segunda-feira, 13 de junho de 2011

Vida saudável, vida sem vida

Escolha seu estilo e viva feliz no mundo dos shoppings. Você pode ser diferente, contanto que seja igual.
Um cachorro põe a pata sobre o ombro de uma criança, aparentemente num gesto de carinho. Uma cena terna. No entanto, trata-se de uma peça publicitária de um produto de ação bactericida e a imagem é acompanhada de texto que chama a atenção para os germes presentes na pata do cachorro. 

Ora, é uma peça de propaganda, mas traz uma mensagem clara: é preciso cuidar da saúde e é preciso estar vigilante. Essa vigilância inclui lavar as roupas com o produto e, quem sabe, livrar-se de toda e qualquer fonte de riscos à saúde, inclusive os cãezinhos de estimação. Se formos levar adiante a ideia proposta, seria ideal conseguir uma bolha asséptica para guardar as crianças, como aquela na qual Michael Jackson dormia, segundo antigas matérias jornalísticas sensacionais.

É o que temos visto. Nas ruas, há uma caça a animais vadios e a pessoas que moram sob as marquises. Os pobres devem ser afastados do convívio da gente bem e é bom empurrá-los para longe, para longe da vista. A fumaça dos cigarros ganha o status de inimigo público número um e o hábito de fumar é perseguido, com o fumante sendo apontado na rua, quase como um leproso. A cafeína é cortada do café, como se este pudesse sobreviver enquanto café sem a sua substância mais fundamental. Quem quiser tomar uma cerveja sem o incômodo da embriaguez pode escolher a que não tem álcool. O sexo somente deve ser feito com camisinha, seja lá com quem se faça.

Vida sem vida, sem riscos. Na verdade, vida sem vida pois sempre governada e coordenada pela propaganda. Não se pensa, não nos relacionamos com nada que não seja protegido. Há câmeras zelando todos os lugares e as conversas telefônicas de serviços são gravadas, tudo “para sua segurança”.

Nós, gente, humanos, talvez devêssemos nos mancar e trocar a pele por aço, o cérebro por um chip ou, quem sabe, o sangue por coca-cola. Talvez, assim, tenhamos lugar no mundo da propaganda e da segurança total. Quem sabe, transformando-nos em microempresas pessoais, com contabilidade de afetos e receitas de autoestima, consigamos entrar nele. Tatuando logomarcas pelo corpo ou fazendo apologia de drogas lícitas, é possível até que sejamos bem aceitos (1).
Esse "cachorrinho" certamente não transmite germes, muito menos afeto

Mas, afinal, seremos nós mesmos? Ou, possivelmente, isso já não exista mais. Ser humano é ter germes, beber e até mesmo fumar, além de fazer coisas sórdidas e, ao mesmo tempo, ser capaz de amar sinceramente. É ter medo de adoecer também, temer a desesperadamente a morte. Não é, porém, ser uma máquina de trabalhar, ganhar dinheiro e viver controladamente no fluxo das máquinas, com o descontrole somente sendo permitido quando se consome coisas ou pessoas. O importante, nessa ótica, é extrair a mais-valia de todas as situações e de todos os amigos. Se é que se consegue falar de amigos nessa história.

Não é possível que alguém creia que podemos ser isso. No entanto, parecem ser os mesmos que falam da saúde que nos propõem essa vida tão pouco saudável. Ironia máxima da vida civilizada.

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(1) Se exaltarmos as ilícitas e não formos pretos nem pobres, quem sabe os telejornais nos fotografem apanhando da polícia; se formos pretos e pobres, provavelmente seremos flagrados descendo a favela dentro de um tapete, carregados por quatro PMs.

Um comentário:

  1. Prezado Prof. Luiz: essa mania de limpeza total e de lavar mais branco é coisa do pós-guerra, por motivos óbvios; daí, tornou-se uma obsessão, da qual as bactérias 'verdadeiras' dão risadas homéricas por nossa in_sanidade (EM QQ SENTIDO). Somos insanos, mas limpinhos; pobres mas limpinhos, graças ao ARIANO, ops, ARIEL...Aqui ainda deixamos as crianças em paz (relativa) mas nos Steites, a moda é usar luvas no metrô e lencinhos de q-boa. Nenhum contato humano, vai que ...Kkkk, riem as bactérias superpoderosas, aquelas que se chamam E.coli e outras colegas ixpertas. Temos medo das coisas erradas, temos medo das pessoas 'erradas', temos medo da comida 'errada'... postei seu blog na comunidade PR, onde vivo combatendo essa mania do lavar mais branco. Parabéns pelo blog, mt show!

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