quarta-feira, 30 de março de 2011

Cordeiros em peles de lobos

Um primeiro ponto importante para entender os acontecimentos do Egito é dado por Antonio Negri e Michael Hardt. Eles afirmam que não há como entender o que aconteceu lá como uma repetição do passado, como uma comuna de Paris, por exemplo, ou como a revolução socialista de 1917. Trata-se de outra coisa, com certeza.

Eles lembram que a revolta se deu predominantemente através de redes sociais e parecem enxergar sob a trama um bom exemplo da nova organização social, se é que se pode chamar assim, que se estabelece não mais como povo, mas como multidão. Creio que o que eles dizem é interessante e importante para se levar em conta.

Um dos significados da palavra “inteligência” está relacionado à “compreensão da natureza das coisas e do significado dos fatos”, segundo o dicionário do Houaiss. E são as pessoas inteligentes que estão envolvidas nos conflitos, segundo Negri e Hardt. Essas que se utilizam de ferramentas que demandam razoável inteligência e não pouca iniciação tecnológica, capazes de utilizar esses recursos para manifestar aquilo que a multidão tem de mais característico, a expressão comum através da diversidade. Movimentos como esse, assim como outros mais antigos, como a contracultura dos anos 1960, são, parece claro, movimentos já relacionados à multidão, não mais ao povo.

Visto por esse lado, realmente pode ser algo novo. Simplesmente porque a história é outra e a ordem social mudou de configuração, mas o poder parece mais estruturado do que nunca, o que significa reconhecer que se manterá a ordem dos acontecimentos por muito tempo ainda. O poder é estruturado e, assim, é estruturante, dizia Bourdieu, e se conseguiu contemporaneamente gerar um domínio e um controle tão mais eficazes e cruéis do que os existentes na disciplina da Era Moderna, em boa parte graças à revolta da multidão contra a tal modernidade sólida de Bauman, pode estar mostrando que sua máquina de guerra tem muita munição.

Um dos fatores a ser levado em conta é a interpretação dos meios de comunicação, a cobertura “isenta e objetiva” dos fatos. Ali se percebe claramente que o Ocidente não aprendeu, nem sequer deseja aprender, que a realidade não é, nem nunca será, correspondente aos conceitos que formalizamos em relação a ela. Se nas ruas do Egito sobrou inteligência, esta faltou nos jornais, revistas, televisões, rádios e sítios noticiosos. Como sustentáculo ideológico do poder, o jornalismo continua confundindo o objeto e a sua representação. Isso não pode ser à toa. Forma uma cadeia significante que produz associações diretas de signos relacionados a um texto prévio. E isso não é bom para a inteligência. Não é bom para a sua inteligência.

Nesses acontecimentos, que já vitimaram o ex-ditador de plantão egípcio, cabe se tirar uma mais uma lição sobre a ordem sociopolítica da contemporaneidade. Não é algo como a revolução francesa, é uma revolta articulada e desarticulada com a mesma força. A impressão é a de que alguém ligou a força e pôs a revolta para funcionar, desligando o interruptor na sequência. Assim já ocorreu em outros locais do mundo, em Seattle e Buenos Aires, por exemplo, assim como em Paris, há mais de quarenta anos. Consta que Lacan já havia alertado aos manifestantes que o que eles buscavam não era mais do que a um senhor, como na definição da rebeldia feita por Erich Fromm.

Pode haver, aí, efetivamente, uma manifestação que Negri e Hardt conseguem tocar com seu conceito de Multidão. Trata-se, tudo indica, de uma emblemática manifestação da expressão comum através da diversidade, algo que se dá por momentos, mas que se desarticula posteriormente quando se entende que se a diversidade se render ao comum deixa de existir. Embora o que tenha havido, sempre, não tenha sido, nunca, diversidade, mas uma expressão dela, um discurso sobre ela. E uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa. Não lembro se foi Jameson ou Featherstone que definiu muito bem a desordem pós-moderna como bastante ordeira. E a ordem que jaz sob os cacos de sentido, sabe Beatriz Sarlo muito bem, é a do mercado.

A mim parece que, como disse, o poder macropolítico mantém sua força de ação cada vez mais potente na esfera micropolítica. Assim, pode-se livrar de um ditador antiquado e substituí-lo por um novo em folha, que conte dessa vez com o apoio dos votos. Isso já aconteceu antes. A estrutura do poder parece se manter forte e controla, com boa margem de sucesso, governos de esquerda, como no Brasil. Esses governos conseguem um maior equilíbrio social entre as camadas médias e baixas a um largo custo daquelas, deixando intocado o grande capital. Trata-se de uma ação irrefutável que sugere o fato de que ao poder do capital é mais proveitoso, hoje, contar com governos que despertem a simpatia da população, notadamente da população que se contava como excluída há pouco mais de dez anos.

Pode-se perceber, então, que há uma novidade não apenas na revolta egípcia, mas em todos os movimentos sociais que se organizam contemporaneamente. Eles parecem feitos por gente inteligente, são tratados com muito pouca inteligência e são ligados e desligados com rapidez. Não possuem lideranças, a não ser as que eclodem instantaneamente do anonimato para mergulhar nele em seguida. Parece haver a necessidade de supor que acima da multidão parece estar se estabelecendo um espírito de rebanho, aquele que Nietzsche odiava. Talvez seja o caso de supor que esses movimentos são formados bisonhamente por cordeiros em peles de lobos. A imagem perfeita do que tem sido a maioria de nós nestes tempos.

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