segunda-feira, 20 de junho de 2011

Distribuidoras de energia faturaram R$ 7 bi a mais com ajuda da Aneel e não querem devolver ganho indevido

Entre os anos de 2002 e 2009 você pagou energia elétrica acima do que deveria. Hoje, calcula-se que o montante do ganho indevido das distribuidoras é de aproximadamente R$ 7 bilhões. Tudo indica que o erro se deveu a um erro da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), que calculou errado o custo da energia e, mesmo tendo reconhecido o erro, não aceita que os consumidores sejam ressarcidos. Ou seja, a sua conta de luz foi superfaturada, mas, mesmo depois disso ter sido descoberto, você não verá o dinheiro de volta.

A Aneel, que tem sido acusada, desde a sua fundação, de sempre estar do lado das distribuidoras e contra o consumidor (o que este fato que estou narrando indica ser verdade), afirmou, em nota curta, que “A aplicação retroativa não tem amparo jurídico e sua aceitação provocaria instabilidade regulatória ao setor elétrico, o que traria prejuízos à prestação do serviço e aos consumidores”. Ou seja, o consumidor pode vivenciar todas as instabilidades possíveis no seu cotidiano, mas as pobres distribuidoras não podem.

E veja: o erro só foi descoberto pois o Tribunal de Contas da União (TCU) identificou uma distorção no mecanismo de cálculo dos reajustes anuais, segundo explicação de Renato Andrade no texto “Conta de luz errada não será ressarcida” (http://www.estadao.com.br/estadaodehoje/20101216/not_imp654215,0.php), publicado no Estadão, em dezembro do ano passado. Segundo Andrade, “Os ganhos que as empresas tinham com o aumento de consumo, que teriam que gerar uma redução no reajuste das tarifas, não estavam sendo contabilizados. Isso garantiu um ‘ganho extra’ de aproximadamente R$ 1 bilhão por ano às empresas”. É brincadeira?

São R$ 7 bilhões ganhos indevidamente, ainda que de forma legal, segundo a Aneel. O que não é legal, então, é a Aneel. Os consumidores lesados querem reaver o que perderam: “Se as empresas não devolverem, a Aneel que o faça”, diz um deles.

Se algum pobre coitado sem CGC lhe dá um golpe de R$ 7 corre o risco de adentrar a delegacia com a recepção de um respeitável corredor polonês, sob tapas, pontapés, “telefones” e/ou torturas diversas, ficar incomunicável e ainda dormir na boca do boi, sujeito a estupros e outros males numa cela superlotada. As distribuidoras, porém, podem embolsar R$ 7 bilhões, com a simpatia da Aneel. Dizem por aí que as pessoas físicas responsáveis por isso continuam andando em seus confortáveis carros, frequentando bons restaurantes e, quem sabe, presenteando com bom gosto e sofisticação a todos aqueles que lhe concedem tantos favores com o dinheiro alheio.

sexta-feira, 17 de junho de 2011

Retrato do jovem quando artista no século XXI

Julio Daio Borges 
   
Habitante da metrópole, tem um pé na periferia. Ou porque dela descende, ou porque nela acredita. Marcado pelo fluxo migratório, filho de pais de outros estados (quando não de outros países), está acostumado a acordar numa primeira cidade, almoçar numa segunda e ir dormir numa terceira, num mesmo dia. Seu ideal para o futuro, para a velhice, para a aposentadoria, é fixar-se numa praia (não cita nenhuma em específico). Anseia por férias em locações paradisíacas; não concebe o descanso sem suor, sal e maresia.

Cultiva o mito da juventude eterna (embora saiba que, historicamente, ela não tenha durado tanto assim). Tem o corpo como principal adereço, tatuando-o ou enganchando-o com piercings. Adota um visual hermafrodita, ainda que sua conduta social nem sempre se oriente por isso (se for mulher, em sociedade fará uso de atitudes masculinas; se for homem, de femininas). Veste-se de acordo às regras do despojamento calculado (mi-li-me-tri-ca-men-te); barbeia-se mal e enseba seus cabelos despenteados com gel. Sua moda é a das ruas; seu estilo, étnico; sua simpatia, pelas chamadas minorias.

Quando pode escolher, trabalha com design. Ou com cinema (na periclitante indústria de curtas paulista). [Sabe o que é ser cool.] Quando não pode escolher, faz diagramação em revistas; ou então mexe com fotografia. Edita imagens de vez em quando. (Tem mestrado em Photoshop.) MBA não lhe é um termo estranho; tem um primo que só fala nisso. Mas seu negócio mesmo é produção. Faz produção - e é tudo. Seu hábitat natural é o meio publicitário. Pode ser encontrado também no estado desempregado. Seu charme atual é viver sem grana.

Cresceu numa família de pais separados; tem portanto aversão a casamento. (Depois, acaba casando.) Se for mulher, pregará a independência financeira (nem que seja para convencer a si mesma). Terá filhos como uma forma de expressão. Dispensará, em seguida, o(a) companheiro(a). Sendo fruto de criação da mãe, terá a progenitora como origem e fim de tudo. Os amigos virão a seguir, no elenco das afinidades eletivas. Assistirá Friends. O pai não será uma figura muito presente em sua vida (talvez alguém a quem o mundo atribuiu certa importância, só isso). Num dado momento de sua biografia, preterirá a companhia de pessoas, preferindo a de bichos. Suspirará pelos entes queridos que não consegue ver no dia-a-dia.

Sua trilha sonora será a da música eletrônica. Freqüentará os festivais e não conceberá outro ambiente que não seja o lounge. Rap, hip hop, se afirmarão como a mais legítima poesia. Não usará drogas, no sentido clássico; apenas alguns aditivos químicos. Com consciência, é claro. O celular será pura e simplesmente uma extensão de seus lábios e ouvidos. Sua agenda se orientará por eventos, e não por objetos. Sem medo ou vergonha de consumir. Manterá como hobby o regime que sempre começa na semana seguinte. Não irá ao clube, mas sim ao club, para dançar, ver e ser visto.

Como referência máxima, a indústria. O estudo das marcas se estabelecerá como uma forma de eruditismo. Os comerciais (ou "filmes"), como um instrumento na decodificação do mundo. Terá no século XX o seu marco zero. Falará em termos de décadas e não de séculos. Da psicanálise dissolvida em psicologia restarão tão somente os arquétipos; adotá-los-á, como guias. Emprestará glamour a produtos de baixa extração, convertendo em fashion até as havaianas mais legítimas. Desconfiará da medicina tradicional, preferindo sempre a alternativa. Acompanhará as novelas e elegerá a televisão como babá para toda vida.

Procurará viver coisas verdadeiras, e não essa falsa rotina. Engajar-se-á em projetos sociais, porque se cada um fizer a sua parte (e o governo, a dele)... Como supremo objetivo, aprender mais e mais sobre o mundo; aprender a aprender. O melhor trabalho ainda está por vir; e a melhor viagem, também. Não fará coleção de coisa alguma, agarrar-se-á com unhas e dentes à transitoriedade do dia-a-dia. Conceito é tudo, e a forma vem sempre antes do conteúdo. Sem optar por religião alguma, nutrirá uma admiração perene por figuras como Buda e Jesus Cristo; ícones para adornar o altar de uma vida vazia.

Considerar-se-á uma pessoa única.

Julio Daio Borges 
São Paulo, 2/8/2002

http://www.digestivocultural.com/colunistas/coluna.asp?codigo=665&titulo=Retrato_do_jovem_quando_artista_no_seculo_XXI

quinta-feira, 16 de junho de 2011

Fugir da solidão é pretensão de quem fica, exibido, fazendo fita

E viva a night!
Cantava o venerado Agenor de Miranda Araújo Neto, mais conhecido como Cazuza, que o solitário é uma pessoa pretensiosa que “fica escondida fazendo fita”. O garoto sabia fazer poemas que expressavam bem o que nós, de uma pequena região do Rio de Janeiro, sentíamos. Os que se amontoavam na pizzaria Guanabara, nos diversos bares, boates, festinhas etc., sabiam bem que a solidão era como um fantasma a assombrar a vida de cada um. Era assim que pensávamos, por isso nos encontrávamos, nos aglomerávamos. Usando uma imagem de Rollo May, nos comprimíamos para fugir da solidão que rondava, ameaçadora, lá fora.

Temíamos a solidão, por isso escorraçávamos todo e qualquer diferente, muito embora tolerássemos muito bem as diferenças, contanto, é claro, que o diferente fosse como nós. Ama a teu próximo como a ti mesmo, diz o adágio bíblico. E, assim, amávamo-nos espelhados uns nos outros, narcisos em busca de ecos para saber quem éramos. Puro nomadismo, como quer um dos conceitos da moda entre intelectuais. Éramos errantes em busca de chegar a um não-lugar. O que não sabíamos era que ir a esse não-lugar significava não ir a lugar nenhum. Nós estávamos fazendo fita, não os solitários. Nós éramos pretensiosos a ponto de achar que poderíamos escapar da vida pela tangente de uma bebedeira repetida.

Mais tarde, descobri que a solidão é aquilo que permite a cada um de nós ser gente, ter a capacidade de pensar e deliberar acerca da própria vida. Donald Winnicott escreveu um texto belíssimo intitulado “A capacidade de estar só”, no qual expõe a importância da solidão na vida humana. Ele diz que essa capacidade, a de estar só, “é um fenômeno altamente sofisticado” e está “intimamente relacionada com a maturidade emocional”.

Estar só, um dos terrores da vida urbana contemporânea, é, na verdade, uma conquista. Ao contrário do que o prezado Agenor Neto e quase toda a zona sul carioca compreendia, estar só é coisa que poucos conseguem, principalmente estar só quando acompanhado. E isso é muito curioso, pois, se observarmos bem, nascemos, vivemos e morreremos sós. Não há ninguém que possa ou consiga escapar disso. Mas, tentamos.

Entender que a solidão é um castigo é, na verdade, prova de possível imaturidade, mas o próprio poeta já se dizia um “maior abandonado”. Isso fazia parte do jogo. Jamais crescer, parar o tempo, se transformar num adolescente congelado, como Mick Jagger (imagem de Beatriz Sarlo). Essa parece ter sido, e ainda é, a regra desses obsessivos fugitivos da solidão. Os nômades que vão a muitos lugares, mas permanecem sempre restritos ao mesmo ponto de chegada: o não-lugar, ou, em português claro, lugar nenhum.

segunda-feira, 13 de junho de 2011

Vida saudável, vida sem vida

Escolha seu estilo e viva feliz no mundo dos shoppings. Você pode ser diferente, contanto que seja igual.
Um cachorro põe a pata sobre o ombro de uma criança, aparentemente num gesto de carinho. Uma cena terna. No entanto, trata-se de uma peça publicitária de um produto de ação bactericida e a imagem é acompanhada de texto que chama a atenção para os germes presentes na pata do cachorro. 

Ora, é uma peça de propaganda, mas traz uma mensagem clara: é preciso cuidar da saúde e é preciso estar vigilante. Essa vigilância inclui lavar as roupas com o produto e, quem sabe, livrar-se de toda e qualquer fonte de riscos à saúde, inclusive os cãezinhos de estimação. Se formos levar adiante a ideia proposta, seria ideal conseguir uma bolha asséptica para guardar as crianças, como aquela na qual Michael Jackson dormia, segundo antigas matérias jornalísticas sensacionais.

É o que temos visto. Nas ruas, há uma caça a animais vadios e a pessoas que moram sob as marquises. Os pobres devem ser afastados do convívio da gente bem e é bom empurrá-los para longe, para longe da vista. A fumaça dos cigarros ganha o status de inimigo público número um e o hábito de fumar é perseguido, com o fumante sendo apontado na rua, quase como um leproso. A cafeína é cortada do café, como se este pudesse sobreviver enquanto café sem a sua substância mais fundamental. Quem quiser tomar uma cerveja sem o incômodo da embriaguez pode escolher a que não tem álcool. O sexo somente deve ser feito com camisinha, seja lá com quem se faça.

Vida sem vida, sem riscos. Na verdade, vida sem vida pois sempre governada e coordenada pela propaganda. Não se pensa, não nos relacionamos com nada que não seja protegido. Há câmeras zelando todos os lugares e as conversas telefônicas de serviços são gravadas, tudo “para sua segurança”.

Nós, gente, humanos, talvez devêssemos nos mancar e trocar a pele por aço, o cérebro por um chip ou, quem sabe, o sangue por coca-cola. Talvez, assim, tenhamos lugar no mundo da propaganda e da segurança total. Quem sabe, transformando-nos em microempresas pessoais, com contabilidade de afetos e receitas de autoestima, consigamos entrar nele. Tatuando logomarcas pelo corpo ou fazendo apologia de drogas lícitas, é possível até que sejamos bem aceitos (1).
Esse "cachorrinho" certamente não transmite germes, muito menos afeto

Mas, afinal, seremos nós mesmos? Ou, possivelmente, isso já não exista mais. Ser humano é ter germes, beber e até mesmo fumar, além de fazer coisas sórdidas e, ao mesmo tempo, ser capaz de amar sinceramente. É ter medo de adoecer também, temer a desesperadamente a morte. Não é, porém, ser uma máquina de trabalhar, ganhar dinheiro e viver controladamente no fluxo das máquinas, com o descontrole somente sendo permitido quando se consome coisas ou pessoas. O importante, nessa ótica, é extrair a mais-valia de todas as situações e de todos os amigos. Se é que se consegue falar de amigos nessa história.

Não é possível que alguém creia que podemos ser isso. No entanto, parecem ser os mesmos que falam da saúde que nos propõem essa vida tão pouco saudável. Ironia máxima da vida civilizada.

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(1) Se exaltarmos as ilícitas e não formos pretos nem pobres, quem sabe os telejornais nos fotografem apanhando da polícia; se formos pretos e pobres, provavelmente seremos flagrados descendo a favela dentro de um tapete, carregados por quatro PMs.

domingo, 12 de junho de 2011

Boas falas

Falar é exclusividade do ser humano. Há quem diga que nos diferenciamos dos animais, eu e você, porque participamos de uma cultura, porque nos comunicamos etc. Mas, afinal, participamos da cultura pela fala e nos comunicamos exatamente através desse recurso. Isso significa dizer que a fala foi aquilo que nos jogou para fora da natureza, que nos definiu como diferentes do restante dos animais. O primeiro “Ug” que teve o sentido de dizer alguma coisa a alguém, indo além de simplesmente expressar uma sensação, inaugurou essa aventura que você e eu vivemos agora, como parte dessa multidão humana que se renova através do tempo, mas mantém sempre a sua característica mais fundamental: estar sempre falando entre si e para si.

Georges Gusdorf escreveu um livro que trata da palavra, da fala. Ele lembra que originalmente, a palavra era entendida como elemento mágico importante em qualquer ato. Saber o nome de algo ou alguém significaria controlar a coisa ou a pessoa, do mesmo modo como, hoje, compreendemos que saber a palavra certa para designar ou expressar o que se sente é importantíssimo no processo de comunicação e, sabemos bem, no desenvolvimento de uma pesquisa é necessário definir precisamente termos e conceitos para que se chegue a algum lugar.

A forma de falar determina a subjetividade e temos um excelente exemplo literário de como isso funciona no livro 1984, de George Orwell, no qual a sociedade idealizada por ele funda uma nova língua, chamada “novilíngua”, na qual a exclusão de palavras, ou a criação de novas palavras com sentidos dúplices ou condensados, serve para restringir o pensamento e/ou determinar sua organização em favor da classe dirigente. Se não posso falar de algo, se não posso me referir a algo ou lhe dar uma designação, essa coisa passa a não existir. Assim, o governo autoritário descrito no livro controla o pensamento dos cidadãos.

Só existe o que pode ser falado

É importante essa noção de que se falta uma palavra para designar algo, isto não existe. É que as coisas somente adquirem existência para nós quando temos uma palavra para lhes nomear. Esse fato indica que podemos falar de realidade apenas tomando em consideração as coisas que têm nome.

Faça uma experiência simples. Ande pela sua casa, ou, se preferir, vá a uma rua ou praça e olhe em volta. Se você prestar atenção, tudo o que você vê tem um nome ou conceito para identificação. Se você não vê algo, é porque não há como você designar isso através de palavras. Imagine que possa haver criaturas ou coisas invisíveis em torno. Pronto, elas já têm nome, “criaturas ou coisas invisíveis” e, assim, você quase as pode ver. Mas, e se houver mais algo, algo que você não pode imaginar? Se não há nome, não existe. Pode estar ao seu lado, você não a verá. 

Há duas imagens extremas para ilustrar como funciona o processo de detecção da realidade quando não há palavras para descrever o inusitado. Imagine-se uma tribo em direção a qual se dirige uma frota de caravelas, lá no século XV ou XVI. Eles veem os navios? Pode-se imaginar que não, pois não conseguem identificar o que é aquilo. Mas, tomando outro ângulo, também é possível supor que um dos membros da tribo, um pajé, por exemplo, aponte para as caravelas e diga algo assim: “Esse é o espírito de que lhes falei”, ou seja, ele deu um nome e, assim, as caravelas e seus ocupantes podem ser recebidos como inimigos, se o espírito citado pelo pajé for mau, ou como amigos, se o oposto.

Outro exemplo de como a fala determina a noção que o sujeito tem de si próprio está no cotidiano, nas línguas faladas, por exemplo. Cada língua tem particularidades e coordena o pensamento daqueles que a falam. Como ilustração, é possível observar que nós, os que falamos a língua portuguesa, temos uma palavra criada para designar o sentimento relacionado a sentir falta de alguém que não vemos há algum tempo: saudade. As demais línguas não possuem uma palavra para isso. Pode-se imaginar a importância que o termo “saudade” desempenhou na cultura portuguesa, na qual as grandes viagens eram algo extremamente comum, privando pessoas da companhia de outras por muito, muito tempo. E é possível entender o caráter emocional que caracteriza aqueles que falam uma língua que guardou espaço para uma palavra especial para designar uma emoção tão profunda como a de sentir saudade.

Não é preciso apenas dar nome aos bois. Tudo deve ter seu nome, ainda que seja um som dissonante ou um termo contraditório à língua culta. Através desses vínculos verbais, formamos nossa subjetividade e somente nos reconhecemos no espelho graças a nossas relações com a fala do mundo.

sábado, 11 de junho de 2011

Eduardo Galeano aponta quatro mentiras sobre o ambiente

17 de maio de 2011

A civilização que confunde os relógios com o tempo, o crescimento com o desenvolvimento, e o grandalhão com a grandeza, também confunde a natureza com a paisagem

Quatro frases que aumentam o nariz do Pinóquio

1- Somos todos culpados pela ruína do planeta.

A saúde do mundo está feito um caco. “Somos todos responsáveis”, clamam as vozes do alarme universal, e a generalização absolve: se somos todos responsáveis, ninguém é. Como coelhos, reproduzem-se os novos tecnocratas do meio ambiente. É a maior taxa de natalidade do mundo: os experts geram experts e mais experts que se ocupam de envolver o tema com o papel celofane da ambiguidade.

Eles fabricam a brumosa linguagem das exortações ao “sacrifício de todos” nas declarações dos governos e nos solenes acordos internacionais que ninguém cumpre. Estas cataratas de palavras – inundação que ameaça se converter em uma catástrofe ecológica comparável ao buraco na camada de ozônio – não se desencadeiam gratuitamente. A linguagem oficial asfixia a realidade para outorgar impunidade à sociedade de consumo, que é imposta como modelo em nome do desenvolvimento, e às grandes empresas que tiram proveito dele. Mas, as estatísticas confessam.

Eles fabricam a brumosa linguagem das exortações ao “sacrifício de todos” nas declarações dos governos e nos solenes acordos internacionais que ninguém cumpre
Os dados ocultos sob o palavreado revelam que 20% da humanidade comete 80% das agressões contra a natureza, crime que os assassinos chamam de suicídio, e é a humanidade inteira que paga as consequências da degradação da terra, da intoxicação do ar, do envenenamento da água, do enlouquecimento do clima e da dilapidação dos recursos naturais não-renováveis. A senhora Harlem Bruntland, que encabeça o governo da Noruega, comprovou recentemente que, se os 7 bilhões de habitantes do planeta consumissem o mesmo que os países desenvolvidos do Ocidente, “faltariam 10 planetas como o nosso para satisfazerem todas as suas necessidades”. Uma experiência impossível.

Mas, os governantes dos países do Sul que prometem o ingresso no Primeiro Mundo, mágico passaporte que nos fará, a todos, ricos e felizes, não deveriam ser só processados por calote. Não estão só pegando em nosso pé, não: esses governantes estão, além disso, cometendo o delito de apologia do crime. Porque este sistema de vida que se oferece como paraíso, fundado na exploração do próximo e na aniquilação da natureza, é o que está fazendo adoecer nosso corpo, está envenenando nossa alma e está deixando-nos sem mundo.

2- É verde aquilo que se pinta de verde.

Agora, os gigantes da indústria química fazem sua publicidade na cor verde, e o Banco Mundial lava sua imagem, repetindo a palavra ecologia em cada página de seus informes e tingindo de verde seus empréstimos. “Nas condições de nossos empréstimos há normas ambientais estritas”, esclarece o presidente da suprema instituição bancária do mundo. Somos todos ecologistas, até que alguma medida concreta limite a liberdade de contaminação.

Quando se aprovou, no Parlamento do Uruguai, uma tímida lei de defesa do meio-ambiente, as empresas que lançam veneno no ar e poluem as águas sacaram, subitamente, da recém-comprada máscara verde e gritaram sua verdade em termos que poderiam ser resumidos assim: “os defensores da natureza são advogados da pobreza, dedicados a sabotarem o desenvolvimento econômico e a espantarem o investimento estrangeiro.”

A divinização do mercado, que compra cada vez menos e paga cada vez pior, permite abarrotar de mágicas bugigangas as grandes cidades do sul do mundo, drogadas pela religião do consumo, enquanto os campos se esgotam, poluem-se as águas que os alimentam, e uma crosta seca cobre os desertos que antes foram bosques
O Banco Mundial, ao contrário, é o principal promotor da riqueza, do desenvolvimento e do investimento estrangeiro. Talvez, por reunir tantas virtudes, o Banco manipulará, junto à ONU, o recém-criado Fundo para o Meio-Ambiente Mundial. Este imposto à má consciência vai dispor de pouco dinheiro, 100 vezes menos do que haviam pedido os ecologistas, para financiar projetos que não destruam a natureza. Intenção inatacável, conclusão inevitável: se esses projetos requerem um fundo especial, o Banco Mundial está admitindo, de fato, que todos os seus demais projetos fazem um fraco favor ao meio-ambiente.

O Banco se chama Mundial, da mesma forma que o Fundo Monetário se chama Internacional, mas estes irmãos gêmeos vivem, cobram e decidem em Washington. Quem paga, manda, e a numerosa tecnocracia jamais cospe no prato em que come. Sendo, como é, o principal credor do chamado Terceiro Mundo, o Banco Mundial governa nossos escravizados países que, a título de serviço da dívida, pagam a seus credores externos 250 mil dólares por minuto, e lhes impõe sua política econômica, em função do dinheiro que concede ou promete.

A divinização do mercado, que compra cada vez menos e paga cada vez pior, permite abarrotar de mágicas bugigangas as grandes cidades do sul do mundo, drogadas pela religião do consumo, enquanto os campos se esgotam, poluem-se as águas que os alimentam, e uma crosta seca cobre os desertos que antes foram bosques.

3- Entre o capital e o trabalho, a ecologia é neutra.

Poder-se-á dizer qualquer coisa de Al Capone, mas ele era um cavalheiro: o bondoso Al sempre enviava flores aos velórios de suas vítimas… As empresas gigantes da indústria química, petroleira e automobilística pagaram boa parte dos gastos da Eco-92: a conferência internacional que se ocupou, no Rio de Janeiro, da agonia do planeta. E essa conferência, chamada de Reunião de Cúpula da Terra, não condenou as transnacionais que produzem contaminação e vivem dela, e nem sequer pronunciou uma palavra contra a ilimitada liberdade de comércio que torna possível a venda de veneno.

Poder-se-á dizer qualquer coisa de Al Capone, mas ele era um cavalheiro: o bondoso Al sempre enviava flores aos velórios de suas vítimas… As empresas gigantes da indústria química, petroleira e automobilística pagaram boa parte dos gastos da Eco-92
No grande baile de máscaras do fim do milênio, até a indústria química se veste de verde. A angústia ecológica perturba o sono dos maiores laboratórios do mundo que, para ajudarem a natureza, estão inventando novos cultivos biotecnológicos. Mas, esses desvelos científicos não se propõem encontrar plantas mais resistentes às pragas sem ajuda química, mas sim buscam novas plantas capazes de resistir aos praguicidas e herbicidas que esses mesmos laboratórios produzem. Das 10 maiores empresas do mundo produtoras de sementes, seis fabricam pesticidas (Sandoz-Ciba-Geigy, Dekalb, Pfizer, Upjohn, Shell, ICI). A indústria química não tem tendências masoquistas.

A recuperação do planeta ou daquilo que nos sobre dele implica na denúncia da impunidade do dinheiro e da liberdade humana. A ecologia neutra, que mais se parece com a jardinagem, torna-se cúmplice da injustiça de um mundo, onde a comida sadia, a água limpa, o ar puro e o silêncio não são direitos de todos, mas sim privilégios dos poucos que podem pagar por eles. Chico Mendes, trabalhador da borracha, tombou assassinado em fins de 1988, na Amazônia brasileira, por acreditar no que acreditava: que a militância ecológica não pode divorciar-se da luta social. Chico acreditava que a floresta amazônica não será salva enquanto não se fizer uma reforma agrária no Brasil.

Cinco anos depois do crime, os bispos brasileiros denunciaram que mais de 100 trabalhadores rurais morrem assassinados, a cada ano, na luta pela terra, e calcularam que quatro milhões de camponeses sem trabalho vão às cidades deixando as plantações do interior. Adaptando as cifras de cada país, a declaração dos bispos retrata toda a América Latina. As grandes cidades latino-americanas, inchadas até arrebentarem pela incessante invasão de exilados do campo, são uma catástrofe ecológica: uma catástrofe que não se pode entender nem alterar dentro dos limites da ecologia, surda ante o clamor social e cega ante o compromisso político.

4- A natureza está fora de nós.

Em seus 10 mandamentos, Deus esqueceu-se de mencionar a natureza. Entre as ordens que nos enviou do Monte Sinai, o Senhor poderia ter acrescentado, por exemplo: “Honrarás a natureza, da qual tu és parte.” Mas, isso não lhe ocorreu. Há cinco séculos, quando a América foi aprisionada pelo mercado mundial, a civilização invasora confundiu ecologia com idolatria. A comunhão com a natureza era pecado. E merecia castigo.

A ecologia neutra, que mais se parece com a jardinagem, torna-se cúmplice da injustiça de um mundo, onde a comida sadia, a água limpa, o ar puro e o silêncio não são direitos de todos, mas sim privilégios dos poucos que podem pagar por eles
Segundo as crônicas da Conquista, os índios nômades que usavam cascas para se vestirem jamais esfolavam o tronco inteiro, para não aniquilarem a árvore, e os índios sedentários plantavam cultivos diversos e com períodos de descanso, para não cansarem a terra. A civilização, que vinha impor os devastadores monocultivos de exportação, não podia entender as culturas integradas à natureza, e as confundiu com a vocação demoníaca ou com a ignorância. Para a civilização que diz ser ocidental e cristã, a natureza era uma besta feroz que tinha que ser domada e castigada para que funcionasse como uma máquina, posta a nosso serviço desde sempre e para sempre. A natureza, que era eterna, nos devia escravidão.

Muito recentemente, inteiramo-nos de que a natureza se cansa, como nós, seus filhos, e sabemos que, tal como nós, pode morrer.

Eduardo Hughes Galeano, jornalista e escritor uruguaio. É autor de mais de quarenta livros, que já foram traduzidos em diversos idiomas. Suas obras transcendem gêneros ortodoxos, combinando ficção, jornalismo, análise política e História. Sua obra mais famosa é o livro “Veias Abertas da América Latina”.
http://ponto.outraspalavras.net/2011/05/17/eduardo-galeano-aponta-quatro-mentiras-sobre-ambiente/

quarta-feira, 8 de junho de 2011

O mal, esse (des)conhecido

Se algum dia uma figura como essa aparecer, não se iluda. É do bem
Recentemente, li texto de Renato Janine sobre o caso escabroso ocorrido, no início de 2011, numa escola em Realengo, no Rio de Janeiro, no qual um garoto assassinou dezenas de alunos. Janine toca num ponto importante relativo às construções de explicações para fatos como esse. Sabiamente, lembra que há pelo menos duas possibilidades para se entender o “mal”. Por um lado, pode ser entendido como causa, por outro, como consequência. No pensamento contemporâneo, lembra o autor, a maioria prefere entendê-lo como motivado por algo, conforme a crença tradicional no racionalismo político no pensamento europeu. Não é usual ouvir ou ler alguém afirmando que o mal é intrínseco à existência. A moda é esquecer isso e ficar circulando em torno de ideias sobre o controle social do mal.

A racionalidade democrática e as quantificações do mercado parecem dar conta de equacionar o problema na democracia liberal. A questão é clara: o homem nasce bom, mas a sociedade o corrompe, como dizia o velho e bom humanista Jean-Jacques Rousseau. Ou, mais clara ainda: o homem é o lobo do homem, preferia Thomas Hobbes para justificar o Leviatã. Tanto num caso, como no outro, o mal presente na relação entre os homens precisa ser controlado, seja por contrato social, seja pela imposição de um acordo que reconheça uma autoridade estatal eminentemente policialesca. E em ambos os casos, a expectativa é de que isso aconteça se as medidas adotadas forem eficazes e eficientes.

O ambiente passa a ser sufocante, pois a crença na possibilidade de prevenção do mal exige vigilância constante. Ao pretender que é possível prevenir a eclosão da maldade, que esta só se manifestaria no mundo por descuido, o pensamento ocidental chega a um paroxismo metafísico. Descola-se completamente do mundo humano, real, objetivo, para idealizar um outro, no qual não há humanos. Pior: no qual os humanos não devem ser humanos, mas algo próximo de robôs que repetem sempre as mesmas noções de realidade. Se o homem é o lobo do homem, mate-se o lobo, ou se tatue nele, a ferro e fogo, um contrato de boa convivência. Além de distribuir câmeras pelas cidades, só para ter certeza de que tudo vai correr bem.

Ao fazer isso, aquele que crê no controle social do mal está combatendo suas manifestações apenas, o que significa que simplesmente consegue mudar a forma dessas manifestações, não o que as produz. Na prática, está cometendo, ele mesmo, o mal. Para preveni-lo, manifesta-o antes que se manifeste no outro. Curiosa forma de entender as coisas, mas talvez seja compreensível pela lógica da vacina, que inocula o mal para que este se manifeste sob controle. A lógica médica prevalece, mas o doente não é tratado, apenas a vaga e autoritária descrição nosológica que se faz a partir de seu estado patológico. E o mal permanece intocado.

Da guerra contra o mal, do controle obsessivo de suas manifestações, resulta apenas a geração de novas formulações desse inimigo que sempre escapa a qualquer predição. Escapa, pois está sempre presente e, como o diabo, não tem rabo nem chifres, muito menos parece com aquela macabra figura da morte, com sua inconfundível túnica negra e a ameaçadora foice nas mãos ossudas.

Pior: o mal sempre aparece no espelho. É você que não o vê.