domingo, 6 de novembro de 2011

O xampu infantil cancerígeno e outras reflexões para pensar o que é saúde

A agência Reuters divulgou matéria na qual “um grupo de ativistas da saúde” alerta para a presença de um conservante, um formaldeído (aldeído simples, com fórmula molecular H2CO) conhecido como quaternium-15, no xampu Johnson, um ícone dos produtos até então considerados seguros para a higiene infantil. Parece que, definitivamente, temos que perder toda e qualquer ilusão acerca da probidade dos produtos ditos infantis. Parece o definitivo fim da era da inocência.

Segundo o Departamento de Saúde dos Estados Unidos, essa substância é sabidamente causadora de câncer e, pior, habita a atmosfera dos lares, sendo quase impossível escapar desse contato nefasto que causaria, no mínimo, reações alérgicas na pele. Assim sendo, não adianta muito levar a sério o boicote proposto pelos tais ativistas. O que se pode e se deve fazer é pensar um pouco sobre como ficamos doentes.

Doença espírita

A concepção usual do adoecimento se assemelha em muito à compreensão do mundo de certas religiões voltadas para evocações espíritas. Explico: o sujeito vem pela rua, quando, repentinamente, entra nele um vírus, uma bactéria, um micróbio ou qualquer outra dessas entidades fantásticas. Imediatamente, como se recebesse um santo, como se estivesse num terreiro, envolvido pelo atabaque do melhor ogã, a pessoa está incorporada pela entidade patológica e, assim, doente.

Será assim? Tudo indica que não.

Medicina da Pessoa

Lembro do saudoso médico Danilo Perestrello chamando, em seus escritos, a atenção para o fato de que não há doenças, mas sim doentes. A doença é uma abstração formulada a partir da observação dos sintomas e manifestações de um determinado estado mórbido. O que existe, na prática, é um processo completa e absolutamente focado na pessoa, o que levou Perestrello a escrever um livro genial intitulado “A medicina da pessoa”.

Quem adoece é a pessoa. É apenas nela que se pode observar o processo patológico. Fora dela, há apenas construções intelectuais acerca do que acontece com a pessoa. Como dito, a doença é uma generalização conceitual que se apropria da experiência de observação de que há coisas em comum entre doentes. Mas, de modo algum se pode tratar a doença, simplesmente porque se assim o fizermos estaremos tratando uma entidade abstrata. O doente, nesse caso, fica esquecido e, parece evidente, não se cura. Os sintomas podem ser eliminados, mas o agente patogênico, que não é o vírus espírita descrito acima, continua ativo e que ninguém se assuste com as manifestações que vêm a seguir. Por esse motivo é que há pessoas que adoecem constantemente: apenas os sintomas são tratados.

Vida insalubre, mas cheia de hábitos saudáveis

De todo modo, outra reflexão a ser feita é a que nos remete à qualidade de vida nas sociedades urbanas do Ocidente. Quem sabe estejamos fomentando um modo de viver que é essencialmente insalubre, mas, ironicamente, sem que isso seja mencionado pelo jornalismo, vivemos com a fantasia constante de que podemos nos proteger dos perigos tomando esta ou aquela atitude ou evitando esta ou aquela substância. Mas, como? Se para onde olhamos há venenos, gorduras, colesteróis e, por último, esse tal formaldeído no xampu feito especialmente para bebês! Como evitar?

O resultado é que ficamos rodando para lá e para cá, mergulhados em riscos reais e imaginários, ansiosos, angustiados. Como nada se perde na sociedade do capital, para melhorar essa situação, não para resolvê-la, pode-se recorrer a mais um expediente duvidoso: os ansiolíticos. Como se vê, nada se perde, nada se cria, nada se transforma, nada se resolve. Tudo se consome.

A solução seria, é claro, não fumar, não beber, não comer e, de preferência, não respirar. Sexo, para ser totalmente seguro, melhor não fazer.

Novos venenos, sempre

Parece que não há saídas, pelo menos com o instrumental que nossa sociedade nos oferece. O mais terrível é que noventa e nove por cento de nós, no entanto, acredita que há e que as soluções estão na proibição disso e daquilo, na punição desse ou daquele outro fabricante ou distribuidor. Infelizmente, afirmo e reafirmo, essa crença não faz mais do que distrair nossa atenção enquanto a mentalidade do lucro desenfreado gesta novos venenos. O que, aliás, parece ser uma de suas especialidades.

Como um dia disse Deleuze, no capitalismo tudo tem lógica, menos ele próprio.

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