quinta-feira, 14 de julho de 2011

Ama a ti mesmo no outro

Arte de Pedro Medeiros, que tem coisas interessantes no http://thelectricafe.blogspot.com/.
Jose Imbelloni foi um intelectual italiano que se radicou na Argentina, tendo ali chegado como correspondente da imprensa e, após um breve retorno à Itália (onde concluiu seus estudos em Ciências Naturais e Antropologia), ocupando uma cadeira na Faculdade de Filosofia e Letras de Buenos Aires. Tem um livro clássico e interessantíssimo, Epítome de Culturologia, que, como o título indica, é composto das noções básicas da antropologia do século XIX e início do XX de forma sucinta, mas não descuidada, e com análises críticas imperdíveis.

Ele chama a atenção para o fato de que a natureza tem caminhos próprios e não pode ser substituída pela "curta e simples" lógica humana. E isso pode abrir caminho para pensar a fúria contemporânea em regular e adornar o corpo, quase que afogando-o sob piercings e tatuagens, combatendo a natureza que rege a corporeidade com anticoncepcionais, moderadores de apetite e outras drogas legalizadas. Eagleton marca a semelhança entre o racionalismo, posto em seu devido lugar por Imbelloni, e as práticas corporais citadas. Para ele, desviar o Mississipi e pôr um piercing no nariz são duas ações que fazem parte do mesmo contexto simbólico.

Imbelloni mostra como a antropologia por muito tempo compreendeu a evolução da cultura de um modo esquemático e linear. No topo da lógica evolucionista, o homem branco europeu, quase uma referência deificada no pensamento ocidental. 

Esquemática da evolução

A economia, por exemplo, tinha seu esquema evolutivo, assim como a família e a religião. Os primeiros homens seriam caçadores e não tinham residência fixa, passando, em seguida, para o pastoreio, quando buscariam preservar a vida dos animais capturados e, assim, facilitar o acesso aos benefícios que estes ofereciam. O pastor ainda podia ser considerado um errante, não tanto como o caçador, é certo, marcando a diferença entre a errância e o nomadismo. A fixação de residência vem com a agricultura. Todos os povos, toda a humanidade teria passado, inequivocamente, por esse ciclo.

No caso da família, o início de tudo era a total e completa promiscuidade. O estágio seguinte seria o de matrimônio em grupos que, graças ao princípio do pater incertus, mater certa, tinha a formulação do direito de sucessão pela linhagem materna, o que caracterizava o matriarcado. A rebelião contra o poder das mulheres, expressa na revolta à poliandria, faz surgir o patriarcado e, como afirma Imbelloni, os primeiros antropólogos tinham a firme crença de que onde há patriarcado, um dia houve um matriarcado destronado. A primeira fase do patriarcado admitiria a poligamia, mas a depuração qualitativa levaria à monogamia.

Com relação à religião, o estado humano mais primitivo seria a de um total e completo ateísmo. Sequencialmente, surgem adorações pontuais, como o fetichismo, o naturismo, o xamanismo e a idolatria, que precedem a identificação da deidade com a figura humana. Essa forma de culto seria, em primeiro lugar, politeísta e, evolutivamente, se tornaria monoteísta. 

Bárbaros não são amáveis

Assim, sequência a sequência, se daria o processo civilizatório. Parece simples, até demais. Simplório, diria Imbelloni. Ele mostra que concepções absurdas, como a da necessidade de negação do matriarcado para a assunção do patriarcado ou como a noção de que haveria um período de total e absoluto ateísmo, apesar de terem sido levadas a sério por tanto tempo, queriam apenas confirmar a utópica crença humana numa ordem lógica que determinaria a supremacia da razão, apanágio do homem branco europeu.

Todo e qualquer ser que não tivesse endereço e parceiro sexual fixo, além, é claro, de cultuar a um só Deus acima de todas as coisas, receberia o rótulo de primitivo ou bárbaro, aquele que não fala, balbucia, aquele que nem sequer pode ser considerado humano. Seria bem aceito apenas com a conversão, o matrimônio e residência onde pudesse ser localizado. Ainda assim seria eternamente um inferior, um animal que aceitou a domesticação, mas jamais poderia se dizer plenamente civilizado, sua raiz sempre o trairia. Fora isso, teria lugar nos zoológicos humanos que circulavam pelas vilas.

Cabe pensar, aqui, nas fantasias que a inteligência europeia construiu a fim de justificar a pretensão, herdada de gregos e romanos, de ser universal. O problema é, como sempre foi, que a universalidade somente se pode realizar com a negação do Outro, manifesta claramente no dito cristão “ama o próximo como a ti mesmo”. A cultura europeia se afigura, assim, como uma vasta e complexa articulação em torno de um “eu mesmo” cuja circunferência está em todo lugar e o centro não está em lugar nenhum.

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