sábado, 16 de abril de 2011

Versos Áureos

Pitágoras



Preparação


Aos deuses imortais, antes de tudo, honra-os, presta o devido culto, e conserva a tua fé. Venera com a memória
todos os heróis benfeitores e os semideuses.


Purificação

Sê bom filho, irmão justo, esposo terno,
bom pai, para amigo escolhe o da virtude.

Ouve seus bons conselhos e por sua vida
modela a tua, dela não te afastes nunca
se assim o puderes; uma lei severa
relaciona a Vontade à Necessidade.

A ti cabe, entretanto, lutar e vencer
tuas loucas paixões; aprende a dominá-las.

Sê sóbrio, sê ativo e casto, sem cólera.

Ante os outros – e só – de mal nada permitas,
e respeita a ti mesmo acima de tudo.

Não fales e não procedas sem ter refletido.

Sê justo. Lembra sempre que um fatal poder
ordena tudo à morte; que os bens e as honras,
que facilmente adquires, facilmente perdes
e também quanto aos males, que traz o destino,
julga-os como são; suporta-os, e cuida,
o máximo que possas, reduzir seus traços:
aos mais cruéis os deuses pouparam os sábios.

Como a verdade, o erro tem seus amantes;
defende-a o filósofo; o erro enfrenta
prudente; se o erro vencer, ele se afasta;
e espera. Grava bem em ti minhas palavras:
fecha os olhos, o ouvido a todos preconceitos,
teme o exemplo alheio, pensa por ti mesmo:
consulta, delibera, escolhe livremente.

Deixa aos loucos agirem sem fim e seu causa.

Tu deves, no presente, olhar o futuro.

O que não sabes tu, não pretendas fazer.

Instrui-te; obterás tudo com o seu tempo.

Cuida a tua saúde, gasta com medida,
ao corpo alimentos, repouso ao espírito.

Nem de mais nem de menos; pois a um excesso
o outro se junta logo igualmente.

O luxo e a avareza são bem semelhantes.

Deves escolher em tudo o meio justo, e bom.


Perfeição

Que nunca tua pálpebra se feche ao sono
sem que te interrogues: Que esqueci? Que fiz?

Se for o mal, abstém-te; se o bem, persevera.

Medita meus conselhos; ama-os; segue-os:
às divinas virtudes te conduzirão.

Juro por quem gravou em nossos corações
a tétrada sagrada, imenso e puro símbolo,
fonte da natureza e modelo dos deuses.

E quando despertares, examina com calma
o que deves fazer, o que deves terminar.

Mas antes, ao dever fiel, que tua alma
invoque com fervor o socorro dos deuses
para que as obras iniciadas, realizes.

Instruído por eles não te enganarão:
de seres diferentes sondarás a essência;
conhecerás de tudo o princípio e o fim.

Saberás, se o céu quiser, que a natureza,
igual em tudo, é a mesma em toda parte.

Esclarecido sobre teus velhos direitos,
teu coração será livre de vão desejos.

Verás, então, que os males que sofrem os homens,
são frutos de escolha; e que, infelizes,
buscam longe de si os bens de que são fonte.

Felizes poucos sabem ser: pelas paixões
manejados, por vagas tão contraditórias,
e sobre um mar sem praias, rolam eles cegos,
sem poder resistir nem ceder à voragem.

Deus! Vós os salvareis ao abrir os seus olhos...

Cabe aos humanos, cuja raça é divina,
de discernir o erro e ver a verdade.

A natureza o serve. Tu que a penetraste,
homem sábio, feliz, respira nesse porto,
mas observa as minhas leis e abstém-te
do que deve tua alma temer e distinguir.
Deixa reinar sobre o corpo a inteligência
e a fim de elevando-te ao radioso éter,
sejas, então, um deus entre os imortais.


(Tradução retirada do livro de Mário Ferreira dos Santos)

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