quinta-feira, 28 de julho de 2011

Esse tal Breivik e a elite nórdica tupiniquim

Artigo de Julinho da Adelaide

A imprensa nacional tomou o cuidado de dar ampla cobertura às ideias que Anders Behring Breivik – aquele imbecil que matou quase cem pessoas na Noruega há pouco menos de uma semana – tem sobre o Brasil, mas o fez, como sempre, sem olhar a conjuntura em que esse fato se insere. Como sempre, o acontecimento parece isolado de tudo, solto no espaço e no tempo e singularmente nascido do acaso. A imprensa se limita a relatar as sandices publicadas pelo assassino, sem prestar o serviço de informar ao leitor que essas mesmas maluquices são defendidas por muita gente, incluindo algumas pessoas “de bem” de nossa sociedade (1).

Não falamos de malfeitores, mas de cidadãos tementes a Deus e, acima de tudo, geralmente bem instruídos e amantes de boa cultura. Na verdade, o pudor leva muitos a não defender claramente o mesmo que Breivik, mas que têm na vida a mesma práxis perversa, isso parece inegável. Por exemplo, revoltam-se com qualquer menção ao nazismo e o holocausto, mas sequer se indignam quando o assunto é a escravidão de africanos, a vida subumana de populações rurais etc. Quando ouvem falar do Movimento dos Sem-Terra, fazem o sinal da cruz e torcem o nariz. Para eles, pobre que não fica quieto, que não se curva, tem mais é que levar bala, como prova e comprova o apoio ao extermínio nas favelas.

Falando em imprensa, o pior é constatar que, no máximo, os apresentadores de telejornais franzem severamente os cenhos e afirmam que o assassino estava sob vigilância e, mesmo assim, conseguiu cometer os crimes, sugerindo, como costuma acontecer nos noticiários, que tudo poderia ser evitado com maior vigilância. E não é que as pessoas acreditam nisso?

Sem diferenças

O facínora norueguês publicou um texto bem grande (1,5 mil páginas) na internet em que condena a miscigenação e tece uma delirante exaltação da pureza étnica e do conservadorismo político. O Brasil entra nessa história apenas como um exemplo de insucesso político e econômico por conta da mistura entre raças. Para Breivik, o mundo seria melhor sem negros, amarelos ou árabes e, é claro, sem o Brasil. O mundo ideal de Breivik é aquele no qual apenas Breiviks andam pelas ruas. É o tipo de sujeito que se casaria, sem problemas, com um espelho, se é que já não fez isso.
Ele é seu vizinho no Facebook

O texto, um manifesto, tem o título "2083 – Uma Declaração Europeia de Independência" e foi publicado sob o pseudônimo Andrew Berwick. O assassino cita o Brasil miscigenado como exemplo de corrupção e falta de produtividade, sem talvez saber que o modelo corrupto brasileiro é adotado essencialmente pela “elite nórdica” do país, aquela que se acredita mais sueca e norueguesa do que brasileira e detesta negros, asiáticos e árabes tanto quanto ele (2).

O caso brasileiro é interessantíssimo. Aqui não há preconceito, sempre ouvi dizer. Mas também ouvi porteiros de edifícios mandar pessoas negras subirem pelo elevador de serviço, mesmo quando não estavam “à serviço” e soube de um episódio prosaico e escabroso, conhecido como “A guerra do pente” e que aconteceu na cidade de Curitiba em 1959, há pouco mais de meio século, quando toda a cidade se voltou contra os chamados “turcos” por conta de um pequeno incidente envolvendo um pente. Na ocasião, a revolta popular foi tão intensa que o exército teve que literalmente ocupar a cidade. Na prática, a teoria da miscigenação brasileira é outra, pelo menos para uma parcela da população, em grande parte aquela que clama constantemente por “paz”.

O maníaco Breivik ainda diz acreditar que produtividade e harmonia são apanágios das nações nas quais não há mistura, o que corresponde dizer que para ser produtivo e harmônico é necessário banir toda diferença. Aliás, tornou-se regra pensar assim. É tão automático que ninguém mais reflete: diferente só é aceito se fantasiado de diferente e, é claro, inserido no mercado.

Culto à destruição

Ele acredita que para atingir a prosperidade um país deve banir o Islã, ser etnicamente homogêneo, promover políticas culturais conservadoras e nacionalistas, educar sua população e praticar o protecionismo financeiro e a política do livre mercado, mas livre apenas entre iguais, ou seja, entre “países conservadores” (sic), leia-se, é claro, países europeus, brancos, com a pele sensível ao sol e que não deveria, jamais, se envolver com o rebotalho.

E você sabe por que alguém como Breivik ou qualquer um dos que pensam como ele (embora não saiam por aí atirando nos outros, graças a Deus) odeia tanto os superficialmente diferentes? Simplesmente porque os imagina melhores e não suporta pensar que possa haver algo bom no mundo. Se há, então é preciso destruir. Melanie Klein chamaria isso de “inveja”.

Até o Comando Vermelho está no mercado

Em outra roupagem, Breivik é uma espécie de Caco Antibes (3) que saiu do set de filmagem para ganhar vida real e fazer todas as asneiras próprias de alguém que professa ideais de pureza étnica. Ele, aliás, se entende como um profissional de marketing, pois afirma que fez todas aquelas barbaridades para divulgar e promover seus delírios direitistas. É incrível como a lógica do mercado se espalhou e se impôs como modelo. Em 2003, no Rio de Janeiro, o Comando Vermelho (CV) promoveu um massacre numa casa de detenção localizada no bairro de Benfica, no qual dezenas de jovens delinquentes foram assassinados com requintes de crueldade e com grande impacto visual, apenas para “fazer marketing”, ou seja, reforçar a marca CV, como faria qualquer empresa. Como bem se pode ver, a mentalidade organizacional fez escola.
Fallabella em seu hilariante personagem

O que é preciso ser dito é que Breivik é apenas mais um lunático defensor de ideais muito semelhantes aos que sustentam pensamentos e ações da direita em todo o mundo, como dito por Flavio Aguiar, em texto publicado neste blog (http://luizgeremias.blogspot.com/2011/07/inferno-na-noruega-e-obra-da-direita.html). Não é algo tão distante da realidade pensar que há uma incômoda semelhança entre o pensamento de Breivik, exposto em seu manifesto, e a linha editorial da revista Veja, por exemplo, que não é mais do que uma formulação emblemática do ideário da elite nacional. Menos longe do real está quem comparar o ideário do norueguês com a práxis dos Estados Unidos na política internacional. Quem invade um país e promove uma chacina para simplesmente de lá extrair petróleo comete um crime infinitamente mais horrendo do que o de Breivik. E pior, quem faz isso e se diz defensor dos que assassinou é simplesmente uma criatura monstruosa.

Paz hollywoodiana

Boa parte da nossa brava elite gostaria de exterminar toda e qualquer diferença e transformar o Brasil numa Noruega, livre de gentalha como pobres, pretos, árabes etc. Ou, quem sabe, viver em um filme hollywoodiano, no qual somente haja bucólicas casas de subúrbio com grandes e verdes gramados, um belo carro na garagem e a bandeira listrada e estrelada tremulando sobre todos, garantindo a segurança e a paz dos homens de boa vontade. E o pior é que essa forma estereotipada e medíocre de pensar espraia seu contágio para muito além das cercas eletrificadas das elites.

São essas coisas que os jornais, telejornais e informativos de rádio não comentam. Pelo contrário. Segundo Aguiar, “Ainda na sexta-feira, quando tudo era nebuloso no atentado (falava-se em apenas 4 mortos na ilha de Utoya), prestigioso periódico brasileiro publicou uma lista de possíveis grupos suspeitos pelo atentado: todos os nomes eram islâmicos”.

É preciso dizer mais alguma coisa?

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Do trivial

Carecas ocas

Breivik parece ser mais um desses lunáticos perigosos que acreditam que a pureza étnica é fundamental para o progresso humano, noção que acalentou, na primeira metade do século XX, os devaneios doentios de fascistas e nazistas. Hoje, continua dando sustentação a outros oligofrênicos de menor monta, como os grupelhos urbanos de inspiração nazista que recebem entre nós o apelido de “carecas”. Aliás, chamá-los assim implica o reconhecimento de que há uma cabeça em que, externamente, não há nada e na qual, internamente, ocorre o mesmo fenômeno.

Apesar de deplorarem os homossexuais e, por vezes, chegarem a agredi-los fisicamente, os “carecas” cultuam a semelhança e não conseguem se excitar com a diferença. Por isso, são fetichistas e se enchem de tatuagens, além de outros ornamentos e indumentárias bizarras. Todavia, é bom deixar claro que essas macaquices não são privilégio dos tais carecas, contaminando também diversas outras tribos urbanas.

Ama a ti mesmo no outro (pois essa é função dele)

Por outro lado, definir o monstruoso imbecil Breivik como cristão é algo a ser pensado. Não é o cristianismo a doutrina a pregar a tolerância com o outro? Não é o cristianismo a doutrina que segue o Novo Testamento, no qual há o belíssimo Sermão da Montanha, no qual o que é proposto é o oferecimento da outra face a quem nos esbofeteou? Como podem os seguidores dessa filosofia ser nazistas? Mas, o curioso é que muitos o são e muitos são os cristãos que defendem barbáries.

Por algumas vezes, aqui neste blog, já comentei o dito “ama o próximo como a ti mesmo”. Para mim, significa “ama a ti mesmo no outro” e é emblemático do modo pelo qual o sujeito ocidental lida com o diferente.

Maçons em evidência?

O moço é maçom? A foto que ilustra o manifesto citado anteriormente é a de Breivik com indumentária de Mestre, embora as informações que chegam são de que ele não passava de um aprendiz. Com certeza, isso dará o que falar, se é que já não está dando.

No Brasil dos 1990, ele talvez pudesse ser ministro por aqui

O moço mostra ser um ferrenho defensor do liberalismo, sem dúvida, pois parece ter entendido bem como funciona esse sistema que se ergue sobre a lógica dos privilégios entre iguais e a exploração dos diferentes, quando não sobre o extermínio destes. Falando em Brasil e em liberalismo, durante o período de 1995 a 2002, Breivik poderia ter sido ministro de Estado aqui. É impressionante a identidade de pensamento dele com alguns dos intelectuais orgânicos que sustentaram o governo da época, embora se deva dizer que os governos que o sucederam não puderam, ou não quiseram, intervir contundentemente sobre a perversidade do sistema do capital. Bem se pode ver que o Brasil perdeu a oportunidade de se tornar uma nação culturalmente desenvolvida, harmônica e produtiva com o prestimoso auxílio desse lunático. Quem sabe Breivik poderia, pelo menos, ser comentarista num telejornal, ou, com um pouquinho de treino, até mesmo um âncora cheio de vergonha.

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Notas

(1) Segundo Perseu Abramo, a imprensa tem um papel para lá de fundamental na formação da consciência do cidadão e, consequentemente, na sua participação democrática. O sujeito pode ter acesso direto ao que acontece na sua casa ou na vizinhança, pois está próximo dos fatos e é, em alguns casos, testemunha direta ou personagem dos acontecimentos. No entanto, com relação ao entendimento do que ocorre fora do seu circuito direto de percepção, depende da versão que o jornalismo lhe fornece. Se esta é uma versão distorcida, geralmente tirada de apenas uma fonte e comprometida com interesses comerciais do veículo, o cidadão forma uma percepção também distorcida dos fatos e tem sua potencialidade de ação política bastante prejudicada.

(2) O Instituto IP2, de Curitiba (PR), realizou pesquisa para saber como pensa a elite brasileira e trabalhou com famílias com renda mensal acima dos R$ 6,5 mil. É um parâmetro econômico de definição, muito embora se formos considerar elite como efetivamente o “escol” da sociedade, teremos que redefinir esse parâmetro e, principalmente, restringi-lo para definir com clareza o limite entre a elite econômica propriamente dita e a elite orgânica, ou seja, aquela ampla faixa populacional que funciona como isolante e escora da elite econômica e política. Por ora, proponho que trabalhemos com o conjunto formado por essas duas fatias para definir o que entendemos como elite aqui, neste texto. Isso se justifica pelo fato de que se nosso interesse é abordar a forma lógica do pensamento dessa gente, pouco será proveitoso operar essa divisão, já que ambas as fatias da elite trabalham com os mesmos vetores lógicos. E também, é claro, torna-se necessário deixar claro que não se pode definir todos os participantes dessa elite como pensando desse modo. Essa forma de interpretar a realidade parece ser, porém, característica subjetiva genérica desse grupo social.

(3) Caco Antibes foi um personagem vivido pelo ator Miguel Falabella num programa humorístico denominado “Sai de Baixo”, transmitido pela TV Globo entre 1996 e 2002. Antibes se dizia “príncipe dinamarquês” e ficou famoso por suas referências pernósticas aos pobres, embora vivesse em estado de penúria, dependente da sogra. É um bom exemplo, ainda que estereotipado, de como pensa a classe média brasileira, baba-ovo da elite “nórdica brasileira”, pobre, mas ostentatória e, é claro, cheia de ódio pelos mais pobres, aos quais atribui propriedades mágicas de contágio do mau-gosto e, enfim, da pobreza. Clique aqui e conheça os 10 sintomas de pobreza destacados pelo filósofo Antibes, sabendo que o pior tipo de pobreza existente é, não há como negar, a de espírito.

terça-feira, 26 de julho de 2011

Inferno na Noruega é obra da direita

Por Flavio Aguiar, na Rede Brasil Atual:

Ainda não se sabe direito o que aconteceu (redijo esse post às 10h45 do sábado, 23, hora de Berlim, 05h45 em Brasília), mas já se sabe que foi à direita.

Primeiro, pelas 15h30 da tarde de sexta-feira, 22, uma bomba poderosíssima explodiu no centro de Oslo, matando 7 pessoas e ferindo gravemente dezenas.

Uma hora e meia/duas horas depois, um homem disfarçado de policial adentrou numa ilha (Utoya) perto da capital norueguesa. A ilha estava repleta de jovens: era um acampamento da juventude do Partido Trabalhista da Noruega, no governo. Neste sábado pela manhã o primeiro ministro noruguês deveria se dirigir a eles.

O suposto policial alegou estar averiguando a segurança da ilha, depois do atentado no centro da cidade. Chamou os jovens para perto de si. Quando vários atenderam o seu chamado, ele tirou pelo menos três armas da mochila e começou a atirar. Alguns dos jovens conseguiram chamar a polícia pelos celulares. Muitos correram para dentro d'água e começaram a nadar. Depois de fazer uma carnificina em terra, o "policial" foi para as margens e começou a atirar naqueles que estavam dentro d'água. Há uma foto na internet dele atirando, nesse momento, já cercado por cadáveres em terra. É horripilante.

Não dá para dissociar os ataques do clima pesado que a direita vem semeando na Europa inteira, contra imigrantes, multi-culturalismo, Islã, islamismo, árabes, africanos e até latino-americanos, de rebarba
Nesta manhã de sábado já foram encontrados 84 cadáveres na ilha, elevando o total de mortos para 91.

O suposto policial foi preso na ilha, e sua identidade (a polícia o trata como suspeito) revelada como sendo Anders Behring Breivik, de 32 anos. É caracterizado como "cristão-conservador", manifestou opiniões de extrema-direita, aqui na Europa ditas "nacionalistas", contra o "ïnternacionalismo multi-cultural". Até o momento não há indícios sobre outros participantes no atentado, embora seja difícil (mas não impossível) que ele tenha atuado sozinho. Nos últimos tempos trabalhava como chacareiro e dessa forma tinha acesso à compra de uma série de produtos químicos para fabricação de fertilizantes, que também poderiam ser usados para fabricar explosivos.

Não dá para dissociar os ataques do clima pesado que a direita vem semeando na Europa inteira, contra imigrantes, multi-culturalismo, Islã, islamismo, árabes, africanos e até latino-americanos, de rebarba. Essa pregação parte de e pode gerar desde políticos espertos e oportunistas, como Geert Wilders, da Holanda, pregadores burocráticos como Thylo Sarrazin, na Alemanha, partidos anti-europeus como o dos Verdadeiros Finlandeses (no governo), na Finlândia, líderes repressivos como Victor Orban (primeiro ministro e no ano que passou presidente da União Européia), da Hungria, e... fanáticos amalucados como Anders Behring. É de arrepiar.

O clima está pesado e temeroso na Europa inteira.

Ao mesmo tempo, devo assinalar esse fato singular. Ainda na sexta-feira, quando tudo era nebuloso no atentado (falava-se em apenas 4 mortos na ilha de Utoya), prestigioso periódico brasileiro publicou uma lista de possíveis grupos suspeitos pelo atentado: todos os nomes eram islâmicos.

http://altamiroborges.blogspot.com/2011/07/inferno-na-noruega-e-obra-da-direita.html?spref=tw

Entenda o impasse em torno da dívida americana

Alessandra Corrêa, da BBC Brasil em Washington

Há meses a Casa Branca e o Congresso estão envolvidos em negociações para chegar a um acordo que permita elevar o teto da dívida pública dos EUA e, assim, evitar o risco de calote.

Nas últimas semanas, o presidente Barack Obama e líderes dos dois partidos – Democrata e Republicano – vêm se reunindo quase diariamente, mas ainda não conseguiram solucionar o impasse.

O governo diz que, caso não haja acordo até 2 de agosto, os Estados Unidos terão de, pela primeira vez, deixar de cumprir seus compromissos financeiros. Analistas, no entanto, apostam em uma solução antes disso.

Veja detalhes sobre os principais pontos da discussão.

Os republicanos se recusam a aceitar qualquer proposta que inclua aumento de impostos. Obama, no entanto, insiste na necessidade de acabar com cortes de impostos que beneficiam a camada mais rica da população, criados ainda no governo de George W. Bush
Qual o motivo da negociação?

O governo americano precisa que o Congresso autorize uma elevação do teto de endividamento público para poder continuar cumprindo seus compromissos financeiros.

Os Estados Unidos atingiram seu limite legal de endividamento público – de US$ 14,3 trilhões (cerca de R$ 22,3 trilhões) – no último dia 16 de maio.

Na ocasião, o secretário do Tesouro, Timothy Geithner, anunciou medidas temporárias, como a suspensão de investimentos em fundos de pensão públicos, para evitar que a dívida ultrapasse esse limite.

No entanto, segundo o governo, essas medidas temporárias só conseguirão ter efeito até 2 de agosto. A partir dessa data, caso o teto não seja elevado, o governo não terá mais dinheiro e precisará parar de pagar algumas obrigações financeiras.

Esta é a primeira vez que Casa Branca e Congresso precisam negociar uma elevação do teto da dívida?

Não. A renegociação do teto da dívida é comum no país e é realizada periodicamente.

Ao contrário de outros países, onde o endividamento aumenta automaticamente à medida que os gastos superam a arrecadação, a legislação americana estabelece desde 1917 um limite legal de endividamento público.

Na época, o teto era de US$ 11,5 bilhões, mas englobava diferentes categorias de empréstimo com diferentes limites. O teto da dívida no formato atual foi estabelecido em 1939 e, desde então foi elevado cerca de cem vezes.

Na última década, o Congresso já elevou o teto da dívida dez vezes. É comum haver impasse nessas negociações, opondo democratas e republicanos.

Qual o principal impasse na negociação atual?

A oposição republicana, que controla a Câmara dos Representantes (deputados federais), exige que um acordo para elevar o teto da dívida seja vinculado a cortes no orçamento americano, para reduzir o déficit recorde, calculado em cerca de US$ 1,5 trilhão (R$ 2,3 trilhões) para o ano fiscal que termina em setembro.

Apesar de representantes de ambos os partidos concordarem com a necessidade de reduzir gastos, há muitas divergências sobre o que cortar e que programas atingir.

Os republicanos se recusam a aceitar qualquer proposta que inclua aumento de impostos. Obama, no entanto, insiste na necessidade de acabar com cortes de impostos que beneficiam a camada mais rica da população, criados ainda no governo de George W. Bush.

Os democratas, por outro lado, relutam em tocar em programas sociais que os republicanos querem enxugar.

Quais as principais propostas em discussão?

Diversas propostas já foram discutidas sem sinal de acordo. Na última semana, dois projetos ganharam maior atenção.

Em 19 de julho, a Câmara dos Representantes aprovou uma proposta chamada de “Cut, Cap and Balance” (algo como “cortar, limitar e equilibrar”, em tradução livre) que, entre outros pontos, inclui cortes imediatos em programas sociais do governo e limita gastos futuros a menos de 20% do PIB (Produto Interno Bruto) americano.

A proposta também condiciona a elevação do teto da dívida em US$ 2,4 trilhões à aprovação de uma emenda constitucional que estabeleça novas regras de equilíbrio orçamentário.

Segundo analistas, essa proposta tem valor mais simbólico, já que dificilmente será aprovada pelo Senado, onde os democratas são maioria. Obama também já avisou que vetará o projeto caso chegue à sua mesa.

O presidente apoia outra proposta, articulada por um grupo de três senadores democratas e três republicanos (batizado de “Gangue dos Seis”), que prevê o corte de US$ 3,7 trilhões no Orçamento nos próximos dez anos por meio de um conjunto de medidas que inclui redução de gastos militares e cortes em alguns programas sociais, mas também aumento de arrecação.

Caso não haja acordo, que contas o governo deixaria de pagar?

Se o teto da dívida não for elevado e o governo ficar sem dinheiro e sem poder captar mais empréstimos, ele será obrigado a escolher que compromissos financeiros deixar de cumprir.

Analistas afirmam que o governo teria de cortar 44% dos gastos imediatamente, além de cortes subsequentes.

O calote pode afetar tanto credores externos quando despesas domésticas, como o pagamento de benefícios sociais, salários de militares e veteranos e servidores públicos e empréstimos estudantis.

Quem são os credores do governo americano?

Dos US$ 14,3 trilhões da dívida americana, um total de US$ 4,6 trilhões estão nas mãos do próprio governo, emprestados de fundos de Seguridade Social.

Os US$ 9,7 trilhões restantes são devidos a investidores em títulos do Tesouro, que podem ser tanto pessoas físicas quanto empresas, governos, bancos e fundos de pensão. Cerca da metade desse montante está em poder de credores estrangeiros.

Segundo dados divulgados pelo Departamento do Tesouro relativos a maio, o Brasil é o quinto maior credor estrangeiro da dívida americana, com US$ 211,4 bilhões (cerca de R$ 330 bilhões, ou quase dois terços das reservas internacionais) aplicados em títulos do governo.

O maior credor estrangeiro é a China, com US$ 1,16 trilhão, seguida por Japão, Grã-Bretanha e um grupo de países exportadores de petróleo.

Qual a real possibilidade de calote?

Apesar dos alertas feitos pelo governo americano de que terá de deixar de pagar suas contas caso o teto da dívida não seja elevado até 2 de agosto, a possibilidade de calote é considerada remota por diversos analistas.

Segundo eles, mesmo que o impasse se estenda até o início de agosto, a probabilidade é de que haja um acordo antes do prazo final ou, na pior das hipóteses, imediatamente após o prazo estourar.

Caso realmente haja calote, qual seria o impacto?

Obama vem advertindo há várias semanas para as consequências “significativas e imprevisíveis” que um calote teria para a economia americana e já disse que há o risco de o país mergulhar em nova recessão.

Em junho, em um relatório sobre os Estados Unidos, o FMI (Fundo Monetário Internacional) disse que a dívida estava em uma “trajetória insustentável” e que um fracasso nas negociações no Congresso causaria “choques severos” na recuperação ainda frágil da economia americana.

As principais agências de classificação de risco já alertaram para a possibilidade de rebaixamento da nota dada ao país. Atualmente os Estados Unidos têm rating “AAA”, o mais alto, reservado a países que demonstram grande capacidade de cumprir seus compromissos financeiros.

Diante do impasse no Congresso, a Standard & Poor´s e a Moody´s colocaram a nota dos Estados Unidos em revisão, com risco de rebaixamento caso o teto da dívida não seja elevado.

A Fitch disse ainda apostar em acordo antes de 2 de agosto, mas ressaltou que, caso o teto da dívida não seja elevado até a data, colocará a classificação dos Estados Unidos em observação negativa.

Segundo analistas e o próprio governo americano, o impacto de um calote seria sentido além das fronteiras americanas e poderia provocar distúrbios nos mercados globais.

No entanto, muitos analistas afirmam que um eventual calote seria por um curto espaço de tempo, o que não provocaria grandes abalos na reputação dos Estados Unidos como um destino seguro para investimentos.

Qual seria o impacto no Brasil?

Como o Brasil é um grande credor da dívida americana, um eventual calote poderia ter consequências para o país.

Segundo o economista Gregory Daco, da consultoria IHS Global Insight, um dos efeitos seria que o Brasil teria de procurar outras alternativas para aplicar suas reservas internacionais.

Entre as opções estariam ativos considerados mais seguros, como ouro, ou mesmo papéis de outros países. Entretanto, o momento atual de crise de dívida e de credibilidade em várias economias europeias dificulta a busca de alternativas aos títulos americanos.

http://www.bbc.co.uk/portuguese/noticias/2011/07/110720_entenda_dividaeua_ac.shtml

quinta-feira, 14 de julho de 2011

Na Europa, a opção da moratória

Surpresa: fantasma da revolta política e agravamento acelerado da crise financeira levam governantes a considerar hipótese vista há pouco como insana


Por Antonio Martins

 
Ameaçada pela falência financeira e pela desmoralização completa da política institucional, a Grécia continua no centro do palco europeu — mas acaba de haver uma grande mudança no script de seu drama. A União Europeia (UE), que até o fim de semana exigia apenas sacrifícios dos gregos e respeito aos interesses dos credores, passou a trabalhar com outra opção, a partir de segunda-feira (11/7). Ela não está sendo, nem será, chamada por seu nome verdadeiro, mas é uma moratória parcial da dívida do país, seguida de renegociação.

Por enquanto, é apenas uma hipótese, e o desfecho poderá se dar sexta-feira (15/7), numa provável reunião de chefes de Estado. Mas o simples fato de ser considerada emite um sinal claro, muito positivo e que deveria ser entendido também no Brasil. Tentar superar as novas turbulências financeiras cortando direitos sociais e serviços públicos não é a única opção – e está se tornando insustentável.

O alarme que sacudiu a Europa soou na manhã de segunda-feira, quando a crise grega começou a contagiar Espanha e… Itália. As autoridades da terceira maior economia do continente tiveram dificuldades ao rolar sua dívida. Para fazê-lo, foram obrigadas a elevar as taxas de juros a um patamar recorde, desde a adoção do euro: 3 pontos percentuais acima das oferecidas pela Alemanha. A espiral de notícias desagradáveis expandiu-se com rapidez. Na noite de terça, a Moody’s, uma das grandes agências globais de análise de riscos, classificou como “lixo” [junky] a dívida da Irlanda (a de Portugal já fora rebaixada à mesma categoria uma semana antes). Na manhã desta quarta, até a França foi obrigada a elevar ligeiramente seus juros.

Na Itália, a reação do governo Berlusconi foi a mais previsível: um pacote de corte de serviços públicos e privatizações. Mas, ainda na segunda à noite, algo novo ocorreu, durante uma reunião de ministros de Finanças da UE. O encontro, realizado em Bruxelas, durou oito horas, muito mais que o previsto. Embora inconclusiva e repleta de nuances, como apontou fina análise da revista The Economist, a nota emitida ao final já não afasta a hipótese de uma moratória parcial da Grécia. Aponta, nas entrelinhas, uma divisão. Os ministros registram que o Banco Central Europeu (BCE) – o mais feroz guardião dos interesses dos credores – manifestou-se contra tal possibilidade. Mas não assumem automaticamente a posição do banco, algo inédito desde o início da crise grega.

A indecisão da UE é provocada por um risco concreto e uma divergência de fundo. O perigo imediato é o de um “acidente de crédito”, ou credit event. Os enormes sacrifícios impostos pelo governo grego à sua sociedade há duas semanas não convenceram os dirigentes europeus, até o momento, a liberar os recursos prometidos para o “resgate” do país. Dos 110 bilhões de euros prometidos pela UE (e necessários para evitar o risco de insolvência nos próximos dois anos), apenas um décimo foi liberado.
A possível moratória em debate não é ampla quanto soluções vislumbradas  por economistas radicais. Mas seria um alívio derrotar políticas de ataque aos direitos sociais bem no ninho da serpente
O descumprimento do compromisso mantém o país sujeito a uma fuga de capitais, conforme queixou-se o primeiro-ministro George Papandreou, numa carta aberta dirigida, segunda-feira, aos ministros de Finanças. E ela poderia desencadear algo incontrolável. Parte dos credores detém títulos [“CDS” (credit-default swaps)] com cláusula de proteção contra insolvência. Se a fuga de capitais levar o Tesouro grego a não honrar parte de suas dívidas, estes credores poderão voltar-se contra o próprio sistema financeiro, requerendo o pagamento do seguro. A consequência seria uma quebradeira em dominó, de extensões desconhecidas.

Ainda mais revelador – embora invisível nos jornais brasileiros – é o desacordo crescente entre os próprios economistas do mainstream. Parte deles reconhece que as dificuldades financeiras dos Estados não se devem a suposto desperdício. São consequência direta dos enormes recursos despejados na economia (em particular nos bancos…), para evitar que a crise iniciada em 2008 desencadeasse uma depressão semelhante à dos anos 1930. Portanto, a tentativa de enfrentar o problema cortando gastos sociais e preservando os lucros financeiros não se apoia em nenhum critério técnico. Sua única base é o imenso poder político da pequena oligarquia que se enriquece às custas de juros, como escreveu há poucas semanas Paul Krugman, Nobel de Economia.

Em um editorial e dois artigos [1 2] recentes, The Economist destaca os absurdos e os riscos implícitos em tal política. Além de não ter sido ainda afastada, a ameaça de depressão é reavivada por governantes que adotam atitudes muito parecidas às da Grande Depressão. A revista adverte: à época, “poucos observadores imaginavam a catástrofe à sua frente. Era difícil conceber a ideia de que os dirigentes conduziriam suas economias para um desastre evitável. E no entanto, ele ocorreu”.

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Como a reunião dos ministros de Finanças da UE foi inconclusiva, a decisão sobre a Grécia ficou postergada para um encontro extraordinário dos chefes de governo, que ocorrerá provavelmente na sexta-feira. A possível moratória em debate não é, evidentemente, tão ampla quanto as soluções vislumbradas por economistas mais radicais, como Mike Weisbrot e James Kenneth Galbraith (ler ponto IV de nosso texto sobre a crise europeia). Debate-se agora duas medidas parciais: impor, aos bancos privados credores da Grécia, o prolongamento de parte da dívida; e oferecer à Grécia recursos para que resgate com grande desconto, parte dos títulos de sua própria dívida nos mercados secundários, onde são cotados como “lixo”. Uma vez permitida aos gregos, a mesma solução seria reivindicada imediatamente, antecipa The Economist, por portugueses, espanhóis e irlandeses

Ainda que limitada, ela abrirá, se assumida, uma janela de sensatez em meio a um ambiente insano. Adotadas a partir da Europa, há cerca de um ano, as políticas de cortes de gastos públicos espalharam-se pelo mundo, graças à força que os especuladores financeiros adquiriram em quase todos os Estados. Nos EUA, o Partido Republicano apoia-se em ideologia semelhante para impor corte de programas sociais e manter isenções de impostos que beneficiam os ricos. No Brasil, o governo de Dilma Roussef partiu, em seus primeiros seis meses, para um vasto “contingenciamento” de despesas, que tem o mesmo sentido, ainda que mais ameno (há alternativas, como escreveu o economista Amir Khair).

Será um alívio se tais políticas sofrerem uma primeira grande derrota, bem no ninho da serpente.

http://www.outraspalavras.net/2011/07/13/na-europa-a-opcao-da-moratoria/

Ama a ti mesmo no outro

Arte de Pedro Medeiros, que tem coisas interessantes no http://thelectricafe.blogspot.com/.
Jose Imbelloni foi um intelectual italiano que se radicou na Argentina, tendo ali chegado como correspondente da imprensa e, após um breve retorno à Itália (onde concluiu seus estudos em Ciências Naturais e Antropologia), ocupando uma cadeira na Faculdade de Filosofia e Letras de Buenos Aires. Tem um livro clássico e interessantíssimo, Epítome de Culturologia, que, como o título indica, é composto das noções básicas da antropologia do século XIX e início do XX de forma sucinta, mas não descuidada, e com análises críticas imperdíveis.

Ele chama a atenção para o fato de que a natureza tem caminhos próprios e não pode ser substituída pela "curta e simples" lógica humana. E isso pode abrir caminho para pensar a fúria contemporânea em regular e adornar o corpo, quase que afogando-o sob piercings e tatuagens, combatendo a natureza que rege a corporeidade com anticoncepcionais, moderadores de apetite e outras drogas legalizadas. Eagleton marca a semelhança entre o racionalismo, posto em seu devido lugar por Imbelloni, e as práticas corporais citadas. Para ele, desviar o Mississipi e pôr um piercing no nariz são duas ações que fazem parte do mesmo contexto simbólico.

Imbelloni mostra como a antropologia por muito tempo compreendeu a evolução da cultura de um modo esquemático e linear. No topo da lógica evolucionista, o homem branco europeu, quase uma referência deificada no pensamento ocidental. 

Esquemática da evolução

A economia, por exemplo, tinha seu esquema evolutivo, assim como a família e a religião. Os primeiros homens seriam caçadores e não tinham residência fixa, passando, em seguida, para o pastoreio, quando buscariam preservar a vida dos animais capturados e, assim, facilitar o acesso aos benefícios que estes ofereciam. O pastor ainda podia ser considerado um errante, não tanto como o caçador, é certo, marcando a diferença entre a errância e o nomadismo. A fixação de residência vem com a agricultura. Todos os povos, toda a humanidade teria passado, inequivocamente, por esse ciclo.

No caso da família, o início de tudo era a total e completa promiscuidade. O estágio seguinte seria o de matrimônio em grupos que, graças ao princípio do pater incertus, mater certa, tinha a formulação do direito de sucessão pela linhagem materna, o que caracterizava o matriarcado. A rebelião contra o poder das mulheres, expressa na revolta à poliandria, faz surgir o patriarcado e, como afirma Imbelloni, os primeiros antropólogos tinham a firme crença de que onde há patriarcado, um dia houve um matriarcado destronado. A primeira fase do patriarcado admitiria a poligamia, mas a depuração qualitativa levaria à monogamia.

Com relação à religião, o estado humano mais primitivo seria a de um total e completo ateísmo. Sequencialmente, surgem adorações pontuais, como o fetichismo, o naturismo, o xamanismo e a idolatria, que precedem a identificação da deidade com a figura humana. Essa forma de culto seria, em primeiro lugar, politeísta e, evolutivamente, se tornaria monoteísta. 

Bárbaros não são amáveis

Assim, sequência a sequência, se daria o processo civilizatório. Parece simples, até demais. Simplório, diria Imbelloni. Ele mostra que concepções absurdas, como a da necessidade de negação do matriarcado para a assunção do patriarcado ou como a noção de que haveria um período de total e absoluto ateísmo, apesar de terem sido levadas a sério por tanto tempo, queriam apenas confirmar a utópica crença humana numa ordem lógica que determinaria a supremacia da razão, apanágio do homem branco europeu.

Todo e qualquer ser que não tivesse endereço e parceiro sexual fixo, além, é claro, de cultuar a um só Deus acima de todas as coisas, receberia o rótulo de primitivo ou bárbaro, aquele que não fala, balbucia, aquele que nem sequer pode ser considerado humano. Seria bem aceito apenas com a conversão, o matrimônio e residência onde pudesse ser localizado. Ainda assim seria eternamente um inferior, um animal que aceitou a domesticação, mas jamais poderia se dizer plenamente civilizado, sua raiz sempre o trairia. Fora isso, teria lugar nos zoológicos humanos que circulavam pelas vilas.

Cabe pensar, aqui, nas fantasias que a inteligência europeia construiu a fim de justificar a pretensão, herdada de gregos e romanos, de ser universal. O problema é, como sempre foi, que a universalidade somente se pode realizar com a negação do Outro, manifesta claramente no dito cristão “ama o próximo como a ti mesmo”. A cultura europeia se afigura, assim, como uma vasta e complexa articulação em torno de um “eu mesmo” cuja circunferência está em todo lugar e o centro não está em lugar nenhum.

terça-feira, 12 de julho de 2011

Refletindo com a leitora indignada

Olha essa cabeça! Saiba que ela pode explodir!, cantava Walter Franco
A leitora indignada postou outro comentário (...), o que me leva a continuar com o debate. Acho todo e qualquer debate importante. Comunicar é estabelecer conflitos, não solucioná-los. Isto cabe às ditaduras e à imprensa, que certamente os precisa solucionar de acordo com os interesses de algum patrocinador (não existe nenhum sistema mais totalitário e corruptor do pensamento do que o capitalismo). Não tenho patrocinadores e, por isso, não tenho interesse em solucionar nada, o que significa que gosto de me comunicar de verdade.

A leitora me desculpe, não tive a intenção de ofender. Tenho a compulsão do debate, da exposição de argumentos e ideias e, como já disse antes, é possível que por vezes me exceda. Mas, vamos pensar.

Vemos o mundo de forma diferente, parece óbvio. E, com o debate incisivo, podemos chocar posições consolidadas e, por vezes, contrárias ao enriquecimento do pensamento. Por isso, peço que não se ofenda, pois esse não é objetivo. Se há provocações, e há de lado a lado, elas servem para puxar o debate, não para intimidar. E veja a leitora que acabamos debatendo e seguindo a conversa.

Veja, leitora, meus dias também são cheios, como os de todo mundo nesta vida urbana. Também não sigo nenhum blog, a não ser este, no qual publico textos meus e outros que acho interessantes repercutir. Não escrevo para multidões, mas para contribuir com o pensamento daqueles que gostam de pensar. Fico feliz que voltou para ver o assentamento aqui e pensar. Não sei por onde andam os leões de chácara, na verdade nunca os vi. E, retirante, somente eu. Não sei qual o motivo do preconceito com retirantes e assentamentos.

Seus comentários mereceram atenção, apenas isso, pois há diferenças em nossos horizontes de visão e isso é bom. Não houve a necessidade de varreduras quaisquer, mas sim a de apresentar uma argumentação que não ofendesse, o que, agora vejo, não foi bem feito. As provocações foram entendidas como ofensas. De todo modo, tenho tomado como provocações as suas provocações.

A leitora pode ficar tranquila que também não a conheço nem fiz qualquer pesquisa para saber quem é. Isso não me interessa. Se acertei algo sobre suas particularidades intelectuais é pelo fato de que estão óbvias demais.

Não defendo qualquer sistema político, pode ter certeza. Somente, como a leitora deve tentar fazer, tento estabelecer um ambiente propício à formação de uma consciência crítica.

Quanto a saber qual minha escola, em que bases me apoio e em que sou formado, creio ser desnecessário saber, pois títulos, endereços teóricos e bases anunciadas servem apenas para obnubilar a compreensão. Infelizmente, também apareço no google, mais do que seria necessário. Não tenho fotos na internet, ou certamente as tenho, mas tiradas por mim ou por pessoas queridas que as publicam em locais específicos. Se a leitora se interessar, tenho um trabalho sobre hip-hop publicado no sítio "bocc" e outro, uma dissertação de mestrado indicada para publicação, que está no mesmo sítio e trata da subjetividade urbana a partir da midiatização da violência urbana no Rio de Janeiro, cidade em que nasci e vivi a maior parte da minha vida. Fora isso, os textos publicados aqui e em outros locais, como no Observatório da Imprensa. Mas, não ando publicando nada fora daqui. Não ando muito interessado. 

Se interessa à leitora, desenvolvo uma pesquisa sobre a cultura underground, a cultura jovem da metade do século XX. Já tenho material escrito, mas não tive motivo ainda para divulgá-lo. Escrevi quatro romances, mas pouco fiz para publicá-los, ainda mais sabendo que teria que pagar a publicação, como aconteceu, veja bem, até como o mitológico recordistas de vendagens Paulo Coelho. Ele publicou o primeiro livro pela editora Eco, no Rio de Janeiro, que nem deve existir mais.

Engraçado é que a leitora acha muito “legal” ter o dia cheio e ter muitos amigos, além de ser avaliada por bancas acadêmicas. Muito legal mesmo, uh, massa, como se diz por aí. Os tais guevarinhas não conheço, aliás, deploro o tal “Che”. Me soa como uma marca, do mesmo modo que Coca-Cola ou Brastemp. Suspeito da verve revolucionária do tão incensado cubano. O fato dele ter dado a vida por uma causa não diz muito. Há idiotas que fazem isso, embora fazer isso não faça de ninguém um idiota.

O preconceito é um pré-conceito e não uso conceitos preconcebidos. Todos estão fundamentados, como já mostrei e demonstrei.

Tudo de bom para a leitora, de quem também não disse o nome em qualquer momento, não por medo do azar, mas por respeito. Repito que não se ofenda e continue estudando. Não é necessário usar palavras "difíceis" nem construções "elaboradas", as pessoas podem se entender sem essas coisas artificiais. Tenho certeza de que a leitora ainda se desenvolverá muito no que diz respeito à formação de uma consciência crítica.

Paulo Bernardo responde ao jornal O Globo

Por Altamiro Borges

Nos últimos dias, no rastro do escândalo de corrupção no Ministério dos Transportes, o ministro Paulo Bernardo passou a ser alvo dos ataques da imprensa demotucana. As insinuações maldosas, sem qualquer prova, talvez reflitam o descontentamento dos barões da mídia com recentes iniciativas do Ministério da Comunicação - como o projeto que permite o ingresso das teles no mercado da TV por assinatura.

Diante do bombardeio midiático, Paulo Bernardo, que tem como característica não fugir das polêmicas, é incisivo nas respostas. No último sábado, ele foi enfático diante das provocações - travestidas de entrevista - do jornal O Globo. Num dos momentos mais tensos, ele retrucou:

"Pretendo responder respeitosamente às suas perguntas, mas exijo que me tratem com o mesmo respeito. Sua pergunta é insultuosa. O Globo tem publicado insinuações atribuídas a fontes que não se identificam".

Para evitar qualquer tipo de distorção, tão comum nos veículos da famiglia Marinho, o Ministério das Comunicações disponibilizou as respostas no seu portal:

*****

Perguntas recebidas do jornal O Globo e respondidas pelo ministro Paulo Bernardo neste sábado, 9 de julho, às 15h.

O sr. recebia empreiteiras para apresentação de projetos na área de transportes? Em que circunstâncias? Por qual motivo?
 

Não. Embora seja hoje ministro das Comunicações, vou explicar como funciona no Planejamento. O governo faz o planejamento dos investimentos que considera importantes, encomenda os projetos, que são incluídos no Orçamento. Em seguida, são feitas as licitações para contratar as empresas que executarão as obras. Assim, no Planejamento, não recebíamos empresas para apresentar projetos de qualquer área. O governo contrata empresas, através dos ministérios setoriais, como é o dos Transportes. Quero acrescentar, ainda, que é tarefa cotidiana de ministros receber, em audiência, empresários, trabalhadores ou entidades da sociedade civil. Quero repelir insinuações que tentam associar malfeitos ou irregularidades a tarefas normais de um ministro de Estado.

As empreiteiras lhe apresentavam "pacotes fechados" para aprovação e liberação de projetos na área de transportes, mediante pagamento de propina? O sr. tinha alguma influência na aprovação de projetos no DNIT?

Pretendo responder respeitosamente às suas perguntas, mas exijo que me tratem com o mesmo respeito. Sua pergunta é insultuosa. O Globo tem publicado insinuações atribuídas a fontes que não se identificam. Publiquem os nomes dessas fontes e tomarei as medidas cabíveis a respeito. Sobre influência nos projetos do DNIT: o Ministério do Planejamento é um órgão central da administração federal e os projetos de todos os ministérios passam por ali para serem incluídos no Orçamento. Mas a execução é responsabilidade de cada órgão.

A que o sr. atribui as denúncias de Pagot envolvendo o sr.? Pretende fazer alguma coisa?
 

Não vi nenhuma denúncia feita pelo diretor do DNIT, o senhor Pagot, com quem convivi muito bem, vários anos. Tenho lido informações passadas anonimamente, às vezes atribuídas a ele. É difícil ter que debater com quem se esconde no chamado "off", ou seja, quem fala mal dos outros, sem se identificar. Como disse, anteriormente, se alguém sustentar essas insinuações, tomarei providências, inclusive na Justiça.

O sr. Pagot teria dito a senadores do PR que o senhor teria solicitado aditivos contratuais em obras rodoviárias. O senhor fez alguma solicitação ao Ministério dos Transportes ou ao Dnit neste sentido? Como ministro o senhor tinha poder para isso?
 

Não acredito que tenha dito, porque não é verdade. Na Administração Pública, solicitações como essas, de aditivos, ficam registradas e transitam de forma oficial entre os órgãos. Mas em diversas ocasiões, solicitei informações ao diretor Pagot sobre o andamento de obras no Paraná.

Em entrevista ao GLOBO, o sr. Pagot afirmou que "manda quem pode e obedece quem tem juízo", em referência ao fato de que teria agido sempre no Dnit de acordo com instruções recebidas. Na sua opinião, a quem ele se refere?

Não sei a quem ele se referiu. De fato, a hierarquia é fundamental dentro da máquina governamental. Mas Pagot não era meu subordinado e servidor público obedece a ordens formais que, como lhe disse, ficam registradas no sistema do governo. Esses procedimentos são legais e obrigatórios. No serviço público, fazemos apenas o que a lei determina.

A oposição espera que o depoimento do sr. Pagot na terça-feira forneça munição para uma CPI do Dnit no Senado. Uma investigação parlamentar pode criar constrangimentos para o governo e aumentar o clima de insegurança dentro da base, afetando a votação de matérias de interesse do Executivo?

À oposição cumpre fiscalizar os atos do governo. Ao criticar e exigir informações do Poder Executivo ela está em seu papel. E ao governo, cabe informar e esclarecer. Espero ter contribuído para isso com minhas respostas.

http://altamiroborges.blogspot.com/2011/07/paulo-bernardo-responde-ao-jornal-o.html?spref=tw

segunda-feira, 11 de julho de 2011

O perigoso isolamento de Dilma

Projeto de governo da presidente é ambicioso e competente — mas  está se chocando com a falta de articulação política e de diálogo com a sociedade civil

Por Luís Nassif, em seu blog

 

A política é a arte da irracionalidade. Exige acordos, concessões e um jogo duplo: numa ponta as negociações nem sempre transparentes para garantir a base de apoio político; na outra, a construção do imaginário junto ao eleitor, para garantir os votos e o cacife junto aos aliados políticos. Entre esses dois movimentos, o desafio de abrir espaço para a racionalidade administrativa.

São momentos distintos e estratégias distintas, um desafio muito mais complexo do que o de gestor de uma grande empresa.

É só conferir o caso PV-Marina Silva. A irracionalidade é tão grande que faz um partido inexpressivo – o PV, Partido verde – abrir mão de uma política com a história de Marina Silva, com 20 milhões de votos obtidos nas últimas eleições. Isso porque são momentos distintos.

***

Um acurado observador do cenário político observa que, nos seis primeiros meses de seu governo, Dilma Rousseff não conseguiu ainda a embocadura necessária para vencer o desafio político.

No início, diz ele, fez bem em baixar a fervura da guerra com a velha mídia e não pretender se comparar a Lula. Este criou seu próprio espaço midiático, freqüentava diariamente as páginas dos jornais, mesmo daqueles francamente hostis.

Dilma foi prudente em não pretender trilhar o mesmo caminho, dada a diferença de estilo entre ambos. Mas vem cometendo o erro de se isolar totalmente não apenas do contato com o público, mas com interlocutores de diversas áreas da sociedade civil.

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Principal palco do grande pacto nacional, o CDES (Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social) perdeu vigor. Há pouco diálogo com sindicatos e movimentos sociais. A militância da blogosfera está totalmente perdida, com guerras intestinas e radicais até para temas que mereciam um tratamento mais racional, como o PNBL (Programa Nacional da Banda Larga) e o Código Florestal.

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A interlocução política perdeu um grande articulador – Alexandre Padilha -, um macaco velho – Antonio Palocci – em troca de uma senadora séria – Ideli Salvatti – mas sem um pingo de experiência em articulação política.

Não há uniformidade no discurso público. Aliás, o estilo Dilma provocou um encapsulamento na comunicação inclusive de ministérios da área econômica.

Depois de um período de trégua, a velha mídia volta a atacar o governo. E o clima de inação política vem abrindo espaço até mesmo para a radicalização de vozes da oposição – como Aécio Neves – normalmente dotadas de maior comedimento.

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Tem-se, então, um paradoxo. Numa ponta, o mais promissor início administrativo de um governo na moderna história política brasileira. Logo de cara foram apresentados novos modelos de coordenação de ações, mudanças significativas nas formas de gestão pública e objetivos claros: erradicação da miséria absoluta, investimentos em infra-estrutura, ampliação do pacto federativo para as políticas sociais.

Mas a percepção na opinião pública é de um governo perdido nas articulações políticas. Fundamentalmente devido ao isolamento da presidente, seu afastamento do discurso público e da articulação política.

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Há urgência em retomar os canais de diálogo com a sociedade como um todo. Inclusive para enfrentar as mudanças que em breve deverão ocorrer no cenário econômico global.

http://ponto.outraspalavras.net/2011/07/11/perigoso-isolamento-de-dilma/

As guerras que você não vê

Por John Pilger, no The Guardian 

Tradução Coletivo Vila Vudu

No manual de contraguerrilha do Exército dos EUA, o comandante general David Petraeus descreve a guerra do Afeganistão como “guerra de percepção (…) continuamente conduzida pelos noticiários.” O que interessa não é tanto o dia-a-dia das batalhas contra os Talibã, mas o modo como a aventura é vendida nos EUA, onde “a mídia influencia diretamente a atitude de grupos-chaves de opinião”. Ao ler isso, lembrei do general venezuelano que liderou um golpe contra o governo em 2002. “Tínhamos uma arma secreta”, gritava ele. “Temos a mídia, sobretudo a TV. Sem mídia, não se faz coisa alguma”.

Nunca se consumiu tanta energia oficial para garantir que jornalistas conspirassem com os comandantes das campanhas militares de conquista, que, segundo dizem os generais, são agora “perpétuas”. Ao ecoar os senhores da guerra do Ocidente — como o ex-vice-presidente dos EUA, Dick Cheney, que prognosticou “50 anos de guerra” –, os jornais organizam um estado de conflito permanente, algo cujo sucesso depende de manter à margem um inimigo cujo nome eles não ousam mencionar: o público.

“Se as pessoas soubessem a verdade”, disse David Lloyd George, primeiro-ministro britânico, “a guerra acabaria amanhã. Evidentemente não sabem. Não podem saber”
Em seu QG em Chickands [Inglaterra], o aparato de guerra psicológica (Psyops) do ministério da Defesa prepara media trainers imergindo-os num jargão global de “dominação da informação”, “ameaças assimétricas” e “ciberameaças”. Partilham premissas que servem também nos métodos de interrogatório que já provocaram inquérito público sobre a prática de tortura por soldados britânicos, no Iraque. A desinformação “jornalística” e a barbárie da guerra colonial têm muito em comum.

Claro: só o jargão é novo. Na abertura de meu filme “A guerra que você não vê” [orig. The War You Don't See na qual pode ser visto mais abaixo com legendas em português], há uma referência a uma conversa privada, em tempos de pré-WikiLeaks, em dezembro de 1917, entre David Lloyd George, primeiro-ministro britânico durante boa parte da I Guerra Mundial, e CP Scott, editor do jornal Manchester Guardian. “Se as pessoas soubessem a verdade”, disse o primeiro ministro, “a guerra acabaria amanhã. Evidentemente não sabem. Não podem saber.”

No início daquela I Guerra Mundial, a guerra para “por fim a todas as guerras”, Edward Bernays, amigo e confidente do presidente Woodrow Wilson, cunhou o termo “relações públicas”, como eufemismo para “propaganda” (“palavra que não se podia pronunciar, durante a guerra”). Em seu livro Propaganda (1928), Bernays apresenta as “Relações Públicas” como “governo invisível, que realmente dirige o país”, graças à “manipulação inteligente das massas”. Para conseguir manipulá-las, era preciso “criar uma pseudo-realidade” e era preciso também “que a imprensa adotasse essa falsa realidade, como real”. (O primeiro monumental sucesso da propaganda & publicidade inventada por Bernays foi ensinar as mulheres a fumar em público. Associou o cigarro à libertação feminina. Seus cartazes mostravam mulheres fumando: “as tochas da liberdade”.)

Praticamente nenhum jornalista usa a palavra “invasão”. “Envolvimento” e, mais tarde “conflito” converteram-se num novo vocabulário, segundo o qual a matança de civis nunca passa de “erro trágico”; e ninguém jamais põe em dúvida a boa intenção dos invasores
Durante a guerra do Vietnã, ainda jovem repórter, comecei a ver como a coisa funciona. Na minha primeira viagem, vi o efeito das bombas de napalm em duas vilas; o napalm continua a queimar por baixo da pele; muitas das vítimas eram crianças; havia pedaços de corpos pendurados em galhos de árvores. Os jornais falavam de “tragédias inevitáveis que acontecem em todas as guerras”. Não explicavam por que virtualmente toda a população do Vietnã do Sul corria risco de ser morta pelos “aliados”, os EUA. Termos de Relações Públicas, como “processo de paz” e “dano colateral” viraram tema de conversa em todos os lares norte-americanos. Praticamente nenhum jornalista usa a palavra “invasão”. “Envolvimento” e, mais tarde “conflito” converteram-se num novo vocabulário, segundo o qual a matança de civis nunca passa de “erro trágico”; e ninguém jamais põe em dúvida a boa intenção dos invasores.

Em Saigon, pelas paredes de todas as redações onde trabalhavam os jornalistas correspondentes, viam-se fotos horrendas jamais publicadas e nunca enviadas, porque o objetivo “jornalístico” era não “espetacularizar” a guerra, atormentando ainda mais o público. Além do mais, não eram fotos “isentas”. O massacre de My Lai não foi notícia em 1968, apesar de praticamente todos os jornalistas correspondentes saberem o que acontecera (e também de outros massacres). A notícia chegou aos EUA e ao mundo pelo trabalho de um jornalista independente, Seymour Hersh. A capa de Newsweek dizia: “Tragédia Americana” – como se os norte-americanos fossem as vítimas, ideia que Hollywood aproveitou com entusiasmo, em filmes como The Deer Hunter e Platoon. A guerra era suja e trágica, mas a causa continuava nobre. Pior: os EUA estavam sendo derrotados, por culpa de uma parte da imprensa, irresponsável, hostil, antipatriótica e sem censura.

Por mais que tudo isso fosse falso, essas realidades falseadas e os métodos para falsear a realidade foram as “lições” que aprenderam os que hoje fazem guerra pelo mundo e por parte muito significativa da imprensa. Depois do Vietnã, tornaram-se freqüentes os jornalistas “incorporados” às tropas – e quanto mais incorporados, mas indispensáveis para o prosseguimento das políticas de guerra dos EUA dos dois lados do Atlântico. Com honrosas exceções, foi o que aconteceu nos EUA. Em março de 2003, cerca de 700 jornalistas incorporados, e respectivas equipes técnicas de televisão, acompanharam as tropas dos EUA que invadiram o Iraque. Quem os ouça falar ou leia o que escreviam, terá a impressão de que estavam, outra vez, salvando a Europa da praga nazista. Não se vê o povo do Iraque. John Wayne voltou às salas de jantar dos EUA.

O massacre de My Lai não foi notícia em 1968, apesar de praticamente todos os jornalistas correspondentes saberem o que acontecera (e também de outros massacres). A notícia chegou aos EUA e ao mundo pelo trabalho de um jornalista independente, Seymour Hersh. A capa de Newsweek dizia: “Tragédia Americana” – como se os norte-americanos fossem as vítimas
O auge foi a entrada vitoriosa em Bagdá, e as imagens, pela televisão, de multidões que festejavam a derrubada de uma estátua de Saddam Hussein. Por trás da fachada, uma equipe de “agentes ‘psy’” manipulavam os relatórios. Um desses relatórios que ninguém viu, falava de “um circo jornalístico, onde havia mais jornalistas norte-americanos que iraquianos na rua”. Rageh Omaar, que lá estava como correspondente da BBC, noticiou, para todos os principais noticiários de televisão: “As pessoas saiam às ruas para saudar os soldados [norte-americanos] fazendo o V-da-vitória. O que se vê aqui se repete por toda a capital do Iraque”. A notícia do dia, jamais noticiada, era que, em todo o Iraque, começara o massacre, a conquista e a destruição sangrentas de toda a sociedade iraquiana.

No meu filme [The War You Don't See], Omaar fala com franqueza admirável: “Sei que não fiz o que deveria ter feito, como jornalista”, diz ele. “Não protestei, não denunciei o que estava vendo: que ninguém estava noticiando o mal-estar geral, no Iraque”. E lembra que a propaganda militar britânica realmente manipulou toda a cobertura da queda de Basra, cidade que, segundo “BBC News 24”, teria caído “17 vezes”. A cobertura, diz Omaar, “foi uma câmara de eco gigante”.

A magnitude do sofrimento do povo iraquiano, vítima de massacre, não apareceu nos noticiários. À frente da sede do governo britânico, na noite da invasão, Andrew Marr, então editor de política da BBC, disse: “Tony Blair previu que seria possível tomar Bagdá sem derramamento de sangue e que, no final, os iraquianos festejariam. Como se vê, acertou as duas previsões” (…). Pedi uma entrevista a Marr, para o filme, mas ele recusou. (…)

Dan Rather, que foi âncora da CBS por 24 anos, não se recusou a falar. “Havia medo, em todas as redações dos EUA”, disse ele. “Todos temiam perder o emprego. Todos temiam ser rotulados como antipatrióticos, ou coisa assim”. Rather diz que a guerra fez dos jornalistas “estenógrafos”; que, se alguém jornalista questionasse o processo de omitir e distorcer os fatos, a invasão do Iraque não teria acontecido. É o que dizem hoje inúmeros jornalistas veteranos que entrevistei para o filme, nos EUA.

Na Grã-Bretanha, David Rose, cujas colunas no Observer tiveram papel importante no processo de associar Saddam Hussein à al-Qaeda e ao 11/9, deu-me entrevista corajosa, na qual diz “Não há explicação possível (…) O que aconteceu no Iraque foi crime, crime em larga escala”.

“Se houve crime, os jornalistas foram cúmplices?” – perguntei a ele.

“Foram. Talvez sem saber, ou sem querer, mas foram cúmplices.” (…)

Ninguém imaginava que aconteceria WikiLeaks. Na atual avalanche de documentos oficiais revelados, sobretudo documentos em que se veem as maquinações que levaram à guerra – como a obsessão dos EUA contra o Irã –, pouco se tem falado sobre o fracasso do jornalismo.

Uma das razões pela qual Julian Assange parece despertar tão compacta hostilidade entre os jornalistas empregados de diferentes lobbies – os mesmos que o assessor de imprensa de George Bush chamou certa vez de “cúmplices facilitadores” – é que WikiLeaks é a voz que expõe o fracasso desse jornalismo e desses jornalistas.

Por que a opinião pública teve de esperar que surgisse WikiLeaks, para descobrir quem manda, de fato, até em governos eleitos, e como opera esse poder que não conhece qualquer democratização?

Como revela documento do ministério da Defesa, de 2 mil páginas, os jornalistas mais efetivos são os que o poder considera como “não incorporados” ou “não conversáveis” [orig. non clubbable], mas como “ameaça”. (…)

Em meu filme, perguntei a Julian Assange como o WikiLeaks lida com as leis de sigilo britânicas, reconhecidamente draconianas. “Bem”, disse ele, “recebemos os documentos sigilosos, nos termos da lei britânica. A lei britânica diz que é crime destruir informação sigilosa. A informação sigilosa nos foi mandada, sem que tivéssemos pedido ou pago por elas. Se não podemos destruir informação sigilosa… só restava publicar tudo.”

http://www.outraspalavras.net/2011/04/16/as-guerras-que-voce-nao-ve/