quinta-feira, 28 de julho de 2011

Esse tal Breivik e a elite nórdica tupiniquim

Artigo de Julinho da Adelaide

A imprensa nacional tomou o cuidado de dar ampla cobertura às ideias que Anders Behring Breivik – aquele imbecil que matou quase cem pessoas na Noruega há pouco menos de uma semana – tem sobre o Brasil, mas o fez, como sempre, sem olhar a conjuntura em que esse fato se insere. Como sempre, o acontecimento parece isolado de tudo, solto no espaço e no tempo e singularmente nascido do acaso. A imprensa se limita a relatar as sandices publicadas pelo assassino, sem prestar o serviço de informar ao leitor que essas mesmas maluquices são defendidas por muita gente, incluindo algumas pessoas “de bem” de nossa sociedade (1).

Não falamos de malfeitores, mas de cidadãos tementes a Deus e, acima de tudo, geralmente bem instruídos e amantes de boa cultura. Na verdade, o pudor leva muitos a não defender claramente o mesmo que Breivik, mas que têm na vida a mesma práxis perversa, isso parece inegável. Por exemplo, revoltam-se com qualquer menção ao nazismo e o holocausto, mas sequer se indignam quando o assunto é a escravidão de africanos, a vida subumana de populações rurais etc. Quando ouvem falar do Movimento dos Sem-Terra, fazem o sinal da cruz e torcem o nariz. Para eles, pobre que não fica quieto, que não se curva, tem mais é que levar bala, como prova e comprova o apoio ao extermínio nas favelas.

Falando em imprensa, o pior é constatar que, no máximo, os apresentadores de telejornais franzem severamente os cenhos e afirmam que o assassino estava sob vigilância e, mesmo assim, conseguiu cometer os crimes, sugerindo, como costuma acontecer nos noticiários, que tudo poderia ser evitado com maior vigilância. E não é que as pessoas acreditam nisso?

Sem diferenças

O facínora norueguês publicou um texto bem grande (1,5 mil páginas) na internet em que condena a miscigenação e tece uma delirante exaltação da pureza étnica e do conservadorismo político. O Brasil entra nessa história apenas como um exemplo de insucesso político e econômico por conta da mistura entre raças. Para Breivik, o mundo seria melhor sem negros, amarelos ou árabes e, é claro, sem o Brasil. O mundo ideal de Breivik é aquele no qual apenas Breiviks andam pelas ruas. É o tipo de sujeito que se casaria, sem problemas, com um espelho, se é que já não fez isso.
Ele é seu vizinho no Facebook

O texto, um manifesto, tem o título "2083 – Uma Declaração Europeia de Independência" e foi publicado sob o pseudônimo Andrew Berwick. O assassino cita o Brasil miscigenado como exemplo de corrupção e falta de produtividade, sem talvez saber que o modelo corrupto brasileiro é adotado essencialmente pela “elite nórdica” do país, aquela que se acredita mais sueca e norueguesa do que brasileira e detesta negros, asiáticos e árabes tanto quanto ele (2).

O caso brasileiro é interessantíssimo. Aqui não há preconceito, sempre ouvi dizer. Mas também ouvi porteiros de edifícios mandar pessoas negras subirem pelo elevador de serviço, mesmo quando não estavam “à serviço” e soube de um episódio prosaico e escabroso, conhecido como “A guerra do pente” e que aconteceu na cidade de Curitiba em 1959, há pouco mais de meio século, quando toda a cidade se voltou contra os chamados “turcos” por conta de um pequeno incidente envolvendo um pente. Na ocasião, a revolta popular foi tão intensa que o exército teve que literalmente ocupar a cidade. Na prática, a teoria da miscigenação brasileira é outra, pelo menos para uma parcela da população, em grande parte aquela que clama constantemente por “paz”.

O maníaco Breivik ainda diz acreditar que produtividade e harmonia são apanágios das nações nas quais não há mistura, o que corresponde dizer que para ser produtivo e harmônico é necessário banir toda diferença. Aliás, tornou-se regra pensar assim. É tão automático que ninguém mais reflete: diferente só é aceito se fantasiado de diferente e, é claro, inserido no mercado.

Culto à destruição

Ele acredita que para atingir a prosperidade um país deve banir o Islã, ser etnicamente homogêneo, promover políticas culturais conservadoras e nacionalistas, educar sua população e praticar o protecionismo financeiro e a política do livre mercado, mas livre apenas entre iguais, ou seja, entre “países conservadores” (sic), leia-se, é claro, países europeus, brancos, com a pele sensível ao sol e que não deveria, jamais, se envolver com o rebotalho.

E você sabe por que alguém como Breivik ou qualquer um dos que pensam como ele (embora não saiam por aí atirando nos outros, graças a Deus) odeia tanto os superficialmente diferentes? Simplesmente porque os imagina melhores e não suporta pensar que possa haver algo bom no mundo. Se há, então é preciso destruir. Melanie Klein chamaria isso de “inveja”.

Até o Comando Vermelho está no mercado

Em outra roupagem, Breivik é uma espécie de Caco Antibes (3) que saiu do set de filmagem para ganhar vida real e fazer todas as asneiras próprias de alguém que professa ideais de pureza étnica. Ele, aliás, se entende como um profissional de marketing, pois afirma que fez todas aquelas barbaridades para divulgar e promover seus delírios direitistas. É incrível como a lógica do mercado se espalhou e se impôs como modelo. Em 2003, no Rio de Janeiro, o Comando Vermelho (CV) promoveu um massacre numa casa de detenção localizada no bairro de Benfica, no qual dezenas de jovens delinquentes foram assassinados com requintes de crueldade e com grande impacto visual, apenas para “fazer marketing”, ou seja, reforçar a marca CV, como faria qualquer empresa. Como bem se pode ver, a mentalidade organizacional fez escola.
Fallabella em seu hilariante personagem

O que é preciso ser dito é que Breivik é apenas mais um lunático defensor de ideais muito semelhantes aos que sustentam pensamentos e ações da direita em todo o mundo, como dito por Flavio Aguiar, em texto publicado neste blog (http://luizgeremias.blogspot.com/2011/07/inferno-na-noruega-e-obra-da-direita.html). Não é algo tão distante da realidade pensar que há uma incômoda semelhança entre o pensamento de Breivik, exposto em seu manifesto, e a linha editorial da revista Veja, por exemplo, que não é mais do que uma formulação emblemática do ideário da elite nacional. Menos longe do real está quem comparar o ideário do norueguês com a práxis dos Estados Unidos na política internacional. Quem invade um país e promove uma chacina para simplesmente de lá extrair petróleo comete um crime infinitamente mais horrendo do que o de Breivik. E pior, quem faz isso e se diz defensor dos que assassinou é simplesmente uma criatura monstruosa.

Paz hollywoodiana

Boa parte da nossa brava elite gostaria de exterminar toda e qualquer diferença e transformar o Brasil numa Noruega, livre de gentalha como pobres, pretos, árabes etc. Ou, quem sabe, viver em um filme hollywoodiano, no qual somente haja bucólicas casas de subúrbio com grandes e verdes gramados, um belo carro na garagem e a bandeira listrada e estrelada tremulando sobre todos, garantindo a segurança e a paz dos homens de boa vontade. E o pior é que essa forma estereotipada e medíocre de pensar espraia seu contágio para muito além das cercas eletrificadas das elites.

São essas coisas que os jornais, telejornais e informativos de rádio não comentam. Pelo contrário. Segundo Aguiar, “Ainda na sexta-feira, quando tudo era nebuloso no atentado (falava-se em apenas 4 mortos na ilha de Utoya), prestigioso periódico brasileiro publicou uma lista de possíveis grupos suspeitos pelo atentado: todos os nomes eram islâmicos”.

É preciso dizer mais alguma coisa?

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Do trivial

Carecas ocas

Breivik parece ser mais um desses lunáticos perigosos que acreditam que a pureza étnica é fundamental para o progresso humano, noção que acalentou, na primeira metade do século XX, os devaneios doentios de fascistas e nazistas. Hoje, continua dando sustentação a outros oligofrênicos de menor monta, como os grupelhos urbanos de inspiração nazista que recebem entre nós o apelido de “carecas”. Aliás, chamá-los assim implica o reconhecimento de que há uma cabeça em que, externamente, não há nada e na qual, internamente, ocorre o mesmo fenômeno.

Apesar de deplorarem os homossexuais e, por vezes, chegarem a agredi-los fisicamente, os “carecas” cultuam a semelhança e não conseguem se excitar com a diferença. Por isso, são fetichistas e se enchem de tatuagens, além de outros ornamentos e indumentárias bizarras. Todavia, é bom deixar claro que essas macaquices não são privilégio dos tais carecas, contaminando também diversas outras tribos urbanas.

Ama a ti mesmo no outro (pois essa é função dele)

Por outro lado, definir o monstruoso imbecil Breivik como cristão é algo a ser pensado. Não é o cristianismo a doutrina a pregar a tolerância com o outro? Não é o cristianismo a doutrina que segue o Novo Testamento, no qual há o belíssimo Sermão da Montanha, no qual o que é proposto é o oferecimento da outra face a quem nos esbofeteou? Como podem os seguidores dessa filosofia ser nazistas? Mas, o curioso é que muitos o são e muitos são os cristãos que defendem barbáries.

Por algumas vezes, aqui neste blog, já comentei o dito “ama o próximo como a ti mesmo”. Para mim, significa “ama a ti mesmo no outro” e é emblemático do modo pelo qual o sujeito ocidental lida com o diferente.

Maçons em evidência?

O moço é maçom? A foto que ilustra o manifesto citado anteriormente é a de Breivik com indumentária de Mestre, embora as informações que chegam são de que ele não passava de um aprendiz. Com certeza, isso dará o que falar, se é que já não está dando.

No Brasil dos 1990, ele talvez pudesse ser ministro por aqui

O moço mostra ser um ferrenho defensor do liberalismo, sem dúvida, pois parece ter entendido bem como funciona esse sistema que se ergue sobre a lógica dos privilégios entre iguais e a exploração dos diferentes, quando não sobre o extermínio destes. Falando em Brasil e em liberalismo, durante o período de 1995 a 2002, Breivik poderia ter sido ministro de Estado aqui. É impressionante a identidade de pensamento dele com alguns dos intelectuais orgânicos que sustentaram o governo da época, embora se deva dizer que os governos que o sucederam não puderam, ou não quiseram, intervir contundentemente sobre a perversidade do sistema do capital. Bem se pode ver que o Brasil perdeu a oportunidade de se tornar uma nação culturalmente desenvolvida, harmônica e produtiva com o prestimoso auxílio desse lunático. Quem sabe Breivik poderia, pelo menos, ser comentarista num telejornal, ou, com um pouquinho de treino, até mesmo um âncora cheio de vergonha.

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Notas

(1) Segundo Perseu Abramo, a imprensa tem um papel para lá de fundamental na formação da consciência do cidadão e, consequentemente, na sua participação democrática. O sujeito pode ter acesso direto ao que acontece na sua casa ou na vizinhança, pois está próximo dos fatos e é, em alguns casos, testemunha direta ou personagem dos acontecimentos. No entanto, com relação ao entendimento do que ocorre fora do seu circuito direto de percepção, depende da versão que o jornalismo lhe fornece. Se esta é uma versão distorcida, geralmente tirada de apenas uma fonte e comprometida com interesses comerciais do veículo, o cidadão forma uma percepção também distorcida dos fatos e tem sua potencialidade de ação política bastante prejudicada.

(2) O Instituto IP2, de Curitiba (PR), realizou pesquisa para saber como pensa a elite brasileira e trabalhou com famílias com renda mensal acima dos R$ 6,5 mil. É um parâmetro econômico de definição, muito embora se formos considerar elite como efetivamente o “escol” da sociedade, teremos que redefinir esse parâmetro e, principalmente, restringi-lo para definir com clareza o limite entre a elite econômica propriamente dita e a elite orgânica, ou seja, aquela ampla faixa populacional que funciona como isolante e escora da elite econômica e política. Por ora, proponho que trabalhemos com o conjunto formado por essas duas fatias para definir o que entendemos como elite aqui, neste texto. Isso se justifica pelo fato de que se nosso interesse é abordar a forma lógica do pensamento dessa gente, pouco será proveitoso operar essa divisão, já que ambas as fatias da elite trabalham com os mesmos vetores lógicos. E também, é claro, torna-se necessário deixar claro que não se pode definir todos os participantes dessa elite como pensando desse modo. Essa forma de interpretar a realidade parece ser, porém, característica subjetiva genérica desse grupo social.

(3) Caco Antibes foi um personagem vivido pelo ator Miguel Falabella num programa humorístico denominado “Sai de Baixo”, transmitido pela TV Globo entre 1996 e 2002. Antibes se dizia “príncipe dinamarquês” e ficou famoso por suas referências pernósticas aos pobres, embora vivesse em estado de penúria, dependente da sogra. É um bom exemplo, ainda que estereotipado, de como pensa a classe média brasileira, baba-ovo da elite “nórdica brasileira”, pobre, mas ostentatória e, é claro, cheia de ódio pelos mais pobres, aos quais atribui propriedades mágicas de contágio do mau-gosto e, enfim, da pobreza. Clique aqui e conheça os 10 sintomas de pobreza destacados pelo filósofo Antibes, sabendo que o pior tipo de pobreza existente é, não há como negar, a de espírito.

Um comentário:

  1. Parabéns luiz geremias vc está quase lá filho!

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