domingo, 6 de novembro de 2011

Nossa época não é para Glauber Rocha


O cineasta baiano era movido pela utopia: é difícil imaginá-lo vivendo num mundo colonizado pelo capital e dominado pelo consumo

Por Arlindenor Pedro

Geralmente, quando ouvimos a palavra utopia, logo a associamos ao conhecido conceito de Thomaz Morus, que a traduz como uma realidade inalcançável, um desejo irrealizável. Foi assim, por exemplo, que Friedrich Engels a definiu, na sua conhecida obra Do socialismo Utópico ao Socialismo Científico, traçando uma linha divisória entre os conceitos que ele dizia “ingênuos” dos socialistas que o precederam e o socialismo científico de Karl Marx.
(...) passamos a viver em uma sociedade de relações cada vez mais reificadas, onde tudo se torna descartável e a regra é o consumo, partindo-se da equação segundo a qual “ter” é sinônimo de felicidade. Neste mundo racional, movido pelas últimas fronteiras do capital — o virtual, alma do homem contemporâneo —, certamente um artista utópico como Glauber e sua arte não pode sobreviver
O pensador húngaro Karl Mannheim, criador da metodologia conhecida como “Sociologia do Conhecimento”, também se ocupou do tema e o seu livro Ideologia e Utopia, na década de 1950, teve ampla aceitação na Universidade brasileira, na época em que a Universidade discutia os rumos do país. Ali, de forma diferente de Engels, Mannheim via a Utopia como uma forma de ser, um comportamento, que estaria em incongruência com uma dada realidade.

Iríamos então nos referir como utópicas aquelas orientações que, transcendendo a realidade, tendem a se transformar em condutas a abalar, seja parcial ou totalmente, a ordem das coisas que prevalecem no momento. Desta forma, ao limitar o conceito de “utopia” ao tipo de orientação que transcende a realidade e que, ao mesmo tempo, rompe as amarras da ordem existente, Mannheim passa a estabelecer uma distinção entre o estado de espírito utópico e estado de espírito ideológico, pois este segundo conceito se contrapõe ao anterior, dado que a ideologia se calca numa situação onde o inconsciente coletivo de certos grupos obscurece a condição real da sociedade, tanto para ele como para os demais, lutando para estabilizá-la. Os grandes líderes, aqueles que fizeram a história, seriam então utópicos por excelência.

Poderíamos, então, dizer que Glauber Rocha, pelo seu comportamento em relação à sociedade brasileira e ao cinema, era um ser utópico, estando em incongruência com a realidade que viveu, postando-se como um revolucionário que queria, através de sua arte, subverter as condições estabelecidas. E era assim que ele se definia. “Sou um revolucionário e uso o cinema para ajudar o povo a fazer as transformações que o Brasil precisa”.

Inquieto e genial, com sua forma de ser, amado por uma geração, embora incompreendido muitas das vezes, esse baiano de Vitoria da Conquista, sertão nordestino, no seu curto tempo de vida (morreu aos 42 anos) incendiou o cenário cultural e político brasileiro, sendo uma peça chave do movimento do Cinema Novo, deixando-nos obras singulares onde a política e o cinema fundiam-se com elementos estéticos de vanguarda e com o claro objetivo de alterar a ordem social do país.

Admirador de Castro Alves, condoreiro e barroco como ele, apocalíptico e profético, num delírio dionisíaco, levou às últimas conseqüências o seu conceito de arte, entregando sua vida a esse fim, desenvolvendo um cinema poético e revolucionário. Achava que o caminho da felicidade era o viver revolucionário e viveu esse sonho de uma forma acelerada, luminosa e trágica. Dizia que a função do artista é violentar o público com sua arte e, desta forma, não compactuava com a ideia de cinema como produto industrial. Embora tenha recebido convites para produzir cinema em grandes mercados, como Hollywood, sempre recusou, pois só fazia filmes onde tivesse o controle absoluto de sua obra. Uma de suas afirmações, já profetizando o domínio do mercado sobre o cinema era: “É preciso romper agora, antes que surja na porta de um cinema uma frase mais ao menos assim: hoje em cinemascope e totalmente colorido o magnífico espetáculo de nossa miséria.”

Após a sua morte, consternado, como muito dos seus amigos, o cineasta Silvio Tendler produziu um documentário, que teve o nome de Glauber, o filme-labirinto do Brasil, ainda pouco conhecido, com depoimentos de amigos e companheiros que conviveram mais de perto com o diretor.

Através de um labirinto que representa o Brasil, o filme nos conduz pela obra de Glauber Rocha, tendo as impressionantes imagens do seu enterro no Rio de Janeiro como ponto de referencia — imagens essas circundadas por uma trilha sonora de extrema beleza, onde a música de Villa-Lobos se destaca. Interessante é que nos faz lembrar, por sinal, as gravações que Glauber fez no enterro do artista plástico Di Cavalcanti, que resultou em um explosivo documentário, premiado no Festival de Cannes, em 1976, infelizmente não acessível ao público, devido a interdição por iniciativa da família do pintor, que não deu autorização para sua exibição.

No documentário de Silvio Tendler, poetas, escritores, políticos, artistas, produtores e amigos vão desfilando histórias sobre Glauber Rocha. Num ponto alto do filme, o cineasta Arnaldo Jabor afirma: “Glauber não suportaria viver no mundo de hoje, um mundo sem utopias, o mundo de mercadorias, sem grandezas heróicas.”

Mannheim também nos fala nisto em seu livro. Para ele, o mundo atual, forjado pela burguesia liberal, criou um mundo onde não existem espaços para as utopias, pois as últimas — nacional socialismo, fascismo, comunismo e socialismo — foram derrotadas pela visão de mundo da burguesia liberal: o mundo da mercadoria. Vitoriosa, através do mercado globalizado e da revolução tecnológica — que aplicada à produção nos leva a antever, inclusive, um futuro onde o trabalho seja dispensável —, a burguesia nos faz viver uma realidade diferente daquela que viveu Glauber: um Brasil que se desencantou e se racionalizou, alterando aquilo lhe era mais caro: o sonho de um povo que foi forjado através de utopias.

Em troca, passamos viver uma sociedade de relações cada vez mais reificadas, onde tudo se torna descartável e a regra é o consumo, partindo-se da equação segundo a qual “ter” é sinônimo de felicidade. Neste mundo racional, movido pelas últimas fronteiras do capital — o virtual, alma do homem contemporâneo —, certamente um artista utópico como Glauber e sua arte não pode sobreviver.

Talvez venha daí a urgência que tinha em manifestar a sua arte. No seu enterro, o psicanalista Helio Peregrino afirmou: “Glauber era uma vela que se consumia dos dois lados, por isso sua morte prematura.” Ao analisarmos o conjunto de sua obra: 15 filmes, inúmeros ensaios, romances e peças teatrais, a exemplo de outros artistas geniais, como Vicent Van Gogh, assistimos à tragédia da evolução do seu interior se contrapondo cada vez mais à realidade, principalmente nos seus últimos dias de vida. O último e incompreendido filme, A Idade da Terra, que ele considerava sua obra mais revolucionaria, é um exemplo disso.

Como sempre, Silvio Tendler nos brindou com uma bela obra para ver e refletir.

http://www.outraspalavras.net/2011/11/04/nossa-epoca-nao-e-para-glauber-rocha/

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