quarta-feira, 8 de junho de 2011

O mal, esse (des)conhecido

Se algum dia uma figura como essa aparecer, não se iluda. É do bem
Recentemente, li texto de Renato Janine sobre o caso escabroso ocorrido, no início de 2011, numa escola em Realengo, no Rio de Janeiro, no qual um garoto assassinou dezenas de alunos. Janine toca num ponto importante relativo às construções de explicações para fatos como esse. Sabiamente, lembra que há pelo menos duas possibilidades para se entender o “mal”. Por um lado, pode ser entendido como causa, por outro, como consequência. No pensamento contemporâneo, lembra o autor, a maioria prefere entendê-lo como motivado por algo, conforme a crença tradicional no racionalismo político no pensamento europeu. Não é usual ouvir ou ler alguém afirmando que o mal é intrínseco à existência. A moda é esquecer isso e ficar circulando em torno de ideias sobre o controle social do mal.

A racionalidade democrática e as quantificações do mercado parecem dar conta de equacionar o problema na democracia liberal. A questão é clara: o homem nasce bom, mas a sociedade o corrompe, como dizia o velho e bom humanista Jean-Jacques Rousseau. Ou, mais clara ainda: o homem é o lobo do homem, preferia Thomas Hobbes para justificar o Leviatã. Tanto num caso, como no outro, o mal presente na relação entre os homens precisa ser controlado, seja por contrato social, seja pela imposição de um acordo que reconheça uma autoridade estatal eminentemente policialesca. E em ambos os casos, a expectativa é de que isso aconteça se as medidas adotadas forem eficazes e eficientes.

O ambiente passa a ser sufocante, pois a crença na possibilidade de prevenção do mal exige vigilância constante. Ao pretender que é possível prevenir a eclosão da maldade, que esta só se manifestaria no mundo por descuido, o pensamento ocidental chega a um paroxismo metafísico. Descola-se completamente do mundo humano, real, objetivo, para idealizar um outro, no qual não há humanos. Pior: no qual os humanos não devem ser humanos, mas algo próximo de robôs que repetem sempre as mesmas noções de realidade. Se o homem é o lobo do homem, mate-se o lobo, ou se tatue nele, a ferro e fogo, um contrato de boa convivência. Além de distribuir câmeras pelas cidades, só para ter certeza de que tudo vai correr bem.

Ao fazer isso, aquele que crê no controle social do mal está combatendo suas manifestações apenas, o que significa que simplesmente consegue mudar a forma dessas manifestações, não o que as produz. Na prática, está cometendo, ele mesmo, o mal. Para preveni-lo, manifesta-o antes que se manifeste no outro. Curiosa forma de entender as coisas, mas talvez seja compreensível pela lógica da vacina, que inocula o mal para que este se manifeste sob controle. A lógica médica prevalece, mas o doente não é tratado, apenas a vaga e autoritária descrição nosológica que se faz a partir de seu estado patológico. E o mal permanece intocado.

Da guerra contra o mal, do controle obsessivo de suas manifestações, resulta apenas a geração de novas formulações desse inimigo que sempre escapa a qualquer predição. Escapa, pois está sempre presente e, como o diabo, não tem rabo nem chifres, muito menos parece com aquela macabra figura da morte, com sua inconfundível túnica negra e a ameaçadora foice nas mãos ossudas.

Pior: o mal sempre aparece no espelho. É você que não o vê.

Nenhum comentário:

Postar um comentário