segunda-feira, 4 de julho de 2011

Cuidado com o sol, cuidado com a sombra

Introdução memorial

O sol sempre foi entendido e tratado como nosso amigo, mas sempre houve restrições. Quando era criança, eu passava boa parte do tempo ouvindo que deveria “tomar” sol pela manhã, pois era mais saudável. O sol do meio-dia era proibido, terminantemente. No entanto, só me lembro de ter tomado sol cedo, bem cedo, quando era muito pequeno, meus pais me levavam, ou quando ia às sete da manhã para a praia na intenção de aproveitar as ondas que, segundo diziam, eram as melhores. E fiz isso muito pouco.

O sol existia, para mim, a partir das dez da manhã. Nos tempos de férias escolares, ia a essa hora para a praia e só voltava tarde, às vezes às sete da noite. Não era exatamente o sol que me atraía, mas o mar. Esse era o meu fascínio e eu chegava a acordar de madrugada após pesadelos com ondas. A que vinha “lá trás” era sempre a maior vilã. Há ondas que pareciam ter nascido no outro lado do mundo, tal o tamanho e a distância da praia que escolhiam para “quebrar”. Tomei muito caldo, levei muita “vaca” tentando furá-las ou mesmo “pegá-las” no jacaré. Eram o meu terror e fascínio, as “rainhas”.

O sol sempre estava ali, seja aberto, escaldantemente quente, ou encoberto, quando, por detrás das nuvens, ficava nos assando lentamente. Um dos motivos que me levava a ficar tanto no mar, não o principal, era o sol. Ficar na areia correspondia a me sentir como se um maçarico estivesse, incansavelmente, me fritando. Lembro que me assombrava com aquela gente, geralmente mulheres, que ficava lá na areia quente, lá em cima, longe do mar. O sol era muito quente, a areia muito quente, não havia como sobreviver ali. Mas tinha gente que conseguia, tudo em nome de um belo bronzeado ou de queimaduras que faziam a pessoa pensar em dormir num cabide.

No início do verão, lá pelo meio de dezembro, começava a temporada de praia. E até março, quando voltavam as aulas, eu só vivia na praia. Minha vida era a praia, o sol, o mar. Sempre, nos primeiros dias, eu ficava esturricado de sol. Geralmente vermelho, muito vermelho, depois marrom, até que começavam as bolhas na pele que, em seguida, descascava. Eu nem ligava, queimava de novo, sobre a pele descascada. Aí, não descascava mais. Só ia voltar à cor natural, quando isso acontecia, lá por junho, no inverno.


Corpo: inimigo número 1

Tomei muito sol, nunca passei protetor solar nenhum. Ou, mais precisamente, passei, por insistência de minha amada Karina. Se ela acha que é bom, por que eu não acharia? Mas, não gosto.

Hoje, usar protetor solar é uma obsessão para todos. Trata-se, no meu ponto de vista, da mercantilização dos procedimentos de saúde, sempre havendo um produto para resolver o que o corpo não resolve. Tudo bem, no caso de doenças eu até entendo. Mas não falamos de doença, mas do sol e, para falar delas, toca-se no assunto de forma escandalosa e ameaçadora, no melhor estilo descrito no livro “A Cultura do Medo”, de Barry Glassner. Se você não usar o protetor, envelhecerá mais rapidamente, terá queimaduras terríveis e (ameaça máxima da contemporaneidade) desenvolverá câncer. Somente o protetor te salvará, se usado diariamente, de modo a que você tenha que comprar um a cada dois dias. Este é o sentido mais precioso do protetor, não exatamente a proteção.

E sabemos que está sendo investigada, pelo poder público, a eficácia anunciada por esses produtos, com indícios de fraudes na composição e propaganda enganosa. Em 2009, matéria do paulistano Jornal da Tarde já falava sobre os engodos e, mais recentemente, foi publicada no jornal curitibano Gazeta do Povo reportagem que também dá conta de que as autoridades andam desvendando alguns truques usados para a venda de proteção contra o sol.

Aliás, o que se inventa e comercializa de produtos contra a natureza ou os ciclos naturais não é brincadeira. O corpo parece o nosso inimigo número 1, que o digam as tatuagens e perfurações diversas, além dos contraceptivos e reguladores intestinais.


Dois consumos

Tá certo usar o protetor em casos extremos, quando você viaja para um recanto paradisíaco cheio de sol e com um lindo mar azul. E se você faz isso é, geralmente, porque mora numa cidade na qual o sol só comparece de vez em quando, fica um pouco e parte rapidamente, como médico de serviço público. Aí, você pensa bem e entende que sua pele está mais branca do que neve. Calcula o impacto que a bola de fogo solar terá sobre ela e conclui que pode usar um produto para impedir um estrago acima do esperado. Aí, tudo bem, é consumo consciente. Mas, usar protetor solar todos os dias? Quem sabe renovando a camada a cada meia-hora? Bem, isso é consumo, só.

A diferença entre um tipo de consumo e outro está no fato de que um parte de uma pessoa que adquiriu uma identidade, enquanto o outro é movido por uma pessoa bem identificada com todas as mensagens publicitárias que lhe dizem, a cada minuto, quem ela é ou deve ser. E incluo na publicidade, nesse caso, muitos dos pareceres médicos.

Cuidado com a sombra

Mas, afinal, pobre cidadão urbano. São tantas ameaças, a fumaça do cigarro do vizinho, a gordura trans, transgênicos, coliformes, bactérias, vírus, hormônios, a violência, o fisco, o rapa, o Talarico e, finalmente, o sol. Parece preciso monitorar essas ameaças e convertê-las em fonte de recursos para a criação de novas ameaças e soluções, num moto contínuo. Assim se move o capitalismo pós-industrial. Agindo no mote da produção destrutiva, gere o medo como forma de infantilizar e, com isso, consegue vender seus produtos a pessoas que parecem andar precavidas contra a própria sombra.

Afinal, pense, é graças a você que a sua sombra não toma sol. É você quem compra um suprimento de protetores, se expõe às radiações ultravioleta, enfrenta os raios UVA e UVB e ela ali, sempre atrás, sem riscos, livre do câncer de pele.

O problema é que quando alguém começa a pensar assim, seja em relação a sombras ou pessoas, é sinal de que já se transformou numa sombra de si mesmo.

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