quinta-feira, 27 de outubro de 2011

A estética plastificada do falso tão falso que parece real

Vejo uma conhecida apresentadora de programa de televisão e penso que, mais um pouco, a moça poderia estrelar um filme de horror. É caricatural o seu rosto, muito esquisito mesmo. Um conhecido me diz que é o que acontece com quem tem mais de 70 anos e faz uma série de intervenções estéticas. Não sei se a dita tem os tais 70 ou mais, até mesmo creio que não, mas o fato é que ela, como uma série de outras mulheres que conheci com essa idade e com um bom número de cirurgias estéticas feitas, efetivamente fica parecendo uma espécie de Frankenstein.

O curioso é que, mesmo assim, as mulheres continuam a procurar os cirurgiões para “melhorar o visual”, ainda que, na minha percepção, só o piore. Talvez se possa dizer que essa realidade é fruto da cultura dos tempos pós-modernos: tempos do plástico e da plástica, da imagem fake e da caricatura, do pastiche e da forma sem conteúdo, da juventude eterna e da imaturidade perene.

Não seria, quem sabe, mais interessante que as pessoas envelhecessem e pudessem – quem sabe até mesmo tivessem orgulho – de exibir a história de sua vida gravada no corpo? É claro que dói envelhecer, dói não ter mais a aparência juvenil que, imaginamos, atrai, encanta e seduz. Mas, pensando na tal apresentadora e em tantas outras, não dói, também, parecer uma Barbie com prazo de validade vencido?

Entendo que a convivência tranquila com os rostos e corpos plastificados de nossos dias, com tanto botox, silicone e peles repuxadas, depende previamente de uma igual customização de nosso senso estético. Diariamente, somos ensinados a conviver com o falso e com o artificial, com o ficcional e com o pastiche, como se tudo fosse absolutamente real e como se a realidade não passasse de uma grande história inventada por alguém que nos suplanta, como uma deidade formada por implantes cibernéticos que nos quisesse robóticos à sua imagem e semelhança.

No mundo criado por um deus assim, o falso abole a distância entre si próprio e a verdade, se formulando como um ato discursivo feito para parecer legal e real como só mesmo a lei e os reis podem ser.

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