domingo, 3 de julho de 2011

Com brutalidade, dor e muita culpa, gays e homofóbicos parecem se harmonizar numa relação sadomasoquista

O que chama a atenção nas atitudes do homofóbico é o fato desse sujeito estar muito interessado no que as outras pessoas fazem com seus respectivos órgãos sexuais, onde os enfiam e que outras partes do corpo utilizam para obter prazer. Em alguns casos, isso pode se transformar numa obsessão.

Sou simpático à noção de Nelson Rodrigues, que dizia que se soubéssemos detalhes da vida sexual uns dos outros, sequer nos cumprimentaríamos na rua. Há coisas que ficam melhores se mantidas em razoável discrição e nesse tema costumo pensar que não vale a pena ficar debatendo assuntos que dizem respeito unicamente ao indivíduo. Não me interessa o que o vizinho faz com o seu corpo ou com partes dele. Isso é assunto dele e de quem compartilhe de sua intimidade. Se a alguém mais interessa esse assunto, é caso de refletir sobre o porquê.

Percebo que a contemporaneidade traz um intensivo interesse coletivo acerca do que uns e outros fazem sexualmente, como se a sexualidade fosse um tipo de definidora da essência da pessoa, de sua personalidade. Michel Foucault já traçou uma crítica categórica sobre esse equívoco, mostrando o quanto essa ligação direta entre sexo e identidade atende a interesses de controle subjetivo. O sexo, tomado como definidor da identidade, funciona apenas como instrumento de agenciamento, de aprisionamento do sujeito nas teias de um discurso político que o mantém sob vigilância panóptica, no mesmo movimento em que lhe promete a liberdade de expressão.

Uma relação perversa

Há um tema, porém, que me chama a atenção e se refere diretamente à relação perversa estabelecida entre homofóbicos e gays. E, antes de entrar no mérito da questão, proponho uma definição do que seja uma “relação perversa”, com o intuito de facilitar o entendimento do que pretendo propor para debate.

Uma relação perversa é aquela em que há a recusa da triangulação edípica, o que significa dizer que as partes não aceitam a intermediação de um elemento normativo na relação em que estão envolvidas. Fecham-se no seu conluio, reforçando mutuamente a crença na onipotência de suas fantasias, que nem sempre são equiparáveis por semelhança tópica, como no caso dos homofóbicos e dos gays. Eles estruturam um relacionamento com elementos de significação díspares que, no entanto, guardam inegável semelhança se focados como uma simples oposição narcísica que afirma enquanto nega, ou seja, que reconhece a existência do outro, negando-a peremptoriamente.

Assim sendo, constitui-se como uma relação em que não há registro do real e, assim, não oferece maturação nem aprendizado. O perverso se caracteriza pela escolha objetal do tipo homossexual, isto é, representa a si próprio em outra pessoa, como se esta fosse apenas um depósito para o seu narcisismo. Ao negar a existência do triângulo edípico e, assim, também recusar a existência do outro, o perverso anula a si mesmo.

Intimidade patológica

Homofóbicos e gays tem se relacionado, via de regra, de forma perversa, no molde descrito acima. Tome-se, num lado, o caso do homem que se incomoda obsessivamente com o que os outros homens fazem com o ânus e, do outro lado, o homem que, além de usar o orifício anal para fins de prazer sexual, tende a, também obsessivamente, alardear sua identidade sexual e, não raro, tenta propagandear sua opção como a melhor, caso haja espaço e público para isso. Nesse sentido, esclareço que chamo aqui de “gay” não exatamente o homem que assume publicamente sua preferência homossexual, mas o que faz propaganda do modo como manifesta sua sexualidade, usando-o como bandeira de inserção social e mesmo de poder político.

Há, entre gays e homofóbicos, uma interação perversa, uma aliança corrupta entre agressor e vítima, sendo que estes papéis se alternam. O gay agride o homofóbico com a violência implícita em seus trejeitos e este responde também agredindo, geralmente com violência explícita. Por sua vez, aparentemente, o gay geralmente expõe e potencializa suas momices em reação a uma sociedade que classifica de discriminatória, da qual os homofóbicos parecem querer assumir o papel de guardiões de um certo moralismo de caráter repressor e punitivo. Cabe lembrar aqui que Baudrillard espertamente afirma que é preciso não apenas reconhecer, mas principalmente idolatrar as regras, leis e normas para ir contra elas. E, da mesma forma, é fato que o desviante é reconhecido e, em certos casos, enfaticamente incensado exatamente por ir contra. Sua identidade, não raro, depende disso.

Falo, como se pode ver, de um círculo vicioso no qual os polos se movimentam sempre no mesmo percurso, caracterizando uma relação entre iguais, permeada pelas dificuldades de ambos, que determinam a qualidade patológica dessa intimidade.

Vigilância obsessiva

Uma forma de entender psicologicamente a questão é aquela em que se deduz que o homofóbico se sente agredido com a publicidade gay, pois parece claro que vive em função de evitar que alguém se aproxime dele por trás. E se vive em função dessa prevenção, provavelmente há um grande desejo inconfesso de que isso aconteça. Por seu lado, não me parece absurdo supor que o gay adota, por vezes, algumas posturas agressivamente provocativas para purgar o incômodo que sente por não ser mais corajoso e encarar as questões de sua sexualidade de frente. Mas, em seu discurso, afirma fazer isso por exigir um espaço de expressão e, parece claro, para impor sua identidade aos demais, pois se entende diferente e injustiçado.

Por outro lado, o homofóbico revida a provocação agredindo do modo que pode: viril e fisicamente, como um animal acuado. Quer machucar aquele que, no fim das contas, mostra o que ele prefere não ver: que sua virilidade é forjada sobre a revolta contra seus desejos de submissão a um igual imaginário que é bem mais forte e poderoso que ele e, todo o tempo, o ameaça. Na teoria clássica psicanalítica, essa figura pode ser identificada e descrita como a figura paterna, ou, mais precisamente, como uma figura masculinizada difusamente percebida, que bem pode ser uma mãe fálica.

Por seu lado, o gay, que acaba sendo barbaramente agredido, não pode esquecer que teve lá sua participação na própria desgraça, embora isso de forma alguma justifique a agressão do homofóbico. De certo modo, é possível arriscar dizer que, apesar da barbaridade, há um ganho para essa vítima. O homofóbico lhe reassegura que se importa com ele, tanto que lhe “acarinha” com tanta força. E tudo indica que o gay gosta muito de ser reconhecido e se destacar. Não fosse assim, para que tantas manifestações ostensivas de sua forma de exercer a sexualidade?

Prazer paradoxal

Não é absurdo imaginar que talvez o gay fique paradoxalmente satisfeito quando é agredido, já que alardeia tanto sua identidade sexual e parece viver a convocar os demais para reconhecê-la e mesmo compartilhá-la. E ninguém o reconhece com tanta ênfase quanto o homofóbico, assim como talvez não haja ninguém que leve tão a sério suas proposições.

Se o gay age assim, tudo indica que é porque espera reações, parece lógico. E se elas chegam, devem causar alguma satisfação, ainda que sejam grosseiras e causem feridas graves e, em alguns casos, mesmo a morte. Afinal, é simplório demais supor que somente sentimos satisfação com boas companhias e agradáveis sensações. Se isso fosse verdade, não se poderia sequer imaginar o masoquismo.

Tanto o gay propagandista de suas preferências sexuais quanto o homofóbico parecem viver em perfeita harmonia na desarmonia. Tomar partido de um ou outro é tão estúpido quanto procurar alguma razão numa discussão entre torcedores de futebol de clubes rivais. O que se pode fazer é, no máximo, tentar evitar que se agridam tanto e passem a pensar mais sobre o que fazem. É melhor deixar que vivam suas vidas limitadas e resumidas à identidade sexual exposta nas ruas. É o máximo que parecem poder fazer. E, assim, vão vivendo esse estranho amor.


Post-scriptum

Como visto, restrinjo aqui esta reflexão aos homens. As mulheres merecem outro capítulo. Não sei bem ainda se se tornam lésbicas realmente por opção, por absoluta desilusão com o baixo nível dos homens que encontram ou se há outros motivos, geralmente inconfessos, nessa escolha. Na verdade, não há como negar que os homens têm se assemelhado, quase todos, aos personagens dos comerciais dos fabricantes de cerveja. Ou seja, a oligofrênicos fálicos. 

De todo modo, não é possível simplesmente apagar as peculiaridades de manifestação presentes em todos os tipos abordados aqui. É preciso guardar completo e sincero respeito por toda e qualquer expressão humana e lembrar que nunca temos qualquer razão preconcebida para dizer como a vida deve ser para outra pessoa. E de modo algum se pode consentir que os incomodados machões homofóbicos continuem a esconder sua homossexualidade agredindo aqueles que a expõem. Mas, do mesmo modo, é preciso refletir um pouco sobre a relação sadomasoquista que une essas duas identidades e pensar um pouco sobre a participação do autoproclamado militante gay no seu processo de martirização.

Um homossexual que conheci, ator de teatro, não gostava dos gays. Ele entendia que, apesar de muito divertidos, eles atraíam muito ódio para a sua “classe”, como gostava de dizer. “Não é preciso sair por aí proclamando que o que faço na cama é bom”, explicava. “Eu sei que é bom, o meu bofe também sabe. Para que alguém mais precisa saber disso?”, dizia, sabiamente.

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