas e o sítio da Wikipédia comenta que Tales provavelmente estava intuindo a existência de relações químicas e físicas que há em todas as coisas. É possível, mas quem sabe seja bom, nesse caso, deixar o pensamento fluir e imaginar sobre o que ou quem eram os deuses aos quais o filósofo se referia. Para ele, mesmo as coisas aparentemente inanimadas estariam animadas pela presença desses tais deuses, tendo, assim como os humanos, uma alma.

Certamente Tales e seus contemporâneos não entendiam os conceitos de “deus” e de “alma” do mesmo modo como fazemos hoje. Pensar algo dito há 2,5 mil anos não é simplesmente o mesmo que interpretar o que alguém nos disse há um ano ou dois. Há que se ter uma razoável capacidade de se desligar do que se apresenta diante de nossos olhos e imaginar algo bem diverso do que observamos em nossa experiência cotidiana.


PS: E você, já pensou que há deuses ou almas em todas as partes? Já se sentiu observado mesmo no escuro, mesmo em um lugar no qual não há ninguém além de você? E se uma nuvem for um ser vivo, assim como uma pedra. E se um elemento inanimado puder pensar? E se uma árvore realmente depender de seus deuses e de suas almas para florescer? E se as leis da Física não forem mais do que fórmulas inventadas para tornar possível a nossa comunicação com essas divindades ocultas em todos os objetos e seres vivos?

Estudar filosofia não é acumular conhecimentos ou saberes. É ir mais além e imaginar longe, sem muitas certezas. Experimente isso. Você verá que é uma atividade excitante que pode gerar sensações e/ou percepções fascinantes.

Como captar a força e a fluidez do real?
 
E lembre-se: se Tales e todos os outros filósofos que conhecemos na história ocidental tivessem absoluta certeza do que pensavam ou afirmavam, se acreditassem cegamente no que seus olhos lhes mostravam, jamais teriam avançado na aventura do conhecimento. Sócrates foi um bom exemplo de filósofo que sempre trabalhou com incertezas (O curioso é que se Sócrates não disse que os deuses estão em tudo, afirmava que tinha um demônio a lhe soprar ideias, a conversar consigo – não um demônio no sentido cristão, note-se)

Somente um sábio, como o foram Tales, Sócrates e tantos outros, sabe que nada sabe e que precisa desvendar o mundo para descobrir que por mais que se aprofunde no conhecimento, sempre descobrirá que o que conhece é insuficiente para compreender o que acontece consigo mesmo e com toda a realidade que o cerca. E é a esse desafio que entrega sua vida, mesmo sabendo que jamais conseguirá vencê-lo. 

Aprendemos com o pioneiro Tales que a água, como elemento fluido e diáfano, está presente em tudo e, se é assim, toda forma de conhecimento é incapaz de captar toda as variações de maré que consubstanciam o real. No entanto, é na produção de formas de interpretação dessa fluidez que nos encontramos mais próximos da alma do mundo.

Um comentário:

  1. show
    mas eu odeio tales de mileto, tamo junto.
    ps: não sou um robo!

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