sábado, 12 de novembro de 2011

A Curitiba ambígua do parece, mas não é, oculta o que poderia ser



Ópera de Arame: beleza "para inglês ver"
 A reabertura da chamada Rua 24 horas é mais um indício de que há na cultura da cidade de Curitiba uma ambiguidade fundamental. A tal “rua”, na verdade uma galeria, quem sabe inspirada nas galerias parisienses que encantavam Walter Benjamin, abre às 9 e fecha às 22 horas. De 24 horas, só o nome.

A rua foi inaugurada em 1991, pelo então prefeito Jaime Lerner, como uma inovação, algo extraordinariamente novo para a cidade, na qual o comércio fechava cedo. Na verdade, uma bela peça de marketing urbano, com a marca pessoal do prefeito, pois a efetividade do projeto foi sempre nula, sem contar o fato de que as goteiras impediam o uso da rua em dias de chuva forte. Quem para lá corresse em busca de proteção, acabava se molhando do mesmo jeito.

Quem muito frequentou a rua foi, durante a noite, o pessoal do bas fond, o que levou à decadência natural do lugar, sob imagem e semelhança de seus frequentadores noturnos e da consciência da tradicional classe média citadina, que sempre imaginou a noite como reduto de aberrações e jamais frequentou a Rua 24 horas. As lojas passaram a fechar na madrugada, depois fecharam definitivamente e a rua também teve o mesmo destino. Agora, a rua, ou galeria, 24 horas reabre com nove horas a menos do que o prometido.

Curitiba é cheia dessas pequenas ambiguidades, emblemáticas para ilustrar os efeitos um tanto ridículos que ocorrem quando o marketing pessoal de alguns políticos lançam suas sombras sobre a vida cotidiana. Nunca, nesses casos, as coisas parecem ser o que realmente são. A concepção propagandística tenta impor seu véu sobre o real, mas como sempre acontece nesses casos, o que se consegue é a alimentação de dubiedades culturalmente estruturais. Ambiguidades que, certamente, agradam a boa parte dos que vivem no lugar, seja porque ajudam a justificar e ocultar as suas próprias, como alguns dizem, seja pelo fato de que, mal ou bem, as obras algo esquizofrênicas do período Lerner forjaram uma espécie de cenário urbano polvilhado de referências com design arquitetônico, propício ao turismo.

A Rua 24 horas foi uma dessas peças de design, assim como a chamada Ópera de Arame, a estufa iluminada do dito Jardim Botânico local, as estações de ônibus e uma série de pequenas outras obras lernistas. Como são imposições dos cânones estéticos e funcionais de um homem, ou de um grupo, a toda uma população, sempre pareceram monstrengos de um senso semiológico de gosto e funcionalidade duvidosos.

Jardim paisagístico ou jardim botânico?

O marketing à frente do sentido

A Ópera de Arame deveria ser um teatro, mas não tem acústica e somente permite gravações de programas de TV, mal e porcamente, e cerimônias de formatura. Os assentos eram de arame, como o nome do lugar, o que proporcionava enorme desconforto à plateia, além de que, assim como acontecia na Rua 24 horas, havia goteiras. Em dia de temporal, não havia como haver encenações ali. Além da chuva interna, o barulho das gotas caindo na cobertura de blindex impossibilitava ouvir qualquer coisa lá dentro. Hoje, é um elefante branco dedicado basicamente a receber visitas turísticas. Como fica sobre um banhado, há o inconveniente dos mosquitos para quem visita o lugar à tarde. Literalmente, fora os turistas e formandos, o lugar está entregue a eles.

O Jardim Botânico é um efetivamente um jardim no qual há uma grande estufa arquitetonicamente estilizada, inspirada em um palácio europeu. Nota-se que a maior preocupação no planejamento do local foi a estética. Há muitas flores, chafarizes,sebes etc. Você fica se perguntando onde está o jardim botânico, até que descobre que está nele. No fundo, há um bosque no qual estão espécies botânicas, em segundo plano. Uma bela peça de marketing urbano na qual a natureza, a botânica, até certo ponto atrapalha, a ponto de estar posta lá trás, no fundo do lugar. É um recanto para passeio de namorados e famílias aos domingos. Apenas isso. Não é nem de perto tão botânico quanto é paisagístico.

Lerner criou um programa de recolhimento do lixo não orgânico, na mesma época, o “Lixo que não é lixo”. Mais marketing. Um pesquisador, já desde sua implantação, criticou duramente o projeto, que, segundo ele, era extremamente custoso e servia mais para propaganda do prefeito do que para realmente recolher o lixo reciclável. É como pegar lixo de táxi, explicava. Pelo menos, é o único projeto que deixa claro a ambiguidade. Se seguisse na mesma trilha de honestidade, a prefeitura da época deveria ter batizado a Ópera de Arame como Ópera de Arame que não é Ópera nenhuma e a atual deveria rebatizar a Rua 24 horas como Rua 24 horas que só funciona 16 horas e que é uma galeria. Logo, estamos falando de uma Galeria 16 horas.

Não. Não é uma estação intergalática. É um ponto de ônibus

Isso tudo sem falar do tubo que é estação de ônibus, consideravelmente desnecessário e de manutenção cara, mas que fornece mais uma marca registrada do produto Curitiba, leia-se Jaime Lerner, ou do ônibus que trafega pela esquerda da rua, causando confusão ao motorista que não mora no lugar. Em Curitiba, a pista da esquerda, tradicionalmente dedicada aos veículos que trafegam em maior velocidade, é pista de ônibus, assim como a pista da direita. Como o ônibus referido tem mais limitações de velocidade do que os carros, não adianta nada que se chame “ligeirinho”. Anda mais devagar, para nos pontos e atrasa o lado esquerdo da rua. Não é à toa que há tantos engarrafamentos na cidade. Além de um milhão de carros – e para que tantos carros se o transporte coletivo é tão bom quanto dizem? –, há ainda os ônibus à direita e à esquerda.

Houve ainda o Papai Noel que não é Papai Noel, chamado de Papai Noel Verde, para reforçar o marketing de “cidade ecológica”, aproveitando o discurso de preservação ambiental que tomou vulto naquele período. E, last but not least, o bonde da Rua XV, que todos julgavam ter circulado pela cidade, tanto que ele assim me foi apresentado, mas que circulou, na verdade, apenas em Santos (SP).

Em Curitiba, no plano das intervenções urbanísticas oficiais, nunca se sabe exatamente o que é o quê.

Falta de respeito

De todo modo, isso não desmerece a cidade, de jeito nenhum. É um lugar interessante que, no entanto, é muito mal falado por sua própria população. Na verdade, creio que o pessoal reclama, ainda que de forma pouco precisa, é dessa confusão que a ambição pessoal de um homem, ou mais propriamente do grupo do qual é um testa de ferro, estabeleceu. Uma falta de respeito com as almas que habitam Curitiba, sem dúvida. De uma hora para outra, alguém resolveu que deveriam habitar num cenário que representa mercadologicamente a identidade de um homem. Ninguém lhes avisou que deveriam se contentar em ser apenas mídias, em vez de pessoas.

Dalton Trevisan fala, em alguns de seus escritos, de uma divisão da cidade, conforme a estamos entendendo. De um lado, segundo ele, está a Curitiba real, Curitiba da vida comum, que inclui suas esquinas e ruas sujas, seus bêbados e suas putas, seus “piás” comedores de “vinas”, seus odores, paixões, alegrias e pestilências. Do outro, a que ele chama de “Curitiba merdosa”, “Curitiba para inglês ver”, com suas obras arquitetônicas, sua limpeza e sua belíssima aparência, forjada às custas do ocultamento de suas misérias.

Há algo disso também em outro escritor da cidade, Paulo Leminski, que se caracterizou por poemas curtos, inspirados nos haicais. Ele dizia, em algum poema, que se o Rio é o mar, Curitiba é o bar, e mais: que beber em Curitiba é legítima defesa. Também, imagine viver nessa confusão, sempre, sem ter como esclarecer o que é bom, o que é mau e o que é indiferente. Não é à toa que boa parte da juventude curitibana das últimas décadas teve, quase que necessariamente, que mergulhar no álcool, droga lícita, e nas drogas ilícitas. Entre uma família e uma cidade cheia de belos discursos para inglês ver, mas também cheia de vícios secretos, não há escolha a fazer, somente o desejo de morrer vendo o circo pegar fogo. Tudo isso regado a sexo, drogas e muito rock’n’roll, exatamente como o curitibano tradicional imagina ser a liberdade.

Cidade Denorex

Foi por assistir tanta anfibologia que cunhei para Curitiba, lá por 1993, o apelido de “cidade Denorex”, lembrando o nome do produto que fazia sua publicidade brincando com a ambiguidade que lhe fazia ser um xampu com aparência e cheiro de remédio contra a caspa. Assim como o Denorex, a cidade de Curitiba, também um produto de marketing, vive de ambiguidades. Pensá-las parece ser a única saída para recuperar aspectos importantes da herança tradicional do lugar e forjar novas formas de convívio e de identidade. Por baixo do lixo urbano, há muitas riquezas esquecidas e outras jamais imaginadas.
 
PS: Será coincidência que, justamente em Curitiba, criaram uma banda de pop-rock chamada... "Denorex"? Com certeza, se não é "a banda mais bonita da cidade", é a que melhor lhe deve representar.

3 comentários:

  1. Perfeito o texto. Eu moro aqui há algum tempo e ainda não sei bem o que é Curitiba.
    Ricardo.

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  2. Quem é o mal-amado que escreveu esse lixo?

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  3. Didi, meu filho, não escreva besteiras aqui. O texto do moço é bom. Deixe de ser invejoso, menino! Vai ficar sem entrar no Facebook dois dias, de castigo.

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