sexta-feira, 22 de abril de 2011

Haja indignação

Se há algo que me deixa indignado é a indignação dessa pobre gente que podemos classificar como o rebanho urbano, com seus valores e ponderações ordinárias e histéricas. O espírito do “isso é uma vergonha” e do “isso é Brasil” está por aí, vagando na subjetividade, configurando algo que se pode bem chamar de “complexo de vira-latas”, recorrendo a uma ponderação antiga de Nelson Rodrigues. A diferença do brasileiro vira-latas de Nelson para o de hoje é que este se traveste de cidadão e enche a boca para defender os seus direitos e pedir paz. É um vira-latas de coleira, pode-se dizer.

Fico realmente abismado com certas indignações dessa chamada “maioria silenciosa”, que me cerca e faz rir e chorar. A toda hora alguém se diz indignado por alguma coisa. Se não é algum novo e sensacional escândalo político, pode ser a imprudência no trânsito ou mesmo as chuvas que alguém disse que previu e avisou ao governo, que não fez nada, como sempre. Tudo é motivo para indignação e reclamação. Essa gente parece muito pura e qualquer mácula na realidade a comove, enfurece e desespera. Pura influência do jornalismo, que vive de alimentar os medos e as idealizações infantis dessa gente.

Esse pessoal acha que com mais vigilância estaria resolvido o problema da violência, o que equivale dizer que faz dois pedidos ultrajantes. Em primeiro lugar, solicita o controle social cada vez mais eficaz, o fim de qualquer liberdade que não seja a que é ditada pelo mundo da segurança que é, em última instância, o dos negócios. Em segundo, cai na esparrela de imaginar que violência se combate cegamente com violência. Ironicamente, esse é exatamente o erro dos que a classe média chama de violentos e que devem ser combatidos. Estes estão exatamente combatendo a violência que sofrem, não é de hoje, com duplicada fúria. Querem entrar no mundo que lhes é vedado arrombando a porta a tiros de grosso calibre. Tudo isso é o que se chama apropriadamente de círculo vicioso e, como costuma ser, seu combustível é a burrice.

A crença é que o mundo seria melhor se as leis fossem cumpridas e muitos problemas seriam evitados. Clama-se pelo fim da impunidade e tudo isso é dito em nome de uma sociedade democrática, com liberdade de opinião e, principalmente, de negócios. No entanto, é interessante observar que a liberdade de opinião cessa quando se fala de negócios.

Para proteger seu estado de modorrenta mediocridade, o indivíduo mediano adora culpar a política e tratar os políticos como corruptos, geralmente quando longe deles. Quando a uma distância considerável, via de regra, se curva. Mas o político sabe que esse é o seu papel cômico na sociedade ocidental e o alimenta como se de seu apedrejamento moral dependesse a sua identidade mais fundamental. O político é o clown da pós-modernidade, para não dizer o palhaço. Não foi à toa que a eleição do Tiririca foi tão cheia de indignação. É o tipo do deja vu que o personagem Morpheus, da série Matrix, identifica como uma falha no sistema, um ponto cego que o denuncia enquanto farsa.

A verdade é que o medíocre acha um absurdo isso ou aquilo, mas faz ambas as coisas tão bem quanto qualquer outro. O político o representa naquilo que tem de mais fundamental, o caráter corrompido. O boçal só acusa o deputado ou o governador pelo que esses mostram a ele ser a sua própria mais autêntica profissão de fé. Algo como culpar o espelho pelas espinhas. Algo tratado na Fábula das Abelhas, de Mandeville.

Para esses insetos, o mundo é perfeito, as pessoas é que o estragam. Isso advém da falta de espaço, real e subjetivo, vivenciada na sociedade ocidental. Há gente demais em torno, informações demais para ser digeridas. O mundo ideal do participante do rebanho é aquele no qual não há rebanho, não há jornais nem televisão, apenas a placidez de uma tranquila casa no campo. Assim como a realidade perfeita para esse tipo é aquela na qual não há corrupção, não há políticos. Tanto num caso como no outro, é claro que as coisas permanecem como estão, nada ideais.

A impressão que essa gente indignada e cidadã nos oferece é a de que pensa do seguinte modo: se não houvesse ninguém por aqui, tudo estaria bem. A natureza, tão cantada em verso e prosa como harmônica, cuidaria de tudo. Provavelmente teríamos que rastejar como cobras ou abanar os braços, fingindo ainda ser macacos, “soltando a franga”, como a filósofa Xuxa ensina às crianças. Essa tese é a prova de que o avesso da idealização sempre é a morte do humano, seja animalizando-se ou robotizando-se. E o século XX nos deu bons exemplos de ideais que se mostraram animalescos demais, assim como o XXI tem nos mostrado que, para sobreviver no controle total referido por Gilles Deleuze, é preciso ser um robô, um robotic pupet, como sugere Slavoj Zizek.

O problema, o que não contaram a essa gente, é que há uma coisa que se chama “vida” e que só tem sentido por estar delimitada por outra coisa, que se chama “morte”. Aliás, eles dizem que sabem disso, mas confundem uma coisa com a outra, trocam as bolas. A idealização é a prova disso, principalmente na medida em que o ideal começa a ser tratado como se fosse viável. O resultado é a morte em vida, a vida sem vida do café descafeinado, do cigarro sem nicotina, da cerveja sem álcool, de que nos fala Zizek. Também do sexo com camisinha, com a definitiva comercialização do ato de penetração, graças à angústia, ao medo e à culpa que cercam essas coisas que acontecem durante o contato mecânico entre mucosas. Os negócios alcançam profundidades nunca imaginadas.

Mas, isso não é percebido pela pessoa medíocre. Ela defende o fim da perseguição à diferença, contanto que o diferente se torne igual a ela e venha conversar sobre as coisas que ambos já sabem. Se o mundo ideal do mediano é elevado, o real é tumular.

A pessoa medíocre, o ser mais indignado que Deus pôs na terra, é o espécime mais perigoso já conhecido. Simplesmente condena todo aquele que não aceita ser mais uma rês à morte subjetiva, usando como modelo a sua própria morte subjetiva. Sua maior arma de ataque é o afeto e se promete a você aquele mundo ideal, na real só pode oferecer o inferno de sua pobreza de espírito.

A indignação diarréica é uma patologia contagiosa, pode ter certeza. Quando surge, indica que a alma foi tomada pelo letal veneno da mediocridade. Aí, o caso é terminal.

Um comentário:

  1. Hoje eu estou indgnada com algumas coisas,uma frase me revolta e ainda não descobri o autor :Manda quem pode , obedece quem tem juízo.
    ouvi de uma coordenadora de escola após ter levado um problema de aluno para juntas tentarmos resolver,não concordo com essa frase,acredito num bom diálogo.
    Muitas vezes na minha vida fico como essa garotinha.
    Gostei do blog e da matéria , Parabéns!

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