sábado, 30 de abril de 2011

Veja: Um jeito especial de ser

Reproduzo artigo de Washington Araújo, publicado no Observatório da Imprensa (Blog do Miro):

Muitos jornalistas gozam de tanta autossuficiência que ao escreverem um texto sentem-se como se estivessem colocando aos olhos do leitor todos os fatos, todas as suas possíveis facetas e até mesmo as interpretações que uma pessoa razoável poderia fazer sobre aquele determinado tema.

Acontece que o leitor nem mesmo imagina como o jornalista chegou àquelas conclusões, como seu raciocínio reteve os fatos, como os ordenou desta forma e não daquela outra e, também, como chegou àquela conclusão e optou por desconsiderar completamente aquela outra. Pior: muitos jornalistas avançam mais, muito mais. Chegam a apresentar os ingredientes da reportagem, orientam o leitor sobre como deveriam ser assimilados e fornecem robustas pistas sobre como a matéria deveria ser digerida.

Ao escrever essas frases, em um quase exercício de imaginação ativa, tenho em mente, como exemplo, a ideologia de Veja, que sem qualquer esforço aparente sempre permeia cada carta recebida dos leitores, cada frase pinçada para ilustrar a semana e cada acesso seu à História como se tudo existisse apenas para referendar suas crenças no neoliberalismo, no livre mercado, ou então para justificar mesmo que superficialmente sua peculiar forma de entender o que é democracia e, mais, o que é liberdade de expressão.

Causas humanitárias

A revista dos Civita não fica em cima do muro quando os assuntos deixam ao largo a objetividade e embarcam nessa imensa floresta que é a subjetividade. O leitor observa que imparcialidade e objetividade simplesmente não existem quando, por exemplo, a revista trata de Cuba e, pior ainda, quando se refere a Fidel Castro ou a Che Guevara.

O país caribenho é sempre referido como o que há de mais trash na política internacional e sua história enquanto país encontra seu ponto final exatamente no primeiro dia de janeiro de 1959. O leitor simplesmente não é informado que Cuba era uma espécie de parque temático dos ricaços norte-americanos, com os mais opulentos cassinos e as mais bem disseminadas redes de prostituição de que se tem notícia naquela região da "costa da Flórida".

O mesmo leitor, se apresentado fosse ao personagem Fulgêncio Batista, ditador igualmente longevo de Cuba e derrubado por Fidel Castro, poderia ter a impressão de que Batista representava naquele momento histórico um presidente legitimamente eleito, profundamente impregnado por ideais libertários que impulsionam a democracia, a cidadania, o Estado de Direito, o primado dos direitos fundamentais da pessoa humana.

Ocorre que não podemos circunscrever apenas Cuba, Fidel e o Che ao olhar especialíssimo e ideologicamente carregado de Veja. Neste olhar são também esquadrinhados os Estados Unidos, George Bush, Barack Obama; a Venezuela e Hugo Chávez; a Bolívia e Evo Morales; o Reino Unido e a Casa de Windsor. A propósito deste último, salta aos olhos a defesa ardorosa que a revista faz da monarquia inglesa e tudo a pretexto de saudar o casamento do segundo na linha da sucessão ao trono inglês, William e a plebéia Kate Middleton.

O alinhamento da revista da Editora Abril com essa monarquia é tal que por pouco a mãe do noivo não é relegada ao anonimato: Diana foi a única integrante da realeza britânica que na segunda metade do século passado conseguiu incendiar a imaginação popular do país – incêndio de carisma e empatia – que transbordava para praticamente todo o resto do mundo. Incêndio causado pela promoção de causas profundamente humanas, como a proibição de minas terrestres, o resgate da cidadania plena para os portadores do vírus HIV e tantas outras, como a proscrição do comércio de roupas e calçados feitos com peles de animais.

Jornalismo cidadão

É verdade que a abertura da longa matéria de capa da revista (edição nº 2214, de 27/4/2011) principia com tons pairando entre o sombrio e o macabro:

"Morta, dentro de um caixão de teca, ainda assustadoramente bela num longo preto, levando nas mãos um terço presenteado por Madre Teresa de Calcutá, a princesa Diana quase derrubou uma monarquia de mais de 1000 anos."

Para o leitor mais familiarizado com os trancos e barrancos que a grande imprensa costuma empregar para barrar a livre e independente busca da verdade bem poderia ler outras frases. E seu sentido conservaria ainda o mesmo impacto visual e auditivo:

"Morto, dentro de um caixão de cristal transparente, ainda assustadoramente sedutor, levando nas mãos uma cópia da Declaração Universal dos Direitos Humanos, o jornalismo cidadão e plural quase derrubou o monopólio dos meios de comunicação de mais de 500 anos."

Como os EUA apagaram o 1º de Maio

Reproduzo artigo de Eduardo Galeano, extraído de "O livro dos Abraços" (Blog do Miro):

Chicago está cheia de fábricas. Existem fábricas até no centro da cidade, ao redor de um dos edifícios mais altos do mundo. Chicago está cheia de fábricas, Chicago está cheia de operários.

Ao chegar ao bairro de Heymarket, peço aos meus amigos que me mostrem o lugar onde foram enforcados, em 1886, aqueles operários que o mundo inteiro saúda a cada primeiro de maio. – Deve ser por aqui – me dizem. Mas ninguém sabe. Não foi erguida nenhuma estátua em memória dos mártires de Chicago nem na cidade de Chicago. Nem estátua, nem monolito, nem placa de bronze, nem nada.

O primeiro de maio é o único dia verdadeiramente universal da humanidade inteira, o único dia no qual coincidem todas as histórias e todas as geografias, todas as línguas e as religiões e as culturas do mundo; mas nos Estados Unidos o primeiro de maio é um dia como qualquer outro. Nesse dia, as pessoas trabalham normalmente, e ninguém, ou quase ninguém, recorda que os direitos da classe operária não brotaram do vento, ou da mão de Deus ou do amo.

Após a inútil exploração de Heymarket, meus amigos me levam para conhecer a melhor livraria da cidade. E lá, por pura curiosidade, por pura casualidade, descubro um velho cartaz que está como que esperando por mim, metido entre muitos outros cartazes de música, rock e cinema.

O cartaz reproduz um provérbio da África: Até que os leões tenham seus próprios historiadores, as histórias de caçadas continuarão glorificando o caçador.

http://altamiroborges.blogspot.com/2011/04/como-os-eua-apagaram-o-1-de-maio.html?spref=tw

Contradição: passeata pró maconha é apologia às drogas, comerciais de cerveja não?


Apesar de liminar, PM prende jovens divulgando Marcha da Maconha

Dois jovens que distribuíam panfletos da Marcha da Maconha foram detidos na noite de sexta-feira (29). Policiais Militares levaram os dois para a %ª DP (Centro). Eles foram acusados de apologia às drogas. Foi a segunda vez que eles foram detidos, pela mesma acusação.

Na porta de delegacia, um dos detidos afirmou ter uma decisão judicial que autoriza a Marcha da Maconha e diz que nenhum manifestante poderia ser preso. Ele classificou a ação da PM como abuso de autoridade.

O comando do batalhão da Praça Tiradentes informou que os jovens estão autorizados por liminar a participar da manifestação, mas não a fazer o que o batalhão classificou como apologia ao uso da droga. Os jovens foram liberados da delegacia.



Enquanto isso...




Bebidas: Propaganda estimula consumo em jovens

Os anúncios publicitários de cervejas atraem os adolescentes e estão diretamente associadas ao consumo da bebida alcoólica por jovens entre 11 e 16 anos. Um estudo da Universidade Federal de São Paulo revelou que os jovens prestam muita atenção aos anúncios de bebida.

No estudo, foram ouvidas 1.115 estudantes de 11 a 16 anos, dos 7°e 8º anos, que responderam a um questionário com mais de cem variáveis ligadas à ingestão de álcool.

Dados do Centro Brasileiro de Informações sobre Drogas Psicotrópicas indicam o início do consumo de álcool no Brasil, em média, aos 12,5 anos.

Os pequisadores dizem que não se pode atribuir o consumo de cerveja aos comerciais, mas a pesquisa aponta que eles estão associados ao ato.

Não apenas a propaganda está ligada à iniciação alcoólica, segundo o estudo. Pouco controle dos pais e consumo de cigarro também aparecem diretamente associados.

O consumo de cerveja foi menor no grupo de jovens que respondeu dar satisfação aos pais, quando estão sozinhos.

Fonte:  Redação, com agências - de São Paulo (JCB)



Fazer publicidade de cerveja não é apologia às drogas?

quinta-feira, 28 de abril de 2011

Zizek: “nada está perdido”

Entrevista por Benedetto Vecchi, no Il Manifesto 

Tradução: Anete Amorim Pezzini
 

A crise do capitalismo alimenta o crescimento, na Europa, de um populismo inquietante e autoritário que tem em Sílvio Berlusconi o maior intérprete. Mas abre também espaço inédito para uma política que tenda à sua superação, como mostra esta entrevista com o filósofo esloveno Slavoj Zizek, por ocasião do lançamento do livro Primeiro como tragédia, depois como farsa.
É claro: há uma guerra civil rastejante na sociedade capitalista. A inquietação ambiental atingiu os níveis de vigilância. A democracia é reduzida a um simulacro. Ainda assim, nem tudo está perdido
Escrita em estilo sóbrio, a obra analisa o mundo depois da crise econômica e a tendência de muitos governos de intervir, por meio de financiamento das dívidas dos bancos e das grandes instituições financeiras, para evitar aquilo que apenas há poucos anos parecia a trama de um filme de ficção sobre o colapso do capitalismo. Mas o autor procura distanciar-se das posições teóricas de muitos estudiosos marxistas, que sempre viram o neoliberalismo como um parêntese que, eventualmente, seria substituído por uma realidade social e política mais consentânea com as leis econômicas, dando pouco espaço para os rentistas que enriqueceram com as loucuras especulativas das últimas décadas.

Para Zizek, ao contrário, o neoliberalismo, tem sido uma adequada contra-revolução que cancelou a constituição material e formal surgida após a II Guerra Mundial, quando o capitalismo era sinônimo de democracia representativa. No início do terceiro milênio, a contra-revolução terminou, abrindo espaço para uma política radical que Zizek, em sintonia com o filósofo francês Alain Badiou, chama enfaticamente de “hipótese comunista”.

O filósofo esloveno não fecha, porém os olhos para o fato que os sinais provenientes de toda a Europa apontam para a ascensão de uma direita populista que conquista consensos onde os partidos social-democratas eram tradicionalmente fortes – como na Holanda, Noruega, Suécia. E também era irônico que com os democratas e norte-americanos radicais, que “nos Estados Unidos, depois de haver saudado a eleição de Obama para a Casa Branca como um evento divino, agora se deleitam em discutir se é politicamente mais incisivo Avatar, de James Cameron, ou Guerra ao Terror, de Kathryn Bigelow”. Eis a entrevista:

Aqueles que sustentam que os críticos radicais nos Estados Unidos são uma espécie de ala marxista de Hollywood não me convencem
Em um artigo seu, o senhor lançou farpas contra Avatar, definindo-o como um filme apolítico. No entanto, no filme de Cameron, há fortes referências tanto à guerra do Iraque quanto à destruição da floresta amazônica: em ambos os casos, os vilões são as multinacionais…


Slavoj Zizek: O filme de James Cameron é agradável, divertido, uma obra inovadora do ponto de vista do uso das tecnologias digitais. Mas aqueles que sustentam que os críticos radicais nos Estados Unidos são uma espécie de ala marxista de Hollywood não me convencem. Eles escreveram que Avatar retrata a luta de classes e a luta dos pobres contra os ricos, com o fim de auto-determinarem sua vida. Há um planeta, Pandora, que é invadido por uma tropa de mercenários a soldo de multinacionais. O objetivo é depredar seus recursos naturais, colocando, assim, em perigo o milenário equilíbrio que os seres vivos estabeleceram com o luxuriante ecossistema. Podemos estabelecer certa analogia com o que as multinacionais e os países imperialistas fazem com a floresta amazônica, com o Iraque ou com toda aquela realidade onde estão as fontes energéticas e as matérias primas fundamentais para a produção de riqueza. No filme, os aborígenes de Pandora, em nome de uma visão holística de relação com a natureza, opõem-se ao capitalismo, vencendo, no final, sua batalha. Mas a natureza é um produto cultural que muda com a mudança das relações sociais.

Os seres sempre retiraram da natureza os meios para viver e se reproduzir como espécie. Mas ao fazê-lo, transformaram a natureza. Não é, portanto, retornando a uma idade de ouro idealizada, como sugere James Cameron, que se pode derrotar o capitalismo. Avatar é pura fantasia, fascinante por certo, mas sempre fantasia.

Creio, todavia, que há fortes pontos de contato entre a ideologia liberal e o populismo: ambos são pensamentos políticos que levam em conta o estilo de vida capitalista ocidental como o único mundo possível
O senhor tem frequentemente sublinhado que o populismo seja uma doença do Político. Não lhe parece que o populismo, mais que uma doença, seja a forma política melhor que as outras se adapta ao capitalismo contemporâneo?


Slavoj Zizek: Até alguns anos atrás, afirmava-se que o capitalismo era sinônimo de democracia na sua forma liberal, fundada sobre a tolerância, o multiculturalismo e o politicamente correto. Agora, ao contrário, assistimos às forças ou aos líderes políticos que invocam a mobilização do povo para combater os inimigos do estilo de vida moderno. O filósofo argentino Ernesto Laclau analisou a fundo a lógica do populismo, sustentando que existe uma variante de esquerda e uma variante de direita. A tarefa do pensamento crítico consistiria em evitar a derivação de direita.

Não estou de acordo com essa posição. Em primeiro lugar, o populismo é sempre de direita. Além disso, o povo, como a natureza, é uma invenção. Laclau acredita que para fazê-lo tornar-se realidade deve-se imaginar um universal que contenha e supere as diferenças dentro dele. Daí a necessidade de identificar um inimigo que impede a formação do povo. Não é uma coincidência, então, que a forma acabada de populismo seja o anti-semitismo, porque indica um inimigo que vive entre nós. O mesmo fazem os populistas contemporâneos quando indicam os migrantes como a quinta-coluna entre nós.

Walter Benjamin escreveu que o fascismo emerge de onde uma revolução foi derrotada. Um conceito que, aplicado à realidade contemporânea, explica o fato de o populismo emergir quando a hipótese comunista, que não coincide com o socialismo real, é retirada da discussão pública
De acordo com o senhor, o populismo dirigirá o conflito contra inimigos de conveniência, para esconder o sistema de exploração do capitalismo. Isso quer dizer que esta tendência ocupa um espaço político abandonado, por exemplo, pela esquerda. Como recuperar esse espaço?


Slavoj Zizek: Walter Benjamin escreveu que o fascismo emerge de onde uma revolução foi derrotada. Um conceito que, aplicado à realidade contemporânea, explica o fato de o populismo emergir quando a hipótese comunista, que não coincide com o socialismo real, é retirada da discussão pública. Entretanto, no tolerante capitalismo contemporâneo assistimos à campanha midiática contra os migrantes, porque atentam contra nossa segurança. Ou ficamos atordoados com intelectuais que, como Bernard Henri-Levy, debatem longamente sobre a superioridade da civilização ocidental e sobre o perigo representado pelo fundamentalismo islâmico, qualificado como islamo-facismo.
 
Creio, todavia, que há fortes pontos de contato entre a ideologia liberal e o populismo: ambos são pensamentos políticos que levam em conta o estilo de vida capitalista ocidental como o único mundo possível. Os liberais, em nome da superioridade da democracia, os populistas em nome do único estilo de vida que as pessoas se dão. Há também diferenças. Os liberais estão impondo, mesmo com as armas, a democracia e a tolerância entre quem não é democrático nem tolerante. Os populistas desejam, ao contrário, aniquilar de modo suave de polícia étnica as diversidades culturais, sociais, de estilo de vida. O populismo é, portanto, uma das formas políticas do capitalismo global, mas não a única. Silvio Berlusconi, frequentemente julgado como um comediante ou um personagem de opereta, é, ao contrário, um líder político para ser estudado com atenção, porque pretende conjugar a democracia liberal com o populismo.

Toni Negri e Michael Hardt acham que enfatizando as características do capitalismo pós-moderno criam-se condições para o governo da comuna — isto é, do comunismo – graças àquilo que definiu a virtude prometeica da multidão. Mais realisticamente, acho que devemos organizar as forças sociais oprimidas para uma ação praticável no presente e no futuro imediato
O premiê italiano está, todavia, acelerando uma tendência presente em todos os sistemas políticos democráticos. Sua obra visa modificar o equilíbrio dos poderes – executivo, legislativo, judiciário – para benefício do executivo, de modo tal que o executivo que englobe o legislativo e o judiciário, mas sem cancelar os direitos civis e políticos. As eleições são consideradas como uma sondagem sobre a obra do executivo. Se Berlusconi perde, invoca em seguida a soberania popular representada por ele. A forma política que propõe é, sim, uma mescla entre democracia e populismo, se bem que a sua ideia de democracia seja uma democracia pós-constitucional que faz da invenção do povo o seu traço distintivo. Tudo isso faz com que a Itália, mas que um país atípico, seja um laboratório inquietante onde se desenvolveu uma democracia pós-constitucional. Desse ponto de vista, na Itália está-se construindo o futuro dos sistemas políticos ocidentais…


Slavoj Zizek: O que você quer dizer com pós-constitucional?


Uma democracia que elimina a antiga divisão e equilíbrio entre os poderes executivo, legislativo e judiciário. Equilíbrio dos poderes definido por todas as constituições europeias e pelo Bill of Rights dos Estados Unidos…



Slavoj Zizek: Na Europa, tudo isso é chamado pós-democracia. Claro, Sílvio Berlusconi deseja superar a democracia representativa que conhecemos no capitalismo. Por isso é um líder político mais que nenhum outro. Acho que o presidente Nicolas Sakozy tem uma visão muito mais clara do que aquela posta em jogo no capitalismo. Isso quer dizer que é mais perigoso do que os outros expoentes da direita europeia ou estadunidense. Não nos encontramos, portanto, em frente a um personagem de opereta, que vai às mulheres e promulga leis ad personam. A tragédia apresenta sempre momentos de opereta. Mas há tragédia quando se manifestam conflitos radicais, onde não há possibilidade nem de mediação nem de salvação.

Não acredito, como Hardt e Negri, que com o desenvolvimento capitalista as forças produtivas, mais cedo ou mais tarde, entrem em rota de colisão com as relações sociais de produção. Precisamos agir politicamente para que isso aconteça. É esse o legado de Lenin que não pode mais ser apagado. Mas deixemos fora os textos sagrados e olhemos o capitalismo real. Existe certamente uma setor de força-trabalho cognitiva, mas que também continua a trabalhar em fábrica e que, como os migrantes, é reduzida a uma condição de submissão servil no processo laboral
Será, por isso, interessante ver como evoluirá a situação italiana, que não representa — e sobre isso, estou de acordo contigo — uma anomalia, mas um laboratório político cuja existência condicionará muitíssimo o futuro político da Europa. Na Holanda, na Suécia, na Noruega, na Dinamarca, na França, na Inglaterra há, de fato, forças políticas populistas que recolhem sempre mais consensos eleitorais graças às campanhas anti-migratórias que conduzem, mas não têm aquele radicalismo que apresenta a situação italiana.

Dito isso, não é preciso, no entanto, desenvolver uma visão apocalíptica da realidade. É claro: há uma guerra civil rastejante na sociedade capitalista. A inquietação ambiental atingiu os níveis de vigilância. A democracia é reduzida a um simulacro. Ainda assim, nem tudo está perdido.

Pelo contrário. Como demonstra a recente crise econômica, quando tudo parece perdido, abre-se espaço para uma ação política radical, que eu chamo de comunista. Peguemos o recente encontro sobre ambiente realizado no ano passado em Copenhague. O resultado final, mais que um êxito decepcionante, foi um desastre político. Há propostas, derrotadas nos trabalhos da cúpula, que indicam na salvaguarda do ambiente uma das prioridades para salvar o capitalismo. Podemos pensar em uma aliança tática com quem o carrega avante.

A crise econômica, além disso, exigiu uma intervenção do Estado para salvar da bancarrota empresas, bancos e sociedades financeiras. Mas isso significou que o tabu sobre a periculosidade da intervenção reguladora do Estado foi quebrada. Isso pode reforçar os socialistas — isto é, aqueles que apontam para uma redistribuição de renda e de poder. Não é a política que eu amo, mas abre espaço a propostas mais radicais. Em outras palavras, volta forte a ideia comunista de transformar a realidade. O que proponho não é um mero exercício de otimismo da razão, mas a consciência de que há forças e relações sociais que podem ser liberadas a partir da camisa de força do capitalismo. Toni Negri e Michael Hardt acham que enfatizando as características do capitalismo pós-moderno criam-se condições para o governo da comuna — isto é, do comunismo – graças àquilo que definiu a virtude prometeica da multidão. Mais realisticamente, acho que devemos organizar as forças sociais oprimidas para uma ação praticável no presente e no futuro imediato.

Quando digo que a ideia comunista é eterna, refiro-me ao fato de que é uma constante na história humana a tensão de superar a condição de escravidão e exploração
O senhor escreve, em sintonia com Alain Badiou, que o comunismo é uma ideia eterna. Uma política “comunista” deve, todavia, ancorar-se numa análise das relações sociais de produção e das formas que ela assume em uma contingência histórica. Pode-se estar de acordo ou em discordância com a tese de Negri e Hardt sobre o capitalismo cognitivo, mas seus escritos assinalam exatamente essa necessidade. Caso contrário, o comunismo torna-se uma teologia política, não acha?


Slavoj Zizek: Não acredito, como Hardt e Negri, que com o desenvolvimento capitalista as forças produtivas, mais cedo ou mais tarde, entrem em rota de colisão com as relações sociais de produção. Precisamos agir politicamente para que isso aconteça. É esse o legado de Lenin que não pode mais ser apagado. Mas deixemos fora os textos sagrados e olhemos o capitalismo real. Existe certamente uma setor de força-trabalho cognitiva, mas que também continua a trabalhar em fábrica e que, como os migrantes, é reduzida a uma condição de submissão servil no processo laboral.

Para não jogar no lixo da história esses “excluídos”, ou “marginais”, é preciso uma forte imaginação política, capaz de recompor e unir os diferentes setores da força-trabalho. A teologia é sempre fascinante, mas, quando digo que a ideia comunista é eterna, refiro-me ao fato de que é uma constante na história humana a tensão de superar a condição de escravidão e exploração. Por isso, o comunismo volta sempre, mesmo quando tudo previa que fosse permanecer definitivamente sepultado sob os escombros do socialismo real.



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A entrevista foi feita por ocasião do lançamento da edição italiana do livro, em abril de 2010. A tradução para o português é do site Rosa Blindada.
http://www.outraspalavras.net/2011/04/26/zizek-%E2%80%9Cnada-esta-perdido%E2%80%9D/

quarta-feira, 27 de abril de 2011

O quase anônimo Prudente de Morais

Este é Prudente de Morais, o primeiro presidente civil do Brasil
Todos deveríamos conhecer detalhadamente a história brasileira. Se tomarmos em conta a profusão de material de comunicação estadunidense, é possível até mesmo afirmar que sabemos mais da história deles do que da nossa. Figuras lendárias de George Washington ou Abraham Lincoln povoam nosso imaginário, enquanto Prudente de Morais ou Campos Sales são, entre nós, quase ilustres desconhecidos, a não ser por darem seus nomes a diversas ruas espalhadas pelo país.

Prudente foi o primeiro presidente civil do país e seu governo foi, como havia sido o de seu sucessores, os militares Deodoro da Fonseca e Floriano Peixoto, cheio de convulsões e sobressaltos. No entanto, escolho aqui um episódio curioso, acontecido antes de sua posse, para ilustrar como eram as coisas naquele tempo. O quase anonimato de Prudente parece ter começado ali, muito embora no meio político nacional fosse um dos quadros mais conhecidos e representativos naquele momento.

A posse se daria no dia 15 de novembro de 1894 e, no dia 2, Prudente de Morais chegava ao Rio, então a Capital Federal, de trem. Desembarca na Estação Central – creio que a hoje chamada Central do Brasil – e ninguém, a não ser um amigo, o espera. Havia enfeites na estação, flores murchas, pois na véspera ocorrera o embarque de uma delegação de generais uruguaios. O primeiro presidente “paisano” chegava para a posse e nenhum político, nenhuma autoridade, nenhum popular o esperava.

Foi até o Hotel dos Estrangeiros, que ficava na Praça José de Alencar, no bairro do Flamengo, e se hospedou. Ao cair da noite, o capitão Saddock de Sá foi vê-lo em nome do presidente Floriano, desculpando-se pelo fato de não ter ido encontrá-lo ao descer do trem. Como no dia 1º havia sido feriado, Saddock não recebera as instruções devidas.

Até aí, apesar de ser curioso um presidente chegar quase anonimamente, tudo bem. O mais engraçado é que no dia da posse, não lhe enviaram sequer um fiacre, uma carruagem de aluguel, para buscá-lo. Ele teve que conseguir um no Largo do Machado, com um cocheiro mal vestido e dois cavalos esquálidos, para se deslocar até o Palácio dos Arcos, no Campo de Santana, local onde funcionava o Congresso Nacional.

Após a posse, não tinha como ir até o Palácio Itamarati, que se localiza na Rua Marechal Floriano. O representante do governo inglês deu carona a Prudente e, como não havia qualquer escolta, providenciaram um grupo de alunos do Colégio Militar.

Ao chegar ao Palácio, não encontrou ninguém. Somente depois de algum tempo, chega Cassiano do Nascimento, ministro do governo de Floriano para lhe dar posse. Aliás, por falar em Floriano Peixoto, é interessante saber que, logo ao chegar ao Rio de Janeiro, Prudente de Morais solicitou uma audiência com o presidente para conversarem sobre o país. Floriano alegou estar muito ocupado e prometeu marcar a entrevista para um momento mais oportuno. Esse momento jamais chegou. O marechal deixou o governo e faleceu sem se encontrar com o seu sucessor. 


Essa história é contada por Hélio Silva, na sua História da República Brasileira.

domingo, 24 de abril de 2011

A falácia do "fim das ideologias"

Por Patrícia Paixão

Devorar revistas semanais faz parte de um ritual de viagem. Desta vez não foi diferente. Uma olhada na banca de revista mostra que o circo midiático continua em alta. Exemplo: a capa da Época do dia 4 de abril de 2011 estampa em letras garrafais um "Exclusivo – Mensalão: Época revela todas as provas da polícia sobre o maior escândalo do governo Lula". Mas, ao folhear a revista, não foi a longa reportagem sensacionalista que chamou atenção. Na página 37, na seção "Dois pontos", uma frase curta, seguida do nome do autor e o posterior comentário da revista surpreende:

"O PSD não será de direita, não será de esquerda nem de centro, Gilberto Kassab, fundador do PSD, o partido lagartixa que não tem vértebra ideológica."
Há algo fora do lugar. Seria possível um partido político não ter "vértebra ideológica?" Esse discurso está afinado com uma corrente de pensadores, políticos, dirigentes partidários, setores da imprensa, enfim, que apregoa o chamado "fim das ideologias". No entanto, no cerne dessa questão está o discurso de que a esquerda faliu junto com a derrocada do socialismo real, marcada pelo desmembramento da União Soviética e a queda do Muro de Berlim. Um dos trabalhos mais consistentes sobre o tema é o livro de Norberto Bobbio, Direita e Esquerda: Razões e Significados de uma Distinção Política (2001).

Disseminando "verdades"

Para Bobbio, quando se defende que é nebuloso fazer distinção entre direita e esquerda, há no bojo dessa afirmação a chamada "crise das ideologias". Mas, "as ideologias não deixaram de existir e estão, ao contrário, mais vivas do que nunca", escreveu o autor. Para ele, "a árvore das ideologias está sempre verde. Além do mais, como já foi diversas vezes demonstrado, não há nada mais ideológico do que a afirmação de que as ideologias estão em crise". De acordo com essa tese, "a crise do sistema soviético teria tido como consequência, neste caso, não o fim da esquerda, mas de uma esquerda historicamente bem delimitada no tempo. Desta constatação derivaria uma outra consequência sobre a qual o debate está mais do que nunca aberto: não existe uma única esquerda, mas muitas esquerdas, assim como, de resto, muitas direitas" (BOBBIO, 2001).

Nada mais ideológico do que Kassab afirmar que o seu "novo" partido "não será de direita, não será de esquerda nem de centro". Nada mais ideológico do que a Época referendar esse discurso chamando o PSD de "partido lagartixa, que não tem vértebra ideológica". Interessa aos partidos de direita e à mídia (que se diz objetiva, imparcial e apartidária) disseminar essa "verdade" de que é possível um partido não ter cor ou bandeira ideológica. É mais simplista do que formular teses sobre qual projeto o partido tem para o país ou, no caso da revista, buscar o caminho da reflexão sobre o cenário político-partidário do Brasil, que, certamente, não iria vender tanto quanto o suposto mensalão na capa.

Direita e esquerda

Essa discussão pode alcançar camadas mais densas. O discurso do apagamento da direita presume o apagamento da esquerda. Ora, "esquerda e direita indicam programas contrapostos com relação a diversos problemas cuja solução pertence habitualmente à ação política, contrastes não só de ideias, mas também de interesses e de valorizações a respeito da direção a ser seguida pela sociedade, contrastes que existem em toda sociedade e que não vejo como possam simplesmente desaparecer" (BOBBIO, 2001). Para o autor, há uma tendência natural das pessoas ou grupos em se alinhar quando existem dois lados em luta. "O alinhar-se preenche a necessidade de identificação, a formação de um `nós´: nós de direita, vocês de esquerda, ou vice-versa." Trocando em miúdos: se não houvesse direita, qual o sentido da esquerda existir?

Os partidos políticos orbitam em realidades dinâmicas e a sua práxis envolve um elemento que está no âmago da sua razão de ser: o poder. A ideia de poder é como algo intangível, que muitas vezes permeia interesses temporais e atemporais, ideologias, instituições, estrutura material e financeira, vaidades, enfim, há que se olhar os partidos dentro desse universo. E, nesse universo, não cabe a ideia de "fim das ideologias". Pressupõe-se, então, que há, sim, uma direita e uma esquerda no jogo político. Talvez o que esteja em crise é assumir esses discursos. Delimitar um campo de atuação. Melhor parecer invertebrado e transitar por todas as esferas de poder. E, certamente, tirar muitas vantagens disso.

http://www.observatoriodaimprensa.com.br/artigos.asp?cod=638IMQ004

Diálogos sobre consumo consciente

À beira de uma piscina, numa cidade portuguesa que é Patrimônio Cultural da Humanidade, três interlocutores expõem seus pontos de vista sobre o tema.

Por Luciane dos Santos

Eram cinco minutos para as 3 horas da tarde, Fernanda e Homero haviam chegado ao hotel pouco antes do horário combinado. Na pérgula à beira da piscina já lá estava Luciane Lucas sentada a uma mesinha redonda daquelas de ferro batido esmaltado de branco e com tampo de vidro, folheando um livreto. Quando se apercebeu da presença deles, ergueu os olhos com surpresa, deu umas piscadinhas de ajuste de foco e exclamou interrogativamente um “já”. Sorrindo, os dois se aproximaram e sentaram-se ao redor e, sem conter-se, foram logo transmitindo o espanto da experiência recém-vivida: “Estivemos numa capela toda revestida de ossos humanos por dentro, a Capela dos Ossos, conhece? Um assombro!”, cada qual foi compondo as partes da frase acima, que saiu mais ou menos do jeito que ali está. “Curioso!”, logo observou Luciane, “estava agorinha mesmo com este guia turístico de Évora aberto na página da igreja de São Francisco onde se menciona essa capela. Me despertou interesse em visitar se bem que… hmmm… parece um pouco macabro, não?”. Homero na seqüência emendou: “Sem dúvida, choca um tanto mas faz também refletir muito. O que entretanto justo agora me espanta é que quando entramos lá no recinto me veio a sensação de sincronicidade, de sincronicidade com o que fui conversando com a Fê até o local. Nossa conversa girou em torno da simplicidade voluntária como um antídoto ao consumismo e cheguei até a propor prá Fê trabalharmos na volta o binômio ‘simplicidade e consciência’, a simplicidade voluntária associada ao consumo consciente. E agora de novo a sincronicidade se apresenta: você com a página do local aberta e nós falando da capela justo nesse momento. As coisas, parece, estão encadeadas…”.  No seu estilo pragmático, Fernanda foi logo cortando as divagações e propondo: “É, realmente há coisas que intrigam… Vamos então iniciar nosso papo, gente?”.
O impacto de fecharmos a torneira enquanto escovamos os dentes ou arrumar as torneiras que vazam para economizar água é absolutamente mínimo em comparação ao dano que grandes corporações – sejam elas privadas ou estatais – infringem ao sistema hídrico com a poluição decorrente de suas atividades, por exemplo. Ou seja, ficamos com a idéia de que estamos realmente ‘fazendo algo’ – ou nos culpabilizamos por não fazê-lo – enquanto os danos de grande escala continuam acontecendo, sem nenhuma publicidade…
Por oportuna a intervenção, Luciane e Homero se voltaram para Fernanda com discreto aceno de cabeça significando um “vamos lá”. Desta vez não havia comidinhas nem bebidinhas, o conversatório seguiria sem molhados e secos, apenas com os reflexos do sol cadente nas águas ondulantes da piscina emitindo intermitentes flashes sobre o trio. Fernanda se aprumou apontando para si mesma e, por gestos trocados entre os três, entendeu-se que ela abriria as falas, motivo pelo qual de pronto acionou o inseparável gravador digital no modo record.

“Já cheguei com isto meio que organizado na cabeça, vamos ver como é que sai”, principiou. “Volto a Foucault e à sua idéia de microfísica do poder para fazer uma pergunta, ao final. Foucault reiterou sempre, em seus escritos e entrevistas, que é necessário reformular a idéia de poder para realmente pensar criticamente no tema. Essa reformulação começaria por não ver o poder como uma superestrutura em que se opõem dominantes e dominados e na qual uma ideologia se impõe por uma vontade dos dominantes sobre os dominados.” Parada técnica para checar com o olhar atenções e entendimento; satisfeita, avançou: “O poder, nas palavras de Foucault, se exerceria no nosso cotidiano, também por nossas ações. Somos parte dessa mecânica do poder, dessa malha vetorial que, para aterrissar no nosso foco, se faz ver no fenômeno do consumo tal como se configura em nossos tempos. Fazemos parte, então, de acordo com essa visão, de todo o processo que você descreveu hoje de manhã, Luciane, em que o consumo passa a ser atributo identitário. Não estamos, assim, apenas passivamente respondendo a esta máquina que nos submeteria sem trégua e implacavelmente, somos cúmplices… Daí vem a pergunta: como fazer valer o consumo consciente neste cenário de consumo desenfreado, ‘inconsciente’?”. Finda a fala, relaxou o corpo tensionado na busca do domínio do discurso e sorriu levemente.
Neste sentido, o consumo consciente tornou-se, infelizmente, um discurso de mascaramento das verdadeiras externalidades produtivas inerentes aos mercados
Estimulado pela indagação de Fernanda e dirigindo-se a Luciane, Homero buscou conectar pontos: “Isto me reforça o que você já me disse en passant anteriormente: o consumo consciente é uma ficção porque existe uma cumplicidade umbilical entre o consumidor e o produtor, e não importa de onde vem o produto, se vem de desmatamento, se vem de trabalho escravo: se alguém está querendo um produto, vai comprar, encontrar um racionalização pra comprar, certo? Vamos então apear do pódio o consumo consciente, por ser uma ficção duvidosa?”

“Sim, concordo com você, mas em termos”, assentiu Luciane, ocupando o centro da cena. “Ainda que respeite quem faz seu esforço diário para politizar o consumo como prática social, o conceito ostenta, é indiscutível, perigosa fragilidade, a meu ver. Primeiro, porque me parece que estamos banalizando o sentido de consciência. Segundo, por ser um discurso de que as empresas se apropriaram para responsabilizar o indivíduo por algo que, não raro, o ultrapassa. Responsabilizar o indivíduo é típico das engrenagens de poder da sociedade de controle, conforme nos advertia o filósofo contemporâneo Gilles Deleuze. E enquanto as organizações pregam o consumo consciente – ou se apropriam deste discurso para ganharem pontos junto à Opinião Pública – o consumo produtivo, que está por trás das estratégias de alavancagem do consumo, vai se tornando misteriosamente invisível. Não ignoro que conquistas tenham acontecido desde o aparecimento do conceito. Mas à medida que a coisa avança e a idéia do ‘você faz a diferença’ toma outras conotações, banaliza-se a idéia da consciência e extrai-se o conteúdo político possível das ações de consumo. Neste sentido, o consumo consciente, pra mim, tornou-se, infelizmente, um discurso de mascaramento das verdadeiras externalidades produtivas inerentes aos mercados.”
O conceito, da forma como tem sido empregado, gera importantes distorções. Por exemplo, enquanto pessoas fazem apagão voluntário contra o aquecimento global, boa parte delas desconhece que alguma das empresas que se dizem sustentáveis são exatamente as maiores consumidoras privadas de energia
“Quer dizer, é um interesse das organizações induzir que o consumo consciente salvará nosso mundo: ‘compre o nosso produto’… É mais um argumento de venda?”

“Não, Merix, se fosse um argumento de vendas apenas, seria mais um dos elementos na estratégia de marketing. É pior do que isso, porque o conceito, da forma como tem sido empregado, gera importantes distorções. Por exemplo, enquanto pessoas fazem apagão voluntário contra o aquecimento global, boa parte delas desconhece que alguma das empresas que se dizem sustentáveis são exatamente as maiores consumidoras privadas de energia; e então? Outro ponto a considerar é que o consumo consciente mascara algumas particularidades do consumo como fenômeno social. Faz pensar, por exemplo, que o consumo seja um ato individual, quando não é. O consumo é, por natureza, um ato coletivo”.
Responsabilizar o indivíduo é típico das engrenagens de poder da sociedade de controle, conforme nos advertia o filósofo contemporâneo Gilles Deleuze. E enquanto as organizações pregam o consumo consciente – ou se apropriam deste discurso para ganharem pontos junto à Opinião Pública – o consumo produtivo, que está por trás das estratégias de alavancagem do consumo, vai se tornando misteriosamente invisível
Buscando confirmar seu entendimento, Fernanda arriscou: “Então, essa estratégia de controle nos deixa em prontidão para agir ‘em prol do meio ambiente’ enquanto as empresas seguem dilapidando o próprio… É isso?”. Assentindo com um breve gesto e aproveitando o vácuo da pergunta, Homero emendou, para Luciane: “Você está falando das empresas como um todo?”. Luciane em cima esclareceu: “Me refiro ao mercado…”, provocando o repto de Homero: “…esta abstração difusa chamada ‘O Mercado’?”. Pronta réplica: “Sim, da mesma forma que há uma abstração difusa chamada Sociedade”.

E seguiu Luciane, alternado com Homero: “O mercado diz que a sociedade deve se unir, que os indivíduos devem ser conscientes e se unir para reduzir seus níveis de consumo; entretanto, o consumo produtivo destas mesmas empresas desaparece como debate, o que é uma coisa no mínimo preocupante…”. Homero: “…porque abrir o jogo seria um tiro no pé. Daí a dubiedade da proposta que fazem, como a vejo…”. Luciane: “Esta culpabilização do indivíduo aparece no discurso das organizações em relação ao consumo e nisto se inclui uma orientação, porque são as empresas que orientam os indivíduos sobre como ele deve consumir para consumir melhor e de forma consciente. Perceba bem o ardil que se forma aí: são as empresas que dizem ‘você pode consumir menos luz… menos isso, melhor aquilo…’”. Homero: “…desde que você não afete meu lucro!”
O mercado diz que a sociedade deve se unir, que os indivíduos devem ser conscientes e se unir para reduzir seus níveis de consumo; entretanto, o consumo produtivo destas mesmas empresas desaparece como debate, o que é uma coisa no mínimo preocupante
Indicador pedindo vez no bate-rebate dos dois, entra Fernanda: “Só um pequeno aparte: me parece que a idéia do movimento pró consumo consciente é justamente incitar nos consumidores um certo senso crítico em relação ao consumo, para que percebam que são um elo importante na cadeia de produção e que, se houver menos consumo ou um consumo mais criterioso, a produção terá que se adequar a outras demandas. Podemos até mesmo relacionar a noção de que somos um elo nesta cadeia, à noção de um poder disperso em que não há opressores e oprimidos de que fala Foucault… ou seja: se somos parte da malha em que se configura o jogo de poderes, no processo de produção-consumo-degradação nos caberia de fato uma parte da responsabilidade nas externalidades dele decorrentes. Não sei se é necessário”, e Fernanda aqui realçou o verbo em leve tom de reprovação, “…destituir o consumo consciente…”. Avaliou o efeito do que dissera e prosseguiu, segura: “O importante é estar de olhos abertos para a maneira como as empresas se apropriam desse discurso que é contestatório. Isso porque, se vivemos em uma sociedade de controle e não de disciplina, e se as estratégias através das quais se estabelecem relações de poder são dispersas, dissimuladas, invisíveis, a própria ideia de fazer do ato consumo um exercício de cidadania e de crítica termina por ser uma outra tática, por parte das empresas, para prolongar certas invisibilidades…”.

“Sim , sim!”, valida Luciane, deslanchando: “E o que acontece de mais complicado nisso – e é por isso que a questão da sustentabilidade precisa ser revista – é que quanto mais eu digo que você deve observar o seu consumo como indivíduo, quanto mais eu coloco o holofote em cima de você, mais se reforça a invisibilidade de uma coisa chamada consumo produtivo, que é o consumo dos recursos necessários à produção. Eu não estou falando do consumo de que todo mundo fala, do consumo que é objeto de estudo de antropólogos, sociólogos, etc., que é o consumo dos indivíduos…”.
O que acontece de mais complicado nisso – e é por isso que a questão da sustentabilidade precisa ser revista – é que quanto mais eu digo que você deve observar o seu consumo como indivíduo, quanto mais eu coloco o holofote em cima de você, mais se reforça a invisibilidade de uma coisa chamada consumo produtivo, que é o consumo dos recursos necessários à produção
Encetando um segundo bate-rebate, inseriu Homero: “…que é o consumo neste caso dos chamados meios últimos, para pegar o Espectro de Meios e Fins, do Herman Daly. Os Meios Últimos são constituídos por tudo o que integra o capital natural.” Luciane: “Sim, é certo! Mas o que estou dizendo é que estamos falando aí de um consumo de que já falava Marx – e que tem ficado absolutamente invisível em todos os trabalhos em que se trata do consumo –, que é o consumo produtivo.” Homero: “…como se a matéria viesse do nada…”

Luciane: “Como se a matéria viesse do nada! Então todo mundo está discutindo aonde é que você joga fora o seu celular ou o que seja, qual a destinação que você dá ao objeto que você comprou, mas ninguém discute qual é a origem, a destinação e todo o circuito de produção, de exploração, a divisão internacional do trabalho, todas as externalidades… ninguém discute as externalidades do consumo produtivo. E as externalidades são aquilo que fica sob o tapete, embaixo da mesa.” Homero: “E produtivo aí, só pra esclarecer, não é produtivo no sentido de eficiente… produtivo significa então relativo à atividade de produção, não é produtivo como oposto a improdutivo…”. Luciane: “Sim, não é! Mas pra fechar o raciocínio: como podemos falar em consumo consciente e esperar que cada qual faça sua contabilidade dos custos e das externalidades que ele como indivíduo produz, quando há uma externalidade coletiva gigantesca por trás do consumo produtivo que ninguém discute?”.
Como se a matéria viesse do nada! Então todo mundo está discutindo aonde é que você joga fora o seu celular ou o que seja, qual a destinação que você dá ao objeto que você comprou, mas ninguém discute qual é a origem, a destinação e todo o circuito de produção, de exploração, a divisão internacional do trabalho, todas as externalidades… ninguém discute as externalidades do consumo produtivo. E as externalidades são aquilo que fica sob o tapete, embaixo da mesa
Solicitado discretamente por Fernanda, o garçom sempre à espreita veio trazendo uma garrafa de água mineral na opção que em terras lusas se denomina “fresca” para dizê-la gelada – em contraposição à “natural”, sem gelo –, com copos para atender a todos, que dela se serviram numa paradinha providencial para umedecer as goelas. A conversa correu sério risco de parar por aí ou ser novamente transferida, mercê da letargia que a hidratação insinuou, mas Fernanda, escudeira vigilante, se incumbiu de desclicar o botão pause, pondo-se em posição de tiro verbal, assim impedindo a derivação inevitável para o trato de trivialidades que rondavam maliciosas. Eis o que disse, retomando as falas.

“Já que graças à água nos reanimamos, acabou isso que me fez remontar a uma palestra a que assisti sobre a questão da água. O palestrante, especialista no assunto, num certo momento disse que o impacto de fecharmos a torneira enquanto escovamos os dentes ou arrumar as torneiras que vazam para economizar água é absolutamente mínimo em comparação ao dano que grandes corporações – sejam elas privadas ou estatais – infringem ao sistema hídrico com a poluição decorrente de suas atividades, por exemplo. Ou seja, ficamos com a idéia de que estamos realmente ‘fazendo algo’ – ou nos culpabilizamos por não fazê-lo – enquanto os danos de grande escala continuam acontecendo, sem nenhuma publicidade… Claro que isso não invalida essas nossas pequenas ações, que têm sobretudo um valor educativo, mas supervalorizá-las não melhora  a situação atual com a intensidade necessária. Parece portanto que uma maneira de realmente ‘botar o dedo na ferida’ e, talvez, mexer um pouco nessa mecânica do poder que se dá através da dinâmica do consumo, seria atentar mais para o consumo produtivo, trazer essa dimensão à tona para discutir, para exigir mais informações… Mas gostaria de trazer outro assunto para a discussão, um assunto que você, Luciane, citou antes e que queria retomar: a questão da mais-valia estética do signo…”
Como podemos falar em consumo consciente e esperar que cada qual faça sua contabilidade dos custos e das externalidades que ele como indivíduo produz, quando há uma externalidade coletiva gigantesca por trás do consumo produtivo que ninguém discute?
Homero se entusiasmou: “Fê, você trouxe de volta um aspecto fulcral do que foi abordado hoje cedo. Sim, a questão da marca, Lu! você poderia retomar… A questão da mais-valia estética do signo, na expressão de Baudrillard…”

“Está bem. Vamos à história da marca… Por que eu acho importante a gente observar isso? Como as coisas de repente ganham um valor? Como o sistema capitalista se apropria das coisas, do significado possível que elas venham a ter, e atribui a elas, às vezes, sentidos que elas nem tinham no seu início? Por exemplo, um casaco de pele, um casaco de couro, já significou um elemento de transgressão. Hoje não é mais… Um piercing quando surgiu era uma marcação no corpo pra dizer como esse corpo reclamava a necessidade de ser diferente, de comunicar alguma coisa que não estava no comum e no corrente do coletivo. O piercing era uma marcação no corpo, a tatuagem era uma marcação no corpo. Hoje, qualquer ‘patricinha’ pode ter um piercing. E de ouro!!! O que é uma contradição – um piercing de ouro numa ‘patricinha’ é uma contradição do próprio sentido do piercing.”
E quando você vê os salários pagos aos executivos americanos e aos operários chineses, então você compreende que o modelo de consumo implica não só uma injusta divisão internacional do trabalho, como também o uso do território do Outro como se fosse o seu próprio quintal… Isso nos leva à idéia de que é possível para alguns países falar em produção sem produção…  os Estados Unidos não precisam produzir, você não precisa ter a cara da fábrica, mas essa fábrica existe em algum lugar
Homero pôs tempero no cozido: “Quer dizer – era uma contestação alternativa e não do mainstream…”

“Ou seja: o sistema capitalista rapidamente absorve esse caráter alternativo e transforma em mainstream. E isso acontece com ‘n’ coisas… por exemplo, com o açaí. O açaí era um produto do Norte do país, de baixo custo, que as pessoas comiam ou bebiam como suco ou batida, era utilizado na alimentação da Amazônia como algo extremamente popular. Esse açaí passa a ser consumido no Rio de Janeiro e em São Paulo como sinônimo de culto ao corpo, de qualidade de vida…”

Mais tempero de Homero: “…como pertencimento intragrupal e diferenciação extragrupal…”
O consumo é o anestésico que nos dá a sensação de perenidade transitória – eu sei, um oximoro! –, que mitiga a sensação apavorante de que o deus Morte nos ronda o tempo todo. É o bálsamo com que o deus Mercado nos presenteia, favorecendo biologicamente a liberação de endorfinas que nos inebriam e que acalmam a luta interior entre Chronos, o tempo que urge, e Pluto, que mediante a posse do dinheiro nos empodera como se imortais fôssemos. Tem-nos faltado o norte de um sentido da vida construído na reflexão filosófica e no despertamento de nossas faculdades superiores, que muitos chamam de espiritualidade
“Sim, sim! O açaí passa a ser um código, um código de saúde. Portanto, se você não consome açaí, você não é uma pessoa saudável… é um excluído, pois não porta o código. O que a gente observa, ao fim e ao cabo, a respeito das marcas, é que o mundo das marcas vai se apropriando destes códigos… O que acontece? Aquele açaí, que era um elemento que pertencia a uma comunidade, extrapola seu território: o mercado se apropria disso e aquilo rapidamente deixa de ser um código específico e passa a ser um código difuso, mas não perde seu caráter sígnico, o que não significa necessariamente que ele mantém as mesmas propriedades. Eu não sei se um Activia de açaí está próximo de um copo de açaí natural, mas fica aquela idéia… É capaz de se tornar saudável com um simples aroma de açaí.” Mais hidratação nas cordas vocais, pai e filha a acompanham aproveitando para ajustar a coluna no espaldar da cadeira, e prossegue Luciane: “Bem, pra fechar, é aí que está a cereja deste bolo, desta discussão sobre o consumo está por ser depositada: refiro-me à discussão sobre o consumo produtivo, sobre aquilo de que não se fala, sobre as externalidades inerentes àquilo de que não se fala… E eu gosto muito de dar o exemplo da linha de produção do iPod, da Apple, que envolve uma série de países asiáticos, mas com predominância da China – a linha central de produção é na China. Como é que pode uma marca americana ser totalmente produzida na China, e não existir uma única linha de produção nos Estados Unidos?

E quando você vê os salários pagos aos executivos americanos e aos operários chineses, então você compreende que o modelo de consumo implica não só uma injusta divisão internacional do trabalho, como também o uso do território do Outro como se fosse o seu próprio quintal… Isso nos leva à idéia de que é possível para alguns países falar em produção sem produção…  os Estados Unidos não precisam produzir, você não precisa ter a cara da fábrica, mas essa fábrica existe em algum lugar. Nós temos a ficção, a idéia equivocada, de que a fabricação, a produção, desapareceu. Ela não desapareceu! Ela só não está mais visível nas economias mais desenvolvidas… Mas ela está acontecendo em algum lugar e a um preço bastante significativo, que também é invisível, porque também não está aos olhos. Então, o que acontece? Um engenheiro americano ganhando em torno de 85 mil dólares por ano, ao passo que o engenheiro chinês vai ganhar no mesmo período 10 mil dólares O operário americano, que inexiste na linha do iPod, ganharia, anualmente, cerca de US$ 47.640. E o operário americano está mais próximo do engenheiro chinês. Mas o operário chinês, que vai tornar possível a elaboração desse iPod, ganha 1.540 dólares por ano!! Divida por doze 1.540 dólares e você vai ver a miséria esses operários chineses recebem por mês. Esta divisão internacional do trabalho, como prática que se torna comum em tempos de globalização, vai se tornando natural aos nossos olhos, de modo que já não a vemos como o pedágio que na verdade é para garantir o volume e a velocidade das engrenagens do consumo. O barateamento de produção a qualquer custo se banaliza…”
‘Consumo consciente’, onde se encaixa isso? Acho que não se encaixa, a não ser como mais um lema que nos encanta mas nada transforma por mera falta de condições sistêmicas
Percebendo uma nova categoria implícita na fala de Luciane, Homero quis assinalar: “E isto é uma degradação do outro capital que é impactado negativamente pela produção, além do capital natural, que é o capital humano-social. Você degrada ambos, o capital natural e o capital humano-social…”

Luciane reconhece a referência: “Sim, tem a ver com aquele modelo que você mencionou numa conversa anterior, dos quatro capitais: de um que a gente não está vendo, o capital natural, que beneficia outro, o capital construído, que a gente está vendo e que consegue lidar muito bem com ele… Então, o que eu quero dizer é que a invisibilidade das externalidades geradas pelo capital construído acontece com o aval do próprio mercado. O mercado sabe o que está se passando mas o indivíduo consumidor não tem a menor noção!”.

Alinhado com a idéia, Homero complementa: “E muitas vezes, de fato, o indivíduo não sabe mesmo, mas mesmo que soubesse continuaria consumindo… você concorda comigo? Ora, é desse consumidor que nós queremos dizer que tem que ser consciente…”.
Vivemos em uma sociedade em que o poder não se manifesta exatamente sobre o indivíduo, mas sim sobre o processo de construção da subjetividade. Isto muda muita coisa, porque o indivíduo é instado a pensar que pode ser o que quiser – basta fazer uso da varinha mágica do consumo
Emendando, Luciane abre o leque de razões: “Sim, mas de fato esse não consegue ser consciente! Antes de mais nada porque as informações não estão disponíveis  e, em segundo lugar, porque ele desconhece essas tais cadeias produtivas e as externalidades a elas inerente.  Aqui vale um adendo – na verdade, dois – sobre a sociedade de consumo, que eu diria que é tipicamente de controle. Em primeiro lugar, vivemos em uma sociedade em que o poder não se manifesta exatamente sobre o indivíduo, mas sim sobre o processo de construção da subjetividade. Isto muda muita coisa, porque o indivíduo é instado a pensar que pode ser o que quiser – basta fazer uso da varinha mágica do consumo. Em segundo lugar, instala-se, por conta disso, um contrato de adesão. As pessoas querem consumir, não só porque, como já vimos na conversa de hoje cedo, se relacionam umas com as outras a partir do mundo dos bens, mas também porque acreditam que o consumo possa trazer a elas uma realização pessoal. A consciência só parece possível se esta premissa puder ser mantida… pouca gente admitiria abrir mão da classificação social que o consumo promove. Por que teria o consumidor individual interesse em fazer isso?”.

Estimulado, Homero se anima: “Acho que sei a resposta: não se interessa porque o que ele está querendo é satisfazer a sua necessidade de pertencer e de ser diferente… isso é o que interessa a ele. E esse negócio de geração futura, de altruísmo, de pensar nos netinhos, isso tudo é nebuloso. Concorda comigo? Então terminamos com esta constatação dramática!”

Parecia um fecho esse último vai-e-vem entre Luciane e Homero. Entreolhando-se, deram os três a entender que era momento de cumprir demandas fisiológicas, das quais não convém entrar em detalhes… Gravador no pause, o fato é que pai e filha subiram por alguns minutos aos aposentos enquanto Luciane permanecia no piso térreo, tinha ademais questões da hospedagem a verificar na recepção. No trajeto, Homero observou: “Sinto que há ainda algo que falta ser dito. Na volta, estou com comichões de tentar amarrar a conversa toda de hoje com pontos que abordamos em outras ocasiões. Afinal tudo o que fizemos até hoje em conjunto tem seguido uma certa linha mestra, ainda que um tanto invisível, não acha? E você, tem algo ainda a acrescentar?”
Não estamos apenas passivamente respondendo a esta máquina que nos submeteria sem trégua e implacavelmente, somos cúmplices… Daí vem a pergunta: como fazer valer o consumo consciente neste cenário de consumo desenfreado, ‘inconsciente’?”
Fernanda limitou-se a um gesto com a mão espalmada querendo significar qualquer coisa como “me aguarde” ou “chego lá”. De volta ao cenário anterior, já lá estava Luciane à espera, de novo folheando o guia, sinal do convite ao lazer arrodeando a mesa. Sentados os três, querendo ser polidos sem afetação, Homero ensaiou com Luciane: “Já dissemos tudo, será? Eu gostaria de fazer mais algumas considerações, se você estiver ainda com capacidade digestiva para mais uns dois ou três ‘ora pois pois’”… Ambos riram e Luciane enviesou a cabeça convidativa, face ao que Homero principiou a girar o basculante da fala para esvaziar o que ainda se acumulava na caçamba mental, enquanto Fernanda, cuidadosa com os registros, acionava o inseparável aide-memoire digital.

“De tudo que intercambiamos aqui, me surge a necessidade de juntar partes ricas em si e que se valorizarão mais ainda quando entretecidas numa trama sistêmica, incluindo coisas não abordadas diretamente mas que já vimos elaborando ao longo de nossa produção no assunto. Coisas, Lu, que antecedem algumas este nosso encontro, mas que você conhece bem pois estão boa parte nos posts anteriores que publicamos. Lá vou eu!.”, o primeiro despejo do basculante já se esparramara no chão. Sobre ele, o que restava na caçamba foi se amontoando: “O consumo, consciente ou identitário, é refém daquela doxa que assinalamos em nosso jantar – lembra, Fê? – com a bióloga e o geógrafo meses atrás, a doxa do crescimento, um meme que, como todo meme, se auto-replica viralmente. Daí surge que crescer produz um meme subsidiário, o meme do lucro que responde à ansiedade do curto-prazismo, a qual nos compele a trazer para o presente o máximo possível de resultado futuro  da atividade econômica, face à incerteza que, no final da ponta, tem a ver com nossa finitude como seres vivos. Finitude da qual temos consciência, fato único entre o universo das espécies vivas… Nesse quadro, duplo motivo tem a economia para induzir ao consumo, para forçar um consumo sempre maior e mais diversificado: assegurar o crescimento econômico e o lucro a ele associado, e mitigar a ansiedade que nossa finitude provoca em nossa mente e coração.

O consumo é o anestésico que nos dá a sensação de perenidade transitória – eu sei, um oximoro! –, que mitiga a sensação apavorante de que o deus Morte nos ronda o tempo todo. É o bálsamo com que o deus Mercado nos presenteia, favorecendo biologicamente a liberação de endorfinas que nos inebriam e que acalmam a luta interior entre Chronos, o tempo que urge, e Pluto, que mediante a posse do dinheiro nos empodera como se imortais fôssemos. Tem-nos faltado o norte de um sentido da vida construído na reflexão filosófica e no despertamento de nossas faculdades superiores, que muitos chamam de espiritualidade.”

Há vantagens, que costumam ser pouco valorizadas, em permanecer na posição de observador silente: pode-se ganhar o privilégio da palavra final, após colher no cesto das cogitações tudo o que se disse antes. Ou seja, de exercer a síntese ou, pelo menos, buscar uma convergência entre tudo que foi antes dito, na intenção de construir um sentido unificado e selador.  Fernanda esteve atentíssima aos lances finais das trocas entre Luciane e Homero, nessa postura de observar e processar e, valendo-se disso, decidiu pronunciar-se, como sinalizara pouco antes. Segue-se a fala que ofereceu, a qual irrompeu sem mais anúncios.

“Somos educados na lógica do ‘fazer’ para atingir o ‘ter’, o ter que desemboca no consumo. O ‘ser’, afinal, se funde com o ‘ter’ e terminamos melancolicamente numa pérfida filosofia de segunda classe: ‘Consumo, logo existo!’. Ei, gente: ‘consumo consciente’, onde se encaixa isso? Acho que não se encaixa, a não ser como mais um lema que nos encanta mas nada transforma por mera falta de condições sistêmicas. É isso… só isso, acabei!”. E desligou o registrador digital das falas…

Seria desleal afirmar que “quem fala por último, fala melhor”, parodiando o dito famoso sobre o riso. Seria, na verdade, profundamente injusto para com a circulação de idéias lúcidas e instrutivas com que todos, inclusive a própria Fernanda, elegantemente esgrimiram em torno de tema tão controverso e ao mesmo tempo envolvente e fascinante. Mais apropriado seria dizer que ‘quem fala por último, encerra a conversa’ – e foi o que aconteceu, por tácito consenso.

Não satisfeito com a sua longa e inflamada peroração, Homero ainda tentou: “Como costuma dizer o Mário Sérgio Cortella, há que esperançar… uma vez que…”, mas as palavras se desfizeram no vazio, não adianta querer embarcar num trem que já partiu. À vista do inevitável, e sem nenhuma cerimônia, os três passaram ato contínuo a cogitar de passeios e distrações, implícito que ficou que o dever fora honrado e cumprida a proposta tão longamente acalentada e que teve de vencer percalço sobre percalço para se concretizar: Luciane tinha sido ouvida e tudo o que tinham a dizer fora dito.

Iriam no dia seguinte, que agora era hora das conversinhas descompromissadas ainda na beira da piscina – encomendadas ao mesmo garçom da água três margaritas, que ninguém é de ferro nem abstêmio –, fazer os percursos inescapáveis por aquela cidade-cidadela de Évora, Patrimônio Cultural da Humanidade, cujo topônimo provém de Eburianus, divindade dos celtas, povo que, juntamente com os romanos, embora em épocas mui distintas, por ali há milênios deixou marcas… tudo isso conforme capitulado no guia que Luciane de novo folheava. No roteiro que passaram a organizar, constava: 1) contemplar as ruínas romanas do Templo de Diana, 2) entrar e sair pelas cinco portas da muralha da cidade velha, 3) visitar nas cercanias – pai e filha pela terceira vez – o Cromeleque dos Almendres e o Menir da Oliveirinha, famosos megálitos celtas, 4) levar Luciane, quem sabe, à lúgubre capela dos esqueletos e, entre uma coisa e outra, 5) passar em revista, na região, as plantações de sobreiro, árvore cuja casca fornece ao mundo cortiça de primeira para a rolha dos melhores vinhos.

Vinhos? Ah! os do Alentejo estão entre os excelentes de Portugal e a eles, quem resistir pode? Bem, se no resto da curta temporada não desse para consumi-los, metamos lá, conscientemente, pelo menos que se o fizesse com moderação… Fim da história, quem quiser que conte outra!


 
Luciane Lucas dos Santos é pós-doutora pelo Centro de Estudos Sociais (CES) da Universidade de Coimbra (UC), sob a orientação do Prof. Dr. Boaventura de Sousa Santos. Integrou o Grupo de Economia Solidária (ECOSOL) do Núcleo de Estudos em Cidadania e Políticas Sociais do CES/UC. Concluiu o doutorado em Comunicação pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, em 2004. Publica suas produções no blog “Serve o Consumo para Pensar?” (http://monoculturadoconsumo.blogspot.com).
http://ponto.outraspalavras.net/2011/04/18/consumo-consciente-um-caso-de-amor-platonico/

sexta-feira, 22 de abril de 2011

A era digital pode estar criando alienados culturais

Reinaldo Luz Santos

Bem vindos à era da informação

"Os meus filhos terão computadores, mas antes terão livros" 
Bill Gates

Bem vindos internautas. Bem vindos sedentos por sabedoria. Bem vindos amantes da cultura. Eis a grande era global da comunicação. Já aqui diante de nós a tecnologia ao alcance das massas. Eis a tão aclamada ERA DA INFORMAÇÃO!

Aqui, ali, longe, perto. Em todo lugar, em toda parte. Ao alcance de todas as classes sociais. A rede mundial de computadores interligados e plugados num único canal de pluralidade de raças e culturas. Aqui, ali, longe, perto. Em todo lugar, em toda parte... Bom, isso eu já disse. Mas, tirando o ali, o aqui, o acolá do meu texto, pergunto. E ai? Chegou? Chegou essa maravilhosa era da informação?

Claro que sim. Chegou a todos e a quem quiser conhecer, beber e ceifar dessa era. O problema, agora sim ele, o problema. O problema é quem nem todos sabem o que fazer com tudo isso.

Assim como a TV - ainda que em menor escala de abrangência ao grande público - a internet, vista como uma mídia revolucionária por seu poder de interatividade, me parece estar indo para igual caminho, transformando-se em igual máquina de decapitação de potenciais.

Pra que tantos canais nesse controle remoto?

"São tantos canais nesse bendito controle remoto. Não sei pra que! Eu vou é pedir um desconto na TV a cabo, afinal de todas essas opções o que me interessa mesmo é ver o jogo do meu time à noite, reprise uma hora depois, comentários na madrugada e quem sabe os melhores momentos no domingo."

Não se assuste com essa figura. Ele pode ser você diante da Internet. Dicionários online, cursos a distância, debates presenciais, palestras em vídeo, conteúdo sob demanda, redes temáticas e troca de conhecimento em tempo real. Milhares de serviços, pessoas, interesses cruzados e fontes de informação dos mais diversos tipos a sua espera. E você liga o computador, abre o navegador e a primeira que coisa que escreve é "w w w . o r k u .... "

Puxa vida, pensou você, pra que tantos canais esse maluco - do meu exemplo - quer se ele só pensa em ver um canal? Estranho não é mesmo?

Cuidado, o Orkut te pegou!

Segundo uma pesquisa realizada pelo Pew Internet e American Life Project nos EUA, apenas 35% dos adultos possuem páginas pessoais em sites como Facebook, Bebo e MySpace, enquanto 65% dos adolescentes de 17 anos ou menos possuem conta em pelo menos uma dessas redes de relacionamento.

Todo mundo já sabe que açúcar em excesso dá cáries. Só não sai se contararam aos jovens. Tudo bem, eu estou falando principalmente aos jovens que sofrem desse mal (a meu ver), então dá pra radicalizar e pedir pra apagarem suas contas do Orkut, eles gostam e até entendo. Mas tudo que é demais é sim prejudicial.

Tenho observado o comportamento de amigos, sobrinhos, filhos de amigos e muita gente diante da internet. Boa parte do tempo é gasto com futilidade, navegação sem rumo e muitíssimo pouca produtividade.

Fala a verdade, você conhece alguém que passa mais de uma hora clicando de perfil em perfil, bisbilhotando na página de recados e procurando conhecer os hábitos das pessoas pelas poses, passeios e viagens registrados nas fotos. Conhece ou não? Opa, você é um desses? Cuidado. O Orkut te pegou.

O sistema é sensacional. A idéia é genial e o modelo de distribuição simplesmente incrível. Realmente o Sr. Orkut acertou em cheio. Acertou, foi reconhecido, ganhou visibilidade e está colhendo frutos por isso. Sim, ele está faturando e alto. E você, Sr. Orkuteiro. Quanto ganhou em sua última hora de fuçada?

Nem preciso concluir meu raciocínio não é mesmo? Os desenvolvedores de grandes e potenciais serviços de relacionamento estão lucrando alto ou mesmo fazendo suas histórias, tendo o retorno de seu esforço. E você é mais um pequeno número na estatística milionária das realizações "dos outros". E as suas, começam quando?

Alguns fazem sua história. Outros babam em frente ao monitor
 
Enquanto você está perdendo horas da sua vida, babando em frente ao computador, navegando sem rumo e assistindo o sucesso de outros, existem pessoas que entenderam o potencial da grande rede. As comunidades de relacionamento não são ruins, muito ao contrário, são um grande elo entre pessoas de mesmos interesses, planos e afinidades.

Posso não estar completamente certo, mas como criador nato e artista incansável, seja lá em que atividade, eu acho que produzir é fundamental e necessário ao ser humano. Principalmente o jovem precisar criar para se conhecer. Precisa escrever, filmar, desenhar, planejar, sonhar, rabiscar, enfim, viver em constante mutação de idéias através da produção. E os serviços disseminadores do ócio são um veneno para o curto tempo de autoconhecimento.

Ninguém precisa preocupar-se em criar grandes obras ou gerar grandes revoluções, mas a finalidade maior das redes temáticas interligadas é unir pessoas em prol de crescimento mutuo. Nós sentimo-nos maiores quando encontramos novos pontos de vista. Nós crescemos quando encontramos pontos de equilíbrio em nossas metas e as realizações que podemos alcançar. Nós vibramos em boas energias quando encontramos energias similares.

Tão longe e tão mais longe

Dias atrás, como não de costume, conectei-me para fazer uma pesquisa tarde da noite. Automatizado entrei no meu mensageiro instantâneo, ainda conhecido como MSN. Perdi o rumo da minha pesquisa quando vi subirem as famosas plaquinhas, quase que juntas, de quatro grandes e velhos amigos. Tornei-me visível e fiquei a pensar nas boas vindas que daria a eles.

De repente me vi pensando demais na piadinha que faria. E percebi que já estava eu e os quatro amigos online a mais de 5 minutos. Fiquei olhando a tela fria a esperar. E a pensar. Eu estava quase eufórico quando os vi (a seus nomes) entrarem online. E, no entanto pensei, será que eles estavam também?

Lembrei-me dos bons tempos que vivemos eu e esses amigos. Lembrei-me das festas, das baladas, das roubadas, das roupas diferentes, da vontade de ser diferente. Dos rótulos das tribos em que nos enquadrávamos. Lembrei-me das festas malucas, das madrugadas a falar de sonhos e das chacotas uns com os outros. Lembrei-me de alguns vários momentos muito bons e alguns poucos difíceis e nesses, lembre-me dos abraços de amizade sincera e choro sem formalidades.
 
Lembrei-me de tanta coisa boa e real. E não entendia o que eles esperavam pra me chamar também.

Talvez, como a mim, estivessem todos lembrando tudo que citei. Ou talvez apenas estivessem ocupados atualizando seus perfis, criando frases para o MSN do dia seguinte, subindo fotos para o álbum virtual. Não sei, sai e não nos falamos mais. Aliás, a tempos não nos falamos. Apenas acompanhamos de longe e pela web a vida um do outros.

Nosso proveito está ao alcance da disciplina

Se a internet veio para unir, para nos plugar, para nos fazer crescer não tenho mais certeza. Mas sei com toda a clareza que ela tem potencial para muito mais. A base de qualquer amizade ou mesmo de negócios é feita por relacionamentos. Você não compra produtos apenas, você compra credibilidade, personalidade e quando menos, necessidades. Mas em muitos casos negócios são feitos com pessoas. A rede veio para viabilizar muito do estreitamento dessas fontes de conexão entre os seres humanos.
O aproveitamento ou não dessas oportunidades não está em nenhuma formula mágica nem mesmo em poderes de aquisição. Na web tudo é possível e quase tudo, relacionado a informação e conhecimento, está a sua disposição. Só uma coisa o separa da matriz de conhecimento, você.

Nós somos inibidores de nosso crescimento e melhor aproveitamento das possibilidades da grande rede. E a conscientização somada a disciplina é a ponte para infinitas possibilidades. O MSN, Skype, Orkut, E-mail, torpedos e todo e qualquer tipo de tecnologia para conexão e comunicação pode aproximar ou esfriar relacionamentos. Depende de como os usamos.

No caso de crianças e adolescentes eu sou completamente a favor de um direcionamento para o uso da internet. Por mais que pais ainda achem que as crianças saibam usar o computador, eu ainda acredito que elas saibam guiar um carro, mas não conhecem o caminho a seguir para chegar a algum lugar. Horas e horas em comunidades são uma grande perda de tempo.

Lixo cultural e passatempos pouco construtivos em enorme quantidade

Comunidades irrelevantes, amigos virtuais que são completamente estranhos, conversas macro-abreviadas, empobrecimento do vocabulário e uma infinidade de passatempos pouco ou nada construtivos. É nesse ambiente infértil que seu irmãozinho, filho ou sobrinho vive.

As comunidades, por exemplo, de que servem? Deveriam fazer o papel de pontos para debates ou mesmo para encontro de pessoas com mesmos interesses falarem de seus prazeres. No entanto não é o que acontece nas mais famosas, como as comunidades do conhecido serviço Orkut.

Essas, disfarçadas chamariz para interação, na verdade apenas te rotulam e evita o trabalho de você mesmo escrever sobre si. Está tudo lá, mastigado. Filie-se na "Eu ainda assisto o Chaves" e encontro mais 10 duas de saudosos desocupados. Mas a interação acabou ai, vê-se o número de companheiros e ponto. Lá está a comunidade a fazer parte de outras 300 que colecionados sem menor utilidade. E se quiser incrementar seu perfil procure conhecer as muitas animações disponíveis, as firulas nos nomes feitas a base de códigos primários ou mesmo as novas formas de se escrever proparoxítonas usando duas letras e um asterisco. E eis que se formam aos montes os "tecno-alienados" quando deveriam ser mesmo os mais antenados das últimas gerações, tendo as mãos tantas possibilidades de informação.

Horas para criar um novo perfil em um novo e sensacional serviço. Horas para editar as mesmas fotos tiradas a frente do espelho com línguas a esquerda e a direita. Horas lendo recados dos recados de "amigos" próximos, depois dos amigos dos amigos e dos colegas dos amigos dos... bom, me perdi, pois são tantos cliques de perfis em perfis que depois de alguns minutos muitos já não sabem o que estavam vendo, lendo ou querendo fazer. As comunidades, no modelo em que foram criadas e da forma que estão sendo usadas, são mesmo um lixo e um desperdício de tempo!

E onde entra mesmo a era da informação?

"Quem mexe com internet
Fica bom em quase tudo
Quem tem computador
Nem precisa de estudo
Estudar pra quê?
Estudar pra quê?"

E dá-lhe "Pato Fu" no trecho acima de sua música "Estudar Pra Quê" composição de John. Estudar pra quê? Estudar pra quê? Pois é, não é bem assim, mas não sei se todos sabem. Um livro é ótimo, mas não é suficiente tê-lo na estante. É preciso saber usar o que se tem em mãos.

Sim, ela existe e paira por todo lado, ante aos conectados, antenados, aficionados, sedentos por cultura, viciados em novidades, amantes das novas vivências. Aos extremos e aos saudáveis, seja em que nível for, a informação está ai para quem quiser - mas quiser mesmo - aproveitar.

Não são todos que sabem se regrar e aproveitar toda a esfera de possibilidades e conhecimento que o momento em que estamos providencia. Novamente, ainda que em tempos de tecnologia evoluindo em larga escala, soberana é a força do individuo e suas escolhas.

O mesmo vale para a conectividade entre as pessoas em tempos de redes integradas que, ao meu ver, não deve ser rotulada como em tempos únicos de alta taxa de efetividade, nem tampouco como um momento de distanciamento entre os seres. Como já previsto pelo filosofo Pierre Lévy, a internet pode nos distanciar sim, mas a grande tendência é da aproximação. E aqui se faz protagonista novamente a conscientização de cada um sobre como usufruir dos recursos e infinitas possibilidades que a grande rede nos proporciona!

E você, tem feito sua história, aproveitado seu tempo e vivido intensamente esse momento? Ou ainda assiste com controle remoto em mãos o zapear dos seus próprios dedos sem entender o rumo que se segue?

Pense nisso. Conecte-se sim. Mas não se desligue dos seus sonhos e objetivos! Tempo é precioso, a banda já é larga, mas não é infinita!

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