quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

“A Privataria Tucana” está em evidência, mas Veja ainda não descobriu isso


Hoje, meu dia começou com a constatação de três verdades. Em primeiro lugar, eu e todo mundo já entendemos que o livro “Privataria Tucana”, de Amaury Ribeiro Jr, é a sensação das discussões políticas no último mês. Todos sabem, também, que o livro está vendendo muito bem, bem demais até. E, finalmente, é de conhecimento público o que trata o livro. A revista Veja sabe, obviamente, desta última verdade, mas até a última segunda-feira (26), ignorava solenemente a segunda verdade. Somente quando o sítio Comunique-se (http://portal.comunique-se.com.br/index.php/editorias/28-carreira/67443-na-lista-dos-mais-vendidos-nas-livrarias-qa-privataria-tucanaq-nao-aparece-no-ranking-da-veja.html) denunciou que a revista não incluiu o livro na sua lista de mais vendidos, é que a Veja resolveu capitular. A primeira verdade, porém, continua sendo olimpicamente ignorada pela revista que, no entanto, dá todos os destaques, com requintes de sensacionalismo barato, aos escândalos do governo petista.


O que a revista esquece ou não entende é que, para ter credibilidade, um veículo de comunicação precisa tentar (pelo menos tentar) noticiar com certa isenção. E que fique claro que isenção não significa fingir que não há preferência partidária. Significa fazer denúncias e/ou críticas, mas tratar todo e qualquer fato sempre observando o contraditório e, principalmente, oferecer espaço para que o denunciado ou o criticado se defenda. Isso sem falar na adoção do princípio ético de olhar para o próprio rabo, principalmente quando este estiver sujo, e o mesmo vale para o rabo dos patrocinadores e políticos aliados. Não parece possível fazer bom jornalismo sem isso.


Nos últimos anos, a Veja, aliás, tem falado bastante de escândalos como os divulgados no livro. “Corrupção” parece a palavra chave, mas corrupção num sentido restrito, remetendo simplesmente ao suborno e/ou a desvio de verbas públicas. Corrupção é mais do que isso. Reduzi-la ao mero ato de seduzir ou “comprar” um agente público por propinas, presentes ou qualquer outro recurso, é simplesmente obscurecer o sentido contundente e amplo que o termo traz consigo. E, com isso, deixar de abrir a possibilidade de entendimento do que é efetivamente a corrupção e o alcance que vem conseguindo na sociedade brasileira, deixando, também, de contribuir para que isso mude, incentivando o cidadão a remar contra a maré de todas as corrupções cotidianas e a adotar posturas cada vez mais éticas.


Segundo Houaiss, corrupção indica “deterioração, decomposição física, orgânica de algo; putrefação; modificação, adulteração das características originais de algo; depravação de hábitos, costumes etc.; devassidão”, isso além do significado mais usual, que remete ao “ato ou efeito de subornar uma ou mais pessoas em causa própria ou alheia, geralmente com oferecimento de dinheiro; suborno”, fora outros sentidos próximos a este que podemos descartar aqui para ir direto ao assunto.


Sob esse ponto de vista, há tantas corrupções no mundo ocidental contemporâneo que para começar a falar delas detalhadamente caberia esta página e mais outras mil, pelo menos. Basta que você olhe em volta e poderá, certamente, encontrar inúmeros outros exemplos, na dissolução de valores e costumes estruturantes do convívio social, na degradação da função subjetiva nas relações familiares, cada vez mais substituída pela influência da lógica do pensamento comercial nas relações do dia-a-dia, incluindo as mais íntimas, ou na transformação da carreira política em mera forma de empoderamento ou enriquecimento, sem qualquer indício de interesse pelo bem público. Tudo isso pode e deve ser incluído no rol da corrupção.


Assim, na medida em que um veículo de comunicação oculta informações sobre um determinado livro, visando, com isso, efetivamente tentar esconder não apenas o sucesso do livro, mas até mesmo sua existência, e na medida em que esse mesmo livro traz revelações importantíssimas acerca do recentíssimo passado político brasileiro, tudo indica que está ilustrando, com esse procedimento, uma forma de corrupção: deterioração, adulteração da missão e do papel de um veículo jornalístico na sociedade democrática. É difícil, muito difícil negar isso.


A revista chegou a, segundo informação de texto publicado no sítio http://www.cenariomt.com.br/, substituir o livro em sua lista de mais vendidos pelo de Leandro Narloch, curiosamente intitulado “Guia Politicamente Incorreto da História do Brasil”, que ocupava uma posição bem mais humilde no ranking dos mais vendidos. Excelente exemplo de incorreção política.


Se um veículo assume uma posição política, muito bem. Não vejo qualquer problema nisso. No entanto, que trate os inimigos de seu partido com o mesmo respeito que pretende ver na direção oposta. O debate político é efetivamente a base da democracia e, ainda que eu ande bastante descrente da efetiva e real existência da democracia nas sociedades ocidentais que tanto a proclamam, não é possível deixar de sonhar que um dia consigamos realizar pelo menos a base do ideal democrático. E isso se faz remando contra a maré de toda e qualquer corrupção, não indo a favor dela enquanto se jura fazer o contrário.

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