domingo, 29 de maio de 2011

Ainda dialogando com a leitora indignada

Com vocês, o ego real do indivíduo no capitalismo, note-se que sem a gordura do falso self
No dia 21 de maio, um sábado, a leitora indignada com o texto “Haja indignação” fez um comentário menos indignado ao texto “Sobre os temas da classe média e da mediocridade”, publicado neste blog justamente em consideração à sua indignação. 

Abaixo, a íntegra do comentário, exatamente conforme publicado por ela:

“Usou uma metáfora. Tudo bem. Todavia, cabe ressaltar que, o emprego de tal figura de linguagem carrega em si todo um conceito pre estabelecido, generalizante, nivelador, que diz que a classe média, pra mim apenas uma estratificação economica, é mediocre. Ficou claro em seu discurso, muito retorico, mas ainda bastante raso, no que se refere ao academicismo, o desprezo pelos Estudos Culturais e acredito eu, esteja ai a raiz de sua alienação. Nortea-se pelos estudos economicos, negando a singularidade de sujeitos que representam para o seu governo e para os que o antecederam, apenas indices, numeros. Marx não é teorico para os dias de hoje, porque o que é difundido hoje pelos que se dizem marxistas nada mais é que uma apropriação equivocada de uma teoria economica, direcionada ao coletivo e não ao estudo do individuo dotado de peculiaridades. Maior erro é envolver Guatari, que buscou compreeender o individuo em sua rotina, no seu cotidiano, ao mesmo tempo que nega qe existem diferenças entre os seres apenas por assistirem um canal. Apenas por terem rendimentos de quantias semelhantes. O senhor é por demais preconceituoso quando afirma que a classe media se pauta pela Globo, pois quem mais assiste a tal rede de tv são os eleitores do presidente Lula, pobres coitados que tiveram acesso a uma tv, atraves de credito bancario, e permanecem na poça de ignorancia onde o governo sempre podera saber que os tera sob controle. Engana-se se pensa que sou direitista, apenas gostaria que fosse claro para todos que qualquer individuo que tiver o poder ao seu alcance corromperá, por isso sou contra lideranças, verticalização, formação de personagens populistas, ufanismo para ingles ver. Não tenho porque não assistir um telejornal e acho que o senhor deveria fazer o mesmo, pois enfim, a informação é necessária. Tenho espirito critico o suficiente para perceber discursos e tentativas implicitas de modular pensamentos nas massas. Minha cultura advem de livros, mas não nego as novas midias, não ligo de assistir o big brother e simplismente aproveitar a catarse, assim como veria um desenho animado ou uma comedia, tudo passa por uma reflexão antes que seja internalizado. Um beijo.”



Sem metáforas

Bem, não usei qualquer metáfora. Disse, em vez disso, que a designação “classe média” é “uma abstração para designar uma grande faixa de população urbana que compartilha de uma certa cultura difundida pelos meios de comunicação de massa”. É um conceito, não uma metáfora. Nesse sentido, se a leitora entende que trato “apenas de uma estratificação econômica”, não é o caso. O fato econômico não esgota essa definição. O que parece mais importante é entender que há uma grande quantidade de pessoas integradas no meio urbano por uma cultura que é difundida pelos veículos de massa, o que traz, inevitavelmente, características peculiares à subjetividade dessa gente. A principal delas é, evidentemente, a pobreza subjetiva ou, nos termos de Guattari, o fato de serem vítimas de agenciamento subjetivo.

Pobreza de espírito

Antigamente, era outra a solda subjetiva que unia as pessoas: havia a tradição e havia também o poder das autoridades científicas, religiosas, literárias, políticas etc., além das referências cívicas e heróicas, como as dos grandes vultos nacionais. No caso da cultura de massa que une essa classe urbana (uma classe intermediária entre a que adota a cultura das elites e a cultura popular, que têm especificidades próprias que a cultura de massa não consegue anular nem apagar, embora muito se creia nisso), a coisa é diferente. Não há tradição, mas a informação momentânea e descartável que os veículos de comunicação oferecem como modelo. Não há certeza, a não ser a de tudo muda muito rápido (embora, na verdade, nada mude).

As autoridades perdem sua referência centralizadora e autônoma, dependendo da veiculação e mesmo, veja só, da aprovação dos meios de comunicação de massa. No entanto, mantêm, quando aprovadas, seu peso de importância na formação subjetiva, apesar de que suas afirmações e ideias não mais têm valor em si, mas dependem da comprovação da eficácia e da eficiência que demonstram.

Finalmente, com o declínio da importância do discurso do Estado Nação e do sentimento de nacionalidade (que, no Brasil, apenas se manifesta de quatro em quatro anos, nas Copas do Mundo de Futebol), não há referências cívicas marcantes e, da mesma forma, heróis – a cultura de massa promove ídolos, em vez disso. Tiradentes some de vista para dar lugar a Cazuzas, Jaggers etc, esse rebotalho que ganha importância nunca vista graças à mídia de massa. A diferença é que ditam comportamentos de acordo com a moda e os interesses do consumo, são porta-vozes apenas.

O conceito de “Classe média” corre o risco, como todo conceito, de ser generalizante e nivelador, conforme o uso. Porém, a cultura massificante é, ela mesma, generalizante e niveladora e as pessoas que nela estão mergulhadas trabalham com generalizações e são niveladas intelectual e criativamente. Não sei bem onde se localiza o limite entre a miséria dessa cultura e a forma miserável de designá-la. Só sei que falamos daquilo que se conhece nas ruas como “pobreza de espírito”, bem pior e mais deletéria que a pobreza econômica.

Risco de afogamento

A leitora afirma que sou “muito retórico, mas ainda bastante raso”. Bem, ser retórico não é um defeito, muito pelo contrário, contanto que a forma não ultrapasse ou solape o conteúdo. Tenho a certeza de que isso não acontece no meu texto. Quanto a ser raso, tudo indica que, pelo texto escrito pela leitora, pelo parco conhecimento que demonstra dos temas tratados, se houvesse um pouco mais de profundidade temo que ela correria risco de afogamento. Mas, louve-se a sua iniciativa de debater, já que inicialmente o que fez foi ofender. Há um grande avanço e uma boa disposição claramente posta.

Estudos culturais ou estudos culturais?

Não desprezo os Estudos Culturais, de forma alguma. Pelo contrário. E não disse nada que pudesse indicar esse tal desprezo. Apenas lembrei que alguns autores dessa linha fazem referência às pessoas serem mídias em nossa cultura. Concordo com isso e reitero essa compreensão. Há trabalhos interessantíssimos dos Estudos, como o inaugural, “The uses of literacy”, de Richard Hoggart, que trata justamente da massificação, e os textos de Stuart Hall, por exemplo (embora ache o seu lidíssimo “Identidade Cultural na Pós-modernidade” um tanto fraco, farto de lugares comuns). Mas, não sei se a leitora está confundido os Estudos Culturais enquanto escola com os “estudos culturais” enquanto estudos que se dedicam à cultura... Acho que está.

Indivíduos no capitalismo? O Saci Pererê e o Boitatá são mais reais

É óbvio que não me norteio exclusivamente por “estudos econômicos” e trabalho com a sugestão de Guattari de que não há singularidades entre essa massa. Ele, justamente quando aborda o cotidiano, as relações de micropoder, a micropolítica, na linha de Nietzsche e Foucault, postula que a individualidade que conhecemos é uma individualidade de massa, ou seja, em português claro, UMA FARSA. Em Psicanálise, talvez falássemos de “falso self”. Mas, vamos parar por aqui que a leitora não parece capaz de ir além dos lugares comuns. Se ela acredita em individualidade no capitalismo deve ficar acordada na noite de natal até Papai Noel chegar.

Essa história de individualidade na sociedade de consumo, no SCM (Sistema Capitalístico Integrado, conforme nominado por Guattari), é pura balela. Não existe isso a não ser em conversa em torno da fogueira. Indivíduo, no capitalismo, é como alma do outro mundo.

Sem governo, mas não desgovernado

A leitora diz que tenho governo, que este que está aí provavelmente é “meu governo”. Não é. Acho o governo do PT, com Lula ou Dilma, ruim. O problema é que vivi durante os outros governos, que foram péssimos. Entre o ruim e o péssimo, fico com o primeiro.

É Karl, não Groucho!

A leitora acha que Marx “não é teorico para os dias de hoje, porque o que é difundido hoje pelos que se dizem marxistas nada mais é que uma apropriação equivocada de uma teoria economica, direcionada ao coletivo e não ao estudo do individuo dotado de peculiaridades”. Ora, alguém precisa dizer a ela que os erros dos discípulos não necessariamente são os problemas dos mestres. Há erros dos discípulos de Marx, mas creio que não exatamente o que ela aponta, mas ela erra tanto ao apontar que chego a duvidar de sua acuidade visual e intelectiva.

Entendo que Marx realmente enxergava o mundo excessivamente enquadrado no econômico, mas foi brilhante nesse item. Houve seguidores, porém, como Gramsci e Benjamin, que nos chamaram a atenção para aspectos culturais. Marx formulou a melhor análise do capitalismo que conheço. Tenho a impressão que, inclusive, esclareceu bastante aos capitalistas sobre como desenvolver melhor as técnicas de exploração e dominação. Ou será que a leitora ou alguém acredita que Adam Smith sabia que o lucro vinha diretamente da espoliação do trabalho? Foi Marx que demonstrou isso. Karl Marx, não Groucho Marx, é bom lembrar à digníssima leitora.

Informações? Que informações?

Não mencionei um “canal” de televisão específico. Acho que a confusão da leitora se deu pelo fato de que ilustrei o meu texto com uma imagem usada por um canal em um de seus programas. É ilustrativo apenas. Será preciso desenhar?

Mas, tudo indica que ela deve passar boa parte do seu tempo diante da TV. Cabe lembrá-la o que diz Derrick de Kerkhove: não é você que vê a TV, é ela que te vê. É um bom tema para refletir. Creio que todo o resto da peroração da leitora que é relacionado a esse tema não merece comentário.
Telejornais? Não obrigado

Quando digo que é preciso fugir das informações massificadas dos telejornais, o que almejo é o realce das singularidades, pelo menos das minhas singularidades, que muito prezo. Funciona para mim, que me poupo da superficialidade e da parcialidade jornalística. Me poupo da exposição ao cinismo das empresas de comunicação. A leitora deveria tentar, é muito saudável.

Alguém precisa lembrar à leitora que se informações são importantes, mas informações confiáveis. E estas não são encontráveis nos noticiários das empresas de comunicação, sejam eles escritos ou falados. O que elas fazem é selecionar, não ao acaso, algumas informações e omitir outras. Assim, a leitora que acha muito importante se informar, acaba ficando desinformada, pois fica sabendo das coisas pela metade e, pior, pela metade podre.

Para concluir, a leitora é livre para assistir o que quiser, inclusive os telejornais. Eu, só os assisto por interesses profissionais. Quanto ao espírito crítico, a leitora diz tê-lo, mas, infelizmente, não demonstra. Ela diz que sua cultura advém de livros, parabéns a ela. Espero que leia cada vez mais, de modo a que possa formar um verdadeiro espírito crítico. Agradeço-lhe o carinho do beijo e fico feliz por ter ajudado uma alma a passar parte de seu sábado pensando.

quinta-feira, 19 de maio de 2011

Redes midiáticas e a democracia

Na imagem, o resumo das notícias do dia
Por Francisco José Castilhos Karam em 17/5/2011

Reproduzido do objETHOS, 16/5/2011;

título original "A importância das novas redes midiáticas para a democracia"

O que leva a coberturas tão díspares o jornalismo da TV Globo, canal aberto, e o da Globo News, canal pago? Aparentemente, a rentabilidade econômica, a amplitude do público e a necessidade de atender o maior número possível de registro de fatos com versões simplificadas da realidade. Isto traz consequências na forma de abordagem de um mesmo fenômeno, acontecimento ou fato. Enquanto o canal aberto está destinado ao grande e heterogêneo público, com publicidade em valores muito altos, e, portanto, sujeito a um jornalismo fast food, o segundo é bancado pelo rendimento do primeiro, propiciando um jornalismo de mais e melhor análise, de mais entrevistas e entrevistados com mais qualidade e mais tempo de análise. E permite programas que, além do texto, trabalham detalhadamente o contexto.

Seria injusto atribuir a todo o jornalismo a designação de superficial – e também ao da própria Rede Globo –, já que lida com o tempo presente e suas diferentes formas de manifestação. Se a sociedade tem um ritmo acelerado, tal ritmo se reflete nas atividades contidas nela. O jornalismo imediato é dirigido a pessoas que, além de diferentes entre si, estão em um ritmo veloz de vida, que pode levar a uma vida também fast food. A informação com tais características é causa ou consequência?

O jornalismo fast food que cobriu o assassinato de Osama Bin Laden pouco tem a ver com o jornalismo de contexto e de lenta duração que tratou do mesmo assassinato, embora um possa complementar o outro. Assim, programas como Milênio e outros de entrevistas e de debates, da Globo News, trataram e atualizaram o tema à luz de fatos e de versões controversas e profundas, esclarecendo o contexto da ação e dos precedentes históricos. Isto veio em versões também de ex-agentes da CIA e de ex-integrantes do governo anterior, de George W. Bush, descontentes com as ações unilaterais e autoritárias de seus comandantes. Veio também, em parte, pelo depoimento de ex-membros da Central da Inteligência dos Estados Unidos da América, nos quais as convicções traídas e mesmo a própria idade contribuem para certo arrependimento de crimes, torturas e assassinatos.

Base da luta

Parece importante o contexto. E, para isso, a diversidade temática necessita diversidade midiática, tanto em propriedade quanto em fontes e formatos. Apesar de importante, o jornalismo segmentado e contextualizado, em grandes mídias e canais pagos, não atende ainda a múltiplos e diferenciados públicos. Tal perspectiva requer mídias massivas e em rede para, coletivamente, potencializar a controvérsia pública, essencial à democracia.

Certamente, as expressões terrorismo e terrorista não são exclusividade nem de fundamentalistas islâmicos nem de bin Laden... e tampouco de governos momentâneos que agem à revelia da legislação e acordos internacionais. Trata-se de saber quem começou primeiro e se um dia isso vai parar e como realizar as condições sociais para tal. Pela lógica histórica e militar norte-americana, todos devem seguir a democracia, que é a sua, e a liberdade – que também é a sua – o que pode significar que a liberdade e a democracia dos outros não vale nada.

Por exemplo, a liberdade e a democracia de Argentina, Brasil, Chile e Uruguai não valeram nada – ainda que emanadas do Estado e das urnas nos anos 1960 e 70 – porque, para liquidá-las, bastou o patrocínio do governo "democrático" dos Estados Unidos, apoiando e dando sustentação política, militar, instrucional e propagandística para os golpes militares de que todos estes países foram vítimas. E enviando especialistas em tortura, como Dan Mitrione, para ensiná-la na região.

Isto vale para centenas de ações, patrocinadas pelos Estados Unidos em todo o planeta – sobretudo a partir da Segunda Guerra Mundial – de invasão, ocupação, torturas, assassinatos e extermínios não só de terroristas, mas de velhos, crianças, bebês, mulheres inocentes e daqueles que utilizam as palavras liberdade e democracia em desacordo com o sentido para elas entendido pelo governo norte-americano.

Assim, há necessidade de conviverem tanto informações factuais, com registros simples, e aquelas que exigem contextualização e aprofundamento, para permitir o esclarecimento adequado ao entorno social de forma mais rápida e consistente. E, para isso, a luta já histórica pela democracia das comunicações no Brasil – envolvendo novos protagonistas, novas mídias, novas narrativas, novas fontes e a capacidade de acesso massivo a elas – está na base da luta por um jornalismo que se estruturou como negócio mas se legitimou como serviço público.

"Democracia vigiada"

A democratização da comunicação para ampliar o jornalismo como esclarecimento público é relevante. O cenário público de relatos, versões e controvérsias tem necessidade de ampliação; o surgimento e a consolidação de novas mídias também é importante para que não validemos mecanicamente a ação dos outros, de quaisquer outros. Por isso, um dos temas mais importantes para a sociedade brasileira, nesta semana, será o Seminário "Marco regulatório – Propostas para uma comunicação democrática", promovido, nos próximos dias 20 e 21 de maio, no Rio de Janeiro, pelo Fórum Nacional pela Democratização da Comunicação. Ele quer, nada mais nada menos, do que propiciar as condições para que a democracia possa ser discutida e implementada por mais gente. E que o Estado, por dever de ofício, cumpra o papel de favorecer a democracia.

É prejudicial à democracia que significativa parte da grande mídia até o momento tenha manifestado tanto desprezo pelo tema sem contexto algum das propostas e dos debates propostos nos sucessivos eventos promovidos pelo FNDC e por entidades congêneres. E que esteja pautando o governo federal sobre o que devem ser ou não as políticas de comunicação para o país e como tratá-las, com quem tratá-las e quais interesses particulares não devem ser enfrentados.

Da mesma forma, é grave que o governo federal atual aceite que empresas privadas de comunicação condicionem as ações de Estado, responsáveis por dirimir dúvidas, suscitar debates e contemplar propostas que favoreçam a democracia midiática e os processos plurais e controversos do universo jornalístico. Ainda que programas jornalísticos como Milênio e outros aqui e ali favoreçam tal cenário – o que é muito bom –, cabe ao Estado intensificar tal perspectiva em nome da própria democracia real e não de uma qualquer "democracia vigiada", subproduto do interesse particular que rebaixou, hegemonicamente, o assassinato de bin Laden e todo o contexto do Oriente Médio à condição de informação fast food.

http://www.observatoriodaimprensa.com.br/artigos.asp?cod=642IPB001

A Branca de Neve não existe, muito menos Papai Noel

Cuidado, pois se não existe Branca de Neve, tá cheio de vilões e bruxas andando por aí
Hoje, ouvi um médico reclamar da “criação recente” do Ministério do Planejamento. Ora, o tal ministério foi criado em 1962 e o primeiro ministro foi Celso Furtado, um ícone para parte da intelectualidade brasileira. Até aí, porém, tudo vai indo bem, pois a cultura de conhecer a história brasileira se perdeu com o tempo e o que hoje as pessoas conhecem de história do próprio país não vai além, mal e parcamente, do tempo de vida vivido dos quinze anos em diante, que antes disso ninguém quer saber de nada além de brincar, embora a maioria continue somente pensando nisso o resto da vida (e a cultura do entretenimento está aí para provar isso).

O problema maior é que ele reclamava de uma série de outras coisas, principalmente do serviço público, da burocracia etc. Tudo isso como se houvesse conserto. Ora, é engraçado perceber que as pessoas realmente acreditam que as instituições existem para funcionar de acordo com o que elas próprias afirmam ser “sua missão”. Para mim, isso corresponde a dizer que as pessoas acreditam em contos de fadas e aguardam esperançosas que, um dia, a Branca de Neve ou a Cinderela vai pular na frente delas e dizer que tudo mudou e que, a partir daquele momento, o mundo será “como deve ser”.

Aliás, essa história de “missão” é algo muito engraçado. Uma empresa de telefonia, por exemplo, pode dizer que sua “missão” é atender com qualidade o cliente, possibilitando que várias pessoas possam se comunicar e melhorando a vida delas. É, pode dizer isso. O que não se diz, porém, é que essa “missão” foi criada para figurar na Terra do Nunca, com seus Peters Pans e Sininhos (que agora virou Tinkerbell) de garoto e garota propaganda.

Missão de empresa é, em primeiríssimo lugar, lucrar. E, para isso, já ensinava o grande Karl Marx, que pode efetivamente ser criticado pelo resultado prático de sua proposição política, mas jamais pela valiosa análise que fez do capitalismo, a única possibilidade é tirando ou, pode-se dizer, em casos extremos, mas não raros, efetivamente roubando de seus trabalhadores e, é claro, de seus clientes. Em outros termos, temos observado que missão de empresa – embora não se possa generalizar, é óbvio – parece ser lucrar à custa de todos em volta, “colaboradores” (o novo eufemismo para empregados) e público em geral que cair na arapuca. Como já dissemos, não vamos generalizar, mas parece que a regra geral é essa mesmo.

Uso como exemplo as empresas de telefonia pois soube, ontem, de um caso exemplar e assustador: uma empresa que atende a telefonia da ANATEL, a Agência Nacional de Telecomunicações (criada para fiscalizar os serviços de telefonia) simplesmente superfaturava a conta em 70%! Olha, se eles fazem isso com a ANATEL, o que farão comigo e com você? A tunga só foi descoberta quando um funcionário conseguiu criar uma planilha para a fiscalização efetiva das contas de telefone da Agência. Ora, cá para nós, isso não se chamaria roubo em outras circunstâncias? Tenho certeza que sim e que, por muito menos, há pessoas mofando nas penitenciárias.

De modo que uso este espaço para alertar você de que não é saudável acreditar em contos de fadas, ficar imaginando como seria encontrar a Branca de Neve ou, quem sabe, ficar plantado diante da árvore de natal esperando a presença real de Papai Noel. Do mesmo modo, se você não é desses que vão tão longe na imaginação, é bom também desconfiar das “missões” que muitas empresas enunciam. Não passam de cortinas de fumaça para ocultar suas verdadeiras práticas que, pode acreditar, levariam você ao júri e, com boas chances, ao xilindró, caso tentasse fazer algo minimamente semelhante.

domingo, 8 de maio de 2011

Bin Laden e "A carta roubada"

Como no conto de Edgar Alan Poe, os EUA colocaram o mundo de pernas pro ar, trataram de destruir a fábrica social de todo o Oriente Médio para cortar a cabeça de um monstro que estava diante de seus olhos e que saiu de suas próprias entranhas.


Por Luis Martín-Cabrera

 
Em “A Carta Roubada”, conto de Edgar Allan Poe, o chefe de polícia busca infrutiferamente em todos os aposentos de um dos ministros uma carta que foi roubada da rainha e que compromete sua honra. O chefe e sua equipe entraram várias vezes de maneira ilegal no quarto do ministro, registraram cômodo por cômodo, móvel a móvel, utilizaram inclusive agulhas para espetar as almofada em busca da carta e, meu favorito, desmontaram inclusive os pés da cama e da mesa para buscar no interior destas sem que a carta aparecesse em nenhum lugar. Desesperado o chefe pede ajuda ao primeiro investigador do romance policial, Auguste E. Dupin em busca de auxílio. Com sua característica sagacidade de jogar, Dupin resolve imediatamente o mistério, porque a carta estava simplesmente em cima de uma cômoda, a vista de todo o mundo.

Se pensarmos bem, o recente assassinato de Osama Bin Laden não é senão uma versão grotesca e sinistra de “A Carta Roubada”. Depois de todos estes anos, Osama não estava em uma caverna nas montanhas do Afeganistão fazendo hemodiálise duas vezes por semana e dirigindo as operações da Al-Qaeda por computador como quem joga a Jihad em um Playstation, mas estava aí, debaixo de nossos narizes, instalado comodamente em uma mansão de alta segurança nos arredores de Islamabad. E às vezes olhar demais as coisas é uma maneira de não ver o que está acontecendo, uma espécie de cegueira induzida que nos deixa no escuro. Esta cegueira não é somente um problema epistemológico, mas também um problema ético, já que a busca daquilo que não se vê porque está logo adiante permite justificar, entre outras coisas, as guerras do Afeganistão, Iraque, Paquistão e Iêmen, a tortura, as prisões ilegais, Abu Graib, Guantánamo, a tortura, os bombardeios com aviões não tripulados, a aprovação do Patriotic Act, as escutas ilegais, a islamofobia, o corte das liberdades civis, e os milhares de mortos derrubados na “guerra contra o terrorismo”.

Podem ser só coincidências, mas o que é inegável é que o aparato midiático militar dos Estados Unidos está espetacularizando o assassinato de Bin Laden com um propósito duplo: esconder, como em "A Carta Roubada", os problemas internos e externos do país e promover entre cidadãos um complexo melancólico agressivo que siga justificando as guerras imperiais pelos recursos do Oriente Médio
Como na Carta Roubada, os Estados Unidos colocaram o mundo de pernas pro ar, trataram de destruir a fábrica social de todo o Oriente Médio para cortar a cabeça de um monstro que estava diante de seus olhos e que, além disto, saiu de suas próprias entranhas. Não nos esqueçamos que ainda se pode ler a declaração do presidente Ronald Reagan chamando os Mujahidin “freedom fighters”, lutadores pela liberdade, em 1983, com motivo da invasão soviética do Afeganistão [1].

Que sentido tem, então, agora ter chegado ao fim da busca?

Como nas más histórias policialescas a resolução do crime ou o mistério pretende ser uma resposta tranquilizadora para a sociedade: justiça foi feita, o criminoso foi castigado por seus crimes, a ordem social foi restabelecida, os cidadãos podem voltar à pacífica mediocridade de suas insignificantes vidas e, sobretudo, podem voltar a dormir tranquilos. Além de todos estes efeitos político-literários, o assassinato de Bin Laden pretende, sobretudo ser construído como um gigantesco espetáculo midiático cujas luzes pretendem deixar-nos todos cegos. Algo sobre isto intuíram Paco Ignácio Taibo II e o Subcomandante Marcos quando escreveram em seu romance obscuro “Mortos Incômodos”:

“Burbank é a capital do cinema pornô dos Estados Unidos, um povoado próximo de Los Angeles, com motéis e empresas triplo-X, transa e transa, filma e filma, viva o capitalismo selvagem. E junto tudo e me digo: “Não estarão estes capanga de Bush e seus amigos fazendo os comunicados de Bin Laden, as mensagens do demônio, em um estúdio pornô em Burbank, Califórnia, que até deserto tem por ali? Não será tudo uma montagem, uma fábrica de sonhos de merda, com um ex-taqueiro mexicano chamado Juancho como personagem central? Eu, de verdade, não engulo’, me dizia: ‘como vão acreditar?’, mas, por pouco não é bonita a história?”.

E é que quando as coisas vão mal, a “Pentágono Produções” põe em funcionamento sua máquina de sonho (melhor dizer pesadelos) para tranquilizar a população civil mediante altas doses de entretenimento imperial-militar. Não se trata de cair em teorias da conspiração, mas não é um pouco suspeito que o anúncio da captura e morte de Bin Laden se faça no Primeiro de Maio, um dia que além de tudo não se celebra nos Estados Unidos? Não é demasiado conveniente que o anúncio da morte do pior dos males se faça no mesmo dia que as forças da OTAN bombardeiam civis e matam um dos filhos de Gadaffi na Líbia?

 
Podem ser só coincidências, mas o que é inegável é que o aparato midiático militar dos Estados Unidos está espetacularizando o assassinato de Bin Laden com um propósito duplo: esconder, como em "A Carta Roubada", os problemas internos e externos do país e promover entre cidadãos um complexo melancólico agressivo que siga justificando as guerras imperiais pelos recursos do Oriente Médio.

A confusão obscura que produziu o assassinato de Bin Laden tem por objeto, como assinalou Santiago Alba Rico, ocultar tudo o que está ocorrendo no mundo árabe, desde as revoltas na Tunísia, Egito, Síria ou Bahrein à intervenção militar da OTAN [2]; Hillary Clinton teve inclusive a desfaçatez de conectar, em sua aparição, o assassinato de Bin Laden com a luta pela liberdade do povo árabe. Mas além de encobrir e tirar proveito de tudo o que está ocorrendo no Oriente Médio, a novela de Bin Laden tem outro objetivo crucial, ocultar que as coisas em casa vão muito mal. O desemprego segue crescendo, as prisões estão cheias de afro-americanos, latinos e brancos pobres, Obama deportou mais latinos que Bush em seus oito anos de mandato, milhões de pessoas foram despejadas, muitoz mais não têm acesso ao seguro médico e cada vez se torna mais evidente que o neoliberalismo somente pode sobreviver a custa de ser cada vez mais agressivo e de transferir mais bens comuns a mãos privadas: atacar os sindicatos de trabalhadores públicos, destruir as universidades públicas e produzir, definitivamente, mais miséria, desigualdade e exclusão.

Depois dos ataques de 11 de setembro, se tornou muito difícil ter uma conversa sossegada sobre o acontecido ou apresentar objeções à nascente guerra contra o terror, as poucas pessoas que saímos às ruas para protestar contra a guerra no Afeganistão encontramos um ambiente hostil e intimidador. Ainda não tinha caído a segunda torre gêmea quando Peter Jennings, o correspondente da ABC News, advertia que se tratava de um “ato de guerra” e exigia vingança. Desde então a cidadania norte-americana foi submetida sem interrupção a uma chantagem emocional cujo objetivo é instalar na sociedade civil um complexo melancólico agressivo que justifique o programa neo-imperial da oligarquia norte-americana.

Desde o 11 de setembro todos e cada um dos cidadãos dos Estados Unidos foram desafiados pelo Estado a se transformarem em receptáculos das vítimas dos atentados das torres gêmeas. Os mortos não estão em nenhum memorial, estão criptografados em cada um dos cidadãos, e é precisamente porque estão dentro que não podem ser esquecidos nem velados, para defendê-los de seu esquecimento somente resta atuar agressivamente contra aqueles que pretendem colocar em perigo nossa segurança e a das vítimas do 11 de setembro que carregados cá dentro.

Este complexo de medo e agressão serviu não somente para justificar as guerras, mas também produziu inacreditáveis resultados eleitorais para George W. Bush. Por isso, coincidência ou não coincidência, o fantasma dos mortos do 11 de setembro volta a se agitar sobre nossas cabeças, nos interpela outra vez com a euforia e o medo produzidos pelo espetáculo da morte de Bin Laden para que voltemos a nos unir em torno do complexo melancólico-imperial e sua maquinaria de morte. Chega a ser patético escutar Obama apelar para a unidade nacional como durante o 11 de setembro ou na tentativa de assassinato da congressista Gabriel Giffords, agora que a “justiça foi feita”. Que significa unir-se em torno ao assassinato de Bin Laden? Formar uma comunidade afetivo-política em torno de um desaparecido (o corpo foi lançado ao mar como durante a ditadura argentina)? Justificar a tortura (a confissão que supostamente levou ao descobrimento de Obama foi obtida sob tortura em Guantánamo)? Naturalizar a violação da soberania de um país (hoje é o Paquistão amanhã poderia ser a Inglaterra em busca de Assange)? Confundir a justiça com a vingança? Celebrar a morte?

Sim, é certo que muitas pessoas, induzidas pelos fogos de artifício de todos os meios, liberais e conservadores, se lançaram às ruas para celebrar o assassinato de Bin Laden, é certo que os estudantes da Universidade de Ohio se jogaram num lago para celebrar, é certo que Glen Beck, o comentarista conservador da Fox, abriu seu programa com uma banda de música, pediu que fosse exibido o corpo de Bin Laden de cidade em cidade como na Idade Média e derramou uma lágrima enquanto exibia na tela os nomes de todas e cada uma das vítimas do 11 de setembro, mas também é certo que a metade da população se nega a celebrar tanto por cansaço emocional quanto por não aceitarem as consequências deste pacto sinistro de morte. Há esperança.

[1] Ronald Reagan. “Message on the Observance of Afghanistan Day” http://www.reagan.utexas.edu/archives/speeches/1983/32183e.htm

[2] Santiago Alba Rico. "Matar a Bin Laden, resucitar Al qaeda" http://www.rebelion.org/noticia.php?id=127592

Publicado originalmente em http://rebelion.org/noticia.php?id=127730. Tradução de Cainã Vidor. Foto por http://www.flickr.com/photos/steveisaacs/.

http://www.revistaforum.com.br/conteudo/detalhe_noticia.php?codNoticia=9276

quinta-feira, 5 de maio de 2011

Ironia da história: “fim da raça” do DEM

Por Altamiro Borges

Como já era esperado, o governador de Santa Catarina, Raimundo Colombo, anunciou nesta semana que deixará o DEM para se filiar ao PSD de Gilberto Kassab. O ato oficial de ingresso ocorrerá nas duas próximas semanas e Colombo presidirá a nova legenda no estado. Junto com ele, três deputados federais e seis estaduais de Santa Catarina também abandonarão o partido.

A saída de Colombo é uma baita ironia da história. Ele é ligado ao grupo do presidente de honra do DEM, Jorge Bornhausen. Em 2006, animado com a onda midiática sobre o “mensalão do PT”, o ex-chefão dos demos ficou famoso ao proclamar: “Vamos acabar com essa raça”. Mas a vida é implacável e agora, porém, é a “raça do DEM” que corre sério risco de extinção.

“Tiro de morte nos demos”

Desde a derrota na eleição presidencial de 2010, o partido já perdeu nove deputados federais, a senadora ruralista Kátia Abreu e o vice-governador de São Paulo. Patrimonialistas viscerais, os demos não agüentam viver muito tempo longe do poder. Tanto é que o filho do “presidente de honra do DEM”, o deputado federal Paulo Bornhausen, foi um dos primeiros a embarcar no PSD.

A saída do governador Raimundo Colombo é encarada por muitos analistas políticos como “um tiro de morte nos demos”, como descreve matéria do Estadão. O partido agora só conta com a governadora Rosalba Ciarlini, do Rio Grande do Norte. O próprio presidente do DEM, senador Agripino Maia, reconhece que a crise é terminal. “Só com uma governadora, o partido não resiste”.

O PSD e a “era pós-ideologia”

Colombo defendia a imediata fusão do DEM com o PSDB como única forma de “salvar” a oposição. Como a proposta esbarrou em vários obstáculos, inclusive pragmáticos, ele resolveu abandonar o partido. “As dificuldades que encontramos nesse percurso nos levaram a formar forte convicção da necessidade de se construir um novo partido político”, explicou numa nota oficial lacônica.

Em entrevista ao jornal Valor, ele foi mais explícito. Disse que “o DEM não tem projeto nacional, não tem candidato à presidência e depende de outro partido [PSDB]. Isso o fragiliza. Com uma crise desta proporção, o partido tende a se desmanchar”. E também criticou os tucanos: “O PSDB não deu ao DEM as condições de sobrevivência. Ele tinha que dar proteção ao aliado, mas o deixou sozinho, e isso foi fatal”.

Colombo também falou sobre seus planos no PSD, que ajudam a entender melhor o perfil deste novo partido. Para ele, a legenda deve ser “independente”. “Não vamos nos alinhar ao PT. Vamos caminhar com o nosso projeto inicial de manter nossa posição de contraponto. Nossa oposição não será contra tudo e contra todos... Hoje já estamos na era pós-ideologia. Hoje as diferenças ideológicas são mínimas”. 



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Os pilares da mentira

por Mauro Santayana

Em suas memórias, Known and Unknown, A Memoir, recém publicadas (Nova York, 2011), Donald Rumsfeld conta, nas páginas 208-209,  o momento patético da Queda de Saigon. Ele era chefe de gabinete de Gerald Ford, que assumira o governo depois da renúncia de Nixon e devia administrar a humilhante derrota.

Segundo Rumsfeld,  Kissinger assegurava, no Salão Oval, que a evacuação de Saigon já se completara, com a saída do Embaixador Graham Martin que – tal como os comandantes dos navios que naufragam – devia ser o último a escapar, quando se soube que não era verdade. O diplomata escapara antes que personalidades do governo títere e derrotado de Saigon invadissem a embaixada e esbaforidas, tentassem ocupar os últimos helicópteros, disputando espaço com os norte-americanos em fuga. Antes da reunião, o fotógrafo da Casa Branca, David Kennerly, veterano do Vietnã, saudara Ford com duas frases: “A boa notícia é que a guerra acabou. A má notícia é que a perdemos”.

Segundo o autor, alguém sugeriu que não se devia corrigir a falsa informação de Kissinger, e se ajustasse nova versão ao pronunciamento do Secretário de Estado. Rumsfeld diz ter sido contra, lembrando que tudo o que havia sido dito ao povo norte-americano  não fora simplesmente a verdade.  “Esta guerra tem sido marcada por muitas mentiras e evasivas, e, assim, não há o direito de terminá-la com uma última mentira” – ele teria dito. Ford mandou o secretário de imprensa, Ron Nessen, dizer a verdade aos jornalistas.

No passado, a mentira podia durar muito, embora sempre tivesse pernas curtas. Em nosso tempo, os segredos podem ser guardados, como os da morte de Kennedy,  mas a suspeita da mentira é tão danosa quanto a sua revelação. Os Estados Unidos sempre mentiram,  a fim de tentar legitimar sua política agressiva. Todos os golpes de Estado, patrocinados pelos norte-americanos em países estrangeiros, ocorreram sob pretextos falsos. Não é necessário ir muito longe: a guerra contra o Afeganistão e o Iraque foi montada sobre os pilares das mentiras mais reles. Saddam Hussein podia ter sido cruel com os inimigos, mas o seu governo era o mais laico e menos obscurantista da região. Depois da guerra contra o Irã, ele abandonara todas as armas químicas. Não dispunha de recursos técnicos para a produção de bombas atômicas. Fotos foram adulteradas, indicando reatores clandestinos, forjaram-se depoimentos, e essas “provas” arranjadas levaram um homem tido como sério, o general Colin Powell, a mentir diante das Nações Unidas.

Poucas horas depois da morte de Bin Laden, começam a se confirmar suspeitas iniciais e perturbadoras. O saudita foi morto desarmado – e poderia ter sido capturado vivo. No avesso da lógica e da ética, Washington diz que não é preciso que o suspeito esteja armado para resistir à prisão. Osama “resistiu”, de mãos nuas, aos soldados protegidos por uniformes à prova de bala e dotados de armas potentes. O saudita tinha que ser morto, antes que pudesse dizer qualquer coisa ao mundo.

O bom senso internacional, passado o entusiasmo frenético diante da execução, começa a prevalecer, para qualificar o ato como  agressão criminosa contra o povo do Paquistão e seu governo. Obama declara que agiu em defesa de seu país – e ponto. Foi como dissesse: “tenho o poder e dele faço o que quiser”.

Conta-se que, em Ialta, Churchill propôs que Hitler fosse executado tão logo  reconhecido pelas tropas aliadas. Com ironia, Stalin  se opôs: na União Soviética se respeitava o direito a um julgamento, conforme “o devido processo da lei”.

Como se sabe, Hitler se antecipou,  matou-se com sua pistola, depois de determinar aos   auxiliares que queimassem o cadáver – o que fizeram, em uma pira de molambos embebidos de gasolina.

http://www.conversaafiada.com.br/mundo/2011/05/05/santayana-denuncia-hipocrisia-americana/

quarta-feira, 4 de maio de 2011

Alckmin demite delegado-blogueiro

Reproduzo matéria publicada no blog "Amigos do presidente Lula" (do Blog do Miro):

O delegado da polícia civil de São Paulo, Roberto Conde Guerra, foi surpreendido com sua demissão assinada no Diário Oficial pelo governador Geraldo Alckmin (PSDB/SP).

Não se trata de retirá-lo de cargo de confiança, escolhido pela chefia, e rebaixá-lo de cargo. Se trata de demissão do serviço público, de eliminar um delegado concursado, para servir à população, dos quadros da polícia.

Qual foi o motivo? Ele roubou? Extorquiu? Desviou dinheiro? Se locupletou? Não, não, não e não!

Ele foi demitido porque escreve o blog Flit Paralisante, gastando suas horas de descanso em casa com reflexões críticas para melhoria da polícia e da segurança pública.

O que torna mais absurda a situação é que a nota publicada em seu blog que causou a demissão foi apenas repercussão de uma notícia que já havia sido veiculada no Jornal Nacional da TV Globo.

A reportagem da TV mostrou que o Departamento de Identificação e Registros (DIRD) comprava ternos para os policiais que eram obrigados a usar este traje, pelo valor de R$ 143,00 a unidade. Mas o responsável pela compra sacava a verba em dinheiro para pagar ao fornecedor, e cada policial que recebia o terno assinava um recibo, contabilizando nas contas da secretaria de segurança como se a compra fosse de R$ 300 a unidade. Tudo indicava que a diferença era embolsada pelo responsável pela compra.

Pelo preço da loja, os 60 jogos de roupa que foram comprados sairiam por R$ 8.580,00. Pelo valor dos recibos, a despesa subiu para R$ 18 mil. Mais que o dobro.

Em vez do governo de Geraldo Alckmin apurar e demitir os corruptos que superfaturaram a compra, demitiu o delegado Conde Guerra, que apenas republicou a notícia da corrupção em seu blog.

Em vez de ser puxa-saco do governador e das chefias da secretaria de segurança, Conde Guerra exerce o sagrado direito constitucional de liberdade de expressão, ou seja, de emitir suas opiniões críticas e compartilhar informações sobre as mazelas e corrupção dentro da polícia de São Paulo, e também sobre a perseguição e descaso com os verdadeiros policiais cumpridores do dever de servir à população com honestidade.

Mais do que o direito à liberdade de expressão, ele exerce o dever de um bom servidor público, expresso no Decreto nº 1171/1994:

VIII - Toda pessoa tem direito à verdade. O servidor não pode omiti-la ou falseá-la, ainda que contrária aos interesses da própria pessoa interessada ou da Administração Pública. Nenhum Estado pode crescer ou estabilizar-se sobre o poder corruptivo do hábito do erro, da opressão ou da mentira, que sempre aniquilam até mesmo a dignidade humana quanto mais a de uma Nação.

Ele deve recorrer à Justiça e conseguir a reintegração, já que nada justifica essa demissão arbitrária, por pura perseguição.

Ao punir e silenciar quem luta contra a corrupção, em vez de levar os corruptos à punição, o governador Geraldo Alckmin (PSDB) dá mais um passo para tornar São Paulo um estado onde crime e a corrupção compensam mais do que na Chicago nos tempos em que Al Capone reinava.

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Sobre os temas da classe média e da mediocridade

O texto “Haja Indignação”, publicado aqui, motivou um protesto de uma leitora. Uma indignação, melhor dizendo.

Peço desculpas, em primeiro lugar, se me expressei de forma excessivamente virulenta. Já me alertaram para o fato de que costumo me comunicar de modo algo apaixonado quando trato de determinados assuntos. É verdade.

Compartilho da indignação da leitora, que aponta para o “outro lado”, o contraditório. Deve-se, sempre, dar atenção ao que contradiz. Ponho-me no lugar dela e entendo que sua ponderação de que equipara-la a uma pessoa medíocre não é nada agradável e merece severas explicações.

Na verdade, não fiz exatamente isso, mas entendo que a identificação da leitora com o que foi exposto possa se dar na medida em que ela se sente parte daquilo que chamamos “classe média”, uma abstração para designar uma grande faixa de população urbana que compartilha de uma certa cultura difundida pelos meios de comunicação de massa. De modo genérico, praticamente todo o mundo, hoje, está globalizadamente envolvido com isso. Inclusive eu.


Fugindo da mídia de massa

O que me faz escapar pela tangente é, principalmente, o fato de evitar assistir aos telejornais – só os assisto por extrema necessidade – e não crer no que dizem as matérias jornalísticas da mídia de massa. É preciso ver o mundo de forma singular e não há qualquer incentivo a isso nos meios de comunicação da grande imprensa. O sujeito de classe média, caracterialmente, parece ser exatamente o que age de modo diametralmente oposto ao adotado por mim. Suas fontes de informação são essas e é com elas que formula sua subjetividade.

Ora, essas mídias estruturam adequadamente as suas mensagens de acordo com interesses comerciais. O que pretendem não é que seus receptores pensem, reflitam sobre a realidade, pelo contrário. Levando em conta que é necessário um bom volume de informações, de diversos pontos de vista, para entender um fato, começa por aí a carência midiática. As informações são selecionadas e restritas, tencionam direcionar a perspectiva de visão para um ponto apenas. Esse ponto forma a opinião pública na medida em que se estabelece como parâmetro de análise e reflexão. Atinge a média, se pode dizer, formula e controla, assim, a subjetividade de um número significativo de pessoas. Essas pessoas são o público-alvo, o target, que se compõe dessa imensa multidão englobada publicitariamente sob o rótulo de classe media, mas bem poderia ser “classe mídia”, pois depende fundamentalmente dos veículos de comunicação para se definir e mesmo para viver.

Desse modo, me permito observar de modo crítico o ambiente e peço licença à leitora para manter e reforçar meu ponto de vista de que essa gente indignada, essa maioria silenciosa que se une na indignação, na censura, no apedrejamento simbólico, se orienta pela média, pela mídia, logo está “midiatizada”, ou “mediatizada”. Sabe o que significa isso? O termo foi e é usado para designar aquelas pessoas que são interditadas pela família, ou seja, que não controlam suas vontades e atos, dependendo de outrem para fazer isso, ainda que contra a vontade. Parece-me claro que falamos de uma condição semelhante a essa quando abordamos a massa eminentemente urbana designada pelo epíteto de “classe média”.

Bonecos animados

Como os apresentadores de telejornais, que não falam por si, apenas repetem o que se lhes aparece pelo teleprompter, como os animadores de auditório que são orientados pelo diretor através do “ponto”, como os antigos atores que necessitavam de alguém que lhes lembrasse as falas esquecidas, o sujeito dessa imensa e amorfa massa age, dessa mesma maneira.

Pensando assim, inclusive, percebe-se a imensa ironia presente na designação de uma parte seleta dessa classe como “formadora de opinião”. Ora, nem a própria opinião esse pessoal é capaz de formar sem que lhe digam como pensar... Melhor seria dizer, como alguns autores que seguem pela linha dos Estudos Culturais, que são mídias, apenas isso. Como fitas cassete, cartazes ou DVDs. Essa lógica, se confirmada, consolida perfeitamente a concepção de Marx da fetichização. De certo modo, as relações interpessoais nesse âmbito se dão de acordo com uma personalidade que englobe perfeitamente os conceitos de kitsch e de gadget, bem tratados por Abraham Moles.

Tudo indica que a subjetividade mediana também se formula através de manifestações culturais que são promovidas e reproduzidas pelos mesmos veículos de massa. Um excelente exemplo pode ser encontrado na subcultura pop, com a música tendo aí uma função importantíssima de atração e organização da emoção, em especial o rock. No caso desse estilo musical, é interessante notar como representa uma contestação simbólica, mas apenas isso. Como bem mostra Luis Britto Garcia, o “roqueiro” é um contestador apenas no plano do símbolo, não na realidade. O rock é um estilo musical, não um estilo de vida. Sendo mais claro, o rock é uma mensagem rebelde, não exatamente uma atitude rebelde. Confundir uma coisa e outra é, cá para nós, um tanto patético e produz, além de fantasias condicionadas por um padrão um tanto teatral, uma inegável impotência política.

Vida sem vida

Forma-se uma “vida” subjetiva que se constitui para sempre tentar ocultar um importante dado do real: não se trata de vida, mas de vida sem vida, morte política. Uma autêntica incapacidade de gerir os próprios pensamentos e atos. Significa abrir mão de pensar os próprios pensamentos, diria o psicanalista Wilfred Bion. A crença cega na existência de alguém que deve fazer isso por nós, enquanto estamos ocupados em ganhar dinheiro ou prestígio ou simplesmente gozamos a vida em algum entretenimento. Veja-se a gravidade dessa delegação de poder. Note-se a pobreza subjetiva, dir-se-ia mental. Assim se forma a “individualidade de massa”, conceito sugerido e trabalhado por Felix Guattari.

Não posso afirmar, efetivamente, se a leitora que reclama, que se indigna, se enquadra nesse grupo. Tudo indica que sua identificação, porém, segue esse trajeto. Digo que não sou, evidentemente, dono “da” verdade, apenas propositor de uma forma de entender uma parte do real.

O fato é que entendo que a designação “classe média”, que a leitora não quer ver associada à mediocridade, assume, na era moderna e em nossos tempos ditos pós-modernos, uma identidade direta com a identidade de massa. E todos nós sabemos o que é o “sujeito massa”. Se não é medíocre, então não sem bem do que se trata.


Referências

A classe média é enfocada por alguns autores interessantes. Um deles é Wright Mills, no seu “White Collar”, falando dos colarinhos brancos. Creio ser mais interessante ainda o livro de Bolívar Costa, que acreditava quase inacessível e hoje constato que há vários exemplares disponíveis no sítio “Estante Virtual”. Costa faz uma análise cirúrgida da classe média do fim da era moderna, captando bem sua estrutura e já prenunciando alguns caracteres fundamentais da subjetividade mediana que hoje ganham novos relevos.

Os trabalhos citados, como se pode ver, tratam da classe média de tempos idos, embora descrevam a essência, o molde subjetivo no qual cada exemplar da pequena burguesia é feito. Tratei também desse assunto na minha dissertação de mestrado, “O Charme do Crime Organizado: desconstruindo uma guerra a Beira-Mar”. Procurei fornecer uma atualização das características do sujeito dito de classe média, constatando a existência de uma vida eminentemente vicária, de submissão a um controle subjetivo panótico.

O estadunidense Curtis White escreveu um tratado sobre a mediocridade de alguns de seus ilustres conterrâneos. Chama-se “A mente mediana: por que deixamos de pensar por nós mesmos”. No original, o subtítulo é “por que os americanos deixaram de pensar por si mesmos”. Também o inglês Francis Wheen contribui para o tema, tomando-o no ângulo dos gabinetes políticos e ilustra a forma estúpida pela qual alguns homens públicos britânicos apostaram que estavam lidando com tolos, para dizer o mínimo, e ganharam a aposta. O título é “How mumbo-jumbo conquered the world”. Em português, resolveram enfocar o lado da malandragem e publicaram o livro como “Como a picaretagem conquistou o mundo”. Lendo-o, a gente fica realmente abismado e se pergunta como as pessoas podem acreditar em algumas coisas que dizem a elas.

O tema da mediocridade foi tratado por Jose Inginieros, no seu clássico “O homem medíocre”. Se o tipo descrito pelo autor não se enquadrar perfeitamente nas identidades de massa que formam a subjetividade da chamada classe média, então devemos estar falando de coisas realmente opostas. E mais. Wilhlem Reich escreveu seu melhor livro, “Escuta, Zé Ninguém”, mundialmente lido e encenado, absolutamente dedicado ao sujeito medíocre. Basta atualizar os objetos de devoção desse sujeito “zero à esquerda” para obtermos a mais pura descrição do indivíduo massificado destes nossos dias.

Se o que tratam os autores citados, incluindo a mim, não for um sujeito medíocre, no sentido de que se identifica com a média, se ordena pela avaliação de outrem, e se essa não for a característica mais clara e gritante do indivíduo que está incluído nessa grande massa urbana amorfa que chamamos de classe média, então podemos estar trocando as bolas.

Mas, para tudo há solução.

domingo, 1 de maio de 2011

O risco da ignorância

Vivemos numa era em que o conhecimento - no sentido de informação - é constantemente oferecido em tempo real, mas ainda assim, falta-nos a habilidade elementar de interpretar todo o conteúdo

Massimo Pugliucci, do Project Syndicate - O Estado de S.Paulo

De acordo com Platão, a ignorância é a raiz de todo o mal. O filósofo grego nos ofereceu também uma famosa e ainda atual definição do conceito oposto: o conhecimento. Para Platão, o conhecimento é a "crença verdadeira justificada". Esta definição merece certas considerações enquanto meditamos a respeito dos perigos da ignorância no século 21.

Platão pensou que três condições teriam de ser satisfeitas para que possamos "conhecer" alguma coisa: a ideia em questão precisa ser verdadeira; precisamos acreditar nela (afinal, se não acreditarmos em algo que é verdadeiro, não poderemos afirmar conhecê-lo); e, em um aspecto mais sutil, é preciso que haja justificação - devem haver motivos para acreditarmos que a ideia é verdadeira.

A educação tem sido cada vez mais transformada em um sistema de commodities, no qual os "fregueses" (antes chamados de estudantes) são mantidos satisfeitos com currículos personalizados enquanto são preparados para o mercado de trabalho (em vez de serem preparados para agir como cidadãos e seres humanos responsáveis)
Tomemos como exemplo algo que todos nós pensamos conhecer: a Terra é (aproximadamente) redonda. Isso é tão verdadeiro quanto podem ser os fatos astronômicos, particularmente porque enviamos satélites artificiais para a órbita e vimos que, realmente, o planeta é arredondado. A maioria de nós (com exceção de uns poucos lunáticos adeptos da hipótese da Terra plana) também acredita que as coisas, de fato, sejam assim.

E quanto à justificação dessa crença? Como responderíamos se alguém perguntasse por que acreditamos que a Terra é redonda? O ponto de partida mais óbvio seria indicar as imagens de satélite já mencionadas, mas, então, nosso cético interlocutor poderia indagar, com razão, se de fato sabemos como tais imagens foram feitas. A não ser os especialistas em engenharia espacial e em softwares de imagem, todos os demais encontrariam problemas para responder desse ponto em diante.

É claro que poderíamos citar motivos mais tradicionais para se crer que a Terra é redonda, como o fato de nosso planeta projetar uma sombra arredondada sobre a Lua durante os eclipses. Naturalmente, teríamos de estar em posição de explicar - caso questionados - o que é um eclipse e como descobrimos a sua dinâmica.

Pode-se ver até onde isso poderia chegar sem grande esforço: se formos longe o bastante, a maioria de nós não conhece, no sentido platônico, praticamente coisa nenhuma. Em outras palavras, somos muito mais ignorantes do que percebemos.

Sócrates, o professor de Platão, ganhou fama ao provocar as autoridades atenienses e se dizer mais sábio do que o Oráculo de Delfos, que afirmava ser o mais sábio de todos, pois ele, ao contrário da maioria das pessoas (incluindo-se entre elas as autoridades atenienses), tinha consciência de que nada conhecia.

No caso dos países desenvolvidos - e, cada vez mais, nos países em desenvolvimento - o problema não está mais no acesso à informação, mas sim na falta de capacidade de processar e interpretar essa informação
Se a humildade de Sócrates era sincera ou apenas uma piada secreta às custas dos governantes no poder (antes de tais governantes o terem condenado à morte quando se cansaram de sua irreverência), a questão é que o ponto de partida da sabedoria está no reconhecimento do quão pouco nós, de fato, conhecemos.

O que nos leva ao paradoxo da ignorância na era atual: por um lado, somos constantemente bombardeados com as opiniões especializadas emitidas por pessoas de todo o tipo - algumas com os nomes acrescidos do título de Ph.D., outras não - que nos dizem exatamente o que pensar (apesar de raramente exporem os motivos pelos quais deveríamos pensar assim).

Por outro lado, a maioria de nós é composta por pessoas terrivelmente desacostumadas a praticar a venerável e vital arte de detectar baboseiras (ou, em termos mais elegantes, a arte do pensamento crítico), tão necessária em nossa sociedade moderna.

Podemos pensar no paradoxo de outra maneira: vivemos em uma era em que o conhecimento - no sentido de informação - é constantemente oferecido em tempo real por meio de computadores, smartphones, tablets eletrônicos e leitores de livros digitais. Ainda assim, falta-nos a habilidade elementar de interpretar toda essa informação - a capacidade de encontrar as pepitas de ouro em meio ao cascalho. Somos massas ignorantes encharcadas de informação.

Pode ser, é claro, que a humanidade tenha sempre apresentado uma escassez de pensamento crítico.

É por isso que ainda nos permitimos ser convencidos a apoiar guerras injustas (e até a nos sacrificarmos nelas) ou a votar em pessoas cuja principal ocupação parece ser reunir para os ricos a maior riqueza que puderem acumular impunemente.

Esse é também o motivo pelo qual tantas pessoas são tapeadas por "médicos" homeopatas que lhes receitam pílulas de açúcar e também porque seguimos os conselhos dados por celebridades (em lugar de médicos de verdade) a respeito da vacinação de nossos próprios filhos.

No entanto, o pensamento crítico nunca foi tão necessário quanto agora, na era da internet.

No caso dos países desenvolvidos - e, cada vez mais, nos países em desenvolvimento - o problema não está mais no acesso à informação, mas sim na falta de capacidade de processar e interpretar essa informação.

Infelizmente, é improvável que universidades, escolas do ensino médio e até da educação infantil passem a oferecer, por conta própria, cursos obrigatórios de formação do pensamento crítico. A educação tem sido cada vez mais transformada em um sistema de commodities, no qual os "fregueses" (antes chamados de estudantes) são mantidos satisfeitos com currículos personalizados enquanto são preparados para o mercado de trabalho (em vez de serem preparados para agir como cidadãos e seres humanos responsáveis).

Isso pode e precisa mudar. No entanto, para tanto, é necessário um movimento comunitário que use os blogs, as revistas online e os jornais eletrônicos, os clubes do livro e os clubes sociais e tudo o mais que possa funcionar na promoção de oportunidades educacionais para o desenvolvimento do pensamento crítico. Caso contrário, conheceremos, em primeira mão, um futuro de profunda ignorância.

TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

Massimo Pugliucci é professor de Filosofia do Centro de Pós-Graduação da Universidade Municipal de Nova York