terça-feira, 27 de dezembro de 2011

A liberdade de expressão do jornalismo e a democracia



Tudo indica que todo jornalista adora falar e/ou escrever o que pensa. Se não consegue, geralmente argumenta que sua expressão está cerceada, que alguém atenta contra a liberdade de imprensa. Isso geralmente é dito com indignação, como se toda a sociedade devesse se mobilizar para defender essa liberdade do jornalista. Segundo ele, aliás, essa sua liberdade é a base da democracia. Sem informação, não há cidadania, não há regime democrático, gritam os paladinos da imprensa.


O problema é que quem tem experiência com jornalistas sabe que, embora não seja uma regra sem exceções, os tipos gostam de falar, mas não parecem tão propensos assim a ouvir.


Curioso é que há jornalistas que não assumem, salvo raríssimas exceções, que adoram falar e/ou escrever o que pensam. Não se sabe se é por pura inocência que alguns jornalistas dizem acreditar que se abstêm de emitir qualquer juízo sobre os fatos que relatam. Mal alguém lhes interpõe uma objeção e eles enchem o peito, franzem o cenho e levantam o dedo indicador, dizendo: “Estou sendo absolutamente objetivo e imparcial!”. Nesses momentos, o correto seria ajoelhar-se, pois somente Deus pode afirmar absoluta objetividade e imparcialidade em relação a qualquer fato. No entanto, nós, que sabemos que Deus está lá no céu e que aqui na terra não há humano que não seja subjetivo e parcial, somente gargalhamos.


Essa tal liberdade de expressão da imprensa, aliás, vale apenas para veículos e jornalistas. Se você se sentir caluniado de qualquer forma por uma matéria jornalística, deve exigir retratação e enviar o contraditório – a outra versão da calúnia, que deveria ter sido colhida antes pelos jornalistas e tratada com igualdade de importância à acusação – ao próprio veículo. Aí, criam-se dois problemas:


1) geralmente, embora não sempre, as empresas de comunicação somente te dão o direito de retratação após processo judicial, que pode durar anos. Isso significa que uma calúnia publicada hoje, que causará certamente estragos à tua reputação, poderá ter a retratação publicada daqui a cinco ou dez anos, quando ninguém mais se lembrar nem se importar e depois que você já tiver sido execrado publicamente – e o caso da Escola Base, de São Paulo, é emblemático;


2) o contraditório raramente é publicado com a mesma ênfase dada à acusação – se a ofensa saiu em destaque na primeira página, o contraditório pode estar no fim da matéria, no último parágrafo, quem sabe no pé da vigésima segunda página, embaixo do obituário (ou seja, ninguém lerá).


Isso tudo ocorre, é claro, pela importância que a imprensa tem na sociedade democrática, é claro. É tão importante que deve ter total liberdade de expressão, ainda que essa liberdade represente, via de regra (mas não sempre, repito, pois que o sempre nunca ), dar atenção apenas a um lado de qualquer notícia e acusar à vontade. Afinal, isso é detalhe diante da nobreza do papel do jornalismo no sistema democrático.


A questão é que, como foi dito por Saramago nos textos que publiquei ontem, essa tal democracia parece não existir na prática.

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