terça-feira, 2 de agosto de 2011

É preciso pensar


“Qual a lógica capitalista vigorosamente fortalecida na sociedade liberal?”, pergunta Maria de Fátima Felix Rosar no texto “A liberdade e a servidão como faces da mesma moeda na sociedade neoliberal”(1). E é ela mesma quem responde: A redução da capacidade de reflexão crítica, de modo que se possa reduzir o exercício da razão à dimensão meramente instrumental e pragmática.

O que Rosar entendeu bem é que, sob a capa da “democratização do desejo” (conforme proposto por Gilles Lipovetsky) da sociedade neoliberal, há algo que bem pode ser entendido como um movimento oposto a qualquer sentido ligado à democratização. O próprio Lipovetsky, que em muitos momentos de sua carreira intelectual aparentou ser apenas uma espécie de intelectual orgânico do liberalismo, aponta para isso, tendendo a definir a sociedade contemporânea, por ele chamada de “sociedade de hiperconsumo”, como marcada pelo paradoxo, principalmente no que diz respeito à felicidade de seus membros:

A imensa maioria se diz feliz, contudo a tristeza e o estresse, as depressões e as ansiedades formam um rio que engrossa de maneira inquietante. (...) Somos cada vez mais bem cuidados, o que não impede que os indivíduos se tornem uma espécie de hipocondríacos crônicos. Os corpos são livres, a miséria sexual é persistente. As solicitações hedonísticas são onipresentes: as inquietudes, as decepções, as inseguranças sociais e pessoais aumentam.

No plano da autonomia de cada sujeito, Rosar e Lipovetsky concordam. Ela aponta para a eclosão do modelo de um indivíduo dócil, que não se opõem para não ser rejeitado pelo sistema, mas integrado, sem restrições. Além disso, a autora lembra que o sujeito crítico foi substituído pelo sujeito que convém ao mercado. Mas, o que convém ao mercado? (...) um sujeito que possa ser equivalente a outro, portanto, que tem o mesmo preço e que não impõe ao mercado valores como ética e dignidade. A dignidade não tem preço e não tem equivalente, por isso é que garante a autonomia do sujeito crítico, que não serve para a circulação no mercado.

Lipovetsky, aliás, pensa de forma semelhante. O indivíduo desejoso de dirigir ou de retificar a seu gosto sua interioridade, transforma-se em indivíduo “dependente”: quanto mais é reivindicado o pleno poder sobre sua vida, mais se espalham novas formas de sujeição dos indivíduos, afirma. Essa noção, é bom lembrar, já foi pontuada por Antonio Negri e Michael Hardt, que afirmam que a revolta da multidão contra os parâmetros repressivos da Modernidade gerou um sistema imperial que, apesar de fruto da insatisfação da multidão com a rigidez autoritária da Era Moderna, é bem mais autoritário e repressivo do que o sistema que o antecedeu.

Parece-me fundamental atentar para o fato de que, se houve mudanças culturais e políticas significativa nas últimas décadas, é preciso, em primeiro lugar, observar a natureza dessas mudanças sob o ponto de vista daquilo que ficou para trás, aquilo que foi objeto da transformação operada. É fundamental distinguir o que mudou e como mudou. Aos que insistem em apontar tudo o que está acontecendo como simplesmente "o novo", talvez seja interessante lembrar que a novidade vem de algum lugar e se referencia, positiva e negativamente, em determinados pontos do estabelecido.

Rosar pensa que uma das mudanças da sociedade contemporânea se deu no plano dos parâmetros subjetivos através dos quais enxergamos e interpretamos o mundo. Segundo ela, saem de cena os valores simbólicos transcendentes característicos do passado moderno e, nesse lugar, surge o valor monetário da mercadoria: A diluição dos valores ou a dessimbolização do mundo do ponto de vista moral e transcendental, coloca como modelo de novo indivíduo um sujeito dócil, que não se opõe para não ser rejeitado pelo sistema, mas integrado, sem restrições

Realmente, a docilidade do sujeito pós-moderno é, aliás, algo que chama a atenção. Por esse pondo de vista, trata-se de um impotente, um impotente político, um indivíduo sem muita capacidade para gerenciar autonomamente a sua vida e que depende substancialmente do sistema dos objetos para obter elementos para tecer um discurso sobre si próprio e sobre o mundo que o cerca. Nesse sentido, aceita qualquer situação que lhe seja oferecida com a condição de que seja aceito, mesmo que, para isso, tenha que abrir mão de virtudes antes consideradas apanágios do humano, aquilo que diferenciaria o humano da animalidade, como a dignidade:

A ideologia do capitalismo, em sua versão neoliberal ou ultraliberal, prega a substituição do sujeito crítico pelo sujeito que convém ao mercado. E o que convém ao mercado é um sujeito que possa ser equivalente a outro, portanto, que tem o mesmo preço e que não impõe ao mercado valores como ética e dignidade. A dignidade não tem preço e não tem equivalente, por isso é que garante a autonomia do sujeito crítico, que não serve para a circulação no mercado.

As ideias da autora estão ancoradas no pensamento de Dany-Robert Dufour, autor de um livro cujo título é inegavelmente instigante e pertinente para uma interpretação da vida urbana contemporânea: “A arte de reduzir cabeças: sobre a nova servidão na sociedade ultraliberal”. Segundo ele, ocorre hoje um fenômeno de dessimbolização, ou seja, as referências importantes disponíveis para que o sujeito moderno estabelecesse suas trocas simbólicas estão, na contemporaneidade, desqualificadas em função da lógica estrita da mercadoria.

O sujeito crítico kantiano, que punha como principal fim de sua vida a dignidade, que não tem preço, e o sujeito neurótico freudiano, com seus conflitos de identidade, deixam de ter qualquer importância. Isso, é claro, fala da proposição, por parte do neoliberalismo (a sociedade ultraliberal), de um novo sujeito, sem capacidade de julgamento e orientado apenas para trocas comerciais. Seria, segundo ele, uma proposição semelhante a dos regimes totalitários do século XX, mas muito melhor engendrada, pois não restringe a ação humana e age diretamente sobre os objetos, dotando-os do poder de qualificar os sujeitos.

Dufour é um crítico da lógica liberal que se instalou entre nós. Assim como ele, há também Fredric Jameson, que denuncia o caráter comercial da cultura contemporânea e aponta para o pastiche como a característica da manifestação cultural do capitalismo tardio dominante, e Slavoj Zizek, que compara a cabeça do sujeito contemporâneo com o Kinder Ovo e entende que agimos, hoje, como bonecos animados, repetindo sem pensar aquilo que um ponto, na terminologia do teatro, nos dita a partir, é claro, principalmente dos meios de comunicação de massa.

É preciso pensar e pensar muito sobre a sociedade liberal, marcada pela filosofia do “Mundo Plano”, título do livro de Thomas Friedman, que se mostra surpreendentemente deslumbrado com o fato de que não há mais qualquer diferença entre indianos, estadunidenses ou qualquer outro povo.