sexta-feira, 14 de outubro de 2011

Mais um sobrevivente no campo de centeio

Nasci no duzentão. Barata Ribeiro, 200, virou até peça de teatro e filme de cinema. 56 apartamentos por andar, 12 andares mais uma cobertura que tem menos apês. Multiplica isso e torne a multiplicar por 3 ou 4 para tirar uma média do número de moradores na época (anos depois chegavam a morar 10 em um quitinete, dormindo metade de dia, metade de noite). Bota uns 20 apartamentos para a cobertura. Deve ter mais, mas tira por baixo que o número já será alto.

Chegaram a andar com uma motocicleta num dos corredores, reza a lenda. Se alguém muito íntimo seu ficar numa ponta do corredor e você na outra, com certeza não vai reconhecer. 56 apartamentos por andar, imagina o tamanho do corredor. Foi lá que nasci. Pelo menos, era possível brincar no corredor, inclusive jogar bola.

Pior, ou melhor, o duzentão fica em Copacabana, que me disseram outro dia ser o bairro mais famoso do mundo. Não creio, mas do Brasil, descobri que é. Carros e mais carros, gente e mais gente. Andar pelas ruas de Copacabana era sempre uma aventura. Gente esbarrava, te empurrava etc. Lembro de muita gente, muitos carros. Hoje, tem mais gente e muito mais carros. Aliás, seria necessário fazer um controle da natalidade de automóveis, tem demais no mundo e logo num mundo que se quer ecologicamente correto.

Os carros me fascinavam. Sabia a marca de todos. Ainda havia milhares de fuscas e os DKW Vemag, com aquele motor que parecia peidar. Havia os Gordini, os Dauphine e outros mais. Eu conhecia todos. Depois de adulto, ironia, nunca tive um carro. Dirigi alguns dias, talvez possa contá-los nas mãos.  Não dirijo desde 1988 ou 1989, não tenho certeza.

A última vez foi num domingo, num desses anos. O namorado da minha irmã, que é uma figura inesquecível, Matias, tinha cortado o pé e não podia dirigir. Fui levar o fusca dele até a garagem da igreja na qual meu pai trabalhava e trabalha. Fechou o sinal. Abriu o sinal. Menos de dois décimos de segundo depois que o sinal ficou verde, já tinha uma sinfonia de buzinas atrás de mim. Talvez alguém tenha passado e xingado, quem sabe. Ali, entendi. Aquilo não era para mim.

Fui uma criança que não entendeu nada. Tudo me assustava, eu não compreendia do que se tratava e nem podia discernir do que sentia medo. As pessoas eram muito agressivas, muito. Hoje, poderia dizer que era quase uma selva, mas na época eu não sabia bem como expressar o que sentia. Também não sei se isso adiantaria. Para quem está na selva, a expressão dos sentimentos ou até mesmo de conceitos não ajuda muito. O leão não vai deixar de te destroçar porque você está confuso. Muito menos será útil saber que se trata de um leão se ele te farejar. E as ruas estavam cheias de feras.

Talvez por isso, tenha sonhado tantas vezes com leões. Quando era criança, tinha medo nos sonhos. Depois que cresci – e o fato de ter feito psicanálise quatro vezes por semana durante um período – pude compreender algo que hoje me parece óbvio: os leões dos sonhos não podiam me fazer mal. Deixei de sonhar com leões depois que descobri isso. Na última vez, um leão vinha me atacar, mas o máximo que conseguia era fazer cócegas. Talvez haja leões assassinos nos sonhos, mas todos os que conheci eram farsas. Assustadores, mas inofensivos.

Minha infância foi um arraial de medos e fantasias terroríficas. Meu desejo era me esconder. Se pudesse nunca sair de casa, faria isso. Mas, havia a escola. Maldita escola.

Somente muito mais tarde vim a deduzir a importante função da escola na sociedade: socialização. Você pega todas as crianças, põe em uma sala, com uma adulta dizendo o que fazer, recompensando e punindo, soletrando e contando, batendo palmas e gritando. Mais tarde, você vai precisar saber como funciona o mundo e ali está o protótipo. O mais importante, porém, é saber que as crianças são infernizadas, mas, em vez de se rebelar contra isso, ao menos ficando quietas e não infernizando umas as outras, fazem exatamente o oposto. Nunca entendi nada acerca disso. Mas, agora sei que essa é a regra.

Meu desejo, na época, era apenas sobreviver. Sinceramente, não sei se consegui. O que sou hoje, os cacos e o desespero que me cortam os dedos e torturam a alma, parecem ter aparecido ali. Os apertos que me estreitam o peito e a tristeza que me faz olhar triste para o perímetro que me cerca foram inventados naqueles tempos. Talvez tenha havido alegria nas minhas incursões à rua ou à escola. No entanto, não consigo recordar de uma, sequer. Alegria mesmo, lembro, só fui ter quando cresci e me libertei da tendência a dar tanta importância às feras das ruas, das escolas e dos escritórios. Quando descobri que haviam sido tão torturadas como eu, que também podia ser fera, se assim quisesse.

Durante algum tempo, alguns momentos, tentei ser fera. Entendi que não tenho muita vocação para isso. Continuo tentando sobreviver. Como estou vivo, posso dizer, parafraseando Mano Brown: sou mais um sobrevivente. E lembrando de Sallinger, me identifico com seu apanhador de centeio. Sou um sobrevivente no campo de centeio. Não sei por quanto tempo ainda.

Um comentário: