quarta-feira, 21 de setembro de 2011

Dialogando criticamente com o diálogo crítico estabelecido com o conceito de CR-P

O texto “Dialogando criticamente com o conceito de CR-P”, de Jorge Almeida, publicado em http://jorgealm.sites.uol.com.br/jorge.html, é, antes de tudo, instigante e propiciador de um interessante debate sobre o papel e a função dos meios de comunicação, a “mídia”, em nossa realidade contemporânea.

O conceito de “Cenário de Representação da Política”, o tal CR-P, foi enunciado por Venício Lima em 1994, buscando oferecer uma categoria na qual a política é representada sob o ponto de vista dos interesses hegemônicos. Dentre os vários cenários de representação possíveis – étnicos, de gênero, estéticos etc. – Lima pinça o político e o define tendo como fundo a democracia participativa, além de, fundamentalmente, ser formulado e “constituído em processos de longo prazo, nos e pelos mídia, sobretudo na e pela televisão”. O CR-P seria, assim, algo como um espelho midiático que reflete a configuração com a qual a perspectiva hegemônica sobrepõe ou sugere à sociedade os seus interesses políticos numa democracia representativa, formulando, inevitavelmente, uma subjetividade específica que deve sustentar as intenções de voto da população.

Não está distante de sua natureza conceitual quem o aproximar da configuração que leva ao construto teórico da Agenda Setting, na medida em que bem se pode pensar que o CR-P institui os focos de discussão que vão estar em jogo não apenas nos pleitos, mas na sequência da vida política. Como cenário, formula o fundo no qual se destacarão as figuras públicas em disputa.

Poder relativo

O principal tema do texto de Almeida, pelo menos para mim, é o da relatividade do poder da mídia na formação do CR-P. Por um vértice, é bastante salutar relativizar esse poder, pois não há como ficar atribuindo aos meios de comunicação de massa a capacidade de formatar, sem qualquer interveniente crítico, a consciência dos indivíduos. Acreditar nisto seria ingênuo e, sem dúvida, uma resposta fácil, mas inadequada, para a questão da influência da mídia nesse plano subjetivo. É evidente que na formação da consciência individual acorrem diversos elementos constitutivos, não apenas os supostamente ditados pelos meios de comunicação de massa.

Almeida usa as eleições presidenciais brasileiras de 1994 como exemplo referente para pensar o fato de que não se pode imaginar que apenas a mídia é responsável pela formulação de um CR-P, mas que, também, o Estado e a Sociedade Civil são fundamentais nessa tarefa. Naquelas eleições, é bom lembrar, Fernando Henrique Cardoso (FHC) foi eleito presidente sustentado fundamentalmente por um plano econômico implementado no tempo em que era Ministro da Fazenda do então presidente Itamar Franco (que assumira o posto após o impeachment de outro Fernando, o Collor de Mello, de quem foi vice), o chamado Plano Real, que instituiu a moeda que até hoje é utilizada no país.

A força do Estado

O argumento de Almeida é óbvio e bem colocado: não foram exatamente os meios de comunicação que forjaram o cenário adequado para a vitória de FHC, mas o Estado, o que relativizaria em muito o papel da mídia naquela eleição. No entanto, mesmo as argumentações óbvias merecem ponderação, ou principalmente elas o merecem.

Ao observar a realidade por esse ângulo, Almeida está separando-a em partes, o que pode ser útil num primeiro momento de preparação para a análise, já que os elementos constitutivos de um determinado fenômeno são descolados para que se saiba exatamente “o que é o quê”. O problema vem depois, caso não se preste a atenção devida. A realidade separada em partes – responsabilidade da mídia ou do Estado na formação do cenário de representação política naquele momento – corresponde a correr o risco de perder a noção do todo e do quanto os elementos que o compõem estão imbricados.

Ajuda midiática

Se foi o Estado o principal responsável pelo sucesso da candidatura FHC, não se pode esquecer que o Estado precisa se comunicar com a sociedade e que isso acontece primordialmente com o auxílio dos meios de comunicação. O meritoso Plano Real deve, em grande parte, seu sucesso ao fato de ter alcançando uma boa compreensão por parte da sociedade de suas propostas estruturais, graças às coberturas jornalísticas e informações transmitidas midiaticamente, quase sempre dispostas de modo simpático e favorável, pelo que me diz a memória. O que se pode dizer, aqui, é que é difícil precisar as fronteiras que separam o mérito do plano da sua descrição adequada por parte da mídia, favorecendo a aceitação da população e, consequentemente, a sua aplicação e o seu sucesso, que dura até hoje. O Plano Real pode ser visto como um ícone inatacável na mídia, salvo intervenção de quem tenha melhor memória do que eu. Não me recordo, a não ser quando de sua gestão e implantação, de ouvir, ver ou ler críticas ao plano, seja de políticos ou de jornalistas.

Assim, se foi o Estado o principal responsável pela eleição de FHC, com a consequente derrota de Lula, ao implementar o referido plano econômico, o que poderia fazer esse mesmo Estado se não tivesse uma adequada cobertura jornalística acerca das proposições do plano? Mais: se esse mesma mídia, apesar de detalhar o plano, resolvesse abordá-lo criticamente a partir de um determinado momento? E se essa mesma mídia levantasse questões acerca da implementação do plano, questões que ficaram na obscuridade, como por exemplo o inegável vínculo entre a proposta governamental e o Consenso de Washington, conjunto de medidas econômicas e políticas estabelecidas no início da década de 1990, formalizado para facilitar a implementação do ideário neoliberal, notadamente nos países subdesenvolvidos?

No entanto, a mídia não fez isso, muito embora bem o pudesse ter feito. Abordou de forma positiva a implantação do plano, pois tudo indica havia um conluio entre os interesses do grande capital internacional, com a implementação do neoliberalismo, e entre os interesses específicos do governo Itamar Franco e das empresas de comunicação brasileiras.

Interesses que se casam

O que parece ter havido naquele momento foi um casamento de interesses que foi formalizado por um plano econômico e, não esqueçamos, pela favorável cobertura midiática da implantação desse plano, que, é difícil negar, parece ter sido parte de uma grande ofensiva das elites para a implementação de um cenário político favorável aos seus interesses, conforme se pode constatar observando a história do final do século XX.

O que parece bem importante nessa análise é perceber se é extremamente ingênuo crer no poder ilimitado da mídia, também é igualmente ingênuo reduzir ou menosprezar esse poder. Sempre repito a lição dada pelo grande Perseu Abramo: dependemos da mídia para saber o que está acontecendo longe de nossa percepção imediata; podemos saber diretamente o que acontece conosco, com pessoas que conhecemos ou na vizinhança, mas isso não é possível quando algo de importante acontece a quilômetros de distância. Para isso, necessitamos da imprensa, da mídia, em primeiro lugar. Se esta trata o fato de forma favorável, tenderemos, é óbvio, a pensar de forma favorável ou a considerar de forma especial os pontos positivos de todo e qualquer fato. Esse fator não se será determinante para pensarmos de modo favorável a seja lá o que for, mas contribuirá de forma efetiva, parece evidente.

A realidade é complexa, muito complexa. A forma e o modo com o qual a abordamos faz toda a diferença e é sempre importante pensar nisso. E a mídia tem um papel inegável na formulação dos moldes que utilizamos para abordar o que nos cerca. Não dá, assim, para dizer que somente o Estado ou somente a sociedade civil ou somente a mídia foram responsáveis por determinado acontecimento. Sempre há um conluio entre essas partes, que costumam ser igualmente importantes, com raras e pontuais exceções. Mas, que os veículos de comunicação têm um papel preponderante no processo, por sua própria natureza de “leva e traz”, lá isso têm.

O Estado se comunica com a sociedade civil através da mídia e o inverso também pode ser entendido como verdadeiro. A mídia é o filtro dessa comunicação, o meio que comporta as mensagens de ambas as partes. Nesse sentido, apesar de oportuna a ponderação de Almeida, o conceito de CR-P, em sua formulação precípua operada por Lima, é bastante útil, pois está definido como somente possível de ser pensado em uma sociedade em que essas relações se deem pela via midiática. O que é definitivamente o nosso caso.

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