sábado, 31 de dezembro de 2011

O grande Julio Cortázar ensina a lidar com o tempo, com a morte e, é claro, com relógios


Preâmbulo às instruções para dar corda no relógio

Julio Cortázar

Pense nisto: quando dão a você de presente um relógio estão dando um pequeno inferno enfeitado, uma corrente de rosas, um calabouço de ar. Não dão somente o relógio, muitas felicidades e esperamos que dure porque é de boa marca, suíço com âncora de rubis; não dão de presente somente esse miúdo quebra-pedras que você atará ao pulso e levará a passear. Dão a você — eles não sabem, o terrível é que não sabem — dão a você um novo pedaço frágil e precário de você mesmo, algo que lhe pertence mas não é seu corpo, que deve ser atado a seu corpo com sua correia como um bracinho desesperado pendurado a seu pulso. Dão a necessidade de dar corda todos os dias, a obrigação de dar-lhe corda para que continue sendo um relógio; dão a obsessão de olhar a hora certa nas vitrines das joalherias, na notícia do rádio, no serviço telefônico. Dão o medo de perdê-lo, de que seja roubado, de que possa cair no chão e se quebrar. Dão sua marca e a certeza de que é uma marca melhor do que as outras, dão o costume de comparar seu relógio aos outros relógios. Não dão um relógio, o presente é você, é a você que oferecem para o aniversário do relógio.


Instruções para dar corda no relógio

Lá no fundo está a morte, mas não tenha medo. Segure o relógio com uma mão, pegue com dois dedos o pino da corda, puxe-o suavemente. Agora se abre outro prazo, as árvores soltam suas folhas, os barcos correm regata, o tempo como um leque vai se enchendo de si mesmo e dele brotam o ar, as brisas da terra, a sombra de uma mulher, o perfume do pão.

Que mais quer, que mais quer? Amarre-o depressa a seu pulso, deixe-o bater em liberdade, imite-o anelante. O medo enferruja as âncoras, cada coisa que pôde ser alcançada e foi esquecida começa a corroer as veias do relógio, gangrenando o frio sangue de seus pequenos rubis. E lá no fundo está a morte se não corremos, e chegamos antes e compreendemos que já não tem importância.

Do livro "Histórias de cronópios e de famas"

Bemvindo Sequeira pergunta: "Por 30 anos, onde esteve o povo egípcio?"


Há 32 anos o Egito assinou o acordo de paz com Israel, e desde então vem cumprindo à risca o que os EEUU e demais aliados chamam de paz na região.


Há 30 anos Mubarak foi eleito presidente (?) e por 30 anos serviu com fidelidade aos EEUU e Israel, em nome do povo egípcio.


Por 30 anos isolou o Líbano e a Síria do contexto árabe de resistência a Israel.


Nestas três décadas Mubarak acumulou uma fortuna pessoal de milhões de dólares. Pelos serviços prestados, naturalmente. Nada mais justo, kiakiakia.


E provavelmente toda a cúpula que o apóia e cerca há trinta anos também encheu as birras de dólares.


Mas de repente, não mais que de repente, ele já não seve mais aos EEUU.


Obama declara que deseja uma transição. Ou seja: “queremos ele fora,e novas regras do jogo.”


Isto é o que está em jogo.


Porque o povo egípcio esperou 30 anos para protestar?


O que ganhava o povo egípcio durante estes 30 anos para permanecer calado, conivente, com apenas minorias oposicionistas ?


Onde a CIA meteu o dedo nestas manifestações pela derrubada de Mubarak? Sim, porque de uma hora para outra parece que o Egito todo sempre repudiou o Ditador e a regime. Quando sabemos que foram 30 anos...


Que negociações foram e estão sendo feitas à revelia das massas e do povo egípcio neste momento?


Vai mudar a política do Egito em relação ao Likud de Israel e ao Estado Palestino?


Muda debaixo das rédeas e controle dos EEUU e da Comunidade Européia, desde as primeiras horas da rebelião da praça Tahir?


A festa está muito bacana. Como cantou Chico: “Foi bonita a festa, pá...”


Depois os cravos murcharam e Portugal virou as costas ao Terceiro Mundo,e à Revolução Popular e Socialista..


E a festa egípcia, aonde vai levar?


Ela está apenas começando.


Como vai ser o fim da festa?


http://blogdobemvindo.zip.net/arch2011-02-01_2011-02-28.html

A ecologia é um bom negócio, infelizmente para nós

E salve o verde!

Leio num jornal curitibano que estão construindo edifícios “verdes”, construções, segundo o jornal, “ambientalmente corretas do ponto de vista dos métodos de edificação, dos materiais e do uso de energia e água”. E mais: custam entre 5% e 8% mais do que os edifícios “não verdes”. Festa para todo um segmento do mercado que vive desse discurso “verde”. A história de “salvar o planeta” realmente dá lucro.


O curioso é que os tais edifícios “verdes” são e serão feitos para abrigar as entidades que mais colaboram para destruir a natureza e para eliminar qualquer possibilidade de qualidade de vida: grandes corporações, as únicas capazes de pagar o custo de serem “ambientalmente corretas” no mundo capitalista. Fico imaginando a Monsanto num prédio desses, ou mesmo a Petrobras. Com certeza deve haver escritórios de madeireiras instaladas em lugares assim e vasos com flores transgênicas. Ou seja, a linha de frente das empresas preocupadas com o meio ambiente.


E mais curioso ainda é perceber que dentro dessas construções tão ecológicas haverá pessoas absoluta e completamente perfumadas, vestidas com roupas geralmente compradas em lojas que multiplicam o preço de seus produtos graças à etiqueta, sendo que estes são, muitas vezes, feitos por pessoas que recebem pagamentos irrisórios e vivem de forma completamente insalubre por conta disso. Mas isso não agride o meio ambiente.


A única “naturalidade” presente nesses ambientes deve ser, provavelmente, a selvageria. Via de regra, é um “colega” querendo comer o outro, aguardando o momento certo para a rasteira ou para processar o chefe por qualquer tipo de assédio. Geralmente isso se dá de forma elegante, com pose ética e tudo. Prova irrefutável que a espécie dos lobos vestidos de cordeiros não está ameaçada de extinção.


Trata-se, tudo indica, de mais um bom negócio com a marca “ecológica”. As empresas buscam a tal certificação de “ecologicamente corretas” porque isso se tornou uma circunstância de mercado. A que não se mostrar “ecologicamente correta”, está fora. É certamente mais uma vantagem competitiva para obter mais lucratividade do que propriamente uma inspiração virtuosa. Dá a impressão de que o verde que mais interessa nesses casos, é o do dólar.  


Fica a sensação desconfortável de que toda essa conversa verde não existe para efetivamente melhorar a nossa vida. Os empresários ficam falando de pensar globalmente e agir localmente, mas, na prática, pensam localmente e agem globalmente. Em outros termos, pensam muito no próprio cofre e lançaram seus tentáculos por praticamente todo o planeta. Deve ser por isso que querem salvá-lo. Depois de salvar, botam uma placa: PROPRIEDADE PARTICULAR, NÃO ENTRE!

quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

Too much buzz

Schumpeter


Social media provides huge opportunities, but will bring huge problems


Dec 31st 2011 - from the print edition of "The Economist"


THE only area of business that seems to be recession-proof is social media. Industrial firms are battening down the hatches. Banks are tossing thousands of workers overboard. But Facebook is looking to raise $10 billion for a small fraction of its shares when it goes public in 2012.


A recent conference in Madrid, put on by the Bankinter Foundation of Innovation, captured the enthusiasm. The assembled cyber-gurus argued that “social technologies” that allow people to broadcast their ideas (eg, Twitter), or form connections (eg, LinkedIn), are some of the most powerful ever devised. They can be supersized quickly, linked together easily and spread by customers. And they can be accessed from almost anywhere. Two billion people are already online. E-commerce sales are $8 trillion a year. So, the argument goes, this more “social” element to the internet is the next great revolution. Over-caffeinated cyber-champions talk of “empowerment” and “transparency”. But is all this as wonderful as it sounds? Or is it a new bubble in the making?

Most commentary on social media ignores an obvious truth—that the value of things is largely determined by their rarity. The more people tweet, the less attention people will pay to any individual tweet. The more people “friend” even passing acquaintances, the less meaning such connections have. As communication grows ever easier, the important thing is detecting whispers of useful information in a howling hurricane of noise

The great virtue of social technologies, say their boosters, is that they break down the barriers between companies and their customers. They allow firms to gather oodles of information: big companies now obsessively monitor social media to find out what their customers really think about them. Social media also allow companies to respond to complaints more quickly: firms as different as Chrysler and Best Buy employ “Twitter teams” to reply to whinging tweets.


More information ought to be useful, but only if companies can interpret it. And workers are already overloaded: 62% of them say that the quality of what they do is hampered because they cannot make sense of the data they already have, according to Capgemini, a consultancy. This will only get worse: the data deluge is expected to grow more than 40 times by 2020.


Responding quickly to bitter tweets sounds like a nifty way to soothe angry customers. But there is a risk that companies will concentrate on a handful of activists (who tweet a lot), while neglecting average customers (who don’t). They may also ignore non-customers (who are the biggest potential source of growth) and the elderly (who seldom tweet). Many firms think that they can improve customer service by using social media to respond to complaints quickly. Really? It is already virtually impossible to talk to a real person on the telephone. Will it be any easier online?


Undaunted, cyber-enthusiasts maintain that social technologies are shifting power from a few Goliaths to many Davids. Ordinary people can easily broadcast their opinions and extend their networks. Big firms have to adjust to this new reality or go under. (As the digerati put it: “All businesses will end up looking like the internet.”) But big firms can use social data to add to their already formidable influence over the consumer: Ford, PepsiCo and Southwest Airlines monitor postings on social-media sites to gauge the impact of their marketing campaigns and then adjust their pitch accordingly. And some of the most successful internet-savvy companies, such as Google and Microsoft, are as secretive about what they do as any old-line company.


The “Army of Davids” argument—to borrow a phrase from Glenn Reynolds, an American blogger—is often applied to politics. For example, Ilya Ponomarev, a member of the Russian Duma, argues that social media make it easier for protesters in Russia to organise. (Russians spend more time on the internet than western Europeans, not least because they have no faith in state television.) This is true, but the secret police in many countries are equally excited about technology. New tools allow them to eavesdrop retrospectively, and to trace networks of dissidents. During the Egyptian uprising the advantage was clearly on the side of the dissidents, since the Egyptian secret police were digital dullards. But this may not be the case in China, where the regime’s online snoops are highly sophisticated.


Cyber-enthusiasts gush about the way social media help entrepreneurs. They have a point: disruptive technologies reconfigure old businesses and create new ones. Facebook could let companies aim their ads more accurately. Firms are starting to use internal social-networking tools, such as Yammer and Chatter, to encourage collaboration, discover talent and cut down on pointless e-mails. Youngsters are happy to embrace it, but older managers may be less keen. The use of social media within companies could be quite disruptive to traditional management techniques, particularly in strongly hierarchical firms.


Dreaming up new companies is not terribly difficult: at the conference Andreas Weigend, the founder of Social Data Lab, came up with the idea of “another person’s hat”; a product that allows you to don the digital identity of, say, an Islamic fundamentalist and see what the world looks like through his eyes. This sounds neat, but some of the new social-media technologies have a clown-suit quality to them. They are amusing the first time, but rapidly become tedious.


A new medium: neither rare nor well-done


Most commentary on social media ignores an obvious truth—that the value of things is largely determined by their rarity. The more people tweet, the less attention people will pay to any individual tweet. The more people “friend” even passing acquaintances, the less meaning such connections have. As communication grows ever easier, the important thing is detecting whispers of useful information in a howling hurricane of noise. For speakers, the new world will be expensive. Companies will have to invest in ever more channels to capture the same number of ears. For listeners, it will be baffling. Everyone will need better filters—editors, analysts, middle managers and so on—to help them extract meaning from the blizzard of buzz.


http://www.economist.com/node/21542154?fsrc=scn/tw/te/ar/toomuchbuzz

Artigo de Bemvindo Sequeira: "Daria uma perna para estar na Globo"


Por Bemvindo Sequeira, em seu blog e reproduzido no Blogo do Miro, de onde recolhi este belo artigo:


Dia desses um colega veterano, que eu muito respeito, e que o público consagra por seu comprovado talento, afirmou em entrevista o seguinte: “Tem muito ator que fala mal da Globo mas dá uma perna pra entrar”.
Nossa profissão é formada por milhares de atores e atrizes. Alguns foram e são capazes de vender a alma para o Diabo pela vaidade, e pela aparente segurança de um emprego. É humano. É compreensível. Mas há muitos, e não são poucos, que possuem caráter, discernimento, escolhas, que não passam pelo mesmo prisma dos acima mencionados

Eu, com meu humor, pensei logo no ator perneta sendo aproveitado para o papel de Saci (risos).


Mas a chamada do provedor que o entrevistou oportuniza suas palavras para afirmar que ele “ironiza quem critica a Globo”. Enfim, transformou uma declaração parcial em generalizada.


Claro que o provedor faz parte do PIG, sigla popularizada por Paulo Henrique Amorim e que significa Partido da Imprensa Golpista.


Uma das características do PIG foi atacar o governo de Lula e agora de Dilma; os partidos populares; a Rede Record; os blogueiros – chamados de “sujos” - , e tudo e todos mais que não rezarem pela cartilha destes que há décadas vinham tratando o Brasil como o quintal de casa.


Não desmereço a declaração do colega. Conheço este tipo de “quem desdenha quer comprar”.


Mas saio em defesa daqueles que criticam a Rede Globo e nem pensam em perder uma perna, sequer um dedo mindinho para poder trabalhar lá.


Nossa profissão é formada por milhares de atores e atrizes. Alguns foram e são capazes de vender a alma para o Diabo pela vaidade, e pela aparente segurança de um emprego.


É humano. É compreensível. Mas há muitos, e não são poucos, que possuem caráter, discernimento, escolhas, que não passam pelo mesmo prisma dos acima mencionados.


Estes podem escolher trabalhar ou não na Globo. E se o fazem, fazem por profissão e não por servilismo.


Fazem porque estão vendendo para lá sua força de trabalho. São trabalhadores. Não sao capachos.


Antes da existência da Record chegava a ser curioso, senão divertido, ver a reação dos produtores globais quando um desses atores recusava a oferta de trabalhar na Vênus Platinada. Era como se fosse impossível alguém negar tão honroso convite. Era inadmissível que alguém não desse uma perna para estar lá. Era como se não fosse possível haver vida - e vida inteligente, criativa - fora da Rede Globo.


Pois creiam, os que me leem, esta gente existe.


Sabem o valor e a dignidade da sua força de trabalho, sacrificaram e sacrificam muitas coisas na vida para manter a face limpa e o rabo intacto (risos finais).

http://altamiroborges.blogspot.com/2011/12/daria-uma-perna-para-estar-na-globo.html?spref=tw

George Carlin: Isso é ecologia de verdade

Você realmente acha que está "salvando o planeta"? Ora, você é muito arrogante, hein? E se acha certamente muito importante. Tão importante a ponto de ser tão destrutivo a ponto de poder destuir ou salvar algo tão mais imponente e importante do que você. Assista à apresentação de George Carlin. E depois pare de se achar tão, tão, tão, importante. Como Carlin diz, não é o planeta que está com problemas, somos nós! Quando o planeta se cansar de nós, simplesmente nos ejetará, como pulgas. No fim das contas, toda essa conversa de salvar o planeta parece mais uma vez a iniciativa humana de tentar controlar a natureza. Tudo isso está no vídeo, que me foi indicado pelo nobre Mateus Araújo, de Brasília, um sujeito indispensável. Apesar de não passar de uma mera apresentação humorística em um teatro, consegue ir além e falar com propriedade de um dos maiores delírios da contemporaneidade.

http://www.youtube.com/watch?v=X_Di4Hh7rK0

Boni diz que redes sociais são “suicídio da privacidade”


Silvana Chaves, no Comunique-se (link no final)


Em entrevista ao programa Roda Viva, da TV Cultura, nesta segunda-feira, 19, o empresário José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, o Boni, disse que é um usuário assíduo da internet e a utiliza especialmente para pesquisa, mas que não se expõe nas redes sociais.


Ele, que por 30 anos foi o homem mais poderoso da TV brasileira, ocupando o cargo de vice-presidente de operações da Rede Globo, comentou que o conteúdo publicado pelos internautas nas redes sociais, como o Facebook, é muito ruim.


“Não tenho perfil em rede social nenhuma, porque acho que expor a vida é provocar um suicídio de sua privacidade. Vejo cada coisa lá que me assusta, as pessoas não se preservam e isso é horrível”, disse o empresário durante o programa de entrevistas comandado por Mário Sérgio Conti, que também é diretor de redação da revista Piauí.
 
http://portal.comunique-se.com.br/index.php?option=com_acymailing&ctrl=url&urlid=106&mailid=19&subid=96659

Produto em liquidação também tem garantia


Você chega no shopping e vê aquele sapato que você tanto deseja por um preço que você nem imaginava encontrar. Ou encontra, pela metade do preço, aquele brinquedo que o seu filho pediu ajoelhado que você comprasse. Aí, você olha para cima e vê o cartaz: “Não fazemos trocas de produtos em liquidação”. O que você faz? Compra e depois, se o sapato vier com a sola furada ou se o brinquedo não funcionar, vai à loja e o troca, como se o cartaz não existisse. Se a loja não trocar, você pega o Código de Defesa do Consumidor (CDC) e não há argumentação que impeça a troca. A não ser que a loja tenha informado claramente, antes da compra, que o produto apresentava o defeito constatado, é claro.


Essa informação está no endereço http://www.bempublico.com.br/materias/materiaVer.php?materiaID=4546&editorialID=17 e é respaldada pelo presidente do Instituto Brasileiro de Estudo e Defesa das Relações de Consumo (IBEDEC), José Geraldo Tardin (foto). “Os eventuais defeitos em produtos de mostruário que forem vendidos devem estar expressamente descritos e informados ao consumidor, de forma expressa, para isentar da obrigação de troca ou reparo”, afirma. Segundo ele, se não houver essa informação, vale a garantia normal do CDC, que garante o prazo de trinta dias para trocas de bens não duráveis, como roupas e produtos descartáveis, e noventa dias para bens duráveis, que é o caso dos eletrodomésticos. “Esta garantia pode ser maior, por ato do fornecedor, constante do Manual de Garantia dos produtos”, garante Tardin.


Se o problema for de fácil constatação, se apresentar partes faltando ou quebradas, a solução deve ser rápida e imediata. Já no caso de defeitos que não se constatam assim tão facilmente, se houver falha no motor ou se o problema for interno, dependendo de técnicos especializados para detecção, o prazo de troca inicia quando o defeito for constatado. Segundo a matéria, nesses casos o fabricante tem prazo de até trinta dias para reparar o produto ou, vencido o prazo, efetuar a troca ou devolver o dinheiro. É bom lembrar ainda que o consumidor tem o direito de requerer reparação de danos e que, caso o fornecedor não troque o produto ou devolva a importância paga, o consumidor pode procurar a justiça no prazo de cinco anos.

quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

O chilique do historiador tucano


Altamirando Borges, editor do excelente "Blog do Miro"
 Por Altamiro Borges


O historiador Marco Antonio Villa, que goza de generosos espaços na mídia (Globo, Cultura, Estadão e outros), nunca escondeu a sua rejeição ao chamado “lulopetismo” e as suas simpatias pelo tucanato. Nos últimos dias, porém, ele andou perdendo a compostura. O livro “A privataria tucana”, do jornalista Amaury Ribeiro, parece que deixou o rapaz enfezadinho, irritadiço.
Villa poderia aproveitar a sua boquinha na GloboNews para solicitar a famiglia Marinho que se fale algo sobre o livro. O silêncio da maior parte da mídia é vergonhoso e o historiador ainda tem a caradura de mencionar a “ampla cobertura”. Quanto ao fracasso do autor, não é o que afirmam as principais livrarias do país. Villa garante o livro “logo cairá no esquecimento. Certeza ou medo?

Segundo o sítio Comunique-se, na edição desta segunda-feira (26) do “Jornal da Cultura”, Villa chegou a bater boca com o outro comentarista do programa, o advogado Airton Soares, ao tratar do salário dos magistrados paulistas. “Os ânimos no noticiário se exaltaram... ‘Aqui não é debate eleitoral’, disparou Maria Cristina [âncora do programa] antes de chamar o intervalo comercial”.


A mordaça da direita


Um dia depois, Villa publicou artigo raivoso contra o livro no jornal O Globo. Com o título “Querem impor a mordaça”, ele afirma que “o panfleto de Amaury Ribeiro é apenas um produto da máquina petista de triturar reputações. Foi produzido nos esgotos do Palácio do Planalto”. As contradições no texto são grotescas. Apresento trechos do artigo e, com colchetes e negritos, faço algumas indagações ao intrépido historiador:


“Não é novidade a forma de agir dos donos do poder. Nas três últimas eleições presidenciais, o PT e seus comparsas produziram dossiês, violaram sigilos fiscais e bancários, espalharam boatos, caluniaram seus opositores, montaram farsas”.


[Mas no foi o “fogo amigo”, segundo o próprio José Serra, que gerou a confecção de dossiês e a contratação de arapongas no interior do PSDB? Não foi a Verônica Serra, filha do ex-governador, que quebrou o sigilo bancário de 60 milhões de brasileiros? E a fama de Serra de espalhar boatos, caluniar opositores e montar farsas, como a da bolinha de papel? Villa conhece estes fatos?].


“A máquina petista virou uma Stasi tropical, tão truculenta como aquela que oprimiu os alemães-orientais durante 40 anos. A truculência é uma forma fascista de evitar o confronto de idéias. Para os fascistas, o debate é nocivo à sua forma de domínio, de controle absoluto da sociedade, pois pressupõe a existência do opositor”.


[Ao invés de vomitar conhecimento histórico, Villa não tem nada a dizer sobre os espiões, alguns egressos do SNI, contratados por José Serra, que têm seus nomes registrados no livro do Amaury? Sobre a truculência fascista, ele não fará nenhuma crítica ao seu amigo tucano, conhecido por pedir a cabeça de inúmeros jornalistas – inclusive de Heródoto Barbeiro, na TV Cultura?].


“Os petistas odeiam a política. Fizeram nos últimos anos um trabalho de despolitizar os confrontos ideológicos e infantilizaram as divergências (basta recordar a denominação "mãe do PAC")... Na verdade, os petistas odeiam ter de conviver com a democracia”.

[Mas não foi a mulher do José Serra, a Mônica, que disse na campanha eleitoral do ano passado que Dilma “matava criancinhas”? Isto não é infantilizar as divergências, não é pura baixaria? Não foi o presidenciável tucano que se aliou os generais de pijama do Clube Militar e aos fascistas do Opus Dei e da TFP? Quem é que odeia conviver com a democracia].


“Enxergam na Venezuela, no Equador e, mais recentemente, na Argentina exemplos para serem seguidos. Querem, como nestes três países, amordaçar os meios de comunicação e impor a ferro e fogo seu domínio sobre a sociedade. Mesmo com todo o poder de Estado, nunca conseguiram vencer, no primeiro turno, uma eleição presidencial”.


[Com sua mente colonizada, Villa prefere seguir os EUA e a Europa, com suas guerras expansionistas, seus campos de tortura e seus governos de banqueiros. Mesmo assim, vale lembrar ao nobre historiador que nos EUA e nos países europeus existem regras para os meios de comunicação. Quanto a vencer no primeiro turno, Villa ainda hoje não engoliu a terceira vitória de Lula].


“O panfleto de Amaury Ribeiro Junior é apenas um produto da máquina petista de triturar reputações. Foi produzido nos esgotos do Palácio do Planalto. E foi publicado, neste momento, justamente com a intenção de desviar a atenção nacional dos sucessivos escândalos de corrupção do governo federal... Sob o pretexto de criticar as privatizações, focou o seu panfleto em José Serra”.


[Sobre esgoto e máquinas de triturar reputações, Villa deve conhecer bem como funcionam as coisas no ninho tucano. Ninguém se entende. As bicadas são sangrentas e o jogo é sujo. Já no que se refere aos “escândalos” no governo Dilma, se vingar a CPI da privataria, o historiador terá volumoso material para escrever um livro sobre a maior roubalheira da história do Brasil?].


“O panfleto deveria ser ignorado. Porém, o Ministério da Verdade petista, digno de George Orwell, construiu um verdadeiro rolo compressor. Criou a farsa do livro invisível, isto quando recebeu ampla cobertura televisiva da rede onde o jornalista dá expediente. Junto às centenas de vozes de aluguel, Ribeiro quis transformar o texto difamatório em denúncia. Fracassou. O panfleto não para em pé e logo cairá no esquecimento”.


[Villa poderia aproveitar a sua boquinha na GloboNews para solicitar a famiglia Marinho que se fale algo sobre o livro. O silêncio da maior parte da mídia é vergonhoso e o historiador ainda tem a caradura de mencionar a “ampla cobertura”. Quanto ao fracasso do autor, não é o que afirmam as principais livrarias do país. Villa garante o livro “logo cairá no esquecimento. Certeza ou medo?].


“O PT não vai deixar o poder tão facilmente, como alguns ingênuos imaginam. Usará de todos os instrumentos de intimidação contra seus adversários, mesmo aqueles que hoje silenciam, acreditando que estão ‘pela covardia’ protegidos da fúria fascista... O panfleto é somente uma pequena peça da estrutura fascista do petismo”.


[O último parágrafo do artigo é quase uma bronca na oposição demotucana, uma orientação política. Villa exige que ela seja mais ativa e incisiva contra o “fascismo petista”. O historiador está preocupado, estressado. Precisa urgentemente de férias. Poderia pedir a Verônica Serra e ao seu marido Preciado para passar alguns dias na mansão em Trancoso, no belo litoral baiano].


http://altamiroborges.blogspot.com/2011/12/o-chilique-do-historiador-tucano.html?spref=tw

“A Privataria Tucana” está em evidência, mas Veja ainda não descobriu isso


Hoje, meu dia começou com a constatação de três verdades. Em primeiro lugar, eu e todo mundo já entendemos que o livro “Privataria Tucana”, de Amaury Ribeiro Jr, é a sensação das discussões políticas no último mês. Todos sabem, também, que o livro está vendendo muito bem, bem demais até. E, finalmente, é de conhecimento público o que trata o livro. A revista Veja sabe, obviamente, desta última verdade, mas até a última segunda-feira (26), ignorava solenemente a segunda verdade. Somente quando o sítio Comunique-se (http://portal.comunique-se.com.br/index.php/editorias/28-carreira/67443-na-lista-dos-mais-vendidos-nas-livrarias-qa-privataria-tucanaq-nao-aparece-no-ranking-da-veja.html) denunciou que a revista não incluiu o livro na sua lista de mais vendidos, é que a Veja resolveu capitular. A primeira verdade, porém, continua sendo olimpicamente ignorada pela revista que, no entanto, dá todos os destaques, com requintes de sensacionalismo barato, aos escândalos do governo petista.


O que a revista esquece ou não entende é que, para ter credibilidade, um veículo de comunicação precisa tentar (pelo menos tentar) noticiar com certa isenção. E que fique claro que isenção não significa fingir que não há preferência partidária. Significa fazer denúncias e/ou críticas, mas tratar todo e qualquer fato sempre observando o contraditório e, principalmente, oferecer espaço para que o denunciado ou o criticado se defenda. Isso sem falar na adoção do princípio ético de olhar para o próprio rabo, principalmente quando este estiver sujo, e o mesmo vale para o rabo dos patrocinadores e políticos aliados. Não parece possível fazer bom jornalismo sem isso.


Nos últimos anos, a Veja, aliás, tem falado bastante de escândalos como os divulgados no livro. “Corrupção” parece a palavra chave, mas corrupção num sentido restrito, remetendo simplesmente ao suborno e/ou a desvio de verbas públicas. Corrupção é mais do que isso. Reduzi-la ao mero ato de seduzir ou “comprar” um agente público por propinas, presentes ou qualquer outro recurso, é simplesmente obscurecer o sentido contundente e amplo que o termo traz consigo. E, com isso, deixar de abrir a possibilidade de entendimento do que é efetivamente a corrupção e o alcance que vem conseguindo na sociedade brasileira, deixando, também, de contribuir para que isso mude, incentivando o cidadão a remar contra a maré de todas as corrupções cotidianas e a adotar posturas cada vez mais éticas.


Segundo Houaiss, corrupção indica “deterioração, decomposição física, orgânica de algo; putrefação; modificação, adulteração das características originais de algo; depravação de hábitos, costumes etc.; devassidão”, isso além do significado mais usual, que remete ao “ato ou efeito de subornar uma ou mais pessoas em causa própria ou alheia, geralmente com oferecimento de dinheiro; suborno”, fora outros sentidos próximos a este que podemos descartar aqui para ir direto ao assunto.


Sob esse ponto de vista, há tantas corrupções no mundo ocidental contemporâneo que para começar a falar delas detalhadamente caberia esta página e mais outras mil, pelo menos. Basta que você olhe em volta e poderá, certamente, encontrar inúmeros outros exemplos, na dissolução de valores e costumes estruturantes do convívio social, na degradação da função subjetiva nas relações familiares, cada vez mais substituída pela influência da lógica do pensamento comercial nas relações do dia-a-dia, incluindo as mais íntimas, ou na transformação da carreira política em mera forma de empoderamento ou enriquecimento, sem qualquer indício de interesse pelo bem público. Tudo isso pode e deve ser incluído no rol da corrupção.


Assim, na medida em que um veículo de comunicação oculta informações sobre um determinado livro, visando, com isso, efetivamente tentar esconder não apenas o sucesso do livro, mas até mesmo sua existência, e na medida em que esse mesmo livro traz revelações importantíssimas acerca do recentíssimo passado político brasileiro, tudo indica que está ilustrando, com esse procedimento, uma forma de corrupção: deterioração, adulteração da missão e do papel de um veículo jornalístico na sociedade democrática. É difícil, muito difícil negar isso.


A revista chegou a, segundo informação de texto publicado no sítio http://www.cenariomt.com.br/, substituir o livro em sua lista de mais vendidos pelo de Leandro Narloch, curiosamente intitulado “Guia Politicamente Incorreto da História do Brasil”, que ocupava uma posição bem mais humilde no ranking dos mais vendidos. Excelente exemplo de incorreção política.


Se um veículo assume uma posição política, muito bem. Não vejo qualquer problema nisso. No entanto, que trate os inimigos de seu partido com o mesmo respeito que pretende ver na direção oposta. O debate político é efetivamente a base da democracia e, ainda que eu ande bastante descrente da efetiva e real existência da democracia nas sociedades ocidentais que tanto a proclamam, não é possível deixar de sonhar que um dia consigamos realizar pelo menos a base do ideal democrático. E isso se faz remando contra a maré de toda e qualquer corrupção, não indo a favor dela enquanto se jura fazer o contrário.

terça-feira, 27 de dezembro de 2011

A liberdade de expressão do jornalismo e a democracia



Tudo indica que todo jornalista adora falar e/ou escrever o que pensa. Se não consegue, geralmente argumenta que sua expressão está cerceada, que alguém atenta contra a liberdade de imprensa. Isso geralmente é dito com indignação, como se toda a sociedade devesse se mobilizar para defender essa liberdade do jornalista. Segundo ele, aliás, essa sua liberdade é a base da democracia. Sem informação, não há cidadania, não há regime democrático, gritam os paladinos da imprensa.


O problema é que quem tem experiência com jornalistas sabe que, embora não seja uma regra sem exceções, os tipos gostam de falar, mas não parecem tão propensos assim a ouvir.


Curioso é que há jornalistas que não assumem, salvo raríssimas exceções, que adoram falar e/ou escrever o que pensam. Não se sabe se é por pura inocência que alguns jornalistas dizem acreditar que se abstêm de emitir qualquer juízo sobre os fatos que relatam. Mal alguém lhes interpõe uma objeção e eles enchem o peito, franzem o cenho e levantam o dedo indicador, dizendo: “Estou sendo absolutamente objetivo e imparcial!”. Nesses momentos, o correto seria ajoelhar-se, pois somente Deus pode afirmar absoluta objetividade e imparcialidade em relação a qualquer fato. No entanto, nós, que sabemos que Deus está lá no céu e que aqui na terra não há humano que não seja subjetivo e parcial, somente gargalhamos.


Essa tal liberdade de expressão da imprensa, aliás, vale apenas para veículos e jornalistas. Se você se sentir caluniado de qualquer forma por uma matéria jornalística, deve exigir retratação e enviar o contraditório – a outra versão da calúnia, que deveria ter sido colhida antes pelos jornalistas e tratada com igualdade de importância à acusação – ao próprio veículo. Aí, criam-se dois problemas:


1) geralmente, embora não sempre, as empresas de comunicação somente te dão o direito de retratação após processo judicial, que pode durar anos. Isso significa que uma calúnia publicada hoje, que causará certamente estragos à tua reputação, poderá ter a retratação publicada daqui a cinco ou dez anos, quando ninguém mais se lembrar nem se importar e depois que você já tiver sido execrado publicamente – e o caso da Escola Base, de São Paulo, é emblemático;


2) o contraditório raramente é publicado com a mesma ênfase dada à acusação – se a ofensa saiu em destaque na primeira página, o contraditório pode estar no fim da matéria, no último parágrafo, quem sabe no pé da vigésima segunda página, embaixo do obituário (ou seja, ninguém lerá).


Isso tudo ocorre, é claro, pela importância que a imprensa tem na sociedade democrática, é claro. É tão importante que deve ter total liberdade de expressão, ainda que essa liberdade represente, via de regra (mas não sempre, repito, pois que o sempre nunca ), dar atenção apenas a um lado de qualquer notícia e acusar à vontade. Afinal, isso é detalhe diante da nobreza do papel do jornalismo no sistema democrático.


A questão é que, como foi dito por Saramago nos textos que publiquei ontem, essa tal democracia parece não existir na prática.

segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

Para José Saramago, a democracia é uma "piada"


Agência EFE, 18 de fevereiro, 2004.

Saramago disse que dentro da chamada democracia, as pessoas são livres, mas dentro de um limite muito bem definido.

O Prêmio Nobel de Literatura de 1998, o português José Saramago, disse hoje, terça-feira, em Quito que a democracia é "uma falácia", uma "piada", e que esse sistema político não foi superado porque ninguém ainda encontrou outro. Ele disse que em nome da democracia foram feitas muitas atrocidades no mundo e, nesse momento, referiu-se à intervenção dos Estados Unidos no Iraque.

"Os Estados Unidos estão muito conscientes de que dentro de 40 ou 50 anos terão dois concorrentes que vão se apresentar no cenário mundial como aspirantes ao domínio mundial ou, pelo menos, a compartilhar esse domínio. Serão eles a China e a Índia", asseverou Saramago, lembrando a intervenção dos Estados Unidos na maioria dos países do mundo.
"Tudo se fez em nome da democracia", lamentou, antes de acrescentar que "se começássemos a dizer claramente, para que todo mundo escutasse, que a democracia é uma piada, um engano, uma fachada, uma falácia, e uma mentira, talvez pudéssemos nos entender melhor"
"Quantos países têm bases militares nos EUA? Em quantos países os EUA não têm bases militares?", questionou o escritor em um encontro com leitores realizado na Casa da Cultura Equatoriana.

"Tudo se fez em nome da democracia", lamentou, antes de acrescentar que "se começássemos a dizer claramente, para que todo mundo escutasse, que a democracia é uma piada, um engano, uma fachada, uma falácia, e uma mentira, talvez pudéssemos no entender melhor".

O literato afirmou que enquanto se escutar a palavra democracia sem a devida importância que o conceito tem, o mundo continuará tendo um dos "problemas políticos fundamentais de todos os tempos". Saramago qualificou de "ingênuos" aqueles que dizem que a democracia é "o Governo do povo, para o povo e pelo povo". "Isso não tem nada a ver com a realidade", assentiu.

O Prêmio Nobel, que está Quito para receber a condecoração "Medalla Guayasamín de Unesco", também criticou o fato de haver pessoas no mundo que passam fome. "Como é possível que o povo esteja morrendo de fome? A fome é a obscenidade máxima e todos nós deveríamos nos sentir insultados com o fato de que há pessoas com fome", ressaltou.
Saramago qualificou de "ingênuos" aqueles que dizem que a democracia é "o Governo do povo, para o povo e pelo povo". "Isso não tem nada a ver com a realidade"
Saramago contou que, em sua reunião de hoje com líderes indígenas do Equador, lamentou o fato de eles terem uma história de 500 anos "de genocídio lento, de dor infinita, de sofrimento sem perdão".

"Não pensemos só o que os Estados Unidos querem que façamos; pensemos em nós", acrescentou ao ressaltar que não se pode permitir que "milhões e milhões de pessoas se encontrem sob as ordens de uma potência que tem uma visão mundial sem limites". "Não podemos, somos cidadãos, somos pessoas, temos direitos", destacou.

Ele disse que os povos da América têm ainda mais direito a reclamar porque foram "infinitamente explorados". Questionou o fato de o mundo ser "mais ignorante do que nunca" apesar de todas as facilidades que existem para evitar esse fato. "O ensino não foi preparado para a massificação e o resultado é que, no fundo, o que importa é lançar ao mercado de trabalho jovens" que receberão salários muito baixos, manifestou.

Saramago explicou que, também dentro da chamada democracia, as pessoas são "livres, mas dentro de um limite muito bem definido".

http://www.consciencia.net/2004/mes/03/saramago-piada.html

Saramago: "Uma Democracia de Verdade"



Eu acho que é preciso continuar a acreditar na democracia, mas numa democracia que o seja de verdade. Quando eu digo que a democracia em que vivem as atuais sociedades deste mundo é uma falácia, não é para atacar a democracia, longe disso. É para dizer que isto a que chamamos democracia não o é. E que, quando o for, aperceber-nos-emos da diferença. Nós não podemos continuar a falar de democracia no plano puramente formal. Isto é, que existam eleições, um parlamento, leis, etc. Pode haver um funcionamento democrático das instituições de um país, mas eu falo de um problema muito mais importante, que é o problema do poder. E o poder, mesmo que seja uma trivialidade dizê-lo, não está nas instituições que elegemos. O poder está noutro lugar.

José Saramago, in 'Lancelot (1997)

Uma brilhante reflexão de Saramago: "Da justiça à democracia, passando pelos sinos"


José Saramago

Começarei por vos contar em brevíssimas palavras um facto notável da vida camponesa ocorrido numa aldeia dos arredores de Florença há mais de quatrocentos anos. Permito-me pedir toda a vossa atenção para este importante acontecimento histórico porque, ao contrário do que é corrente, a lição moral extraível do episódio não terá de esperar o fim do relato, saltar-vos-á ao rosto não tarda.

Estavam os habitantes nas suas casas ou a trabalhar nos cultivos, entregue cada um aos seus afazeres e cuidados, quando de súbito se ouviu soar o sino da igreja. Naqueles piedosos tempos (estamos a falar de algo sucedido no século XVI) os sinos tocavam várias vezes ao longo do dia, e por esse lado não deveria haver motivo de estranheza, porém aquele sino dobrava melancolicamente a finados, e isso, sim, era surpreendente, uma vez que não constava que alguém da aldeia se encontrasse em vias de passamento. Saíram portanto as mulheres à rua, juntaram-se as crianças, deixaram os homens as lavouras e os mesteres, e em pouco tempo estavam todos reunidos no adro da igreja, à espera de que lhes dissessem a quem deveriam chorar. O sino ainda tocou por alguns minutos mais, finalmente calou-se. Instantes depois a porta abria-se e um camponês aparecia no limiar. Ora, não sendo este o homem encarregado de tocar habitualmente o sino, compreende-se que os vizinhos lhe tenham perguntado onde se encontrava o sineiro e quem era o morto. "O sineiro não está aqui, eu é que toquei o sino", foi a resposta do camponês. "Mas então não morreu ninguém?", tornaram os vizinhos, e o camponês respondeu: "Ninguém que tivesse nome e figura de gente, toquei a finados pela Justiça porque a Justiça está morta."
Da literatura à ecologia, da fuga das galáxias ao efeito de estufa, do tratamento do lixo às congestões do tráfego, tudo se discute neste nosso mundo. Mas o sistema democrático, como se de um dado definitivamente adquirido se tratasse, intocável por natureza até à consumação dos séculos, esse não se discute 
Que acontecera? Acontecera que o ganancioso senhor do lugar (algum conde ou marquês sem escrúpulos) andava desde há tempos a mudar de sítio os marcos das estremas das suas terras, metendo-os para dentro da pequena parcela do camponês, mais e mais reduzida a cada avançada. O lesado tinha começado por protestar e reclamar, depois implorou compaixão, e finalmente resolveu queixar-se às autoridades e acolher-se à protecção da justiça. Tudo sem resultado, a expoliação continuou. Então, desesperado, decidiu anunciar urbi et orbi (uma aldeia tem o exacto tamanho do mundo para quem sempre nela viveu) a morte da Justiça. Talvez pensasse que o seu gesto de exaltada indignação lograria comover e pôr a tocar todos os sinos do universo, sem diferença de raças, credos e costumes, que todos eles, sem excepção, o acompanhariam no dobre a finados pela morte da Justiça, e não se calariam até que ela fosse ressuscitada. Um clamor tal, voando de casa em casa, de aldeia em aldeia, de cidade em cidade, saltando por cima das fronteiras, lançando pontes sonoras sobre os rios e os mares, por força haveria de acordar o mundo adormecido... Não sei o que sucedeu depois, não sei se o braço popular foi ajudar o camponês a repor as estremas nos seus sítios, ou se os vizinhos, uma vez que a Justiça havia sido declarada defunta, regressaram resignados, de cabeça baixa e alma sucumbida, à triste vida de todos os dias. É bem certo que a História nunca nos conta tudo...

Suponho ter sido esta a única vez que, em qualquer parte do mundo, um sino, uma campânula de bronze inerte, depois de tanto haver dobrado pela morte de seres humanos, chorou a morte da Justiça. Nunca mais tornou a ouvir-se aquele fúnebre dobre da aldeia de Florença, mas a Justiça continuou e continua a morrer todos os dias. Agora mesmo, neste instante em que vos falo, longe ou aqui ao lado, à porta da nossa casa, alguém a está matando. De cada vez que morre, é como se afinal nunca tivesse existido para aqueles que nela tinham confiado, para aqueles que dela esperavam o que da Justiça todos temos o direito de esperar: justiça, simplesmente justiça. Não a que se envolve em túnicas de teatro e nos confunde com flores de vã retórica judicialista, não a que permitiu que lhe vendassem os olhos e viciassem os pesos da balança, não a da espada que sempre corta mais para um lado que para o outro, mas uma justiça pedestre, uma justiça companheira quotidiana dos homens, uma justiça para quem o justo seria o mais exacto e rigoroso sinónimo do ético, uma justiça que chegasse a ser tão indispensável à felicidade do espírito como indispensável à vida é o alimento do corpo. Uma justiça exercida pelos tribunais, sem dúvida, sempre que a isso os determinasse a lei, mas também, e sobretudo, uma justiça que fosse a emanação espontânea da própria sociedade em acção, uma justiça em que se manifestasse, como um iniludível imperativo moral, o respeito pelo direito a ser que a cada ser humano assiste.

Mas os sinos, felizmente, não tocavam apenas para planger aqueles que morriam. Tocavam também para assinalar as horas do dia e da noite, para chamar à festa ou à devoção dos crentes, e houve um tempo, não tão distante assim, em que o seu toque a rebate era o que convocava o povo para acudir às catástrofes, às cheias e aos incêndios, aos desastres, a qualquer perigo que ameaçasse a comunidade. Hoje, o papel social dos sinos encontra-se limitado ao cumprimento das obrigações rituais e o gesto iluminado do camponês de Florença seria visto como obra desatinada de um louco ou, pior ainda, como simples caso de polícia. Outros e diferentes são os sinos que hoje defendem e afirmam a possibilidade, enfim, da implantação no mundo daquela justiça companheira dos homens, daquela justiça que é condição da felicidade do espírito e até, por mais surpreendente que possa parecer-nos, condição do próprio alimento do corpo. Houvesse essa justiça, e nem um só ser humano mais morreria de fome ou de tantas doenças que são curáveis para uns, mas não para outros. Houvesse essa justiça, e a existência não seria, para mais de metade da humanidade, a condenação terrível que objectivamente tem sido.
O eleitor poderá tirar do poder um governo que não lhe agrade e pôr outro no seu lugar, mas o seu voto não teve, não tem, nem nunca terá qualquer efeito visível sobre a única e real força que governa o mundo, e portanto o seu país e a sua pessoa: refiro-me, obviamente, ao poder económico, em particular à parte dele, sempre em aumento, gerida pelas empresas multinacionais de acordo com estratégias de domínio que nada têm que ver com aquele bem comum a que, por definição, a democracia aspira 
Esses sinos novos cuja voz se vem espalhando, cada vez mais forte, por todo o mundo são os múltiplos movimentos de resistência e acção social que pugnam pelo estabelecimento de uma nova justiça distributiva e comutativa que todos os seres humanos possam chegar a reconhecer como intrinsecamente sua, uma justiça protectora da liberdade e do direito, não de nenhuma das suas negações. Tenho dito que para essa justiça dispomos já de um código de aplicação prática ao alcance de qualquer compreensão, e que esse código se encontra consignado desde há cinquenta anos na Declaração Universal dos Direitos Humanos, aqueles trinta direitos básicos e essenciais de que hoje só vagamente se fala, quando não sistematicamente se silencia, mais desprezados e conspurcados nestes dias do que o foram, há quatrocentos anos, a propriedade e a liberdade do camponês de Florença. E também tenho dito que a Declaração Universal dos Direitos Humanos, tal qual se encontra redigida, e sem necessidade de lhe alterar sequer uma vírgula, poderia substituir com vantagem, no que respeita a rectidão de princípios e clareza de objectivos, os programas de todos os partidos políticos do orbe, nomeadamente os da denominada esquerda, anquilosados em fórmulas caducas, alheios ou impotentes para enfrentar as realidades brutais do mundo actual, fechando os olhos às já evidentes e temíveis ameaças que o futuro está a preparar contra aquela dignidade racional e sensível que imaginávamos ser a suprema aspiração dos seres humanos. Acrescentarei que as mesmas razões que me levam a referir-me nestes termos aos partidos políticos em geral, as aplico por igual aos sindicatos locais, e, em consequência, ao movimento sindical internacional no seu conjunto.

De um modo consciente ou inconsciente, o dócil e burocratizado sindicalismo que hoje nos resta é, em grande parte, responsável pelo adormecimento social decorrente do processo de globalização económica em curso. Não me alegra dizê-lo, mas não poderia calá-lo. E, ainda, se me autorizam a acrescentar algo da minha lavra particular às fábulas de La Fontaine, então direi que, se não interviermos a tempo, isto é, já, o rato dos direitos humanos acabará por ser implacavelmente devorado pelo gato da globalização económica.
Não há pior engano do que o daquele que a si mesmo se engana. E assim é que estamos vivendo 
E a democracia, esse milenário invento de uns atenienses ingénuos para quem ela significaria, nas circunstâncias sociais e políticas específicas do tempo, e segundo a expressão consagrada, um governo do povo, pelo povo e para o povo? Ouço muitas vezes argumentar a pessoas sinceras, de boa fé comprovada, e a outras que essa aparência de benignidade têm interesse em simular, que, sendo embora uma evidência indesmentível o estado de catástrofe em que se encontra a maior parte do planeta, será precisamente no quadro de um sistema democrático geral que mais probabilidades teremos de chegar à consecução plena ou ao menos satisfatória dos direitos humanos. Nada mais certo, sob condição de que fosse efectivamente democrático o sistema de governo e de gestão da sociedade a que actualmente vimos chamando democracia. E não o é. É verdade que podemos votar, é verdade que podemos, por delegação da partícula de soberania que se nos reconhece como cidadãos eleitores e normalmente por via partidária, escolher os nossos representantes no parlamento, é verdade, enfim, que da relevância numérica de tais representações e das combinações políticas que a necessidade de uma maioria vier a impor sempre resultará um governo. Tudo isto é verdade, mas é igualmente verdade que a possibilidade de acção democrática começa e acaba aí. O eleitor poderá tirar do poder um governo que não lhe agrade e pôr outro no seu lugar, mas o seu voto não teve, não tem, nem nunca terá qualquer efeito visível sobre a única e real força que governa o mundo, e portanto o seu país e a sua pessoa: refiro-me, obviamente, ao poder económico, em particular à parte dele, sempre em aumento, gerida pelas empresas multinacionais de acordo com estratégias de domínio que nada têm que ver com aquele bem comum a que, por definição, a democracia aspira. Todos sabemos que é assim, e contudo, por uma espécie de automatismo verbal e mental que não nos deixa ver a nudez crua dos factos, continuamos a falar de democracia como se se tratasse de algo vivo e actuante, quando dela pouco mais nos resta que um conjunto de formas ritualizadas, os inócuos passes e os gestos de uma espécie de missa laica. E não nos apercebemos, como se para isso não bastasse ter olhos, de que os nossos governos, esses que para o bem ou para o mal elegemos e de que somos portanto os primeiros responsáveis, se vão tornando cada vez mais em meros "comissários políticos" do poder económico, com a objectiva missão de produzirem as leis que a esse poder convierem, para depois, envolvidas no açúcares da publicidade oficial e particular interessada, serem introduzidas no mercado social sem suscitar demasiados protestos, salvo os certas conhecidas minorias eternamente descontentes...

Que fazer? Da literatura à ecologia, da fuga das galáxias ao efeito de estufa, do tratamento do lixo às congestões do tráfego, tudo se discute neste nosso mundo. Mas o sistema democrático, como se de um dado definitivamente adquirido se tratasse, intocável por natureza até à consumação dos séculos, esse não se discute. Ora, se não estou em erro, se não sou incapaz de somar dois e dois, então, entre tantas outras discussões necessárias ou indispensáveis, é urgente, antes que se nos torne demasiado tarde, promover um debate mundial sobre a democracia e as causas da sua decadência, sobre a intervenção dos cidadãos na vida política e social, sobre as relações entre os Estados e o poder económico e financeiro mundial, sobre aquilo que afirma e aquilo que nega a democracia, sobre o direito à felicidade e a uma existência digna, sobre as misérias e as esperanças da humanidade, ou, falando com menos retórica, dos simples seres humanos que a compõem, um por um e todos juntos. Não há pior engano do que o daquele que a si mesmo se engana. E assim é que estamos vivendo.

Não tenho mais que dizer. Ou sim, apenas uma palavra para pedir um instante de silêncio. O camponês de Florença acaba de subir uma vez mais à torre da igreja, o sino vai tocar. Ouçamo-lo, por favor.

Publicado em Porto Alegre 2003: 18/12/2003

http://www.morcegolivre.vet.br/da_justica.html

terça-feira, 13 de dezembro de 2011

Na mesma praça, no mesmo banco…

O autoritarismo do reitor João Grandino Rodas e a surdez da mídia para as reivindicações estudantis viram piada no vídeo “A USP é Nossa”

A política não precisa ser chata — e a política universitária menos ainda. Para driblar os discursos exaltados e as palavras de ordem, que costumam causar ojeriza em muita gente, um grupo de estudantes da Universidade de São Paulo resolveu lançar mão do humor. Assim, produziram A USP É Nossa, um vídeo curtinho, com menos de quatro minutos, que se baseia no clássico do SBT para criticar o autoritarismo do reitor João Grandino Rodas e a maneira como os meios de comunicação tradicionais manipulam as exigências do Movimento Estudantil.
No vídeo, Rodas e um estudante aparecem sentados num banco de praça. Assim como Carlos Alberto de Nóbrega no programa do SBT, o reitor está lendo uma revista — e se irrita quando o estudante diz que quer a PM fora do campus e uma política de segurança estruturada. Rodas ameaça chamar a força policial para dar uma “aula de democracia” no aluno impertinente quando entra em cena a Dona Mídia, paródia da Velha Surda
“Muitas pessoas já lançaram mão de piadas para falar de política, e com bastante êxito. Acreditamos que o humor e o entretenimento podem ser muito eficazes para transmitir uma mensagem, fazer com que as pessoas pensem e saiam da anestesia em que se encontram”, diz Murilo Alvesso, estudante da Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP e um dos idealizadores do vídeo. Murilo conta que A USP É Nossa é uma iniciativa coletiva dos alunos do curso de Audiovisual. Em greve desde a desocupação da Reitoria pela tropa de choque, o grupo tem discutido estratégias de ação política para fortalecer o movimento grevista e dialogar com a sociedade. Daí surgiu a ideia de reunir alguns atores, um par de câmeras e levar tudo pra uma das muitas áreas verdes da Cidade Universitária, na Zona Oeste de São Paulo. O resultado está disponível no YouTube.

No vídeo, Rodas e um estudante aparecem sentados num banco de praça. Assim como Carlos Alberto de Nóbrega no programa do SBT, o reitor está lendo uma revista — e se irrita quando o estudante diz que quer a PM fora do campus e uma política de segurança estruturada. Rodas ameaça chamar a força policial para dar uma “aula de democracia” no aluno impertinente quando entra em cena a Dona Mídia, paródia da Velha Surda. Daí podemos imaginar a desinformação que será veiculada pelos jornais do dia seguinte, pois a distinguida senhora não consegue escutar direito o que o estudante está dizendo. Aliás, em A USP É Nossa, Rodas e Dona Mídia trocam afagos como grandes amigos.

“Já que não temos o alcance do Datena ou da Globo, queremos contar nossa versão da história utilizando a internet”, diz Murilo, para quem os grandes meios de comunicação foram tendenciosos na cobertura da desocupação da Reitoria, reduzindo as exigências do Movimento Estudantil a uma questão trivial entre a proibição de fumar maconha no campus e a suposta articulação dos manifestantes com traficantes de drogas dos arredores. “Nossas reivindicações foram distorcidas. Por isso é que estamos buscando novas maneiras de transmitir nossas ideias.”

http://rede.outraspalavras.net/pontodecultura/2011/12/09/na-mesma-praca-no-mesmo-banco/

Quem faz as denúncias?


Quando o assunto é o governo federal, a imprensa toma a dianteira. Quando quem se mete em maracutaia é o governo do Estado de São, a mídia fica a reboque

Por Ricardo Kotscho, em seu blog

Com os malfeitos municipais (licitação do Controlar) e estaduais (contratos do Metrô) tomando nas últimas semanas [em São Paulo] o lugar dos casos federais que dominaram o noticiário durante todo o ano, deu para notar uma importante diferença na origem das denúncias.

No plano federal, quem toma a iniciativa das investigações, das denúncias e, às vezes, até dos julgamentos de ministros, é a imprensa, quer dizer, os principais veículos de comunicação do país, com interesses econômicos contrariados ou com medo do fantasma do “controle social da mídia”.

A Polícia Federal, o Ministério Público e a Justiça vão a reboque do clamor da imprensa e dos partidos de oposição, tomando providências em função do noticiário e da opinião publicada (não confundir com opinião pública).
O denuncismo seletivo e o tratamento diferenciado, oferecido principalmente pelos jornalões paulistas, acaba se refletindo também nas revistas semanais e nos telejornais de maior audiência, que só costumam repercutir e amplificar as denúncias contra o governo federal
Já em São Paulo dá-se exatamente o contrário. Tanto no plano municipal como no estadual, quem investiga, denuncia e julga são os órgãos competentes e é a imprensa que vai a reboque dos fatos, limitando-se a registrar o resultado das investigações policiais e dos inquéritos do Ministério Público.


Donos e prepostos

O denuncismo seletivo e o tratamento diferenciado, oferecido principalmente pelos jornalões paulistas, acaba se refletindo também nas revistas semanais e nos telejornais de maior audiência, que só costumam repercutir e amplificar as denúncias contra o governo federal.

É verdade que a Folha de S.Paulo foi quem levantou a lebre do contrato das obras de um trecho da Linha 5 do Metrô, ao provar que os vencedores da concorrência já eram conhecidos seis meses antes. Depois disso, porém, ninguém mais foi atrás do assunto, até que a Justiça determinasse a suspensão das obras e o afastamento do presidente do Metrô, que já voltou ao cargo.

No caso do estranhíssimo contrato da Prefeitura com o Consórcio Controlar (das empreiteiras Camargo Correa e Serveng) para inspeção de veículos, assinado em 2007 por Gilberto Kassab, dez anos depois da licitação feita ainda nos tempos de Paulo Maluf, a imprensa só se interessou pelo assunto depois que o Ministério Público terminou suas investigações e a Justiça tomou providências, decretando o bloqueio dos bens do prefeito.

O destaque dado no noticiário às denúncias contra ministros, que já levaram à demissão de cinco deles, é desproporcional aos valores e à natureza dos ditos malfeitos, se comparados aos prejuízos causados aos cofres públicos pelo Metrô (em torno de R$ 300 milhões nos cálculos do Ministério Público) e pela Controlar (os promotores calcularam o valor da ação em R$ 1 bilhão).

Não se trata de mensurar a corrupção, mas de questionar o tratamento desproporcional dado pela grande imprensa a casos de igual gravidade no governo federal, no estadual e no municipal.

Só os donos da mídia e seus prepostos não estão se dando conta de que, com a internet, não dá mais para ter este tipo de comportamento sem que todo mundo perceba. É isso que explica a crescente perda de freguesia e de credibilidade da velha mídia.

http://ponto.outraspalavras.net/2011/12/02/quem-faz-denuncias/