terça-feira, 29 de março de 2011

Andarilho


Sempre gostei de caminhar. No Rio de Janeiro, onde nasci, me acostumei a andar muito desde a adolescência. Gostava do mar, adorava “pegar” ondas de peito, atividade que era conhecida como “pegar jacaré” até algum tempo atrás, e costumava ir até o posto 5, local no qual havia uma formação interessante de ondas, graças às obras do aterro de Copacabana, na década de 70, que formaram o que chamávamos de “baixinho”. Naquele local havia uma espécie de afundamento do solo que, por algum motivo, facilitava a formação de ondas altas que eram, apesar do tamanho, adequadas para essa prática esportiva. Ia até lá praticamente todos os dias e fazia uma longa caminhada, de aproximadamente 3 quilômetros, na qual eu ia pensando, pensando, pensando.

Continuei a caminhar durante o resto da vida, até hoje. Para mim, andar é uma atividade bastante proveitosa. Além de saudável fisicamente, como atestam os médicos, faz bem ao espírito. Possibilita um arejamento, um frescor para a alma. Mesmo quando se anda de forma apressada, suando e olhando para o relógio, vale a pena.

Enquanto caminhamos, todo o corpo se movimenta e o cérebro parece funcionar livremente. Se você prestar atenção, ele te dá acesso a toda a multidão que nos habita. Por isso, gosto das caminhadas longas. Elas permitem que muitos desses personagens que trago dentro de mim acabem encontrando espaço para se expressar. Geralmente, eu os convoco para uma grande assembleia. Coloco em questão um tema que me angustia e fico a ouvir as diversas vozes. Pura esquizoanálise, diria Guattari.

É surpreendente como podemos descobrir, nesses momentos, a diversidade de opiniões que temos sobre determinado assunto. E o curioso é que não costuma haver consenso. A conclusão, depois de ouvir o maior número possível de vozes, é nossa. Apenas a nós cabe pôr ordem na casa e deliberar acerca do que fazer. Nesse momento, é possível descobrir que esse tal “eu” serve para alguma: coordenar as discussões e escolher qual partido tomar. O “eu” parece realmente ser um mediador, como Freud já dizia há quase cem anos.

Já viu um motorista nato andar a pé? Não se transforma jamais em um pedestre. É um motorista sem carro, desajeitado, atônito, sempre cansado, desconfortável. Entrar em um ônibus é algo como uma desonra nauseante.

Eu, por mim, deixei de dirigir há mais de 20 anos. Definitivamente, não consigo gostar da ideia de prestar atenção na pista. Dirigir é claramente entrar no fluxo da máquina e se condicionar às suas leis. Não gosto disso. Sou um espécime em extinção. Alguém precisa fundar uma ONG para me defender.

Sou um andarilho, pedestre nato e hereditário, e aconselho que você tenha seus momentos caminhantes também, se é que já não os têm. Não é necessário um tênis branquinho com meias até os tornozelos e uma bermuda. Pode ser de qualquer jeito, a qualquer hora possível. Você vai ver que vale a pena ser um pedestre, mesmo sabendo que não tem vez nas cidades.

Um comentário:

  1. Bateu um desconforto lendo seu texto. Tenho me pedido todos os dias uma caminhada. Hoje combinei uma com um amigo nas Paineiras c e tive que desmarcar. Amanhã vou atender ao meu pedido e vou às Paineiras. Não vai dar para conversar comigo nem para fazer uma caminhada contemplativa, mas já é um recomeço.

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