quarta-feira, 4 de maio de 2011

Sobre os temas da classe média e da mediocridade

O texto “Haja Indignação”, publicado aqui, motivou um protesto de uma leitora. Uma indignação, melhor dizendo.

Peço desculpas, em primeiro lugar, se me expressei de forma excessivamente virulenta. Já me alertaram para o fato de que costumo me comunicar de modo algo apaixonado quando trato de determinados assuntos. É verdade.

Compartilho da indignação da leitora, que aponta para o “outro lado”, o contraditório. Deve-se, sempre, dar atenção ao que contradiz. Ponho-me no lugar dela e entendo que sua ponderação de que equipara-la a uma pessoa medíocre não é nada agradável e merece severas explicações.

Na verdade, não fiz exatamente isso, mas entendo que a identificação da leitora com o que foi exposto possa se dar na medida em que ela se sente parte daquilo que chamamos “classe média”, uma abstração para designar uma grande faixa de população urbana que compartilha de uma certa cultura difundida pelos meios de comunicação de massa. De modo genérico, praticamente todo o mundo, hoje, está globalizadamente envolvido com isso. Inclusive eu.


Fugindo da mídia de massa

O que me faz escapar pela tangente é, principalmente, o fato de evitar assistir aos telejornais – só os assisto por extrema necessidade – e não crer no que dizem as matérias jornalísticas da mídia de massa. É preciso ver o mundo de forma singular e não há qualquer incentivo a isso nos meios de comunicação da grande imprensa. O sujeito de classe média, caracterialmente, parece ser exatamente o que age de modo diametralmente oposto ao adotado por mim. Suas fontes de informação são essas e é com elas que formula sua subjetividade.

Ora, essas mídias estruturam adequadamente as suas mensagens de acordo com interesses comerciais. O que pretendem não é que seus receptores pensem, reflitam sobre a realidade, pelo contrário. Levando em conta que é necessário um bom volume de informações, de diversos pontos de vista, para entender um fato, começa por aí a carência midiática. As informações são selecionadas e restritas, tencionam direcionar a perspectiva de visão para um ponto apenas. Esse ponto forma a opinião pública na medida em que se estabelece como parâmetro de análise e reflexão. Atinge a média, se pode dizer, formula e controla, assim, a subjetividade de um número significativo de pessoas. Essas pessoas são o público-alvo, o target, que se compõe dessa imensa multidão englobada publicitariamente sob o rótulo de classe media, mas bem poderia ser “classe mídia”, pois depende fundamentalmente dos veículos de comunicação para se definir e mesmo para viver.

Desse modo, me permito observar de modo crítico o ambiente e peço licença à leitora para manter e reforçar meu ponto de vista de que essa gente indignada, essa maioria silenciosa que se une na indignação, na censura, no apedrejamento simbólico, se orienta pela média, pela mídia, logo está “midiatizada”, ou “mediatizada”. Sabe o que significa isso? O termo foi e é usado para designar aquelas pessoas que são interditadas pela família, ou seja, que não controlam suas vontades e atos, dependendo de outrem para fazer isso, ainda que contra a vontade. Parece-me claro que falamos de uma condição semelhante a essa quando abordamos a massa eminentemente urbana designada pelo epíteto de “classe média”.

Bonecos animados

Como os apresentadores de telejornais, que não falam por si, apenas repetem o que se lhes aparece pelo teleprompter, como os animadores de auditório que são orientados pelo diretor através do “ponto”, como os antigos atores que necessitavam de alguém que lhes lembrasse as falas esquecidas, o sujeito dessa imensa e amorfa massa age, dessa mesma maneira.

Pensando assim, inclusive, percebe-se a imensa ironia presente na designação de uma parte seleta dessa classe como “formadora de opinião”. Ora, nem a própria opinião esse pessoal é capaz de formar sem que lhe digam como pensar... Melhor seria dizer, como alguns autores que seguem pela linha dos Estudos Culturais, que são mídias, apenas isso. Como fitas cassete, cartazes ou DVDs. Essa lógica, se confirmada, consolida perfeitamente a concepção de Marx da fetichização. De certo modo, as relações interpessoais nesse âmbito se dão de acordo com uma personalidade que englobe perfeitamente os conceitos de kitsch e de gadget, bem tratados por Abraham Moles.

Tudo indica que a subjetividade mediana também se formula através de manifestações culturais que são promovidas e reproduzidas pelos mesmos veículos de massa. Um excelente exemplo pode ser encontrado na subcultura pop, com a música tendo aí uma função importantíssima de atração e organização da emoção, em especial o rock. No caso desse estilo musical, é interessante notar como representa uma contestação simbólica, mas apenas isso. Como bem mostra Luis Britto Garcia, o “roqueiro” é um contestador apenas no plano do símbolo, não na realidade. O rock é um estilo musical, não um estilo de vida. Sendo mais claro, o rock é uma mensagem rebelde, não exatamente uma atitude rebelde. Confundir uma coisa e outra é, cá para nós, um tanto patético e produz, além de fantasias condicionadas por um padrão um tanto teatral, uma inegável impotência política.

Vida sem vida

Forma-se uma “vida” subjetiva que se constitui para sempre tentar ocultar um importante dado do real: não se trata de vida, mas de vida sem vida, morte política. Uma autêntica incapacidade de gerir os próprios pensamentos e atos. Significa abrir mão de pensar os próprios pensamentos, diria o psicanalista Wilfred Bion. A crença cega na existência de alguém que deve fazer isso por nós, enquanto estamos ocupados em ganhar dinheiro ou prestígio ou simplesmente gozamos a vida em algum entretenimento. Veja-se a gravidade dessa delegação de poder. Note-se a pobreza subjetiva, dir-se-ia mental. Assim se forma a “individualidade de massa”, conceito sugerido e trabalhado por Felix Guattari.

Não posso afirmar, efetivamente, se a leitora que reclama, que se indigna, se enquadra nesse grupo. Tudo indica que sua identificação, porém, segue esse trajeto. Digo que não sou, evidentemente, dono “da” verdade, apenas propositor de uma forma de entender uma parte do real.

O fato é que entendo que a designação “classe média”, que a leitora não quer ver associada à mediocridade, assume, na era moderna e em nossos tempos ditos pós-modernos, uma identidade direta com a identidade de massa. E todos nós sabemos o que é o “sujeito massa”. Se não é medíocre, então não sem bem do que se trata.


Referências

A classe média é enfocada por alguns autores interessantes. Um deles é Wright Mills, no seu “White Collar”, falando dos colarinhos brancos. Creio ser mais interessante ainda o livro de Bolívar Costa, que acreditava quase inacessível e hoje constato que há vários exemplares disponíveis no sítio “Estante Virtual”. Costa faz uma análise cirúrgida da classe média do fim da era moderna, captando bem sua estrutura e já prenunciando alguns caracteres fundamentais da subjetividade mediana que hoje ganham novos relevos.

Os trabalhos citados, como se pode ver, tratam da classe média de tempos idos, embora descrevam a essência, o molde subjetivo no qual cada exemplar da pequena burguesia é feito. Tratei também desse assunto na minha dissertação de mestrado, “O Charme do Crime Organizado: desconstruindo uma guerra a Beira-Mar”. Procurei fornecer uma atualização das características do sujeito dito de classe média, constatando a existência de uma vida eminentemente vicária, de submissão a um controle subjetivo panótico.

O estadunidense Curtis White escreveu um tratado sobre a mediocridade de alguns de seus ilustres conterrâneos. Chama-se “A mente mediana: por que deixamos de pensar por nós mesmos”. No original, o subtítulo é “por que os americanos deixaram de pensar por si mesmos”. Também o inglês Francis Wheen contribui para o tema, tomando-o no ângulo dos gabinetes políticos e ilustra a forma estúpida pela qual alguns homens públicos britânicos apostaram que estavam lidando com tolos, para dizer o mínimo, e ganharam a aposta. O título é “How mumbo-jumbo conquered the world”. Em português, resolveram enfocar o lado da malandragem e publicaram o livro como “Como a picaretagem conquistou o mundo”. Lendo-o, a gente fica realmente abismado e se pergunta como as pessoas podem acreditar em algumas coisas que dizem a elas.

O tema da mediocridade foi tratado por Jose Inginieros, no seu clássico “O homem medíocre”. Se o tipo descrito pelo autor não se enquadrar perfeitamente nas identidades de massa que formam a subjetividade da chamada classe média, então devemos estar falando de coisas realmente opostas. E mais. Wilhlem Reich escreveu seu melhor livro, “Escuta, Zé Ninguém”, mundialmente lido e encenado, absolutamente dedicado ao sujeito medíocre. Basta atualizar os objetos de devoção desse sujeito “zero à esquerda” para obtermos a mais pura descrição do indivíduo massificado destes nossos dias.

Se o que tratam os autores citados, incluindo a mim, não for um sujeito medíocre, no sentido de que se identifica com a média, se ordena pela avaliação de outrem, e se essa não for a característica mais clara e gritante do indivíduo que está incluído nessa grande massa urbana amorfa que chamamos de classe média, então podemos estar trocando as bolas.

Mas, para tudo há solução.

Um comentário:

  1. Usou uma metáfora. Tudo bem. Todavia, cabe ressaltar que, o emprego de tal figura de linguagem carrega em si todo um conceito pre estabelecido, generalizante, nivelador, que diz que a classe média, pra mim apenas uma estratificação economica, é mediocre. Ficou claro em seu discurso, muito retorico, mas ainda bastante raso, no que se refere ao academicismo, o desprezo pelos Estudos Culturais e acredito eu, esteja ai a raiz de sua alienação. Nortea-se pelos estudos economicos, negando a singularidade de sujeitos que representam para o seu governo e para os que o antecederam, apenas indices, numeros. Marx não é teorico para os dias de hoje, porque o que é difundido hoje pelos que se dizem marxistas nada mais é que uma apropriação equivocada de uma teoria economica, direcionada ao coletivo e não ao estudo do individuo dotado de peculiaridades. Maior erro é envolver Guatari, que buscou compreeender o individuo em sua rotina, no seu cotidiano, ao mesmo tempo que nega qe existem diferenças entre os seres apenas por assistirem um canal. Apenas por terem rendimentos de quantias semelhantes. O senhor é por demais preconceituoso quando afirma que a classe media se pauta pela Globo, pois quem mais assiste a tal rede de tv são os eleitores do presidente Lula, pobres coitados que tiveram acesso a uma tv, atraves de credito bancario, e permanecem na poça de ignorancia onde o governo sempre podera saber que os tera sob controle. Engana-se se pensa que sou direitista, apenas gostaria que fosse claro para todos que qualquer individuo que tiver o poder ao seu alcance corromperá, por isso sou contra lideranças, verticalização, formação de personagens populistas, ufanismo para ingles ver. Não tenho porque não assistir um telejornal e acho que o senhor deveria fazer o mesmo, pois enfim, a informação é necessária. Tenho espirito critico o suficiente para perceber discursos e tentativas implicitas de modular pensamentos nas massas. Minha cultura advem de livros, mas não nego as novas midias, não ligo de assistir o big brother e simplismente aproveitar a catarse, assim como veria um desenho animado ou uma comedia, tudo passa por uma reflexão antes que seja internalizado. Um beijo.

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