sábado, 24 de setembro de 2011

Emir Sader propõe balanço da era Chávez


Presidente venezuelano governa para as maiorias e foi decisivo para que América do Sul superasse o neoliberalismo. Mas seu papel pessoal ainda é decisivo, o que pode comprometer seu projeto.

Por Emir Sader, Carta Capital

Depois de um longo período de relativa estabilidade política, com a alternância entre Ação Democrática (partido de orientação social-democrática) e Coppei (de orientação democrata-cristã), a Venezuela entrou em uma fase de turbulência política em 1989, a partir do retorno de Carlos Andrés Pérez à presidência. De forma similar a outros governantes latino-americanos naquele momento (Carlos Menem, por exemplo), Pérez prometeu um choque produtivo para tentar reanimar a economia venezuelana, mas imediatamente aplicou um duro pacote recessivo, motivador de mobilizações populares. Houve forte repressão e várias centenas de mortes (até hoje não se apurou o número certo), no movimento que ocorreu em Caracas e foi chamado de “caracaço”.

O governo de Pérez sobreviveu com feridas das quais nunca se recuperaria. Um levantamento militar contra ele começou a projetar a figura de Hugo Chávez. Derrotado militarmente, o movimento foi uma vitória política, porque revelou nas Forças Armadas da Venezuela (FFAA) uma liderança contra o projeto neoliberalista de Pérez, derrubado por acusações de corrupção que culminaram em um impeachment e em sua prisão.


O projeto neoliberal de Pérez foi interrompido assim – de forma similar ao de Fernando Collor, no Brasil – e foi seguido pelo retorno de outro ex-presidente, Rafael Caldera, do Coppei, partido opositor. Pressionado pela rejeição do governo de Pérez, Caldera relutou em seguir a aplicação do modelo neoliberal, embora não rompesse com ele. Sob a influência da trajetória de Fernando Henrique Cardoso, Teodoro Petkoff, um ex-esquerdista, que tinha chegado a participar da luta guerrilheira dos anos 60, foi nomeado ministro da Economia. Buscou retomar, ainda que com matizes, o programa neoliberal, mas as condições políticas já não existiam para isso.


O governo de Caldera também fracassou e assim se fechava um ciclo da história política venezuelana, de predominância absoluta dos dois partidos tradicionais, desgastados, a ponto que os candidatos favoritos para as eleições presidenciais de 1998 eram outsiders da política tradicional: uma ex-miss universo, Irene Sáez (ex-prefeita de um bairro chique de Caracas e que prometia levar o estilo de vida daquela região a toda a Venezuela) e o líder militar Hugo Chávez, anistiado da prisão, opositor do regime dos dois partidos tradicionais e agitador dos ideais de Simón Bolívar.


Fim do bipartidarismo


A Venezuela é um dos poucos países petroleiros do mundo, isto é, que move sua economia praticamente de forma exclusiva pelos recursos da exportação do petróleo. Essa imensa riqueza nem se tornou sinônimo de industrialização nem diminuiu a brutal diferença de concentração de renda da sua população. A apropriação do Estado ou suas cercanias era suficiente para compartilhar os dividendos da exportação petrolífera com a empresa estatal do petróleo, a Petróleos da Venezuela (PDVSA), transformada no grande butim que abastecia as grandes fortunas de uma burguesia com mentalidade de Miami.


Foram consumidos recursos públicos em quantidades gigantescas, apropriadas privadamente, sem que o país- tivesse retornos. O refluxo dos preços do petróleo coincidiu com a crise da dívida e o longo período recessivo pelo qual a América Latina passou.


Esse foi o pano de fundo da crise final do sistema bipartidário venezuelano, que desembocou nas eleições presidenciais de 1998, na qual nenhum dos candidatos dos partidos tradicionais tinha chance de se eleger. Chávez, naquele momento, contava com um grande caudal de votos populares e da classe média. Foi o que lhe garantiu a vitória.


Mudanças chavistas


Seu governo quebrava um amplo consenso de governos neoliberais, que ocupavam praticamente todo o continente, da direta à esquerda, do México ao Uruguai, do Brasil à Venezuela, passando pela Argentina e pelo Peru. Chávez foi o primeiro presidente eleito na contramão dessa tendência, eleição que seria seguida pelas de Lula, Néstor Kirchner (Argentina), Tabaré Vásquez (Uruguai), Evo Morales (Bolívia), Rafael Correa (Equador), Fernando Lugo (Paraguai), Mauricio Funes (El Salvador) e, mais recentemente, Ollanta Humala (Peru). Sua eleição, em vez de um caso isolado, prenunciava o novo período vivido pela América Latina.


Chávez assumiu duas características diferenciadoras dos seus antecessores: a prioridade dos processos de integração regional e de intercâmbio Sul-Sul, em vez dos tratados de livre-comércio com os Estados Unidos, e das políticas sociais, e não a dos ajustes fiscais.


O fator que lhe deu maior legitimidade e apoio popular foram suas políticas sociais. Foram as chamadas “missões”, organizadas com o apoio de Cuba, que passaram a dar assistência médica direta nas comunidades mais carentes do país e uma campanha que rapidamente terminou com o analfabetismo na Venezuela, baseado no método cubano “Sim, eu posso”. O governo combateu assim a grande dualidade no país entre as elites e a massa da população, vivendo em uma pobreza injustificável para um país exportador de petróleo.


Para realizar tais mudanças, o governo enfrentou grande resistência da direção da PDVSA, que havia praticamente privatizado a empresa. Técnicos e executivos decretaram greve e deixaram o país sem petróleo para o consumo interno. Em resposta, o governo chavista despediu mais de 16 mil empregados e criou um verdadeiro processo de reestatização da empresa, apoderando-se da principal fonte de recursos venezuelana.


Reagindo às medidas, a oposição – centrada no monopólio privado da mídia – organizou abertamente um golpe militar, colocado em prática em abril de 2002. Chávez chegou a ser sequestrado e os próceres da direita (donos das mídias, hierarcas da Igreja Católica, partidos da oposição) ocuparam o palácio presidencial. Um cenário latino-americano de golpe militar, só que dessa vez organizado por órgãos privados da mídia.


Quando os setores populares souberam do golpe, dirigiram-se ao Palácio, ocuparam–no e forçaram o retorno do presidente ao poder. O estilo popular de Chávez e a efetividade de suas políticas sociais revelaram-se instrumentos poderosos para- recompor seu esquema de poder.


Pós-golpe de 2002

Depois de um processo ascendente de conquista de apoio popular, legitimado pela tentativa de golpe da oposição, o governo chavista passou a enfrentar dificuldades. Entre elas: o prolongamento de formas de corrupção, típicas de um país que vive da renda “fácil” da exportação petrolífera, a falta de eficácia na gestão das políticas públicas, em particular aquelas das áreas sociais essenciais para a consolidação do apoio popular ao governo, e a continuidade e intensificação da violência cotidiana. Além disso, problemas de gestão econômica causaram apagões de energia e fizeram com que a Venezuela levasse dois anos a mais que todos os países da região para superar os efeitos da crise internacional de 2008.

No seu conjunto, esses fatores geraram desgastes, que se refletiram na derrota de Chávez no plebiscito sobre o direito à continuidade da apresentação do seu nome à eleição para novo mandato de presidente da República – ele está há 12 anos no poder.

Diante do câncer de Chávez, levantam-se dúvidas não apenas sobre seu real estado de saúde, mas também sobre a possibilidade de sustentabilidade do seu projeto, já que sua liderança é determinante na mobilização popular e nas decisões do governo. De forma quase tão decisiva, no plano latino-americano, o papel de Hugo Chávez mobilizou uma vertente mais radical de governos progressistas sob o signo do bolivarianismo (os de Evo Morales, na Bolívia, e Rafael Correa, no Equador) e formou uma área de colaboração mais estreita de governos – a Aliança Bolivariana para as Américas (Alba). Os problemas internos da Venezuela representaram também graus de desgaste na imagem de sua liderança, com seus efeitos sobre o polo da Alba.




Emir Sader é sociólogo e cientista, mestre em Filosofia Política e doutor em Ciências Políticas pela USP – Universidade de São Paulo

http://ponto.outraspalavras.net/2011/09/23/era-chavez/

quinta-feira, 22 de setembro de 2011

Dialogando criticamente com o diálogo crítico estabelecido com o conceito de CR-P

O texto “Dialogando criticamente com o conceito de CR-P”, de Jorge Almeida, publicado em http://jorgealm.sites.uol.com.br/jorge.html, é, antes de tudo, instigante e propiciador de um interessante debate sobre o papel e a função dos meios de comunicação, a “mídia”, em nossa realidade contemporânea.

O conceito de “Cenário de Representação da Política”, o tal CR-P, foi enunciado por Venício Lima em 1994, buscando oferecer uma categoria na qual a política é representada sob o ponto de vista dos interesses hegemônicos. Dentre os vários cenários de representação possíveis – étnicos, de gênero, estéticos etc. – Lima pinça o político e o define tendo como fundo a democracia participativa, além de, fundamentalmente, ser formulado e “constituído em processos de longo prazo, nos e pelos mídia, sobretudo na e pela televisão”. O CR-P seria, assim, algo como um espelho midiático que reflete a configuração com a qual a perspectiva hegemônica sobrepõe ou sugere à sociedade os seus interesses políticos numa democracia representativa, formulando, inevitavelmente, uma subjetividade específica que deve sustentar as intenções de voto da população.

Não está distante de sua natureza conceitual quem o aproximar da configuração que leva ao construto teórico da Agenda Setting, na medida em que bem se pode pensar que o CR-P institui os focos de discussão que vão estar em jogo não apenas nos pleitos, mas na sequência da vida política. Como cenário, formula o fundo no qual se destacarão as figuras públicas em disputa.

Poder relativo

O principal tema do texto de Almeida, pelo menos para mim, é o da relatividade do poder da mídia na formação do CR-P. Por um vértice, é bastante salutar relativizar esse poder, pois não há como ficar atribuindo aos meios de comunicação de massa a capacidade de formatar, sem qualquer interveniente crítico, a consciência dos indivíduos. Acreditar nisto seria ingênuo e, sem dúvida, uma resposta fácil, mas inadequada, para a questão da influência da mídia nesse plano subjetivo. É evidente que na formação da consciência individual acorrem diversos elementos constitutivos, não apenas os supostamente ditados pelos meios de comunicação de massa.

Almeida usa as eleições presidenciais brasileiras de 1994 como exemplo referente para pensar o fato de que não se pode imaginar que apenas a mídia é responsável pela formulação de um CR-P, mas que, também, o Estado e a Sociedade Civil são fundamentais nessa tarefa. Naquelas eleições, é bom lembrar, Fernando Henrique Cardoso (FHC) foi eleito presidente sustentado fundamentalmente por um plano econômico implementado no tempo em que era Ministro da Fazenda do então presidente Itamar Franco (que assumira o posto após o impeachment de outro Fernando, o Collor de Mello, de quem foi vice), o chamado Plano Real, que instituiu a moeda que até hoje é utilizada no país.

A força do Estado

O argumento de Almeida é óbvio e bem colocado: não foram exatamente os meios de comunicação que forjaram o cenário adequado para a vitória de FHC, mas o Estado, o que relativizaria em muito o papel da mídia naquela eleição. No entanto, mesmo as argumentações óbvias merecem ponderação, ou principalmente elas o merecem.

Ao observar a realidade por esse ângulo, Almeida está separando-a em partes, o que pode ser útil num primeiro momento de preparação para a análise, já que os elementos constitutivos de um determinado fenômeno são descolados para que se saiba exatamente “o que é o quê”. O problema vem depois, caso não se preste a atenção devida. A realidade separada em partes – responsabilidade da mídia ou do Estado na formação do cenário de representação política naquele momento – corresponde a correr o risco de perder a noção do todo e do quanto os elementos que o compõem estão imbricados.

Ajuda midiática

Se foi o Estado o principal responsável pelo sucesso da candidatura FHC, não se pode esquecer que o Estado precisa se comunicar com a sociedade e que isso acontece primordialmente com o auxílio dos meios de comunicação. O meritoso Plano Real deve, em grande parte, seu sucesso ao fato de ter alcançando uma boa compreensão por parte da sociedade de suas propostas estruturais, graças às coberturas jornalísticas e informações transmitidas midiaticamente, quase sempre dispostas de modo simpático e favorável, pelo que me diz a memória. O que se pode dizer, aqui, é que é difícil precisar as fronteiras que separam o mérito do plano da sua descrição adequada por parte da mídia, favorecendo a aceitação da população e, consequentemente, a sua aplicação e o seu sucesso, que dura até hoje. O Plano Real pode ser visto como um ícone inatacável na mídia, salvo intervenção de quem tenha melhor memória do que eu. Não me recordo, a não ser quando de sua gestão e implantação, de ouvir, ver ou ler críticas ao plano, seja de políticos ou de jornalistas.

Assim, se foi o Estado o principal responsável pela eleição de FHC, com a consequente derrota de Lula, ao implementar o referido plano econômico, o que poderia fazer esse mesmo Estado se não tivesse uma adequada cobertura jornalística acerca das proposições do plano? Mais: se esse mesma mídia, apesar de detalhar o plano, resolvesse abordá-lo criticamente a partir de um determinado momento? E se essa mesma mídia levantasse questões acerca da implementação do plano, questões que ficaram na obscuridade, como por exemplo o inegável vínculo entre a proposta governamental e o Consenso de Washington, conjunto de medidas econômicas e políticas estabelecidas no início da década de 1990, formalizado para facilitar a implementação do ideário neoliberal, notadamente nos países subdesenvolvidos?

No entanto, a mídia não fez isso, muito embora bem o pudesse ter feito. Abordou de forma positiva a implantação do plano, pois tudo indica havia um conluio entre os interesses do grande capital internacional, com a implementação do neoliberalismo, e entre os interesses específicos do governo Itamar Franco e das empresas de comunicação brasileiras.

Interesses que se casam

O que parece ter havido naquele momento foi um casamento de interesses que foi formalizado por um plano econômico e, não esqueçamos, pela favorável cobertura midiática da implantação desse plano, que, é difícil negar, parece ter sido parte de uma grande ofensiva das elites para a implementação de um cenário político favorável aos seus interesses, conforme se pode constatar observando a história do final do século XX.

O que parece bem importante nessa análise é perceber se é extremamente ingênuo crer no poder ilimitado da mídia, também é igualmente ingênuo reduzir ou menosprezar esse poder. Sempre repito a lição dada pelo grande Perseu Abramo: dependemos da mídia para saber o que está acontecendo longe de nossa percepção imediata; podemos saber diretamente o que acontece conosco, com pessoas que conhecemos ou na vizinhança, mas isso não é possível quando algo de importante acontece a quilômetros de distância. Para isso, necessitamos da imprensa, da mídia, em primeiro lugar. Se esta trata o fato de forma favorável, tenderemos, é óbvio, a pensar de forma favorável ou a considerar de forma especial os pontos positivos de todo e qualquer fato. Esse fator não se será determinante para pensarmos de modo favorável a seja lá o que for, mas contribuirá de forma efetiva, parece evidente.

A realidade é complexa, muito complexa. A forma e o modo com o qual a abordamos faz toda a diferença e é sempre importante pensar nisso. E a mídia tem um papel inegável na formulação dos moldes que utilizamos para abordar o que nos cerca. Não dá, assim, para dizer que somente o Estado ou somente a sociedade civil ou somente a mídia foram responsáveis por determinado acontecimento. Sempre há um conluio entre essas partes, que costumam ser igualmente importantes, com raras e pontuais exceções. Mas, que os veículos de comunicação têm um papel preponderante no processo, por sua própria natureza de “leva e traz”, lá isso têm.

O Estado se comunica com a sociedade civil através da mídia e o inverso também pode ser entendido como verdadeiro. A mídia é o filtro dessa comunicação, o meio que comporta as mensagens de ambas as partes. Nesse sentido, apesar de oportuna a ponderação de Almeida, o conceito de CR-P, em sua formulação precípua operada por Lima, é bastante útil, pois está definido como somente possível de ser pensado em uma sociedade em que essas relações se deem pela via midiática. O que é definitivamente o nosso caso.

segunda-feira, 19 de setembro de 2011

Depressão na sociedade do vazio

Maria Rita Kehl
 

Trechos de entrevista publicada originalmente na revista Caros Amigos
(...)

Eu estava lendo Walter Benjamin, por causa de um grupo de estudos, estava lendo o texto dele sobre experiência. Ele faz uma articulação entre a perda da experiência e a velocidade da vida moderna. E eu falei “a depressão está aqui”, porque Walter Benjamin chama isso de melancolia, não é também que eu inventei isso, então são duas coisas diferentes que se juntaram. A depressão como o começo de uma experiência no consultório que me interessou muito, e a depressão como um sintoma social, quer dizer, algo que se alastra, sintoma social no sentido de um tipo de sofrimento mental que além de dizer respeito ao sujeito, a cada um por si que está sofrendo, cada um com suas razões, revela alguma coisa que não vai bem. Não se poderia dizer que é o sintoma social do homem contemporâneo, porque drogadição também é um sintoma, violência também é um sintoma. Mas certamente depressão é um dos importantes sintomas. Porque, digamos, ele faz água no barco. 


Tem um barco, que é a sociedade de consumo, que as pessoas supostamente navegam, às vezes achando que a vida vai ter sentido porque você pode ter dinheiro e comprar não sei o quê. Todo mundo fala: “Que sociedade de consumo? Brasil? Menos de 1/3 pode consumir o básico”. E eu insisto que essa sociedade é de consumo, nos termos mesmo dos autores, do Jean Baudrillard, aliado à idéia de Guy Débord da sociedade do espetáculo, porque o que dá sentido à vida é o consumo. A questão não é a sociedade de consumo porque todo mundo está consumindo furiosamente, pouca gente está consumindo furiosamente, mas as pessoas medem o que elas são pelo que elas podem consumir, medem o sentido da sua vida pelo que elas podem consumir. 

Estão convencidas de que o valor delas e das outras se define pelo que elas podem consumir. Por isso sociedade de consumo, pela crença, não necessariamente pelos atos.

(...)

De uns anos para cá eu fui amadurecendo, e comecei a atender pessoas deprimidas e comecei a ficar interessadíssima no fato de como elas eram sensíveis à análise, como tinham permeabilidade maior ao inconsciente que no neurótico, que, vamos dizer, está bem defendido, que vai para a análise também, mas é um custo para abrir uma brecha.

(...)

Agora, na depressão, todos os ambulatórios no Brasil têm esse folhetinho: ”Você tem depressão? Atenção, é uma doença séria mas tem cura”. Aí se você tem alguns sintomas, ai tem uma lista de 20 sintomas que qualquer um de nós tem alguns deles. Falta de sono, excesso de sono, falta de fome, excesso de fome, desânimo, irritabilidade, bom, em São Paulo quem é que não tem irritabilidade, estresse, vai por aí.


O importante é que no caso das depressões, numa sociedade em que a moral social é a moral da alegria, do gozo, da farra, não é a moral até a primeira fase do capitalismo, que até os anos 1950, e isso combinou também com o protestantismo, era a moral do adiamento da gratificação, sacrifício, esforço, sobriedade, tudo que a gente conhece hoje em dia de literatura. 


E a moral que mudou muito rapidamente depois dos anos 60, não por culpa dos movimentos dos anos 60, mas pela tremenda plasticidade do capitalismo, do boi eu aproveito até o berro, do homem eu aproveito até o berro, derramo o que não queremos, o que queremos é sexo livre, independência. E o sistema fala “oba, vamos devolver isso na forma de mercadoria”. E hoje nós nos beneficiamos, mas também a sociedade de consumo bombou depois dos anos 60. 

Então, numa sociedade como essa em que você moralmente se sente obrigado a estar sempre muito bem, qualquer tristeza você identifica como depressão. Então tem aí muitas dessas famílias que dizem que isso é frescura, que não é depressão, mas eu acho que é minoria. A maioria é assim: o filho está maleducado, toma remédio, porque é hiperatividade, toma remédio; o filho está numa crise adolescente, deprimido, toma remédio. É a mesma lógica, digamos assim, imaginária que rege o capitalismo financeiro: jogue certo que você vai estar rico a vida inteira, acabaram os seus problemas, acumule um monte, faça ajogada, e não é para ter turbulência, que as turbulências são deficiências, perdas de tempo, porque tempo é dinheiro; afinal de contas, então, remédio, remédio. E qual a relação disso com a depressão? Você vai criando um sujeito esvaziado.

Mas o remédio não é a cura, é só a condição para a pessoa ir se tratar. Então, o que é a força psíquica, a chamada vida interior? É trabalho permanente, desde o bebezinho ali que a mãe não chegou na hora e ele estava com fome e teve que esperar um pouquinho, o psiquismo é isso, trabalho para se enfrentar a dificuldade, enfrentar conflitos, suportar crises, suportar desprazer em momentos, porque não dá para ter prazer o tempo todo, isso é psiquismo. 


A ansiedade diz “não enfrenta conflitos, não enfrenta porque você vai ficar um tempo meio confuso, meio improdutivo, toma o remédio e vai em frente”. Vai se criando uma vida sem sentido.

(...)

http://carneviva.org/ritakehl.htm

sábado, 17 de setembro de 2011

Una elite secreta de 9 banqueros domina las finanzas globales

Por Alfredo Jalife-Rahme - La Jornada

Me referiré a un añejo tema de casi 13 años que se remonta a la candidatura de Bill Clinton, quien operó un acuerdo "secreto" con las "manos invisibles" ya muy vistas de la plutocracia oligárquico-oligopólica de los banqueros de Wall Street (Nicholas D. Kristof y Edward Wyatt, NYT 15, 16, 17 y 18/2/99)

Queda expuesto el secuestro tanto de la "democracia" como de la actividad de la "política" y la "e-conomía" subyugadas por las fuerzas del inexistente "mercado financiero", manipuladas por un puñado de banqueros, quienes maniobran en la opacidad absoluta. 
Que conste que nos encontramos a inicios del siglo XXI.

Las víctimas, es decir, los ciudadanos del planeta, se encuentran impotentes para lidiar con tal incurable cáncer financierista, debido a que desconocen su identidad, cuando ni la clase política, patéticamente más ignara que nunca, entiende su dinámica
Exhumamos (Bajo la Lupa, 31/8/11) un inquietante artículo de Louise Story en The New York Ti-mes (NYT, 11/12/10) quien revela que "cada tercer miércoles del mes, nueve miembros de la elite de la sociedad de Wall Street se reúnen en Manhattan" con el fin de "proteger los intereses de los grandes bancos en el vasto mercado de los derivados financieros, uno de los más redituables y con-trovertidos campos de las finanzas".

Los ocultos nueve banqueros conforman "un poderoso (sic) comité que ayuda (sic) a vigilar las transacciones de los derivados, instrumentos que, como los seguros, son usados para cubrir los ries-gos" en un gran negocio de "multibillones".

En realidad, ya rebasaron el millar de billones, en una equivalencia de varias veces el PIB global y cuyo monto se desconoce debido a su "desregulación" (carece de vigilancia tanto gubernamental como ciudadana) y su "contabilidad invisible" (off balance sheet) en los "paraísos fiscales" (off sho-re).

Los "derivados financieros" hipertóxicos ("armas financieras de destrucción masiva", Warren Buf-fet dixit) constituyen un incurable cáncer financierista, cuyas metástasis han alcanzado todos los rincones del planeta donde opera la desregulada globalización, que antes de extinguirse cobrará muchas víctimas.

Las víctimas, es decir, los ciudadanos del planeta, se encuentran impotentes para lidiar con tal incurable cáncer financierista, debido a que desconocen su identidad, cuando ni la clase política, patéticamente más ignara que nunca, entiende su dinámica.

Si equiparamos la especulación de los "derivados financieros" con el futbol asociado, sería algo así: son dueños de la cancha, del balón y los dos equipos que juegan –después de haber impuesto al jefe de la policía, al presidente municipal de la ciudad sede, al gobernador del estado y al presidente de la república– son también propietarios de la transmisión exclusiva del partido por sus mendaces multimedia ologopólicos (que también controlan), imponen las reglas del juego y están conectados a un casino donde apuestan al resultado que también conocen
Louise Story se extravía en nimiedades (en los excesivos "costos") y se enfoca al rechazo de parte de los nueve banqueros al ingreso de otros marginados de su meganegocio, como sucede con el discriminado Bank of New York (fundado por Alexander Hamilton en 1784), que maneja 23 billo-nes de dólares de "dinero institucional". ¿Los ocultos nueve banqueros practican el racismo y/o la discriminación financiera?

Anjay Kannambadi, ejecutivo del Bank of New York, fustiga que la razón por la cual discriminan a su banco de ingresar es "para preservar sus ganancias, además de que fueron quienes ayudaron a redactar las reglas del ingreso de las membresías".

Si equiparamos la especulación de los "derivados financieros" con el futbol asociado, sería algo así: son dueños de la cancha, del balón y los dos equipos que juegan –después de haber impuesto al jefe de la policía, al presidente municipal de la ciudad sede, al gobernador del estado y al presidente de la república– son también propietarios de la transmisión exclusiva del partido por sus mendaces multimedia ologopólicos (que también controlan), imponen las reglas del juego y están conectados a un casino donde apuestan al resultado que también conocen, como acaba de suceder con el mega-especulador George Soros quien fue avisado por "alguien" (¿por su correligionario Ben Shalom Bernanke?) de la degradación de la "deuda soberana" de Estados Unidos por la descalificada "cali-ficadora" S&P y descolgó cómodamente una "ganancia" descomunal de 10 mil millones de dólares (según The Daily Mail).

Esto no lo puede decir Louise Story, quien defiende a un grupo de banqueros locales neoyorquinos marginados de las grandes ganancias por los otros nueve banqueros cuya identidad ha sido soplada por "alguien": JP Morgan Chase, Goldman Sachs, Morgan Stanley, Deutsche Bank (del que es ase-sor el locuaz Alan Greenspan), UBS (que apuesta contra los interese de Pemex a través de su em-pleado, el hijo de un ex director de la paraestatal que funge ahora como director de la depredadora Schlumberger); la británica Barclays; Credit Suisse; Bank of America; y Citigroup (accionista de la "calificadora" Moody’s).

Lo mejor del jueguito financierista: se desconoce la identidad del "árbitro", cuando el mismo juego es virtual. Lo único real son las supuestas "ganancias" de los bancos y, sobre todo, sus "pérdidas", que endosan a los impotentes ciudadanos, que ni vieron ni entienden el partido.

A juicio de Louise Story resulta que "nadie (¡extra súper sic!) de los reguladores gubernamentales entiende (sic) completamente el tamaño y la interconexión del mercado de los derivados financie-ros, en especial los Credit Default Swaps (CDS), que aseguran (sic) contra las quiebras de empresas o bonos hipotecarios".




Los ominosos CDS –que se calcula andan entre 30 y 70 billones de dólares (¡el equivalente del PIB global!), dependiendo quién imagine su monto– apuestan a la quiebra de los países (literal) y hoy tienen en agonía –como dicen– a los PIIGS (por sus siglas en inglés: Portugal, Irlanda, Italia, Grecia y España).

Todavía está por develarse la lúgubre historia en el noveno círculo dantesco de los avernos entre la aseguradora AIG y sus contratos, mediante CDS, con los nueve banqueros de la elite secreta de Wall Street.

Esto no lo puede decir Louise Story, quien defiende a un grupo de banqueros locales neoyorquinos marginados de las grandes ganancias por los otros nueve banqueros cuya identidad ha sido soplada por "alguien": JP Morgan Chase, Goldman Sachs, Morgan Stanley, Deutsche Bank (del que es ase-sor el locuaz Alan Greenspan), UBS (que apuesta contra los interese de Pemex a través de su em-pleado, el hijo de un ex director de la paraestatal que funge ahora como director de la depredadora Schlumberger); la británica Barclays; Credit Suisse; Bank of America; y Citigroup (accionista de la "calificadora" Moody’s)
La crisis de 2088 llevó a la creación de tres "cámaras de compensación" (clearinghouse), de quien "nadie conoce la identidad de sus comités de riesgo", pero que controlan los nueve banqueros de la elite secreta. ¡Viva la transparencia!

Se recuerda que los bancos insolventes (técnicamente quebrados) fueron rescatados con el dinero público de los ciudadanos, quienes ni siquiera tienen derecho a conocer la identidad de sus rescata-dos. Ahora los miserables estadunidenses viven el "síndrome Fobaproa/IPAB", que ya padecimos con “el itamita México neoliberal”, con el mismo cártel bancario trasnacional (cuya bisagra aquí es Joseph Marie-Cordoba y su aliado Guillermo Ortiz Martínez, hoy mandamás del Banco Internacio-nal de Pagos; Zedillo era un simple "ejecutivo").

Resulta que "la misma gente detenta posiciones influyentes (sic) en otras cámaras de compensación o en sus comités en la poderosa (sic) Asociación Internacional de Swaps y Derivados que ayudan a gobernar (sic) el mercado".

Louise Story comenta que "quizá (sic) ningún negocio en las finanzas sea tan redituable como los derivados" y cuyo "monto preciso (sic) se ignora": su carácter "secreto (¡súper sic!) constituye el factor principal que permite a los nueve banqueros obtener tales colosales ganancias".

La primera auditoría en la historia de la Reserva Federal acaba de revelar "16 billones de dólares (nota: el equivalente del PIB de Estados Unidos) de rescates secretos (¡súper sic!)", teledirigidos a los correligionarios de Ben Shalom Bernanke, que incluye al secreto club selecto de nueve banque-ros (IPS, 29/9/11).

¿Cómo vamos a contrarrestar los ciudadanos del mundo a esta nihilista bancocracia secreta?

La luz pública es el mejor antídoto para domar a la bancocracia "secreta" que florece y prospera en los caños y desagües donde predomina la fétida oscuridad.

http://www.jornada.unam.mx/2011/09/07/opinion/018o1pol

Marketeiro explica por que a grande mídia atrasa desenvolvimento do esporte no país

Por mais incrível que pareça, isso é uma imagem de uma transmissão de um jogo de vôlei
Segundo Eduardo Esteves, consultor de marketing esportivo, a Rede Globo, apesar de ser o veículo de mídia que mais investe no esporte nacional, está prejudicando bastante o desenvolvimento das modalidades de esporte olímpico, simplesmente por não fazer coberturas decentes, não transmitir jogos e não divulgar os patrocinadores de atletas e equipes. Apenas o futebol parece preservado, tudo indica que por ser o mais lucrativo, atraindo um grande número de espectadores.

Esteves informa que os investimentos no esporte já ultrapassam os R$ 2,5 bilhões de reais e, com os eventos que vêm aí, como a Copa do Mundo de 2014 e a Olimpíada de 2016, esse número tende a crescer. Ele esclarece ainda que a importância da mídia é imensa para o desenvolvimento do esporte. Somente com a exposição midiática os empresários se interessam em investir, é claro que, principalmente, pela visibilidade alcançada durante transmissões televisivas, mas também pela citação em noticiários esportivos.

Há problemas com esse modelo. Torna-se difícil não atender as demandas dos veículos de comunicação, principalmente da Rede Globo, que acaba interferindo diretamente na qualidade técnica do esporte. Um bom exemplo é o do fim da “vantagem” no vôlei. Isso ocorreu por conta da demanda televisiva de um jogo mais rápido, com pontos disputados mais objetivamente. Perdeu o vôlei, para o qual o expediente da vantagem contribuía com uma dificuldade especial para os jogadores, obrigados a se concentrar para não perdê-la ou, em outros termos, para não deixá-la para o adversário, o que gerava uma disputa mais atraente e aguerrida, mas também mais demorada. O jogo ficou mais rápido, conforme dita o ritmo televisivo, mas deixou de contar com um expediente de dificuldade que lhe dava muito mais intensidade e emoção.

No mundo do basquete, a Globo exigiu, para transmitir a final da Liga Nacional de 2012, que essa final fosse realizada em apenas um jogo, contrariando o modelo de disputa anteriormente adotado, que previa cinco jogos. Ou seja, ganha a equipe que estiver melhor naquele dia, naquela hora, naquele jogo. Justiça? Qualidade? Para quê? Que vença o mais sortudo ou o que melhor se preparou para jogar a sorte em apenas um jogo. 


A situação crítica é definida pelo presidente da Liga Nacional de Basquete, Kouro Monadjemi: "Não adianta ter um campeonato perfeito no qual ninguém investe. Se tivermos que sacrificar o lado técnico pelo econômico, vamos fazer". Lamentável, mas sincero.

 

Depois que Kuerten se foi, a mídia aberta deu as costas para o tênis
O vôlei tem ganhado mais atenção, mas a regra “global” de não fazer qualquer menção a empresas patrocinadoras traz mais dificuldades. Nas entrevistas, a instrução é focar no rosto do atleta, cortando as imagens da logomarca do patrocinador. O mesmo acontece no futebol de salão e no automobilismo, segundo Esteves. O tênis é, desde a aposentadoria de Gustavo Kuerten, totalmente ignorado, com espaço apenas nas TV fechada. Logo, é claro que será bastante difícil surgir outro jogador como Kuerten. 

Sem imagem na TV, sem patrocínio.

Como seria diferente?

Ora, o que esperar de diferente no mundo capitalista da periferia? O que esperar além da queda da qualidade e da inconfundível barbárie em todos os níveis? Onde só se leva em conta o lucro e a contabilidade financeira, não há nada mais em vista. 

Depois, não é exatamente a Rede Globo a culpada, pobrezinha. O que é essa empresa senão a imagem emblemática de um grande parasita que vem se alimentando de tudo o que é qualidade na sociedade ocidental? A grande mídia não passa de um verme que suga e polui, se alimentando das singularidades e as destruindo, cumprindo seu papel nefasto de atacar o organismo que o mantém vivo.

É o caso de lembrar do conceito de Produção Destrutiva, de Mészáros, e de levar a sério a ideia de que a barbárie, não a charmosa barbárie do cinema ou das manifestações culturais do underground, mas a verdadeira barbárie, aquela que nem os gregos conseguiram nomear decentemente, define a proposta da grande mídia capitalista. 

Para ler o texto de Eduardo Esteves, acesse http://br.esportes.yahoo.com/noticias/-opini%C3%A3o--esportes-com--ajuda--global.html

sexta-feira, 16 de setembro de 2011

Mercado e Teologia, por Dany-Robert Dufour



"Quero dizer que a invenção do Mercado por Adam Smith remete à teologia. Seguramente, muitos me reprovarão por afastar-me das belas e nobres questões teológicas, ontológicas e metafísicas para corrompe-las com a política, ver – supremo opróbrio – com a economia. Responderei simplesmente que não se entenderia nada a essa invenção do Mercado, que domina hoje o mundo, se não se percebesse que ela se inscreve plenamente nas problemáticas da Providência, quer dizer no modo pelo qual Deus governa a criação, propondo-se como alternativa ao antigo governo da cidade dos homens que funcionava a partir do modelo da Cidade de Deus. Falando claro, talvez fosse o momento de perceber que o capitalismo procede ele mesmo de uma metafísica cuja potência não precisa mais ser demonstrada porque conseguiu tomar conta do mundo".

quarta-feira, 14 de setembro de 2011

Socialismo ou barbárie

Rosa Luxemburgo
Por István Mészáros


Seguindo os passos de Marx, Rosa Luxemburgo expressou de forma notável o dilema que teremos de enfrentar:"socialismo ou barbárie". Quando Marx formulou sua primeira versão dessa idéia, ele a situou no último horizonte histórico das contradições em evolução. Conforme sua visão, num futuro indeterminado os indivíduos seriam forçados a enfrentar o imperativo de fazer as escolhas certas com relação à ordem social a ser adotada, de forma a salvar a própria existência.

Se eu tivesse de modificar as palavras dramáticas de Rosa Luxemburgo com relação aos novos perigos que nos esperam, acrescentaria a "socialismo ou barbárie" a frase "barbárie se tivermos sorte", no sentido de que o extermínio da humanidade é um elemento inerente ao curso do desenvolvimento destrutivo do capital
Quando Rosa Luxemburgo comentou essa dura alternativa, a segunda fase histórica do imperialismo estava em pleno apogeu, provocando em enorme escala o tipo de destruição inimaginável num estágio anterior de desenvolvimento. Mas a escala de tempo em que o sistema de capital continuaria a se afirmar na forma de "destruição produtiva" ainda era indeterminada durante a vida de Rosa Luxemburgo. Não havia naquele tempo nenhuma potência, nem mesmo a união de todas, capaz de destruir a humanidade com seus conflitos devastadores.

Hoje a situação é qualitativamente diferente, e por isso a frase de Rosa Luxemburgo adquiriu uma urgência dramática. Não existem rotas conciliatórias de fuga. Ainda assim, nem mesmo o fato de se poder afirmar com certeza que a fase histórica do imperialismo hegemônico global haverá também de fracassar em razão de sua incapacidade de dar solução para as contradições explosivas do sistema, ou mesmo de adiá-las indefinidamente, é promessa de solução para o futuro. Muitos dos problemas que teremos de enfrentar, desde o desemprego crônico até os graves conflitos econômicos, políticos e militares internacionais, e até a destruição ambiental generalizada observada por toda parte, exigem ação combinada em futuro muito próximo. A escala temporal dessa ação talvez possa ser medida em algumas décadas, mas certamente não em séculos. O tempo está se esgotando. Assim, somente uma alternativa radical ao modo estabelecido de controle da reprodução do metabolismo social pode oferecer uma saída da crise estrutural do capital.

Os que falam a respeito de uma "terceira via" como solução ao nosso dilema, e que afirmam não haver espaço para a revitalização de um movimento radical de massa, ou querem nos enganar cinicamente ao dar o nome de "terceira via" à aceitação submissa da ordem dominante, ou não entendem a gravidade da situação, acreditando num sonhado resultado positivo que vem sendo prometido por quase um século, mas que não dá sinais de se realizar. A verdade desagradável hoje é que se não houver futuro para o movimento radical de massa, como querem eles, também não haverá futuro para a própria humanidade.

Se eu tivesse de modificar as palavras dramáticas de Rosa Luxemburgo com relação aos novos perigos que nos esperam, acrescentaria a "socialismo ou barbárie" a frase "barbárie se tivermos sorte", no sentido de que o extermínio da humanidade é um elemento inerente ao curso do desenvolvimento destrutivo do capital. E o mundo dessa terceira possibilidade, além das alternativas de "socialismo ou barbárie", só abrigaria baratas, que suportam níveis letais de radiação nuclear. É esse o único significado racional da "terceira via do capital".

A terceira fase, potencialmente a mais mortal, do imperialismo hegemônico global, que corresponde à profunda crise estrutural do sistema do capital no plano militar e político, não nos deixa espaço para tranquilidade ou certeza. Pelo contrário, lança uma nuvem escura sobre o futuro, caso os desafios históricos colocados diante do movimento socialista não sejam enfrentados com sucesso enquanto ainda há tempo. Por isso, o século à nossa frente deverá ser o século do "socialismo ou barbárie".

trecho do livro "O século XXI-Socialismo ou Barbárie", de Istvan Meszaros - Boitempo Editorial