sábado, 26 de novembro de 2011

SUS: ‘Cegueira seletiva’ enxerga produtos e esconde necessidades


Este texto trata de um assunto fulcral para a população e aponta para o fato de que o Sistema Único de Saúde, o SUS, é um projeto de promoção de saúde e, exatamente por isso, recebe tantos ataques. O que o stablishment, a mídia e todos que a sustentam e promovem não querem é promover saúde. População saudável não dá lucro.

Com todos os defeitos naturais de um projeto que tenta se estabelecer num ambiente insalubre como o do capitalismo brasileiro, o SUS vai se estruturando passo a passo, ano a ano e está presente na vida de todos, mesmo dos que não vão a postos de saúde, ambulatórios ou hospitais do sistema, como é pontuado no trecho abaixo: 

Mesmo o cidadão que utiliza a saúde suplementar para cuidar de sua família é usuário do SUS. Basta observar o preparo de um inocente churrasco de domingo: a carne terá sido vistoriada pela Vigilância Sanitária, o desinfetante para higienizar o ambiente, também. Assim como o protetor solar usado pela criança, o perfume comprado para esposa e o analgésico que se acredita amenizar a ressaca. Um simples almoço cotidiano, para ser saudável, não prescinde de normas, serviços e profissionais do SUS



Segue o texto de Adriano De Lavor, da Fiocruz.

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Quando a pesquisa do Ipea aponta que parte dos brasileiros não se considera usuária do Sistema Único de Saúde, a primeira suspeita é que há algo de errado na divulgação do sistema para a população. Mas será mesmo esta a única causa do desconhecimento? Na discussão que propõe sobre invisibilidade social, o cientista político Luiz Eduardo Soares coloca que indiferença e preconceito anulam a pessoa por meios opostos: enquanto a primeira ignora a sua presença, o segundo “corresponde a uma hipervisibilidade, que ilumina uma imagem artificial e pré-construída, obscurecendo a individualidade da pessoa, mantida na penumbra”.


Difícil não reconhecer o próprio SUS nesta condição. Mesmo o cidadão que utiliza a saúde suplementar para cuidar de sua família é usuário do SUS. Basta observar o preparo de um inocente churrasco de domingo: a carne terá sido vistoriada pela Vigilância Sanitária, o desinfetante para higienizar o ambiente, também. Assim como o protetor solar usado pela criança, o perfume comprado para esposa e o analgésico que se acredita amenizar a ressaca. Um simples almoço cotidiano, para ser saudável, não prescinde de normas, serviços e profissionais do SUS.


Seja para o rico, seja para o pobre, é o SUS quem financia todas estas ações. Mesmo reconhecendo que condições políticas e econômicas também contribuem para a formação de sua imagem, o SUS é vítima de preconceito, apresentado pela mídia comercial como cenário exclusivo de iniquidades, destino irrevogável de cidadãos de segunda classe que não podem consumir bens de saúde. O reflexo desta imagem estereotipada é a exclusão de suas qualidades da cena discursiva midiática..


Desaparece dos olhos da audiência, por exemplo, o que há de mais caro em sua essência, que é a participação popular. Raríssimas são as pautas ou coberturas jornalísticas que abordam o poder constitutivo do controle social e suas instâncias. Ausente nas conferências e negligente com os conselhos de saúde, a grande mídia segue utilizando seu discurso denunciatório sobre a ineficácia do que é público na saúde para, repetidamente, ignorar agentes políticos e condenar à invisibilidade tudo aquilo que concorre com a esfera dos negócios, sempre bem iluminada pelas embalagens e pesquisas de produto. Enquanto isso, o discurso desqualifica o que ainda está por construir e que carece da ampla mobilização social para que se cumpra como direito de todos e dever do Estado.


De um lado, a hipervisibilidade de suas limitações; de outro, a negligência em relação às boas práticas que oferece. Observar o que se noticia revela um hiato entre o que se diz sobre o sistema e o que ele realmente é. Nesse contexto, falar sobre o SUS implica supervalorizar filas apinhadas de sofrimentos, instalações carentes de reforma e profissionais ausentes de seus postos; reforçar a ideia de que tudo aquilo é coisa de pobre e despesa inútil para o contribuinte. Ao mesmo tempo, as narrativas demonstram indiferença em relação aos avanços do sistema, ignorando a oferta gratuita de procedimentos de alta complexidade que salvam vidas ou o conhecimento produzido em instituições de pesquisa, por exemplo..


Convém esclarecer que não há intenção, nesta rápida análise, de duvidar das carências ou justificar incorreções em qualquer dos serviços; nem demonizar o papel da mídia, como se fosse a exclusiva culpada por essa situação de desinformação, que também reflete as disputas na esfera política e econômica; ou, ainda, subestimar o poder de reflexão do povo brasileiro, que não é mero receptor de notícias. O que se tenta compreender é como se forjou uma imagem midiática tão sólida de ineficiência pública que faz com que aquilo que existe, comprovadamente funciona e está à disposição da população seja reduzido a uma derrotada política para os pobres..


Conquista da mobilização do povo brasileiro no processo de redemocratização e fruto de um movimento que vislumbrou um novo projeto para o país, mais justo e igualitário, o Sistema Único de Saúde universalizou o direito à saúde no Brasil, antes restrito aos que tinham a sorte de ter uma carteira de trabalho assinada. Mas o quadro que pintam sobre ele nos meios de comunicação de grande consumo não utiliza, de seus arquivos, outras imagens que não sejam as da ineficácia e a da ineficiência. A seleção daquilo que estampa as manchetes joga para fora das páginas e dos comentários o que não interessa que seja visto.


Dentro desta estratégia de mostrar e esconder fatos, motivos e versões, a partir do uso de estigmas e negligências, deduz-se que não é o Sistema Único de Saúde que é invisível; o modo que a sociedade o enxerga é de tal modo desviado, que ele somente se torna visível quando alvo das câmeras de televisão — portadoras de uma espécie de cegueira seletiva que valoriza apenas as iniciativas privadas, mais afeitas ao espetáculo sensorial dos meios e conexões que constroem o cenário da mídia atual..


Neste sentido, é a própria saúde que se torna invisível, ofuscada pelos holofotes especializados em iluminar artigos para o consumo. No tempo das vitrines on line e on time, os produtos se tornam mais visíveis que as necessidades..



* Adriano De Lavor é jornalista da Radis e doutorando no Programa de Pós-Graduação em Informação, Comunicação e Saúde (PPGICS) no Icict/Fiocruzhttp://www.ensp.fiocruz.br/radis/revista-radis/104/pos_tudo/%E2%80%98cegueira-seletiva%E2%80%99-enxerga-produtos-e-esconde-necessidades

Imagem do altar da igreja matriz de Pato Branco, interior do Paraná

sábado, 19 de novembro de 2011

Quem disse que traficante não paga imposto?



Desenho de Latuff
 Antônio Bonfim Lopes, o Nem, que é, segundo consta, o ex-chefe do tráfico de drogas da Rocinha, no Rio, afirmou que paga 50% do que arrecada para a polícia. Isso me leva a chegar a uma conclusão absolutamente triste: enquanto o assalariado paga altos impostos para o governo, o traficante, que não é assalariado, também não escapa do fisco. E eu que pensava que alguém escapava da voracidade do Estado...

E disse, ainda, que financiava a vida de muita gente na favela. Isso, com certeza, é verdade. O pessoal que mora nessas comunidades não vê muito o Estado a não ser na hora em que ele vem recolher os “impostos”. Para essa gente, os representantes do poder público andam de farda, armados até os dentes e tratam todo mundo na porrada. Se atirarem em alguém, nada acontece, pois logo vem a explicação fácil, que se divide em duas “desculpas”, usadas conforme a ocasião.

Se o morto é jovem, fazia parte do tráfico. Se o morto é mais idoso, foi bala perdida. Enquanto isso, os “autos de resistência”, melhor conhecidos como execuções sumárias, continuam em alta.

Agora, alguém me explique o que pode entender e fazer um garoto que nasce no meio dessa realidade? Vai ser doutor? Acho que o caminho do crime é mais fácil, o ódio está mais à disposição. Como pode a vida valer algo num caso desses? O que o Estado está ensinando aos jovens pobres, com a ajuda da mídia, é algo muito ruim. O pior é que ensina e depois vem cobrar a lição. E pior ainda, quem aprendeu direitinho, morre.

segunda-feira, 14 de novembro de 2011

Zizek: O horizonte está aberto

Para Žižek, o capitalismo perdeu legitimidade e já não é sinônimo de democracia, mas o que virá pode ser pior

Entrevista a Tom Ackerman, na Al Jazeera

Tradução: Vila Vudu

Depois de discursar para os manifestantes do Occupy Wall Street, em Nova York, o filósofo esloveno Slavoj Žižek voltou à carga. Agora, concedeu uma longa entrevista à rede de televisão árabe Al Jazeera, na qual voltou a comentar — sob diversos prismas — os novos movimentos anti-capitalistas que se espalham pelo mundo. Dos rebeldes maoístas indianos, dos quais pouco se fala no Ocidente, aos hits midiáticos dos indignados europeus e norte-americanos.
O problema para mim é o ânimo obsessivo na demonização da violência. Claro que temos de demonizar a violência, mas, antes de demonizá-la, temos de ver também todas as formas da violência, a violência invisível 
“Entendo que o que está acontecendo hoje já dá motivo para algum otimismo modesto. Mas não se pode esperar que aconteçam milagres”, afirma. “Nos aproximamos de tempos interessantes.”

Os tempos interessantes, porém, não escondem incertezas. Ao constatar que vivemos um período de abertura histórica, em que o sistema parece perder legitimidade e que uma mudança de paradigmas é possível, Žižek lembra que a ascensão do nazismo na Alemanha aproveitou-se de uma conjuntura semelhante de dúvidas e indecisões políticas. “Se não fizermos alguma coisa, nos encaminharemos, gradualmente, para um novo tipo de sociedade autoritária — que, claro, não será o velho fascismo”, acredita.

“Houve pelo menos uma coisa muito boa no capitalismo: mais cedo ou mais tarde, o sistema trouxe sempre uma demanda por democracia”, analisa o filósofo, sem esquecer que foram regimes ditatoriais que aprofundaram o capitalismo em países como Chile e Coreia do Sul, hoje democráticos. “Acabou o casamento entre capitalismo e democracia”, diz. “Temo que, com esse capitalismo de valores asiáticos, como o que observamos na China e em Cingapura, cheguemos a um capitalismo muito mais eficiente, mais dinâmico do que o nosso capitalismo ocidental.”

Porém, Žižek acusa a esquerda de haver adotado inconscientemente a visão de Francis Fukuyama, pai da teoria sobre o fim da história — e mentor intelectual do neoliberalismo. Eis uma das razões para a inexistência de propostas alternativas ao capitalismo. “Nem a esquerda radical está se perguntando o que tem a oferecer para substituir o sistema. Só fazem pedir mais direitos sociais, mais direitos para as mulheres, mais justiça social, sempre dentro do capitalismo.”

Aí se encontra, segundo o filósofo, o indício mais claro da ideologia que nos governa — muitas vezes, sem que possamos percebê-la. “Para mim, ideologia é a maneira como você vê e como você não vê as coisas. E o fato de não podermos imaginar uma mudança é sinal de ideologia.”

Abaixo a íntegra da entrevista, que, além da crise do capitalismo, também traz as visões (ou provocações) de Žižek sobre racismo, utopia, antissemitismo e violência.

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Você esteve com os manifestantes do Occupy Wall Street, em Nova York. Viu alguma demanda ideológica coerente?
  
Não, mas não os culpo, veja bem. Não sou comunista ingênuo. Fui o primeiro a dizer — o que me valeu muitos inimigos: encaremos o que foi o comunismo do século 20. Precisamente porque começou com tantas esperanças e terminou num pesadelo, numa imensa catástrofe, talvez a maior catástrofe ética da história da humanidade, maior que o fascismo.

Em termos bem simples: no fascismo, chegaram os “bandidos” e disseram: “nosso programa é fazer tais e tais e tais coisas ruins”. Então, tomaram o poder e fizeram aquelas coisas ruins. Não houve surpresa. No comunismo tivemos uma autêntica tragédia, com dissidentes, com lutas internas sempre. Mas, mesmo assim, aquilo acabou.

Isso significa que… Não blefemos. Nós vemos as limitações do sistema existente. Dizem que sou utopista. Me desculpem, mas… E aqui declaro a minha posição básica: para mim, a única verdadeira utopia é acreditar que as coisas possam continuar indefinidamente como são num determinado momento. Veja como foram as coisas no início da quebradeira de 2008. Nossas leis sobre bancos não são boas? Sim? Então, ok, vamos corrigir umas coisinhas, e pronto. Não, não é assim? Então, temos de fazer alguma coisa. Mas o fato é que não sabemos o que fazer. Temos de encarar isso abertamente. Que fórum efetivo temos, que pode substituir o sistema do capitalismo democrático como o temos hoje?

Cito aqui alguém a quem me oponho completamente no campo político: Ayn Rand, que escreveu Atlas Strugles (1957). Ela disse algo aproveitável: que o dinheiro, em certo sentido, é um meio para a liberdade — no sentido de que temos de dividir as coisas, trocar etc. Diz ela que o dinheiro significa que podemos fazer as coisas por via pacífica. Eu pago, você só me vende se quiser. Sem o dinheiro, só resta alguma espécie de dominação brutal direta, a extorsão etc. Não concordo com ela nisso, mas não há aqui um ponto aproveitável? Não é uma grande experiência do comunismo do século 20? Aboliram o dinheiro do mercado, adveio a dominação direta mais brutal, como vingança.
Não blefemos. Nós vemos as limitações do sistema existente. Dizem que sou utopista. Me desculpem, mas… E aqui declaro a minha posição básica: para mim, a única verdadeira utopia é acreditar que as coisas possam continuar indefinidamente como são num determinado momento 
Li alguma coisa do que você escreveu sobre o fascismo de esquerda, que somos obrigados a tolerar… O que quis dizer com “fascismo de esquerda”?

O problema é sempre a questão da violência. Claro que me oponho à violência, quando significa matar, torturar etc. Mas, para mim há uma violência verdadeira, que temos de suportar, não é violência física. Na Praça Tahrir, por exemplo, foram violentos, no sentido formal de que eles tinham de fazer todo o sistema parar de funcionar. Por que não? A frase famosa, que eu disse, que me valeu tantos inimigos, que Hitler não foi suficientemente violento, é parte de uma frase maior, em que eu disse que Hitler não foi suficientemente violento no sentido em que Gandhi foi mais violento que Hitler. Toda a violência de Hitler foi para fazer o sistema funcionar. E Gandhi queria fazer parar todo um sistema.

O problema para mim é o ânimo obsessivo na demonização da violência. Claro que temos de demonizar a violência, mas, antes de demonizá-la, temos de ver também todas as formas da violência, a violência invisível. Não só a paranoia, por causa da mídia bandida controlada por não sei quem, que impede que se veja não sei o quê, etc. etc. Mas… Querem falar de violência? Falem da República do Congo, hoje. Morrem milhões, o Estado não funciona, os senhores da guerra mandam. Essa é a violência sobre a qual nada se sabe, não por causa da “mídia”, mas porque aquela violência que está destruindo o Congo é parte do sistema. Não se fala da violência nacional, não se expande a noção de violência.

Escrevi a mesma coisa no Guardian sobre a Cisjordânia. Claro que condeno a violência contra os palestinos e também o terrorismo. Mas quero saber também o que acontece lá… quando nada acontece. Os palestinos suportam, todos os dias, a violência sufocante, diária, da ocupação burocrática pelos israelenses, que ninguém vê, que não é grande o bastante para a mídia. Querem falar de violência, falem também dessa violência mortal. Essa é a realidade. Sem falar dessa violência, não se tem o quadro completo.

Você não está falando de uma solução ideológica para o conflito palestino, está? Haveria uma abordagem ideológica para responder a isso, quando todos estão concentrados nos conflitos nacionalistas, religiosos?

O problema está em saber o que significa a palavra “ideologia”. Para mim, a ideologia está cada vez mais presente no plano da vida diária. Pelo menos no Ocidente, vivemos numa estranha era em as pessoas creem que vivam fora da ideologia. Fale com qualquer um hoje. Qual é a ideia implícita que se obtém da educação, da sociedade? Não é “sacrifique-se por uma grande causa”, nada disso. São sempre coisas como “seja fiel a você mesmo”, “tenha uma vida plena”, “realize seus potenciais”. É o que chamo hedonismo espiritualizado.

As pessoas não experienciam isso como ideologia, mas, para mim, estamos na ideologia. Para mim, ideologia é a maneira como você vê e como você não vê as coisas, de tal modo que você possa funcionar na vida diária. Por exemplo: não podermos imaginar uma mudança é sinal de ideologia.

Veja o modo como problemas como racismo e sexismo, problemas muito reais, estão hoje automaticamente traduzidos em problemas de intolerância. É pura ideologia. Veja Martin Luther King. Praticamente nunca falou em tolerância. Para ele, os problemas raciais nada tinham a ver com os negros lutarem para serem mais tolerados como negros, dentro da sociedade dos brancos. Para ele, o racismo era problema de exploração econômica dos negros pelos brancos, que os negros tinham de conquistar direitos sociais e leis que os garantissem, que era preciso enfrentar o racismo na vida diária. Ao perceber esses problemas como problemas de tolerância, você automaticamente já aceitou as regras da sociedade em que vivemos hoje, em que já naturalizamos as diferenças culturais e só falta aprendermos a tolerar os outros. Aqui, a política propriamente dita já praticamente desapareceu.

Você vê algum lugar do mundo em que a esquerda esteja trabalhando para atualizar tudo isso?

Já está acontecendo, aos poucos. Mas a mídia não cobre suficientemente o que acontece no mundo. Veja como a mídia cobre Índia e China. China é sempre o bandido, comunistas que aterrorizam o Tibete etc. Uma notinha, cá e lá, às vezes, mas a cobertura é sempre insuficiente. Ninguém sabe, por exemplo, que, na Índia, há um mega movimento rebelde, maoísta, mais de um milhão de rebeldes armados. É muita gente, mesmo para a Índia. E a Índia faz coisas horríveis, o neocapitalismo indiano, tentando desocupar áreas tribais para explorar minas… Há vasta rebelião ali, e não se vê. Ficamos sempre na superfície. Mas mesmo na Europa as coisas estão acontecendo.
Veja o modo como problemas como racismo e sexismo, problemas muito reais, estão hoje automaticamente traduzidos em problemas de intolerância. É pura ideologia
Para explicar, por um, dentre vários meios possíveis, lembro sempre de uma pergunta que Freud fez, ridícula, ingênua, quando já estava velho: “O que quer uma mulher?” Hoje, muita gente pergunta “O quer a Europa?” A Europa não consegue decidir entre, de um lado, o capitalismo global puramente tecnocrático, o que devemos fazer para sermos competitivos no mercado global; e, de outro lado, os movimentos nacionalistas contra os imigrantes. Duas coisas terríveis.

É muito triste viver num mundo em que as duas únicas opções sejam essas. O mundo hoje, me parece, está pedindo alternativas reais, que não sejam, apenas, de um lado viver o neoliberalismo anglo-saxão e, de outro, para dizê-lo poeticamente, viver um capitalismo chinês-cingapureano, comunismo com valores asiáticos, quer dizer, capitalismo autoritário que, hoje, é muito mais efetivo que o capitalismo liberal ocidental. Essa é a primeira tragédia europeia. A outra… Sou muito pessimista sobre a Europa. A Europa, me parece, infelizmente, está regredindo muito depressa. Dou-lhe um exemplo, um incidente.

Você sabe que a União Europeia resiste a acolher a Turquia como membro. Porque não seria suficientemente democrática (ou por ser muito islâmica), seja lá o que for. Pois bem. Nesse verão, houve uma parada gay gigante em Istambul, com 10 mil homossexuais desfilando na rua. E nenhum incidente. Tente fazer coisa semelhante num país pós-comunista da Europa oriental que seja já membro da União Europeia. Fizeram, numa cidade da Ucrânia. Eram 700 homossexuais, protegidos por 2 mil policiais, que salvaguardavam os homossexuais contra uma multidão de 10 mil locais que queriam linchá-los.

Costumo dizer, para provocar meus amigos liberais, que não sou contra a direita europeia, que diz que o legado cristão-judeu está ameaçado. Mas ela é a falsa protetora da Europa — contra os muçulmanos. E eu não temo os muçulmanos na Europa, temo os protetores da Europa. Digo aos meus amigos judeus: vocês não estão vendo o verdadeiro perigo. Já viram o que fez aquele Bravik, na Noruega, que matou estudantes. É caso claro, paradoxal, do que está emergindo: o sionismo antissemista.

Leiam o que escreveu aquele Bravik. Era claramente antissemita, repetia todos os slogans dos antissemitismo do Estado-nacional europeu. Noutros pontos, era totalmente a favor do sionismo israelense! Muitos disseram: “É um doido. Não se pode considerar o que dizem esses malucos”.

Mas é exatamente o mesmo discurso dos norte-americanos conservadores cristãos fundamentalistas! Glenn Beck, por exemplo, foi demitido da Fox News, onde trabalhava, por ter feito comentários antissemitas. Como outros sionistas antissemitas, Glenn Beck sempre foi a favor do sionismo israelense e, ao mesmo tempo, sempre foi antissemita. Esses, para mim, são o pesadelo máximo.

Israel, parece, não vê o que seu governo está fazendo. Basicamente, o governo de Israel vendeu a alma ao diabo. Quero dizer o seguinte: Israel fez aliança com todas as forças políticas ocidentais mais reacionárias, que, por definição, são antissemistas. Disseram: “vocês façam seus jogos racistas aí, e nos deixem em paz para fazermos o que quisermos, aqui, com os palestinos”. Não me canso de repetir: as maiores vítimas dessas alianças catastróficas serão os próprios judeus. Correm o risco de perder toda a sua grandeza. Correm o risco de perder o que os tornou únicos em toda a história do mundo.

Em que ponto você vê sinais de que estejam acontecendo mudanças reais, revolucionárias, no mundo?

Entendo que o que está acontecendo hoje já dá motivo para algum otimismo modesto. Não se pode esperar que aconteçam milagres. As coisas começam com o povo simplesmente percebendo que as dificuldades que enfrentamos hoje não são só as dificuldades causadas por um sistema ruim, ganancioso, contra um outro sistema bom. É preciso, isso sim, começar a propor algumas perguntas sobre o sistema enquanto tal. E essa percepção está nascendo. Os protestos de rua têm a ver com isso. Acho que, no atual estágio, não importa tanto oferecer soluções rápidas.
Israel, parece, não vê o que seu governo está fazendo. Basicamente, o governo de Israel vendeu a alma ao diabo. Quero dizer o seguinte: Israel fez aliança com todas as forças políticas ocidentais mais reacionárias, que, por definição, são antissemistas (...) Não me canso de repetir: as maiores vítimas dessas alianças catastróficas serão os próprios judeus. Correm o risco de perder toda a sua grandeza. Correm o risco de perder o que os tornou únicos em toda a história do mundo
Trata-se de quebrar o que eu chamo, ironicamente, “o tabu de Fukuyama” — o fim da história etc. Fukuyama não é um idiota. Em certo sentido, todos fomos, até agora, fukuyamistas. Nem a esquerda radical está se perguntando o que tem a oferecer para substituir o capitalismo. Só fazem pedir mais direitos sociais, mais direitos para as mulheres, mais justiça social etc., sempre dentro do sistema. É hora de fazer essas perguntas mais fundamentais.

O sistema perdeu a autoevidência, perdeu sua legitimidade automática. O campo, agora, está aberto. Essa conquista é muito importante.

Sim, o campo está aberto. Mas, quem vai preencher o vácuo?

Sempre há um perigo. Sabemos muito bem quem ocupou as aberturas nos anos 1930, na Europa. A novidade traz seus próprios riscos. Mas mesmo assim temos de aproveitar a chance. Por quê? Porque cada vez mais podemos ver através de uma série de fenômenos. Por exemplo, cada vez mais a crise econômica vai-se convertendo em estado de emergência, de crise permanente.

E há um fenômeno para o qual temos de estar muito atentos. É um interessante paradoxo. A economia mundial progride, mas… Veja, o muro de Berlim caiu, mas nasceram novos muros, novas divisões muito maiores, por todos os cantos, dentro da maioria dos Estados. Não só simplesmente entre ricos e pobres.

Quem vive nas favelas da América Latina e de outros lugares não são só “pobres”. Eles pensam de modo muito mais radical. Estão explodindo no espaço público, adotando soluções radicais, abraçando o engajamento político, vários caminhos. Não se trata de se devemos ou não assumir riscos ou não. A abertura nos está sendo imposta.

Muitos me perguntam: “por que você não fica quieto e vamos em silêncio, no rumo que as coisas seguirem?” Sempre respondo que, se não fizermos alguma coisa, nos encaminharemos, gradualmente, para um novo tipo de sociedade autoritária. Não será o velho fascismo, é preciso deixar bem claro, mas um novo tipo de sociedade autoritária. Aí vejo a grande importância histórica mundial do que está acontecendo na China. Falemos claramente. Houve pelo menos uma coisa muito boa no capitalismo: mais cedo ou mais tarde, o capitalismo trouxe sempre uma demanda por democracia. Houve ditaduras por dez, vinte anos, no Chile e Coreia do Sul, por exemplo.

Mas o que eu temo é que, com esse capitalismo com valores asiáticos, cheguemos a um capitalismo muito mais eficiente, mais dinâmico do que o nosso capitalismo ocidental. Mas não partilho as esperanças dos meus amigos liberais, que dizem, “deem a eles mais dez anos, mais manifestações na Praça da Paz.” Não. Não será assim. Acabou o casamento entre capitalismo e democracia.

Se o capitalismo, como você disse, não é o melhor exemplo, como você disse… Quero dizer: você sempre reclama que o consumismo é a força que tem levado à ambição e também à insatisfação. Há algum lugar onde as coisas estejam acontecendo de outro modo?

Mesmo na China há tentativas para organizar a sociedade civil, no sentido dos movimentos sociais, pela ecologia, por direitos dos trabalhadores etc. Entendo que, especialmente na China, tudo isso pode ser ainda mais importante que nas democracias ocidentais. Estão acontecendo coisas incríveis na China. Quer ver onde se pode ter uma pista de o quanto a situação é explosiva por lá? Lembro da última sessão do Parlamento chinês. Você pensa que a questão era aumentar o orçamento militar? Não. O que eles dobraram foi o orçamento para despesas com a segurança interna. A China é hoje o único, dentre os grandes países, que gasta mais na segurança interna que com o exército e a segurança contra ataques que venham de fora. Há protestos lá.

E há a Primavera Árabe. Sabe por que gostei tanto disso? Porque nós, no Ocidente, ficamos nos clichês: dos árabes não se conseguirá um movimento a favor de uma democracia secular. Eles só se mobilizam em movimentos racistas, antissemistas, fundamentalistas religiosos, nacionalistas etc. Não se conseguirá movimento por democracia secular. Quer saber? O que se viu acontecer foi exatamente o que o ocidente pensava que não aconteceria.

A parte triste parece que está começando agora, e espero que não aconteça. Mas há sinais que apontam na direção de que o final daquilo lá será um pacto perverso entre a Fraternidade Muçulmana e o exército. Rezo para que não aconteça, mas, em termos simples, a Fraternidade Muçulmana avança no controle religioso ideológico, na escola do controle e o Exército, em troca, preserva seus privilégios, a corrupção etc.

Mas, mesmo assim, as coisas estão acontecendo. Veja a Europa, a Grécia. De início, muitos zombaram da Grécia, “ora, os gregos, aquele povo primitivo, mediterrâneos atrasados.” Mas aconteceu. E aconteceu na Espanha, na Inglaterra. E a coisa se espalha.

Não se trata hoje de se haverá ou não haverá uma revolução. Temos hoje de lutar a luta mais difícil: o que faremos para — dito de modo ingênuo — nos apropriar da energia dos protestos? Nos EUA, por exemplo, a grande energia dos protestos, até agora, foi apropriada pelo Tea Party. Veja como se apropriaram daquela energia: exatamente como os movimentos operários de 50 anos atrás! Ouvi uma cantora pop que apoia o Tea Party. O que ela diz é “somos trabalhadores, trabalhamos muito, somos explorados por Wall Street etc.” A luta se travará aqui. E será luta muito dura, não tenho ilusões.

Mas você conhece aquela praga, o que dizem os chineses quando detestam alguém: “Que você viva tempos interessantes”. É isso. Nos aproximamos de tempos interessantes.

sábado, 12 de novembro de 2011

A Curitiba ambígua do parece, mas não é, oculta o que poderia ser



Ópera de Arame: beleza "para inglês ver"
 A reabertura da chamada Rua 24 horas é mais um indício de que há na cultura da cidade de Curitiba uma ambiguidade fundamental. A tal “rua”, na verdade uma galeria, quem sabe inspirada nas galerias parisienses que encantavam Walter Benjamin, abre às 9 e fecha às 22 horas. De 24 horas, só o nome.

A rua foi inaugurada em 1991, pelo então prefeito Jaime Lerner, como uma inovação, algo extraordinariamente novo para a cidade, na qual o comércio fechava cedo. Na verdade, uma bela peça de marketing urbano, com a marca pessoal do prefeito, pois a efetividade do projeto foi sempre nula, sem contar o fato de que as goteiras impediam o uso da rua em dias de chuva forte. Quem para lá corresse em busca de proteção, acabava se molhando do mesmo jeito.

Quem muito frequentou a rua foi, durante a noite, o pessoal do bas fond, o que levou à decadência natural do lugar, sob imagem e semelhança de seus frequentadores noturnos e da consciência da tradicional classe média citadina, que sempre imaginou a noite como reduto de aberrações e jamais frequentou a Rua 24 horas. As lojas passaram a fechar na madrugada, depois fecharam definitivamente e a rua também teve o mesmo destino. Agora, a rua, ou galeria, 24 horas reabre com nove horas a menos do que o prometido.

Curitiba é cheia dessas pequenas ambiguidades, emblemáticas para ilustrar os efeitos um tanto ridículos que ocorrem quando o marketing pessoal de alguns políticos lançam suas sombras sobre a vida cotidiana. Nunca, nesses casos, as coisas parecem ser o que realmente são. A concepção propagandística tenta impor seu véu sobre o real, mas como sempre acontece nesses casos, o que se consegue é a alimentação de dubiedades culturalmente estruturais. Ambiguidades que, certamente, agradam a boa parte dos que vivem no lugar, seja porque ajudam a justificar e ocultar as suas próprias, como alguns dizem, seja pelo fato de que, mal ou bem, as obras algo esquizofrênicas do período Lerner forjaram uma espécie de cenário urbano polvilhado de referências com design arquitetônico, propício ao turismo.

A Rua 24 horas foi uma dessas peças de design, assim como a chamada Ópera de Arame, a estufa iluminada do dito Jardim Botânico local, as estações de ônibus e uma série de pequenas outras obras lernistas. Como são imposições dos cânones estéticos e funcionais de um homem, ou de um grupo, a toda uma população, sempre pareceram monstrengos de um senso semiológico de gosto e funcionalidade duvidosos.

Jardim paisagístico ou jardim botânico?

O marketing à frente do sentido

A Ópera de Arame deveria ser um teatro, mas não tem acústica e somente permite gravações de programas de TV, mal e porcamente, e cerimônias de formatura. Os assentos eram de arame, como o nome do lugar, o que proporcionava enorme desconforto à plateia, além de que, assim como acontecia na Rua 24 horas, havia goteiras. Em dia de temporal, não havia como haver encenações ali. Além da chuva interna, o barulho das gotas caindo na cobertura de blindex impossibilitava ouvir qualquer coisa lá dentro. Hoje, é um elefante branco dedicado basicamente a receber visitas turísticas. Como fica sobre um banhado, há o inconveniente dos mosquitos para quem visita o lugar à tarde. Literalmente, fora os turistas e formandos, o lugar está entregue a eles.

O Jardim Botânico é um efetivamente um jardim no qual há uma grande estufa arquitetonicamente estilizada, inspirada em um palácio europeu. Nota-se que a maior preocupação no planejamento do local foi a estética. Há muitas flores, chafarizes,sebes etc. Você fica se perguntando onde está o jardim botânico, até que descobre que está nele. No fundo, há um bosque no qual estão espécies botânicas, em segundo plano. Uma bela peça de marketing urbano na qual a natureza, a botânica, até certo ponto atrapalha, a ponto de estar posta lá trás, no fundo do lugar. É um recanto para passeio de namorados e famílias aos domingos. Apenas isso. Não é nem de perto tão botânico quanto é paisagístico.

Lerner criou um programa de recolhimento do lixo não orgânico, na mesma época, o “Lixo que não é lixo”. Mais marketing. Um pesquisador, já desde sua implantação, criticou duramente o projeto, que, segundo ele, era extremamente custoso e servia mais para propaganda do prefeito do que para realmente recolher o lixo reciclável. É como pegar lixo de táxi, explicava. Pelo menos, é o único projeto que deixa claro a ambiguidade. Se seguisse na mesma trilha de honestidade, a prefeitura da época deveria ter batizado a Ópera de Arame como Ópera de Arame que não é Ópera nenhuma e a atual deveria rebatizar a Rua 24 horas como Rua 24 horas que só funciona 16 horas e que é uma galeria. Logo, estamos falando de uma Galeria 16 horas.

Não. Não é uma estação intergalática. É um ponto de ônibus

Isso tudo sem falar do tubo que é estação de ônibus, consideravelmente desnecessário e de manutenção cara, mas que fornece mais uma marca registrada do produto Curitiba, leia-se Jaime Lerner, ou do ônibus que trafega pela esquerda da rua, causando confusão ao motorista que não mora no lugar. Em Curitiba, a pista da esquerda, tradicionalmente dedicada aos veículos que trafegam em maior velocidade, é pista de ônibus, assim como a pista da direita. Como o ônibus referido tem mais limitações de velocidade do que os carros, não adianta nada que se chame “ligeirinho”. Anda mais devagar, para nos pontos e atrasa o lado esquerdo da rua. Não é à toa que há tantos engarrafamentos na cidade. Além de um milhão de carros – e para que tantos carros se o transporte coletivo é tão bom quanto dizem? –, há ainda os ônibus à direita e à esquerda.

Houve ainda o Papai Noel que não é Papai Noel, chamado de Papai Noel Verde, para reforçar o marketing de “cidade ecológica”, aproveitando o discurso de preservação ambiental que tomou vulto naquele período. E, last but not least, o bonde da Rua XV, que todos julgavam ter circulado pela cidade, tanto que ele assim me foi apresentado, mas que circulou, na verdade, apenas em Santos (SP).

Em Curitiba, no plano das intervenções urbanísticas oficiais, nunca se sabe exatamente o que é o quê.

Falta de respeito

De todo modo, isso não desmerece a cidade, de jeito nenhum. É um lugar interessante que, no entanto, é muito mal falado por sua própria população. Na verdade, creio que o pessoal reclama, ainda que de forma pouco precisa, é dessa confusão que a ambição pessoal de um homem, ou mais propriamente do grupo do qual é um testa de ferro, estabeleceu. Uma falta de respeito com as almas que habitam Curitiba, sem dúvida. De uma hora para outra, alguém resolveu que deveriam habitar num cenário que representa mercadologicamente a identidade de um homem. Ninguém lhes avisou que deveriam se contentar em ser apenas mídias, em vez de pessoas.

Dalton Trevisan fala, em alguns de seus escritos, de uma divisão da cidade, conforme a estamos entendendo. De um lado, segundo ele, está a Curitiba real, Curitiba da vida comum, que inclui suas esquinas e ruas sujas, seus bêbados e suas putas, seus “piás” comedores de “vinas”, seus odores, paixões, alegrias e pestilências. Do outro, a que ele chama de “Curitiba merdosa”, “Curitiba para inglês ver”, com suas obras arquitetônicas, sua limpeza e sua belíssima aparência, forjada às custas do ocultamento de suas misérias.

Há algo disso também em outro escritor da cidade, Paulo Leminski, que se caracterizou por poemas curtos, inspirados nos haicais. Ele dizia, em algum poema, que se o Rio é o mar, Curitiba é o bar, e mais: que beber em Curitiba é legítima defesa. Também, imagine viver nessa confusão, sempre, sem ter como esclarecer o que é bom, o que é mau e o que é indiferente. Não é à toa que boa parte da juventude curitibana das últimas décadas teve, quase que necessariamente, que mergulhar no álcool, droga lícita, e nas drogas ilícitas. Entre uma família e uma cidade cheia de belos discursos para inglês ver, mas também cheia de vícios secretos, não há escolha a fazer, somente o desejo de morrer vendo o circo pegar fogo. Tudo isso regado a sexo, drogas e muito rock’n’roll, exatamente como o curitibano tradicional imagina ser a liberdade.

Cidade Denorex

Foi por assistir tanta anfibologia que cunhei para Curitiba, lá por 1993, o apelido de “cidade Denorex”, lembrando o nome do produto que fazia sua publicidade brincando com a ambiguidade que lhe fazia ser um xampu com aparência e cheiro de remédio contra a caspa. Assim como o Denorex, a cidade de Curitiba, também um produto de marketing, vive de ambiguidades. Pensá-las parece ser a única saída para recuperar aspectos importantes da herança tradicional do lugar e forjar novas formas de convívio e de identidade. Por baixo do lixo urbano, há muitas riquezas esquecidas e outras jamais imaginadas.
 
PS: Será coincidência que, justamente em Curitiba, criaram uma banda de pop-rock chamada... "Denorex"? Com certeza, se não é "a banda mais bonita da cidade", é a que melhor lhe deve representar.

quarta-feira, 9 de novembro de 2011

Com a palavra: Deleuze




"Everything is rational in capitalism, except capital or capitalism itself"
(Tudo é racional no capitalismo, exceto o capital ou o próprio capitalismo)

Gilles Deleuze

terça-feira, 8 de novembro de 2011

Recordando Walter Benjamin



(...) Na época de Homero, a Humanidade oferecia-se em espetáculo aos deuses olímpicos, agora, ela se transforma em espetáculo para si mesma. Sua auto-alienação atingiu o ponto que lhe permite viver sua própria destruição como um prazer estético de primeira ordem. (...)

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

Oligarquia no estilo americano


Praticamente toda a redistribuição do rendimento tem ido para os americanos que fazem parte dos 1% mais ricos. Isto é, os manifestantes de Occupy Wall Street que se apresentam como representantes dos 99% estão basicamente certos, e os especialistas que asseguram que a questão é relativa à educação e não aos ganhos da pequena elite, estão completamente errados.


Por Paul Krugman

“We are the 99%” - Occupy Wall Street, 26 de Setembro de 2011 – Foto de Paul Stein/Flickr A desigualdade está de volta às notícias em parte graças ao movimento Ocuppy Wall Street, mas também com um pouco de ajuda do Escritório do Orçamento do Congresso (CBO). E sabemos o que isso significa: está na hora de trazer os “ofuscadores”!

Qualquer um que tenha lidado com essa questão sabe do que estou a falar. Quando a crescente disparidade de rendimentos ameaça ficar em foco, um grupo de defensores tenta borrar a imagem novamente. Os think tanks produzem relatórios alegando que a desigualdade não está realmente a aumentar, ou que ela não é importante. Especialistas tentam pintar um quadro mais ameno, alegando que na verdade não é uma questão de ricos contra os mais pobres, mas sim dos cultos contra os menos cultos.
(...) a concentração extrema de rendimento é incompatível com a democracia real. Podemos seriamente negar que o nosso sistema político tem sido distorcido pela influência do dinheiro, e que essa distorção está a ficar pior na medida em que a riqueza dos poucos cresce cada vez mais?
Então o que é preciso saber é que essas alegações são basicamente tentativas de obscurecer a dura realidade: temos um sociedade na qual o dinheiro está cada vez mais concentrado nas mãos de uns poucos, e na qual essa concentração de rendimento e riquezas ameaça transformar-nos numa democracia somente no nome, e não de facto.

O Escritório do Orçamento apresentou um pouco dessa dura realidade num relatório recente, documentando um declínio acentuado na participação do rendimento por parte dos americanos de baixo e médio rendimento. Gostamos de pensar que somos um país de classe média. Mas com 80% dos lares mais pobres agora recebendo menos do que metade do rendimento total, este é um modo de pensar que cada vez mais vai contra a realidade.

Como resposta, já apareceram algumas explicações bem conhecidas: os dados estão errados (não estão); os ricos são um grupo que muda constantemente (não é o caso); e assim por diante. No momento, a explicação mais popular parece ser aquela que diz que talvez não sejamos uma sociedade de classe média, mas somos ainda uma sociedade de alta classe média, na qual uma ampla classe de trabalhadores altamente bem qualificados, que possuem habilidades para competir no mundo moderno, está a ir muito bem.

Essa é uma boa estória, e muito menos perturbadora do que a de uma nação na qual um grupo muito mais pequeno de pessoas ricas está a ficar cada vez mais dominante. Mas ela não é verdadeira.

Os trabalhadores com curso superior têm realmente, em média, ganhado melhor do que aqueles que não têm, e a distância entre eles tem aumentado ao longo do tempo. Mas os americanos altamente qualificados não são imunes à estagnação do rendimento e à crescente insegurança económica.

Os ganhos nos salários para a maioria dos trabalhadores com diploma universitário não tem sido grande (e é não-existente desde 2000), enquanto que até mesmo os bem qualificados não têm mais garantias de conseguir empregos com benefícios. Em particular, nos dias de hoje, trabalhadores com diploma universitário, mas nenhum outro título, têm menos chances de conseguir planos de saúde pagos pelo trabalho do que trabalhadores que tinham somente o ensino médio completo em 1979.

Então, quem está a ter os grandes ganhos? Uma minoria muito rica e muito pequena.

O relatório do Escritório de Orçamento diz-nos que praticamente toda a redistribuição do rendimento acima dos 80% mais pobres, tem ido para os americanos que fazem parte dos 1% mais ricos. Isto é, os manifestantes que se apresentam como representantes dos 99% estão basicamente certos, e os especialistas que asseguram que a questão é relativa à educação e não aos ganhos da pequena elite, estão completamente errados.

Se há algo que os manifestantes estão a fazer errado é colocar o ponto de corte muito em baixo. O relatório recente do escritório de orçamento não analisa os 1% de cima, mas um relatório anterior que ia até 2005, descobriu que quase dois terços da crescente participação do percentual de cima do rendimento na verdade foi para os primeiros 0,1% - Os 1/1000 americanos mais ricos, cujos rendimentos cresceram mais de 400% entre 1979 e 2005.

Quem são esses americanos 0,1% mais ricos? São empresários heroicos criadores de empregos? Não, na sua maioria, são executivos de empresas. Uma investigação recente mostrou que cerca de 60% do topo 0,1% ou são executivos em companhias não-financeiras ou ganham o seu dinheiro em finanças, i.e., Wall Street, falando de modo amplo. Adicionem advogados e pessoas que trabalham no mercado imobiliário, e estamos a falar de mais de 70% dos 1/1000 sortudos.

Mas por que é importa esta crescente concentração de rendimentos e riquezas em poucas mãos? Parte da resposta está no facto de que a crescente desigualdade aponta para uma nação em que a maioria das famílias não participa plenamente no crescimento económico. A outra parte da resposta está no facto de que uma vez que vemos o quanto ricos ficaram os ricos, torna-se mais atraente o argumento de que impostos mais altos para os que ganham mais deveria ser parte de um orçamento a longo prazo.

A resposta mais ampla, no entanto, é a de que a concentração extrema de rendimento é incompatível com a democracia real. Podemos seriamente negar que o nosso sistema político tem sido distorcido pela influência do dinheiro, e que essa distorção está a ficar pior na medida em que a riqueza dos poucos cresce cada vez mais?

Alguns especialistas tentarão dissipar as preocupações sobre a crescente desigualdade como se fosse uma tolice. Mas a verdade é que toda a natureza da nossa sociedade está em jogo.

Artigo publicado originalmente no The New York Times


Tradução de Márcio Larruscahim para Carta Maior

Com o devido crédito da boa indicação ao companheiro Milton Alves, de Curitiba.

domingo, 6 de novembro de 2011

Nossa época não é para Glauber Rocha


O cineasta baiano era movido pela utopia: é difícil imaginá-lo vivendo num mundo colonizado pelo capital e dominado pelo consumo

Por Arlindenor Pedro

Geralmente, quando ouvimos a palavra utopia, logo a associamos ao conhecido conceito de Thomaz Morus, que a traduz como uma realidade inalcançável, um desejo irrealizável. Foi assim, por exemplo, que Friedrich Engels a definiu, na sua conhecida obra Do socialismo Utópico ao Socialismo Científico, traçando uma linha divisória entre os conceitos que ele dizia “ingênuos” dos socialistas que o precederam e o socialismo científico de Karl Marx.
(...) passamos a viver em uma sociedade de relações cada vez mais reificadas, onde tudo se torna descartável e a regra é o consumo, partindo-se da equação segundo a qual “ter” é sinônimo de felicidade. Neste mundo racional, movido pelas últimas fronteiras do capital — o virtual, alma do homem contemporâneo —, certamente um artista utópico como Glauber e sua arte não pode sobreviver
O pensador húngaro Karl Mannheim, criador da metodologia conhecida como “Sociologia do Conhecimento”, também se ocupou do tema e o seu livro Ideologia e Utopia, na década de 1950, teve ampla aceitação na Universidade brasileira, na época em que a Universidade discutia os rumos do país. Ali, de forma diferente de Engels, Mannheim via a Utopia como uma forma de ser, um comportamento, que estaria em incongruência com uma dada realidade.

Iríamos então nos referir como utópicas aquelas orientações que, transcendendo a realidade, tendem a se transformar em condutas a abalar, seja parcial ou totalmente, a ordem das coisas que prevalecem no momento. Desta forma, ao limitar o conceito de “utopia” ao tipo de orientação que transcende a realidade e que, ao mesmo tempo, rompe as amarras da ordem existente, Mannheim passa a estabelecer uma distinção entre o estado de espírito utópico e estado de espírito ideológico, pois este segundo conceito se contrapõe ao anterior, dado que a ideologia se calca numa situação onde o inconsciente coletivo de certos grupos obscurece a condição real da sociedade, tanto para ele como para os demais, lutando para estabilizá-la. Os grandes líderes, aqueles que fizeram a história, seriam então utópicos por excelência.

Poderíamos, então, dizer que Glauber Rocha, pelo seu comportamento em relação à sociedade brasileira e ao cinema, era um ser utópico, estando em incongruência com a realidade que viveu, postando-se como um revolucionário que queria, através de sua arte, subverter as condições estabelecidas. E era assim que ele se definia. “Sou um revolucionário e uso o cinema para ajudar o povo a fazer as transformações que o Brasil precisa”.

Inquieto e genial, com sua forma de ser, amado por uma geração, embora incompreendido muitas das vezes, esse baiano de Vitoria da Conquista, sertão nordestino, no seu curto tempo de vida (morreu aos 42 anos) incendiou o cenário cultural e político brasileiro, sendo uma peça chave do movimento do Cinema Novo, deixando-nos obras singulares onde a política e o cinema fundiam-se com elementos estéticos de vanguarda e com o claro objetivo de alterar a ordem social do país.

Admirador de Castro Alves, condoreiro e barroco como ele, apocalíptico e profético, num delírio dionisíaco, levou às últimas conseqüências o seu conceito de arte, entregando sua vida a esse fim, desenvolvendo um cinema poético e revolucionário. Achava que o caminho da felicidade era o viver revolucionário e viveu esse sonho de uma forma acelerada, luminosa e trágica. Dizia que a função do artista é violentar o público com sua arte e, desta forma, não compactuava com a ideia de cinema como produto industrial. Embora tenha recebido convites para produzir cinema em grandes mercados, como Hollywood, sempre recusou, pois só fazia filmes onde tivesse o controle absoluto de sua obra. Uma de suas afirmações, já profetizando o domínio do mercado sobre o cinema era: “É preciso romper agora, antes que surja na porta de um cinema uma frase mais ao menos assim: hoje em cinemascope e totalmente colorido o magnífico espetáculo de nossa miséria.”

Após a sua morte, consternado, como muito dos seus amigos, o cineasta Silvio Tendler produziu um documentário, que teve o nome de Glauber, o filme-labirinto do Brasil, ainda pouco conhecido, com depoimentos de amigos e companheiros que conviveram mais de perto com o diretor.

Através de um labirinto que representa o Brasil, o filme nos conduz pela obra de Glauber Rocha, tendo as impressionantes imagens do seu enterro no Rio de Janeiro como ponto de referencia — imagens essas circundadas por uma trilha sonora de extrema beleza, onde a música de Villa-Lobos se destaca. Interessante é que nos faz lembrar, por sinal, as gravações que Glauber fez no enterro do artista plástico Di Cavalcanti, que resultou em um explosivo documentário, premiado no Festival de Cannes, em 1976, infelizmente não acessível ao público, devido a interdição por iniciativa da família do pintor, que não deu autorização para sua exibição.

No documentário de Silvio Tendler, poetas, escritores, políticos, artistas, produtores e amigos vão desfilando histórias sobre Glauber Rocha. Num ponto alto do filme, o cineasta Arnaldo Jabor afirma: “Glauber não suportaria viver no mundo de hoje, um mundo sem utopias, o mundo de mercadorias, sem grandezas heróicas.”

Mannheim também nos fala nisto em seu livro. Para ele, o mundo atual, forjado pela burguesia liberal, criou um mundo onde não existem espaços para as utopias, pois as últimas — nacional socialismo, fascismo, comunismo e socialismo — foram derrotadas pela visão de mundo da burguesia liberal: o mundo da mercadoria. Vitoriosa, através do mercado globalizado e da revolução tecnológica — que aplicada à produção nos leva a antever, inclusive, um futuro onde o trabalho seja dispensável —, a burguesia nos faz viver uma realidade diferente daquela que viveu Glauber: um Brasil que se desencantou e se racionalizou, alterando aquilo lhe era mais caro: o sonho de um povo que foi forjado através de utopias.

Em troca, passamos viver uma sociedade de relações cada vez mais reificadas, onde tudo se torna descartável e a regra é o consumo, partindo-se da equação segundo a qual “ter” é sinônimo de felicidade. Neste mundo racional, movido pelas últimas fronteiras do capital — o virtual, alma do homem contemporâneo —, certamente um artista utópico como Glauber e sua arte não pode sobreviver.

Talvez venha daí a urgência que tinha em manifestar a sua arte. No seu enterro, o psicanalista Helio Peregrino afirmou: “Glauber era uma vela que se consumia dos dois lados, por isso sua morte prematura.” Ao analisarmos o conjunto de sua obra: 15 filmes, inúmeros ensaios, romances e peças teatrais, a exemplo de outros artistas geniais, como Vicent Van Gogh, assistimos à tragédia da evolução do seu interior se contrapondo cada vez mais à realidade, principalmente nos seus últimos dias de vida. O último e incompreendido filme, A Idade da Terra, que ele considerava sua obra mais revolucionaria, é um exemplo disso.

Como sempre, Silvio Tendler nos brindou com uma bela obra para ver e refletir.

http://www.outraspalavras.net/2011/11/04/nossa-epoca-nao-e-para-glauber-rocha/

Iraque: amargo regresso dos EUA


Wallerstein analisa nova derrota internacional de Washington. E antevê um avanço dos xiitas que, paradoxalmente, pode não interessar ao Irã


Por Immanuel Wallerstein
Tradução: Daniela Frabasile

Agora é oficial. Todas as tropas norte-americanas — com uniforme dos Estados Unidos — serão retiradas do Iraque em 31 de dezembro de 2011. Podemos interpretar essa decisão de duas maneiras. Uma delas segue a visão do presidente Barack Obama: é o cumprimento de uma promessa eleitoral feita em 2008. A segunda é a interpretação dos candidatos republicanos à Presidência. Eles condenaram Obama por não ter feito o que dizem que o Exército dos Estados Unidos queria, que é manter alguns soldados depois de 31 de dezembro para treinar o exército iraquiano. De acordo com Mitt Romney, a decisão de Obama é “o resultado de um cálculo político ou simplesmente inaptidão nas negociações com o governo iraquiano”.
Então, quem ganhou? A retirada foi a vitória do nacionalismo iraquiano (...) Apesar das declarações públicas, tanto Barack Obama quanto os republicanos sabem que os Estados Unidos foram derrotados
As duas explicações não têm sentido, e são meras justificativas para os eleitores. Obama tentou ao máximo — e em total conjunção com os comandantes do exército e com o Pentágono — manter as tropas norte-americanas depois de 31 de dezembro. Mas falhou, não pela inaptidão, mas porque os líderes políticos do Iraque forçaram os Estados Unidos a sair. A retirada marca o final da derrota americana, que pode ser comparada à derrota dos Estados Unidos no Vietnã.

O que realmente aconteceu? Nos últimos dezoito meses, as autoridades de Washington realmente tentaram negociar um acordo com os iraquianos. Esse acordo iria se sobrepor ao termo assinado pelo presidente George W. Bush, que se comprometia com a retirada total das tropas em 31 de dezembro de 2011. Eles falharam — e não é que não tenham se esforçado.

No Iraque, os grupos mais favoráveis aos Estados Unidos são os grupos sunitas liderados por Ayad Allawi, um homem com relações notoriamente próximas à CIA, e o partido de Jalal Talebani, o presidente curdo do Iraque. Os dois homens disseram — relutantes, sem dúvida — que seria melhor as tropas americanas deixarem o país.

O líder iraquiano que se trabalhou duro para chegar a um acordo que mantivesse as tropas norte-americanas foi o primeiro-ministro Nouri al-Malaki. Obviamente, ele acreditava que a pouca habilidade do exército iraquiano em manter a ordem levaria o país a novas eleições, nas quais sua posição política estaria muito enfraquecida e ele, provavelmente, colheria maus resultados nas urnas. Enfim, deixaria de ser primeiro-ministro.

Os Estados Unidos fizeram concessão atrás de concessão, reduzindo constantemente o número de soldados que manteriam no Iraque. No fim das contas, o ponto de atrito foi a insistência do Pentágono em garantir a imunidade jurídica dos soldados americanos (e dos mercenários), liberado-os da acusação de qualquer crime que cometessem no país. Maliki estava pronto para concordar com isso, mas ninguém mais estava. Os sadristas chegaram a dizer que iriam retirar seu apoio ao governo, se Maliki aceitasse as condições de Washington. Sem os votos dos sadristas, Maliki não obteve a maioria necessária no parlamento.

Então, quem ganhou? A retirada foi a vitória do nacionalismo iraquiano. E a pessoa que veio para encarnar o nacionalismo iraquiano é Muqtada al-Sadr. É verdade que al-Sadr lidera um movimento xiita que sempre foi violentamente contrário ao partido de Saddam Hussein, o Baath — o que, para seus seguidores, costuma significar ser contra muçulmanos sunitas. Mas al-Sadr afastou-se de sua posição inicial, para converter a si próprio e a seu movimento nos grandes defensores da retirada dos Estados Unidos. Ele estendeu uma mão para líderes sunitas e líderes curdos na esperança de criar uma frente nacionalista pan-iraquiana, centrada na restauração total da autonomia do Iraque. Foi ele quem ganhou.

É certo que al-Sadr — assim como Maliki e outros políticos xiitas — passou uma grande parte de sua vida exilado no Irã. Sua vitória seria o triunfo do Irã? Sem dúvida, Teerã ampliou sua credibilidade no Iraque. Mas seria um erro analítico enorme acreditar que o Irã substituiu o domínio dos Estados Unidos sobre o cenário político iraquiano.

Existem tensões fundamentais entre os xiitas iranianos e os xiitas iraquianos. Por um lado, os iraquianos sempre consideraram o Iraque — e não o Irã — como centro espiritual do mundo xiita. É verdade que, nos últimos 50 anos, as transformações no cenário geopolítico permitiram que os aiatolás do Irã parecessem dominar o universo do xiísmo. Mas isso é parecido com o que aconteceu na relação entre os Estados Unidos e a Europa Ocidental depois de 1945. A força geopolítica dos Estados Unidos provocou um deslocamento na relação cultural entre dois lados do Atlântico. A Europa Ocidental teve que aceitar o novo domínio dos Estados Unidos — mas nunca gostou disso. E agora tenta retomar a hegemonia cultural. O mesmo acontece com o Irã e o Iraque. Nos últimos 50 anos, os xiitas iraquianos tiveram que aceitar o domínio cultural do vizinho, mas nunca gostaram disso. E agora irão trabalhar para retomar o predomínio cultural.

Apesar das declarações públicas, tanto Barack Obama quanto os republicanos sabem que os Estados Unidos foram derrotados. Os únicos norte-americanos que não acreditam nisso encontram-se entre o pequeno grupo marginal de esquerda que de algum modo não pode aceitar que os Estados Unidos não são capazes de ganhar sempre, em todos os lugares. Esse pequeno grupo, atualmente em declínio, está tão obcecado em denunciar os Estados Unidos que não tolera o fato de que o país está em sério declínio.

Para esse grupo marginal, nada mudou. Agora, o representante dos interesses dos Estados Unidos no Iraque não é mais o Pentágono, e sim o Departamento de Estado, que está fazendo duas coisas: deslocando mais fuzileiros para providenciar segurança à Embaixada dos Estados Unidos e contratando especialistas para treinar as forças policiais iraquianas. Mas levar mais soldados é um sinal de fraqueza, não de força. Significa que até mesmo a bem guardada embaixada norte-americana não está suficientemente segura dos ataques. Pela mesmíssima razão, os Estados Unidos cancelaram os planos de abrir mais consulados no país.

Quanto aos especialistas, estamos falando em aproximadamente 115 conselheiros policiais que precisam ser “protegidos” por milhares de seguranças privados. Eu garantiria que os conselheiros policiais serão muito cautelosos ao sair do território da embaixada — e que isso irá dificultar a contratação de seguranças privados em número suficiente, dado que não terão mais imunidade jurídica.

Ninguém deve se surpreender se, depois das próximas eleições no Iraque, o primeiro ministro for Muqtada al-Sadr. Nem os Estados Unidos nem o Irã vão gostar.

http://www.outraspalavras.net/2011/11/04/iraque-amargo-regresso-dos-eua/

O xampu infantil cancerígeno e outras reflexões para pensar o que é saúde

A agência Reuters divulgou matéria na qual “um grupo de ativistas da saúde” alerta para a presença de um conservante, um formaldeído (aldeído simples, com fórmula molecular H2CO) conhecido como quaternium-15, no xampu Johnson, um ícone dos produtos até então considerados seguros para a higiene infantil. Parece que, definitivamente, temos que perder toda e qualquer ilusão acerca da probidade dos produtos ditos infantis. Parece o definitivo fim da era da inocência.

Segundo o Departamento de Saúde dos Estados Unidos, essa substância é sabidamente causadora de câncer e, pior, habita a atmosfera dos lares, sendo quase impossível escapar desse contato nefasto que causaria, no mínimo, reações alérgicas na pele. Assim sendo, não adianta muito levar a sério o boicote proposto pelos tais ativistas. O que se pode e se deve fazer é pensar um pouco sobre como ficamos doentes.

Doença espírita

A concepção usual do adoecimento se assemelha em muito à compreensão do mundo de certas religiões voltadas para evocações espíritas. Explico: o sujeito vem pela rua, quando, repentinamente, entra nele um vírus, uma bactéria, um micróbio ou qualquer outra dessas entidades fantásticas. Imediatamente, como se recebesse um santo, como se estivesse num terreiro, envolvido pelo atabaque do melhor ogã, a pessoa está incorporada pela entidade patológica e, assim, doente.

Será assim? Tudo indica que não.

Medicina da Pessoa

Lembro do saudoso médico Danilo Perestrello chamando, em seus escritos, a atenção para o fato de que não há doenças, mas sim doentes. A doença é uma abstração formulada a partir da observação dos sintomas e manifestações de um determinado estado mórbido. O que existe, na prática, é um processo completa e absolutamente focado na pessoa, o que levou Perestrello a escrever um livro genial intitulado “A medicina da pessoa”.

Quem adoece é a pessoa. É apenas nela que se pode observar o processo patológico. Fora dela, há apenas construções intelectuais acerca do que acontece com a pessoa. Como dito, a doença é uma generalização conceitual que se apropria da experiência de observação de que há coisas em comum entre doentes. Mas, de modo algum se pode tratar a doença, simplesmente porque se assim o fizermos estaremos tratando uma entidade abstrata. O doente, nesse caso, fica esquecido e, parece evidente, não se cura. Os sintomas podem ser eliminados, mas o agente patogênico, que não é o vírus espírita descrito acima, continua ativo e que ninguém se assuste com as manifestações que vêm a seguir. Por esse motivo é que há pessoas que adoecem constantemente: apenas os sintomas são tratados.

Vida insalubre, mas cheia de hábitos saudáveis

De todo modo, outra reflexão a ser feita é a que nos remete à qualidade de vida nas sociedades urbanas do Ocidente. Quem sabe estejamos fomentando um modo de viver que é essencialmente insalubre, mas, ironicamente, sem que isso seja mencionado pelo jornalismo, vivemos com a fantasia constante de que podemos nos proteger dos perigos tomando esta ou aquela atitude ou evitando esta ou aquela substância. Mas, como? Se para onde olhamos há venenos, gorduras, colesteróis e, por último, esse tal formaldeído no xampu feito especialmente para bebês! Como evitar?

O resultado é que ficamos rodando para lá e para cá, mergulhados em riscos reais e imaginários, ansiosos, angustiados. Como nada se perde na sociedade do capital, para melhorar essa situação, não para resolvê-la, pode-se recorrer a mais um expediente duvidoso: os ansiolíticos. Como se vê, nada se perde, nada se cria, nada se transforma, nada se resolve. Tudo se consome.

A solução seria, é claro, não fumar, não beber, não comer e, de preferência, não respirar. Sexo, para ser totalmente seguro, melhor não fazer.

Novos venenos, sempre

Parece que não há saídas, pelo menos com o instrumental que nossa sociedade nos oferece. O mais terrível é que noventa e nove por cento de nós, no entanto, acredita que há e que as soluções estão na proibição disso e daquilo, na punição desse ou daquele outro fabricante ou distribuidor. Infelizmente, afirmo e reafirmo, essa crença não faz mais do que distrair nossa atenção enquanto a mentalidade do lucro desenfreado gesta novos venenos. O que, aliás, parece ser uma de suas especialidades.

Como um dia disse Deleuze, no capitalismo tudo tem lógica, menos ele próprio.